Livro mergulha no acervo de imagens da Fundaj para mostrar rituais das religiƵes afro-brasileiras
- 5 de ago. de 2024
- 6 min de leitura
Lançado pela editora Massangana, O Sagrado nas religiões afro-brasileiras: imagens de uma devoção é voltado para professores do ensino médio
Por Maria Carolina Santos

Tem uma frase que a antropóloga Rosalira dos Santos Oliveira, pesquisadora aposentada da Fundação Joaquim Nabuco (Fundaj), gosta de repetir sempre que a perguntam sobre a importĆ¢ncia da cultura afro-brasileira: āO terreiro pariu o Brasilā. E completa: āEssa frase nĆ£o estĆ” só no passado. O terreiro continua criando e recriando brasilidade. NĆ£o hĆ” nada, ou quase nada de brasilidade, que a gente reivindique como Brasil, que nĆ£o tenha surgido ou nĆ£o tenha uma relação Ćntima com o terreiroā, diz. Ao lado da tambĆ©m antropóloga e professora da Universidade Católica de Pernambuco (Unicap) Zuleica Dantas Pereira Campos, Rosalira assina o livro O Sagrado nas religiƵes afro-brasileiras: imagens de uma devoção, lanƧamento da editora Massangana.Ā
A publicação fez um mergulho no acervo da Fundaj em busca de imagens sobre tradiƧƵes religiosas afro-brasileiras e a influĆŖncia delas na cultura. Rosalira explica que o livro foi estruturado na perspectiva de uma roda, algo enraizado na cultura afro-brasileira, seja nas rodas de capoeira, de candomblĆ©, de samba.Ā
āAo invĆ©s de vocĆŖ ter o esquema hierarquizado do altar, do oficiante, vocĆŖ tem este esquema circular. O livro Ć© como uma roda com vĆ”rios cĆrculos: o primeiro diz respeito ao sagrado em si, como Ć© que ele Ć© vivido, os ritos, etc. O segundo cĆrculo, mais amplo, fala de como esse sagrado dialoga com outras tradiƧƵes religiosas. O Ćŗltimo cĆrculo fala da influĆŖncia na culturaā, explica Rosalira.Ā
āNĆ£o hĆ” nada, ou quase nada de brasilidade, que a gente reivindique como Brasil, que nĆ£o tenha surgido ou nĆ£o tenha uma relação Ćntima com o terreiroā, diz Rosalira dos Santos
Neste primeiro cĆrculo, as autoras apresentam um breve resumo do desenvolvimento das religiƵes de matriz africana no Brasil. SĆ£o imagens em templos, imagens de oferendas, imagens da preparação dos alimentos sagrados.Ā

HĆ” uma foto que Rosalira destaca: uma mulher, filha de santo, fazendo o cumprimento dobalĆ©, que consiste em se prostrar no chĆ£o diante do pai ou da mĆ£e de santo. āO tecido em que ela se deita Ć© chamado de AlĆ”, que vem de uma das contaminaƧƵes entre o islamismo e as religiƵes animistas ā as religiƵes cujas deidades sĆ£o a natureza. As tradiƧƵes existentes na Ćfrica prĆ©-cristĆ£ e prĆ©-muƧulmana sĆ£o tradiƧƵes animistas na sua origemā, afirma.
A importĆ¢ncia da comida nas religiƵes afro tambĆ©m Ć© tema desse capĆtulo, que traz uma citação elucidativa do antropólogo Roberto DaMatta: āO xangĆ“ Ć© uma religiĆ£o boa para comer, para pensar e para organizarā. No candomblĆ©, as comidas sĆ£o preparadas como que em um ritual e sĆ£o compartilhadas, mas a comida que vai para os deuses, as oferendas, nĆ£o se misturam com as dos membros da religiĆ£o. HĆ” tambĆ©m temperos especĆficos, que variam de acordo com a divindade. O mesmo acontece com a danƧa e a mĆŗsica: cada orixĆ” tem seus passos e seus sons.Ā
No segundo cĆrculo do livro, o leitor Ć© apresentado Ć porosidade das religiƵes afro-brasileiras. Um sincretismo imposto, jĆ” que todo escravizado, ao chegar no Brasil, era obrigado a se batizar no catolicismo. āEm consequĆŖncia, tanto no imaginĆ”rio popular quanto na expressĆ£o artĆstica afro-brasileira, os orixĆ”s costumam ser caracterizados com atributos de santos católicos, quase todos brancos ā como por exemplo o guerreiro romano pelo qual Ogum Ć© representado em muitos candomblĆ©sā, diz um trecho do livro em referĆŖncia ao SĆ£o Jorge sincretizado como o orixĆ” Ogum.Ā

