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Livro mergulha no acervo de imagens da Fundaj para mostrar rituais das religiƵes afro-brasileiras

  • 5 de ago. de 2024
  • 6 min de leitura

Lançado pela editora Massangana, O Sagrado nas religiões afro-brasileiras: imagens de uma devoção é voltado para professores do ensino médio


Por Maria Carolina Santos


DanƧa do Jongo. Foto de Luiz AntƓnio Duailibi em 1970

Tem uma frase que a antropóloga Rosalira dos Santos Oliveira, pesquisadora aposentada da Fundação Joaquim Nabuco (Fundaj), gosta de repetir sempre que a perguntam sobre a importĆ¢ncia da cultura afro-brasileira: ā€œO terreiro pariu o Brasilā€. E completa: ā€œEssa frase nĆ£o estĆ” só no passado. O terreiro continua criando e recriando brasilidade. NĆ£o hĆ” nada, ou quase nada de brasilidade, que a gente reivindique como Brasil, que nĆ£o tenha surgido ou nĆ£o tenha uma relação Ć­ntima com o terreiroā€, diz. Ao lado da tambĆ©m antropóloga e professora da Universidade Católica de Pernambuco (Unicap) Zuleica Dantas Pereira Campos, Rosalira assina o livro O Sagrado nas religiƵes afro-brasileiras: imagens de uma devoção, lanƧamento da editora Massangana.Ā 


A publicação fez um mergulho no acervo da Fundaj em busca de imagens sobre tradições religiosas afro-brasileiras e a influência delas na cultura. Rosalira explica que o livro foi estruturado na perspectiva de uma roda, algo enraizado na cultura afro-brasileira, seja nas rodas de capoeira, de candomblé, de samba. 


ā€œAo invĆ©s de vocĆŖ ter o esquema hierarquizado do altar, do oficiante, vocĆŖ tem este esquema circular. O livro Ć© como uma roda com vĆ”rios cĆ­rculos: o primeiro diz respeito ao sagrado em si, como Ć© que ele Ć© vivido, os ritos, etc. O segundo cĆ­rculo, mais amplo, fala de como esse sagrado dialoga com outras tradiƧƵes religiosas. O Ćŗltimo cĆ­rculo fala da influĆŖncia na culturaā€, explica Rosalira.Ā 


ā€œNĆ£o hĆ” nada, ou quase nada de brasilidade, que a gente reivindique como Brasil, que nĆ£o tenha surgido ou nĆ£o tenha uma relação Ć­ntima com o terreiroā€, diz Rosalira dos Santos

Neste primeiro círculo, as autoras apresentam um breve resumo do desenvolvimento das religiões de matriz africana no Brasil. São imagens em templos, imagens de oferendas, imagens da preparação dos alimentos sagrados. 


Filha de santo praticando o dobalé no AlÔ (tecido estendido no chão). Foto de Rucker Vieira, em 1970

HĆ” uma foto que Rosalira destaca: uma mulher, filha de santo, fazendo o cumprimento dobalĆ©, que consiste em se prostrar no chĆ£o diante do pai ou da mĆ£e de santo. ā€œO tecido em que ela se deita Ć© chamado de AlĆ”, que vem de uma das contaminaƧƵes entre o islamismo e as religiƵes animistas – as religiƵes cujas deidades sĆ£o a natureza. As tradiƧƵes existentes na Ɓfrica prĆ©-cristĆ£ e prĆ©-muƧulmana sĆ£o tradiƧƵes animistas na sua origemā€, afirma.


A importĆ¢ncia da comida nas religiƵes afro tambĆ©m Ć© tema desse capĆ­tulo, que traz uma citação elucidativa do antropólogo Roberto DaMatta: ā€œO xangĆ“ Ć© uma religiĆ£o boa para comer, para pensar e para organizarā€. No candomblĆ©, as comidas sĆ£o preparadas como que em um ritual e sĆ£o compartilhadas, mas a comida que vai para os deuses, as oferendas, nĆ£o se misturam com as dos membros da religiĆ£o. HĆ” tambĆ©m temperos especĆ­ficos, que variam de acordo com a divindade. O mesmo acontece com a danƧa e a mĆŗsica: cada orixĆ” tem seus passos e seus sons.Ā 

