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Conceição: Uma comunidade pesqueira e quilombola - circulando na academia e em outros espaços   

André Luiz Silva Santos

Elionice Conceição Sacramento 

Introdução

Sou Quilombo Conceição...

Do rio dos homens 

Lagoa das Donas

Rio da Mata Redonda

 

Oh... não tem onda no mar que nos ronda... Oh… que onda!

 

André Luiz (Pingo Genius)

Logo que recebemos o convite para participar do dossiê sobre Povos e Comunidades Tradicionais, ficamos tentados a discutir o que seria a tradicionalidade presente no imaginário folclórico e romantizado da sociedade e das instituições sobre os nossos lugares de luta e resistência. A nossa tradicionalidade, de fato, contrapõe-se às concepções coloniais de fora, no que tange à especificidade e diversidade de Povos e Comunidades Tradicionais,  reconhecidos no Brasil nos termos do Decreto nº 8.750, de 9 de maio de 2016. Nesse caso, o foco está na especificidade de pescadores/as, extrativistas e quilombolas, tendo como instrumento teórico-metodológico narrativas materializadas nas vozes de jovens que vivem em territórios localizados nas Baías do Iguape, Baía de Todos os Santos e Camamu, no estado da Bahia. Jovens comprometidos com suas lutas desde a base e que estão circulando na academia, visto um grande incômodo que sentimos ao ver as construções conservadoras e equivocadas que tentam nos colocar em não-lugares, ou construir vazios sociais em nossos territórios e nos territórios de nossos corpos, inclusive provocando e/ou agravando adoecimentos mentais. 

 

Assim, o objetivo deste artigo, ainda que sucinto, é apresentar a diversidade, ou universalizar, sem ignorar as especificidades do território tradicional. Para tanto, neste diálogo, que mesmo complexo deve apresentar-se sucinto, usaremos como território de referência o Quilombo Pesqueiro Conceição de Salinas, em diálogo com outros. O conjunto das vozes que aparecerão serão de corpos-territórios situados em territórios geográficos  distintos, seja nas baías, ilhas ou enseadas.

 

Inicialmente, pensamos em fazer uma fala mais incisiva contra as construções que nos retratam universalmente como Jecas, pés descalços, preguiçosos, incapazes, residentes em taperas, ou nos olham só buscando identificar aspectos de uma única cultura  para provocar o debate. Mas, lendo o haitiano Joseph Anténor Firmin (1885), percebemos ser possível contrapor essas construções usando as categorias do próprio grupo, com a leveza poética das produções de quem pensa a arte e aspectos de suas culturas para fortalecer as lutas ancestrais e cotidianas, mas sem perder a criticidade. 

 

Às margens da Baía de Todos os Santos, no encontro com o Rio Paraguaçu, possuindo mais de 300 anos de existência, e tendo como marco histórico temporal a Igreja de Nossa Senhora da Conceição, com mais de 320 anos, Conceição de Salinas é uma comunidade pesqueira e quilombola com cerca de 3.500 habitantes, que tem a sua construção e manutenção em favor da subsistência,  do modo de vida pesqueiro e quilombola e da  luta e da resistência de uma gente que “cedo madruga para produzir alimentos saudáveis e alimentar a sociedade baiana”. 

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Com múltiplas identidades vividas, que revelam a ousadia de seu povo no sentido de sair das caixas e enfrentar os rótulos que os transformam em sujeitos estáticos, negam os contatos e os atravessamentos, também tem Conceição - mulher de grande influência na construção da Comunidade, além da fazenda Conceição, localizada onde hoje é o território tradicional e uma expansão dele -. Tudo isso serve como base para o nome atribuído ao Quilombo Pesqueiro.

Considerada a comunidade com maior expressão pesqueira da Baía de Todos os Santos, em diversidade e quantidade, tanto de produção como de sujeitas e sujeitos que se afirmam na identidade e realizam a atividade pesqueira como profissão, sendo que cerca de 80% da sua população se constitui de pescadoras/es artesanais, o povo do Quilombo Conceição tem uma maneira própria de SER e de se relacionar com o território, que é feito de terra e água, ambos relevantes para a manutenção da vida e do enfrentamento às vulnerabilidades impostas pela fome, tão presentes no Brasil. 
 