Ao chegar no terceiro cĆrculo, o leitor e a leitora jĆ” perceberam que a frase com que Rosalira abre esse texto Ć© totalmente vĆ”lida. Aqui, as autoras explicitam como a cultura brasileira estĆ” irremediavelmente intrĆnseca ao terreiro. āVai, por exemplo, desde o primeiro samba gravado, Pelo telefone, de Donga, atĆ© um Ćcone como o Zeca Pagodinho e a levada da bossa nova. Tem um artigo do Vagner Silva (com Rita Amaral) chamado Foi conta para todo canto, em que ele traƧa a trajetória da MPB pela influĆŖncia das religiƵes afro-brasileiras. E, neste artigo, ele cita o loirĆssimo Ronnie Von cantando em 1972 os versos āquem Ć© o cavaleiro /que vem lĆ” de Aruanda/ Ć© Oxóssi em seu cavaloā. Essa influĆŖncia afro passa por tudo: pela comida, pelas artes plĆ”sticas, pelo nosso modo de danƧarā, comenta Rosalira dos Santos.
A pesquisa para o livro comeƧou no Ć¢mbito do Programa Institucional de Bolsas de Iniciação CientĆfica (PIBIC), com o entĆ£o bolsista Nairan Santana. āDepois, eu e a Zuleica Dantas estruturamos os temas, os tópicos e o que seria importante destacarā, conta Rosalira. O prefĆ”cio Ć© assinado pelo antropólogo e museólogo Raul Lody e a orelha pelo sociólogo Giovanni Boaes, professor da Universidade Federal do MaranhĆ£o (UFMA).Ā Ā
Por dentro do acervo de imagens FundajĀ
As imagens presentes no livro sĆ£o todas do acervo do Centro de Documentação e de Estudos da História Brasileira Rodrigo Melo Franco de Andrade (Cehibra), que foram doadas para a Fundação Joaquim Nabuco. EstĆ£o presentes no livro fotografias de vĆ”rias coleƧƵes, a maioria delas tiradas durante o trabalho de campo de antropólogos, documentaristas e outros pesquisadores.Ā
HĆ”, por exemplo, imagens da coleção de Raul Lody, que fez trabalhos de campo junto aos religiosos afro-brasileiros na Bahia, em Pernambuco e no MaranhĆ£o. Da coleção do fotógrafo Rucker Vieira, hĆ” imagens da pesquisa MudanƧa e resistĆŖncia dos cultos afro-nordestinos face Ć umbanda, coordenada pelo antropólogo Waldemar Valente nos anos 1970. HĆ” tambĆ©m fotos da antropóloga norte-americana Katarina Real e da coleção Lula Cardoso Ayres, entre outros.Ā
A publicação traz um bonito trabalho de intervenção em algumas das fotos, destacando detalhes que chamaram a atenção das pesquisadoras, como instrumentos, sĆmbolos religiosos e vestimentas. O projeto grĆ”fico da coleção Ć© assinado pela Zulu Design.
Mudança cultural à vista
A publicação Ć© voltada para docentes do ensino mĆ©dio, com proposiƧƵes para trabalhos e aprofundamentos em sala de aula. Em um cenĆ”rio em que a intolerĆ¢ncia religiosa Ć© intensa no Brasil, o livro mostra como os professores e professoras podem abordar as religiƵes afro-brasileiras de forma propositiva, histórica e culturalmente.Ā
āTodas as semanas vemos notĆcias de terreiros sendo vandalizadosā, lamenta Rosalira. Para ela, o crescimento das religiƵes neopentecostais - mais rĆgidas que o catolicismo - jĆ” mostram um impacto na cultura brasileira. āAs projeƧƵes sĆ£o de que, daqui a dez anos, no próximo Censo, o Brasil seja majoritariamente evangĆ©licoā, aponta.