No segundo cĆ­rculo do livro, o leitor Ć© apresentado Ć  porosidade das religiƵes afro-brasileiras. Um sincretismo imposto, jĆ” que todo escravizado, ao chegar no Brasil, era obrigado a se batizar no catolicismo. ā€œEm consequĆŖncia, tanto no imaginĆ”rio popular quanto na expressĆ£o artĆ­stica afro-brasileira, os orixĆ”s costumam ser caracterizados com atributos de santos católicos, quase todos brancos – como por exemplo o guerreiro romano pelo qual Ogum Ć© representado em muitos candomblĆ©sā€, diz um trecho do livro em referĆŖncia ao SĆ£o Jorge sincretizado como o orixĆ” Ogum.Ā 


As autoras Rosalira dos Santos e Zuleica Dantas no lanƧamento do livro na Fundaj Derby. Foto: MCS/Coletiva

Ao chegar no terceiro cĆ­rculo, o leitor e a leitora jĆ” perceberam que a frase com que Rosalira abre esse texto Ć© totalmente vĆ”lida. Aqui, as autoras explicitam como a cultura brasileira estĆ” irremediavelmente intrĆ­nseca ao terreiro. ā€œVai, por exemplo, desde o primeiro samba gravado, Pelo telefone, de Donga, atĆ© um Ć­cone como o Zeca Pagodinho e a levada da bossa nova. Tem um artigo do Vagner Silva (com Rita Amaral) chamado Foi conta para todo canto, em que ele traƧa a trajetória da MPB pela influĆŖncia das religiƵes afro-brasileiras. E, neste artigo, ele cita o loirĆ­ssimo Ronnie Von cantando em 1972 os versos ā€˜quem Ć© o cavaleiro /que vem lĆ” de Aruanda/ Ć© Oxóssi em seu cavalo’. Essa influĆŖncia afro passa por tudo: pela comida, pelas artes plĆ”sticas, pelo nosso modo de danƧarā€, comenta Rosalira dos Santos.


A pesquisa para o livro comeƧou no Ć¢mbito do Programa Institucional de Bolsas de Iniciação CientĆ­fica (PIBIC), com o entĆ£o bolsista Nairan Santana. ā€œDepois, eu e a Zuleica Dantas estruturamos os temas, os tópicos e o que seria importante destacarā€, conta Rosalira. O prefĆ”cio Ć© assinado pelo antropólogo e museólogo Raul Lody e a orelha pelo sociólogo Giovanni Boaes, professor da Universidade Federal do MaranhĆ£o (UFMA).Ā Ā 


Por dentro do acervo de imagens FundajĀ 


As imagens presentes no livro são todas do acervo do Centro de Documentação e de Estudos da História Brasileira Rodrigo Melo Franco de Andrade (Cehibra), que foram doadas para a Fundação Joaquim Nabuco. Estão presentes no livro fotografias de vÔrias coleções, a maioria delas tiradas durante o trabalho de campo de antropólogos, documentaristas e outros pesquisadores. 


HÔ, por exemplo, imagens da coleção de Raul Lody, que fez trabalhos de campo junto aos religiosos afro-brasileiros na Bahia, em Pernambuco e no Maranhão. Da coleção do fotógrafo Rucker Vieira, hÔ imagens da pesquisa Mudança e resistência dos cultos afro-nordestinos face à umbanda, coordenada pelo antropólogo Waldemar Valente nos anos 1970. HÔ também fotos da antropóloga norte-americana Katarina Real e da coleção Lula Cardoso Ayres, entre outros. 


A publicação traz um bonito trabalho de intervenção em algumas das fotos, destacando detalhes que chamaram a atenção das pesquisadoras, como instrumentos, símbolos religiosos e vestimentas. O projeto grÔfico da coleção é assinado pela Zulu Design.

MudanƧa cultural Ơ vista


A publicação é voltada para docentes do ensino médio, com proposições para trabalhos e aprofundamentos em sala de aula. Em um cenÔrio em que a intolerância religiosa é intensa no Brasil, o livro mostra como os professores e professoras podem abordar as religiões afro-brasileiras de forma propositiva, histórica e culturalmente. 


ā€œTodas as semanas vemos notĆ­cias de terreiros sendo vandalizadosā€, lamenta Rosalira. Para ela, o crescimento das religiƵes neopentecostais - mais rĆ­gidas que o catolicismo - jĆ” mostram um impacto na cultura brasileira. ā€œAs projeƧƵes sĆ£o de que, daqui a dez anos, no próximo Censo, o Brasil seja majoritariamente evangĆ©licoā€, aponta.



