VILLA COLETIVA
Cultura, História  e Acessibilidade
n9| 21 de dezembro de 2020

Historicismos na arquitetura do Recife, a coleção Ecletismo.

Rodrigo Cantarelli

Na segunda metade da década de 1980, quando o Recife já tinha definido as suas primeiras zonas de preservação do patrimônio edificado, um tipo de arquitetura, popularizada na cidade ao longo do século XIX e nas primeiras décadas do século XX, ficou de fora dessas áreas de proteção municipal, a chamada Arquitetura Eclética. De forma geral, o Ecletismo foi caracterizado por uma utilização livre e superposta de estilos do passado e, naquele momento, representava, na arquitetura, um novo estilo de vida associado à burguesia emergente. Usando das mais diversas fontes do passado, os arquitetos tinham livre arbítrio na mistura dessas referências para compor os edifícios, criando uma nova linguagem arquitetônica.

Residência eclética, hoje demolida, localizada na Rua Falcão Lacerda, n.º 5769, Coqueiral.

Edja Trigueiro, junho de 1986.

Palacete eclético, antiga residência de Antônio Ferreira da Costa Azevedo, localizado na Avenida Conselheiro Rosa e Silva, n.º 707, Graças.

Severino Ribeiro, maio de 1985.

Ao mesmo tempo em que o Ecletismo se popularizava, outro movimento que tomou força foi a Arquitetura Historicista, ou Revivalista, que buscava recriar os mais diversos estilos arquitetônicos do passado, resgatando em novas construções os elementos característicos abstraídos de obras antigas. O gosto pessoal foi quem passou a ser o guia construtivo, já que todos os estilos históricos estavam liberados, inclusive os mais exóticos. Diferenciando-se do Ecletismo, o Revivalismo buscava uma reprodução mais fiel dos modelos antigos, enquanto nos edifícios ecléticos a composição era completamente nova e fantasiosa. Os limites que diferenciam os dois movimentos, marcadamente historicistas, são muito tênues e, por esse motivo, alguns historiadores da arte consideram que os Revivalismos fazem parte do Ecletismo. No continente americano, os Revivalismos chegaram ainda no século XIX, na mesma leva que popularizou o Ecletismo e o gosto Beaux-Arts, importando modelos e estilos europeus sem se preocupar, num primeiro momento, com as características da arquitetura local e em muitas situações, substituindo os padrões construtivos tradicionais dessas localidades. Uma substituição que teve início, no Recife, ainda no século XIX e foi coroada com a Reforma do Porto e do Bairro do Recife, no início do século passado. Essa arquitetura de caráter historicista, no entanto, não se fez presente somente nas áreas centrais da cidade, mas também se popularizou pelos chamados Arrabaldes do Recife, as áreas de subúrbio, que cresciam e se expandiam cada vez mais ao longo do século XIX e nas primeiras décadas do século XX.

Palacete neoárabe localizado Rua Benfica, n.º 286, Madalena. 

Edja Trigueiro, maio de 1986.

Casa pitoresca na Rua José de Alencar, n.º 367, Boa Vista.

Eliane Velozo, junho de 1987.

Villa Felicitas, Chalé, datado de 1912, localizado na Avenida Beberibe, n.º 3586, Porto da Madeira.

Severino Ribeiro, abril de 1985.

A produção arquitetônica desse período foi, durante muito tempo, menosprezada pela crítica arquitetônica brasileira, colocando as produções ecléticas e revivalistas numa posição de ostracismo, hoje já superado. No entanto, essa superação não se deu sem antes ocorrer a perda de um sem número de exemplares significativos de um período relevante da produção arquitetônica no país, que, nos seus primeiros momentos, não contemplou, nas políticas de preservação de um patrimônio construído, as edificações ligadas a esse momento das cidades brasileiras. No caso do Recife, num primeiro momento, poucas dessas edificações foram preservadas e a produção desse período, em grande parte, ficou a mercê de um mercado que, também, não via valor nessas construções, que começaram, sistematicamente, a desaparecer da paisagem construída da cidade. A destruição dessas edificações é um problema identificado ainda na década de 1980, sendo um dos principais motivadores para a realização da pesquisa “O Ecletismo na Arquitetura Residencial do Recife (1840-1940)”, realizada pela Fundação Joaquim Nabuco e financiada através de uma parceria entre a Fundação e o Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico, o CNPq. O objetivo desta pesquisa, coordenada pela arquiteta Edja Trigueiro, ainda contando com a consultoria de pesquisadores como José Luiz da Mota Menezes, era suprir uma lacuna historiográfica relativa ao cenário edificado existente na cidade desde o fim do período colonial, registrando edificações residenciais que marcaram o crescimento e evolução do Recife ao longo de um século.

Casa de Othon Bezerra de Mello, localizada na Avenida Rui Barbosa, n.º 471, Graças.

Severino Ribeiro, maio de 1985.

Trecho de um conjunto significativo de casas térreas, de gosto neoclássico, revestidas por azulejos de origem portuguesa, localizados na Rua do Paissandu, hoje demolido.

Eliane Velozo, junho de 1987.

Realizada entre os anos de 1985 e 1988, a pesquisa teve o recorte temporal dado em função de se entender que foi entre 1840 e 1940 que o Recife rompeu com uma herança arquitetônica, de mais de trezentos anos, ligada à colonização portuguesa e passou a incorporar, nas suas edificações, elementos arquitetônicos e estilísticos vinculados a países europeus mais industrializados. As fotografias que compõem a coleção foram produzidas entre março de 1985 e novembro de 1987 e são um conjunto precioso, que documenta um Recife, em parte, já desaparecido. Uma arquitetura, quase sempre anônima, que é uma rica fonte de pesquisa para aqueles que buscarem se aventurar a conhecer melhor e tentar compreender a tradição arquitetônica historicista da cidade. Ao todo, foram registrados mil seiscentos e trinta e cinco imóveis residenciais, distribuídos por duzentas e quatorze ruas da cidade, em mil trezentos e sessenta negativos, hoje sob a guarda do Centro de Estudos da História Brasileira Rodrigo Mello Franco de Andrade, o Cehibra, da Fundação Joaquim Nabuco. Agora, em 2020, a Fundação publicou um catálogo da coleção com um recorte que representa a riqueza e a diversidade dessas construções, documentos da popularização de um gosto historicista na arquitetura e da evolução urbana da capital pernambucana.

O autor

Rodrigo Cantarelli é arquiteto. Doutor em História pela Universidade Federal de Pernambuco; mestre em Museologia e Patrimônio pela Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro. Pertence ao Conselho Estadual de Preservação do Patrimônio Cultural de Pernambuco. Autor de “Contra a conspiração da ignorância com a maldade: a inspetoria de monumentos de Pernambuco”.

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APOIO
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REALIZAÇÃO
FUNDAÇÃO JOAQUIM NABUCO