āĆ importante frisar que as religiƵes abordadas no livro sĆ£o religiƵes brasileiras. Elas nĆ£o sĆ£o recriaƧƵes da Ćfrica. As religiƵes afro-brasileiras se estruturam sob o manto do catolicismo. O catolicismo Ć© flexĆvel o suficiente e canibal o suficiente para pegar tradiƧƵes outras. Ele fez isso na Europa, originalmente. Quando o catolicismo nĆ£o consegue vencer, ele se adaptaā, pontua.
O mesmo nĆ£o acontece, por exemplo, com as religiƵes pentecostais, avalia a pesquisadora. āĆ bastante diferente porque essas religiƵes tĆŖm uma teologia de combate. E o combate necessita de um inimigo. Por serem politeĆstas, pelos deuses serem a natureza, por nĆ£o terem uma noção de pecado, por aceitarem diferenƧas, como a questĆ£o da diversidade sexual, as religiƵes afro-brasileiras sĆ£o uma espĆ©cie de inimigo perfeitoā.Ā
Para a antropóloga e coautora Zuleica Dantas, o livro vem se juntar aos esforƧos para a educação sobre as religiƵes afro, sem preconceitos. āTemos esse objetivo de educar dentro da perspectiva antropológica de normalizar, da perspectiva cultural. Uma normalidade mais leve, sem fazer proselitismo, sem fazer militĆ¢nciaā, afirma.
Um novo olhar sobre o acervo da Fundaj
O livro O Sagrado nas religiƵes afro-brasileiras: imagens de uma devoçãoĀ Ć© o segundo lanƧamento da coleção Documentos de história africana e afro-brasileira. A coleção foi pensada e organizada pelas pesquisadoras da Fundaj Sylvia Couceiro e Cibele Barbosa para explorar um pouco mais os ricos acervos de imagens da Fundação Joaquim Nabuco.Ā
Antes de comeƧar a definir os temas da coleção ā o primeiro volume foi sobre o cotidiano afrodescendente ā , as pesquisadoras fizeram um amplo levantamento sobre como as imagens dos afrodescendentes apareciam nos livros de história.Ā
O livro Cotidianos afrodescendentes: um percurso visual pelos acervos da Fundaj estĆ” disponĆvel online na Ćntegra e pode ser acessado aqui.
āEram, geralmente, imagens de viajantes, como Debret, como Rugendas. E a temĆ”tica dessas imagens era muito focada em castigos, trabalhos, escravidĆ£o, aƧoitesā, enumera Sylvia. āĆ lógico que em muitas das coleƧƵes da Fundaj, os afrodescendentes aparecem como escravizados, como pessoas sendo aƧoitadas, mas o nosso foco era outroā, explica.
āNós vasculhamos uma sĆ©rie de coleƧƵes do Cehibra percebendo em que momentos os afrodescendentes apareciam. Nossa ideia, nesta coleção, Ć© mostrar como vocĆŖ pode utilizar um documento primĆ”rio ā como a fotografia, uma imagem, uma gravura ā na sala de aula. Ć uma forma de dotar os professores de mecanismos para que eles possam explorar esses documentos com os estudantesā, diz Sylvia Couceiro. A coleção foi pensada tambĆ©m como um apoio Ć s escolas no contexto da lei 10.639, que tornou obrigatório o ensino de história e cultura afro-brasileira.Ā
O terceiro volume da sĆ©rie jĆ” estĆ” em desenvolvimento e vai ter como foco o patrimĆ“nio afrodescendente. A publicação estĆ” sendo escrita pelo analista em ciĆŖncia e tecnologia da Fundaj Rodrigo Cantarelli.Ā

ServiƧo:
O sagrado nas religiões afro-brasileiras: imagens de uma devoção
De Rosalira dos Santos Oliveira e Zuleica Dantas Pereira Campos
Coleção Documentos de História Africana e Afro-Brasileira
Editora Massangana
Preço: R$ 40, à venda no campus Campus Ulysses Pernambucano da Fundaj (Rua Henrique Dias, 609, Derby)
A reprodução de matérias e fotografias é livre mediante a citação da revista Coletiva e da autoria do texto.
