Cuidado e pandemia

 

 

Rubia Carla Formighieri Giordani

  Marisete Teresinha Hoffmann-Horochovski 

Desde o início da crise sanitária global, quando a Organização Mundial da Saúde (OMS) declarou Emergência de Saúde Pública de Âmbito Internacional, e apenas algumas semanas mais tarde, devido à disseminação geográfica rápida da Covid-19 elevando  a sua classificação para a de pandemia,  milhões de pessoas em todo o mundo tiveram suas vidas subitamente transformadas. As atividades cotidianas – tais como trabalhar, estudar, exercitar-se em parques, visitar parentes, estar junto de pessoas próximas em momentos de entretenimento e lazer, entre outras – foram abruptamente interrompidas, promovendo um sentimento coletivo de desconcerto e medo. Os pressupostos e os sentidos da ação diária, a confiança na continuidade da humanidade, nos sistemas sociais e econômicos que organizam o cotidiano e sustentam as projeções do futuro foram colocados à prova. O próprio consumo, como um mote da vida urbana contemporânea, foi repentinamente modificado, quando não suprimido ao essencial. 

Um novo cenário é construído revertendo valores e prioridades. O cuidado se torna mais do que nunca uma dimensão essencial à continuidade da vida humana, concedendo sentidos às palavras e ações tecidas com zelo mediante o assombro pandêmico. Protocolos sanitários, distanciamento social e isolamento se tornam palavras de ordem na medida em que organismos internacionais e governos nacionais passam a editar recomendações e medidas de enfrentamento à Covid-19. Diminuir o ritmo da transmissão, evitar a sobrecarga dos profissionais e dos sistemas de saúde e avançar cientificamente nas possibilidades de cura, são vistos como prioridades para cientistas e gestores que cuidam de populações. Para os indivíduos, cuidar de si próprio torna-se sinônimo de cuidar do outro ou resulta no cuidado com o outro. 

Em que pese a relevância das estratégias construídas para combater o novo coronavírus, o  prolongamento da pandemia  mostra que elas esbarraram em obstáculos praticamente intransponíveis, entre os quais o da desigualdade, em suas diferentes dimensões, entre países e entre populações. No primeiro caso, a natureza sindêmica da ameaça está afetando de forma desigual e desproporcional as diferentes sociedades (SINGER et al., 2017). Isso significa que, os países periféricos do capitalismo, com seus sistemas de saúde mais débeis, capacidade de resposta mais fraca à pandemia e sofrendo o impacto e a força da determinação social e econômica das condições de saúde, enfrentam o descontrole e ascensão da curva epidêmica com deficiência de recursos, baixa testagem e subnotificação, falta de vacina e, concomitantemente, asseveramento da crise econômica. No segundo caso, e tomando como exemplo a sociedade brasileira, a propagação da doença também ocorreu de forma desigual. Se a pandemia inicialmente se instalou, em bairros nobres das capitais, com viajantes que voltavam do exterior, logo em seguida se alastrou para a população da periferia que comumente utiliza transporte público no deslocamento para o trabalho, não possui moradia e/ou condições econômicas e sanitárias adequadas para manter os protocolos de higiene nem o distanciamento recomendado. 

Em outras palavras, de um lado, a pandemia escancarou as desigualdades entre países ricos e pobres. De outro, a exemplo do que ocorre no Brasil, expôs as desigualdades regionais e o fosso social abissal entre aqueles que podem se proteger do novo coronavírus adotando as medidas sanitárias preventivas e a prática do distanciamento social voluntário, e a grande massa da população potencialmente exposta à infecção porque se encontra desprovida das condições de adesão às medidas não farmacológicas para a mitigação da pandemia. 

Em meio à tragédia de milhares de vidas abreviadas pela Covid-19, o crescente desemprego e aumento da pobreza no país com piora da qualidade de vida, soma-se o sofrimento mental em decorrência da carência de perspectiva, do estresse, do medo e da impossibilidade de as famílias enlutadas se despedirem de seus mortos nos leitos hospitalares e realizarem os ritos funerários segundo as expectativas culturais vigentes. Possivelmente, os impactos da pandemia que produzem diferentes sentimentos de dor e pesar sobreviverão à própria pandemia, como um luto prolongado difícil de ser superado e um trauma que se instalou coletivamente.

Um falso dilema entre manutenção da economia e proteção da vida foi instalado desde o início da pandemia. Sob a égide do neoliberalismo, contrapôs-se a economia e a manutenção do trabalho dos brasileiros e das brasileiras às medidas preventivas de enfrentamento ao novo coronavírus. A despeito do adoecimento e da morte provocada pelo laissez-faire do neoliberalismo epidemiológico, as políticas públicas sociais seguem substituídas pela desregulamentação do mercado (FREY, 2020). 

Se essa exposição do neoliberalismo a um choque global escancarou suas contradições, no Brasil, a falta de governança da crise foi agravada pelo desinvestimento progressivo do Sistema Único de Saúde (SUS) em decorrência do cumprimento do Novo Regime Fiscal. Frente ao Estado - desvirtuado de suas responsabilidades na garantia dos direitos sociais dos cidadãos e cidadãs -, as vidas mercantilizadas passam a depender de suas próprias (in)capacidades, recursos e condições para a autopreservação e a regeneração.