Maria Júlia do Nascimento, Dona Santa, rainha do Maracatu Nação Elefante e sua corte. Foto de Lula Cardoso Ayres, de 1950

ā€œĆ‰ importante frisar que as religiƵes abordadas no livro sĆ£o religiƵes brasileiras. Elas nĆ£o sĆ£o recriaƧƵes da Ɓfrica. As religiƵes afro-brasileiras se estruturam sob o manto do catolicismo. O catolicismo Ć© flexĆ­vel o suficiente e canibal o suficiente para pegar tradiƧƵes outras. Ele fez isso na Europa, originalmente. Quando o catolicismo nĆ£o consegue vencer, ele se adaptaā€, pontua.


O mesmo nĆ£o acontece, por exemplo, com as religiƵes pentecostais, avalia a pesquisadora. ā€œĆ‰ bastante diferente porque essas religiƵes tĆŖm uma teologia de combate. E o combate necessita de um inimigo. Por serem politeĆ­stas, pelos deuses serem a natureza, por nĆ£o terem uma noção de pecado, por aceitarem diferenƧas, como a questĆ£o da diversidade sexual, as religiƵes afro-brasileiras sĆ£o uma espĆ©cie de inimigo perfeitoā€.Ā 


Para a antropóloga e coautora Zuleica Dantas, o livro vem se juntar aos esforƧos para a educação sobre as religiƵes afro, sem preconceitos. ā€œTemos esse objetivo de educar dentro da perspectiva antropológica de normalizar, da perspectiva cultural. Uma normalidade mais leve, sem fazer proselitismo, sem fazer militĆ¢nciaā€, afirma.


Um novo olhar sobre o acervo da Fundaj


O livro O Sagrado nas religiões afro-brasileiras: imagens de uma devoção é o segundo lançamento da coleção Documentos de história africana e afro-brasileira. A coleção foi pensada e organizada pelas pesquisadoras da Fundaj Sylvia Couceiro e Cibele Barbosa para explorar um pouco mais os ricos acervos de imagens da Fundação Joaquim Nabuco. 


Antes de comeƧar a definir os temas da coleção – o primeiro volume foi sobre o cotidiano afrodescendente – , as pesquisadoras fizeram um amplo levantamento sobre como as imagens dos afrodescendentes apareciam nos livros de história.Ā 


O livro Cotidianos afrodescendentes: um percurso visual pelos acervos da Fundaj estĆ” disponĆ­vel online na Ć­ntegra e pode ser acessado aqui.

ā€œEram, geralmente, imagens de viajantes, como Debret, como Rugendas. E a temĆ”tica dessas imagens era muito focada em castigos, trabalhos, escravidĆ£o, aƧoitesā€, enumera Sylvia. ā€œĆ‰ lógico que em muitas das coleƧƵes da Fundaj, os afrodescendentes aparecem como escravizados, como pessoas sendo aƧoitadas, mas o nosso foco era outroā€, explica.


ā€œNós vasculhamos uma sĆ©rie de coleƧƵes do Cehibra percebendo em que momentos os afrodescendentes apareciam. Nossa ideia, nesta coleção, Ć© mostrar como vocĆŖ pode utilizar um documento primĆ”rio – como a fotografia, uma imagem, uma gravura – na sala de aula. Ɖ uma forma de dotar os professores de mecanismos para que eles possam explorar esses documentos com os estudantesā€, diz Sylvia Couceiro. A coleção foi pensada tambĆ©m como um apoio Ć s escolas no contexto da lei 10.639, que tornou obrigatório o ensino de história e cultura afro-brasileira.Ā 


O terceiro volume da série jÔ estÔ em desenvolvimento e vai ter como foco o patrimÓnio afrodescendente. A publicação estÔ sendo escrita pelo analista em ciência e tecnologia da Fundaj Rodrigo Cantarelli. 




ServiƧo:

O sagrado nas religiões afro-brasileiras: imagens de uma devoção

De Rosalira dos Santos Oliveira e Zuleica Dantas Pereira Campos

Coleção Documentos de História Africana e Afro-Brasileira

Editora Massangana

Preço: R$ 40, à venda no campus Campus Ulysses Pernambucano da Fundaj (Rua Henrique Dias, 609, Derby)





A reprodução de matérias e fotografias é livre mediante a citação da revista Coletiva e da autoria do texto.


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