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As águas unem os povos na luta, algo inerente ao modo de vida de sua população, pois sem água não há comunidade pesqueira em produção saudável,  não existe Iemanjá, Oxum ou a chamada  Trindade Santa. De igual modo, a área de terra é essencial para potencializar as práticas agroecológicas de cunho agrícola, dado que a terra serve para fazer pulsar a vida e a resistência, algo bastante relevante no Quilombo; além de garantir a fixação.  Entretanto, lutamos pela junção complementar da terra e das águas nos modos de fazer e viver que constituem esse território plural e que se completam, pois uma dimensão do  território deve ser demarcado e regularizado para determinado grupo. Fora isso, o uso pode/deve ser reconhecido, porém, sem necessidade de demarcação ou cessão para um único grupo. 

Em palestra realizada em 12 de abril de 2024 (ontem, pensando no momento dessas escritas), pela Faculdade de Ciências Sociais e Filosofia da UFBA, ao responder a um questionamento da quilombola Gabriela dos Anjos, o professor Pacheco de Oliveira nos lembrou que sair e buscar conhecimento ou alternativas de vida não significa ruptura com o território ou com a comunidade. O quilombola pode estar aqui ou em Londres, mas precisa do seu lugar de origem demarcado para fixar-se toda vez que quiser voltar.

A referida luta pelo reconhecimento do território de terra e águas, inerente à própria existência, na profunda relação ancestral diaspórica e transatlântica, fortalece a comunidade no sentido de se contrapor aos invasores, como o empreendimento Parque das Margaridas, que expropriou, junto a outros empreendimentos, mais de 60% do território de uso coletivo das mulheres e homens do Quilombo Conceição, conforme mapa produzido pelo Projeto Integrado de Pesquisa "A Geografia dos Assentamentos na Área Rural" – Projeto GeografAR –, em parceria com a comunidade. Segundo Elionice Sacramento (2022), Conceição de Salinas, concepção Mulher - fazenda - nome e sobrenome é também território de luta ancestral e geracional, com liderança feminina.  

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Nas contradições, influenciados por um padrão imposto por interesses político-econômicos, negam, invisibilizam, tentam criar vazios e construir noções de atraso para nos descrever e conceituar povos em uma visão evolucionista e cristã, como a acionada pelo antropólogo Lewis Henry Morgan. concepção que, muitas vezes, gera incômodo, mas como quem conflita e concilia, conforme Robert Slenes (1999). 

Mesmo sendo o “outro”, temos reproduzido narrativas coloniais de modo recorrente, para provar a tradicionalidade a partir de elementos históricos e de um dado modo vida que justifique a defesa da identidade e proteção dos nossos territórios, sendo que nossa tradicionalidade não é estática. Ao tempo que sofremos influência das muitas águas e dos diversos contatos, também influenciamos e somos influenciados.

Nesse contexto, esta escrita tem o objetivo de evidenciar o que seria "um olhar de dentro", livre de cancelamento e sem medo de perder direitos, sobre o que é ser uma Comunidade Pesqueira e Quilombola - Comunidade Tradicional -, evidenciando uma ideia de território tradicional a partir de uma tradicionalidade contemporânea, que se diferencia da visão arcaica de Quilombo. Demonstraremos, através da poesia jovem de respeito ao ancestral, um território tradicional permeado de inovações, com proximidade da capital. Entretanto, ressaltamos que proximidade e contato não fazem com que o povo do Quilombo Conceição se desconecte da sua identidade de mulheres e homens quilombolas das águas.

Um povo, várias identidades - atravessados pelo movimento das águas, que também nos dão caminhos

Amo dizer aos resíduos dos evolucionistas, às “elites” e aos colonialistas da contemporaneidade: nós não somos miseráveis! Quando nas nossas casas não “tem nada” para nos alimentarmos, comemos camarão e outros frutos do mar, fetiche da burguesia brasileira de manhã, de tarde e de noite. Por outro lado, enquanto as pessoas da cidade estão trabalhando para juntar algum dinheiro, com objetivo de, ao envelhecer, comprar um barquinho e uma casa na beira da praia, nós já temos nossas canoas e casas no território pesqueiro. 