A ideologia neoliberal construiu uma nova razão do mundo (DARDOT; LAVAL, 2016) que modifica o papel do Estado, na medida em que ele deixa de priorizar o bem coletivo para agir como uma empresa, integrada ao mercado global, que visa a competição e a maximização de seus resultados. Nessa nova racionalidade, o próprio sujeito se torna empresarial e, ao mesmo tempo em que almeja autossuperação e autossuficiência, é responsabilizado pelas suas escolhas, mesmo quando as condições materiais o deixam sem escolha. A culpabilização e a responsabilidade individual aumentam na proporção em que se procura diminuir a responsabilidade governamental. 

No contexto pandêmico, há uma crise do imaginário neoliberal, que pode resultar no entendimento de que a cooperação e a solidariedade social funcionam mais do que a concorrência e a competição. Não obstante, o neoliberalismo sobrevive a essa crise com um novo formato, desvinculando-se do seu próprio imaginário e aproximando-se de um imaginário de soberania, de um nacionalismo identitário, violento e autoritário (LAVAL, 2020). O atual Presidente da República personifica essa mudança. Utiliza magistralmente as redes sociais para divulgar suas ideias e flertar com a violência contra aqueles que ameaçam seu projeto de poder. Suas atitudes negacionistas com relação à pandemia – do não uso de máscara e apertos de mãos entre seus seguidores à defesa insistente de medicamento sem efeito comprovado contra a Covid-19 -, expressam a ausência de governança da crise e, mais do que isso, demonstram, em alguma medida, a indolência, o descuido e o direito de definir a vida. 

Superar a pandemia, no sentido de diminuir seus efeitos mais nefastos, exige confrontar o neoliberalismo e o negacionismo, além de desenvolver a solidariedade social. “Nem o neoliberalismo, nem o soberanismo podem responder às necessidades da humanidade. É o que nos ensina tragicamente a crise pandêmica” (LAVAL, 2020, p. 285). O cuidado de si, do outro e da coletividade se torna urgente e necessário. 

Confrontar o neoliberalismo é ainda resgatar o consenso de que a saúde “é um direito fundamental do ser humano, devendo o Estado prover as condições indispensáveis ao seu pleno exercício” (BRASIL, 1990). Cabe, portanto, constitucionalmente ao Estado garantir sua promoção, prevenção e recuperação. 

Este enfrentamento coletivo e cotidiano, no Brasil, conta com um sistema robusto de saúde, fruto de lutas históricas dos movimentos sociais. O Brasil é o único país capitalista da América Latina a ter um sistema de saúde com modelo universal e  gratuito (Universal Health System-UHS). Em seus mais de 30 anos de existência, os avanços promovidos pelo Sistema Único de Saúde (SUS) como a estruturação da vigilância em saúde, o Programa Nacional de Imunizações e a Atenção Primária à Saúde (APS), hoje em meio à crise sanitária pandêmica, fornecem as ferramentas necessárias para o seu enfrentamento. E, apesar do desinvestimento histórico, o SUS resiste como a mais relevante política pública de saúde no Brasil garantidora do direito universal e gratuito à saúde.

 

Para saber mais

 

 

BRASIL. Lei Nº 8.080, de 19 de setembro de 1990. Dispõe sobre as condições para a promoção, proteção e recuperação da saúde, a organização e o funcionamento dos serviços correspondentes e dá outras providências. Disponível em: http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/leis/l8080.htm

 

DARDOT, P; LAVAL, C.  A nova razão do mundo: ensaio sobre a sociedade neoliberal. São Paulo: Boitempo; 2016.

 

FREY, I. (2020) “Herd Immunity” is Epidemiological Neoliberalism, The Quarantimes; 2020.  Disponível em: https://thequarantimes.wordpress.com/2020/03/19/herd-immunity-is-epidemiological-neoliberalism/.Acesso em: 22/02/2021.

 

LAVAL, C. A pandemia de Covid-19 e a falência dos imaginários dominantes. Mediações, Londrina, v.25, n.2, p.277-286, 2020. Disponível em: http://www.uel.br/revistas/uel/index.php/mediacoes/article/view/39870/pdf Acesso em: 18/02/2021.

 

SINGER, M. et al.. ‘Syndemics and the biosocial conception of health’, The Lancet; 2017. doi: 10.1016/S0140-6736(17)30003-X. Disponível em: https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/28271845/ Acesso em: 22/02/2021.

 

WORLD HEALTH ORGANIZATION. Statement on the second meeting of the international health regulations (2005) emergency committee regarding the outbreak of novel coronavirus (2019-nCoV). Geneva. 2020. Disponível em: https://www.who.int/news-room/detail/30-01-2020-statement-on-the-second-meeting-of-the-international-health-regulations-(2005)-emergency-committee-regarding-the-outbreak-of-novel-coronavirus-(2019-ncov). Acesso em: 18/02/2021.

AUTORAS

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Marisete Teresinha Hoffmann-Horochovski

Professora do Departamento de Sociologia, do Programa de Pós-Graduação em Sociologia e do Mestrado Profissional em Sociologia em Rede Nacional da Universidade Federal do Paraná.

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Rubia Carla Formighieri Giordani

Professora da área de Saúde Coletiva do Departamento de Nutrição, do Programa de Pós-Graduação em Sociologia e do Programa de Pós-Graduação em Políticas Públicas da Universidade Federal do Paraná