Fazemos luta geracional em defesa desse território, articulando as contribuições ancestrais com os conhecimentos dos mais jovens, que muito tem a nos dizer, como vemos na obra “Da Diáspora Negra ao Território de Terra e Águas: Ancestralidade e Protagonismo de Mulheres na Comunidade Pesqueira e Quilombola Conceição de Salinas-BA”, de Elionice Conceição Sacramento, mulher preta, pescadora, quilombola da raça de Filomena, na fronteira do território para a academia. Aqui, também é importante nos atentarmos para o que nos chama atenção Pacheco de Oliveira (2018): 

no Brasil, o desafio dos jovens pesquisadores não pode ser somente o de evitar repetir de forma mecânica as teorias eurocêntricas, inspirando-se equivocadamente na glamourização do "nacional", do "latino-americano" ou mesmo do "Sul", nem tão pouco na pura estetização de cosmologias indígenas. (OLIVEIRA, 2018, p.13).  

 

O desafio é refletir criticamente sobre suas próprias categorias analíticas e sua forma de construção de uma investigação. É fundamental um esforço metateórico de revisar as condições de produção de conhecimento, procurando tornar-se consciente do solo ideológico em que tais métodos e teorias foram desenvolvidos, observando e descrevendo cuidadosamente os condicionantes que os jogos de poder impuseram às ferramentas e aos trabalhos produzidos.

Adam Kuper (2002), ao tratar de Cultura e Civilização, articula um conjunto de intelectuais  da França, Alemanha e Inglaterra e, com base em suas produções, apresenta, para nós, visões distintas, tanto de civilização como de cultura, nos ajudando a compreender que tais conceitos não estão cristalizados ou esgotados. Nós vivemos a alteridade de um “outro” que também é cientista. Nos nossos próprios termos, partilhamos concepções e vivências como Comunidade Tradicional em contradições e conflitos, lutas, resistências e solidariedades.

Com isso, acionamos um dos  poemas de André Luiz Silva Santos, ou Pingo Genius, como é popularmente conhecido. André é pescador, homem preto, com nome  e sobrenome, poeta e pesquisador na academia, que, segundo ele, acessou esse espaço por conta da luta dos nossos, através das políticas de reparação história, direcionadas para que nosso povo tenha acesso ao nível superior:
 

Sou Quilombo Conceição! 
Do Rio dos Homens 
Lagoa das Donas 
Rio Da Mata Redonda
cheio de mato ao redor
não tem onda no mar que nos ronda,
"oh, que onda!"

Dois do dois tem presente pra Iemanjá 
Quando chega o pirão? 
vou “manjá!” 
Tu não manja de como manejo a corda do BORDEJO 
Nós manja!"

Somos povos das águas…
Tipo FILHOS DO MAR… 
Quando chego da lida
vou logo: MÃE ZÉU, te incomodo?
Não, ME REZA!

Nossa crença reforça!
Nos dá força! 
Nos leva e  traz. 
Nosso esforço é que faz com que os filhos se esforcem
E se tornem mais.

Mas retornem para o "LAR DOCE LAR"
Um Paraíso que eu preciso
Quando eu sigo pelas ruas 
Reconheço todo mundo tipo sílabas 
Fácil se lembrar…
Você não se lembra? 
Nós brincava na lama
Mãe gritava: filho, se lavar!
Que nós vai acompanhar SÃO ROQUE
Depois vai caminhar na roça
Tipo ROQUE VAQUEIRO, nós acorda cedo 
No LAR, DOCE LAR…

O sol nasceu lá…! bem lá! 
Oh… só a cena de cinema em cima do mar
A maré vaza e leva as preces de quem pede
impede os olhos maus
A crença? 
Tá nos olhos de quem pode ver.

Que a tristeza não nos faça chorar! 
Não há nada que nós peça que não chegue não…
Eu peço às águas que nos lave e que leve a mágoa embora, 
enxugue as lágrimas dos nossos corações.
Pra que a tristeza não nos faça chorar! 
Não há nada que nos peça que não chegue não… 
Eu peço as águas que nos lave e que leve a mágoa embora, 
enxugue as lágrimas dos nossos corações.

Oh! Meu QUILOMBO CONCEIÇÃO
Sente a pulsação…
Esse coração é ancestralidade

Já nesta idade meus parentes eram escravizados…
Na cidade tínhamos prazo de validade
Delimitaram nossas terras 
pra nos fazer acreditar que somos nada…
Pecado capital
em prol do capital 
mandaram os capitães do mato pra causar o caos

Destroem nossa plantação
Quando ver desmatam nossas matas sem ter compaixão
Querem nossas águas… 
Dos rios que lavamos nossas fardas
Lágrima escorre no rosto
vai ver tem um pingo de nada

Só queremos viver em paz… entendam!
Por nossos parentes que lutaram. Sempre.
Constantemente somos alvos, Gente.
Inocente sente! 
Trezentos anos de correntes não foram suficientes!?

Me sento no cais 
penso no caos que tá a vida 
E no casco de um barco uma pecadora "isca a isca". 
É lindo isso aqui. 
Viver nessa brisa me revitaliza
minha alma brilha 
E o corpo…? Enche de vida!

Pra que a tristeza não nos faça chorar! 
Não há nada que nós peça que não chegue não... 
Eu peço as águas que nos lave e que leve a mágoa embora, 
enxugue as lágrimas dos nossos corações.
Pra que a tristeza não nos faça chorar! 
Não há nada que nos peça que não chegue não…
Eu peço as águas que nos lave e que leve a mágoa embora, 
enxugue as lágrimas dos nossos corações.

André Luiz Silva Santos (Pingo Genius) 

De lugar semelhante ao apresentado por André, mas como mulher, Dalila Conceição nos fala:
 

Eu sou Dalila Conceição Correia!

de Conceição, da Encarnação, da Bahia, do Brasil… da Diáspora tanto africana como local!

Pescadora, Quilombola, Engenheira Ambiental, Defensora da luta negra  feminina, do Território e da 

Vida 

Artista, feminista, sambista , idealista 

Na experiência de autoconhecer, pertencer, ser 

No processo de me autoconhecer primeiro eu entendo o que é pertencer aos quilombos pesqueiro aqui 

e no mundo inteiro… 

Pertencimento me fez encontrar o meu lugar no mundo, Território Tradicional , sem igual 

 minha maneira de amar, este e outros belos lugar - aqui e além do Mar África 

Amar e se amar são coisas banais, quando não sabemos das nossas raízes e lutas. 

De onde eu venho diz quem eu sou

 Sou a continuidade!

Sou as linhagens

Sou as culturas deixada pelos meus avós

Que nessa terra pisou, resistiu e lutou

Somos filhos e filhas, netos e netas dos negros e negras que esse e outros território abençoou. 

Abençoou com a terra! 

Abençoou com o mar!

Abençoou com o mangue e a lama e tudo que há 

Aqui não nos falta nada, nem pão de cada dia. 

No quilombo que é o meu lugar! 

É refúgio de paz, onde se encontra  a alegria, 

Agraciados os remanescentes que pisam neste chão 

sagrado todos os santos dias.

Dalila Conceição Correia 

Tendo um perfil de fala e escrita distintas dos seus companheiros/as da articulação da juventude, Edielson Barbosa, extrativista, pescador, quilombola do extenso território do Guaí, nos diz que Comunidades Tradicionais “são comunidades que possuem forma de viver e se relacionar com a natureza de modo diferente”. O modo de viver em uma comunidade tradicional e de se relacionar com as matas, manguezais, com as águas, com os bens naturais… se dá de forma respeitosa, atento para o tempo de TEMPO, defendendo-os como defende seu próprio corpo, tendo em vista que, sem o território e toda sua biodiversidade, é impossível mantermos nossos modos de vida. Mas quando afirmamos isso, não significa que somos atrasados, que não temos acesso à tecnologia ou que deixamos de ser pescadores, extrativistas e quilombolas porque acessamos a universidade. O território é uma expansão de nós, é uma extensão do nosso corpo. 

[...] Eu dependo do meu território para existir, mas gosto de tecnologia, entendi a importância da academia, quero dominar os códigos e colocar os conhecimentos da academia e tecnologia a serviço da luta e da nossa produção.” (diálogo realizado no alojamento do grupo de estudantes de Conceição e Guaí em 08 de Abril de 2024).

Como bem está evidenciado na poesia de Dalila, o espaço é de resistência, mas também é onde se dá a nossa paz, a PAZ QUILOMBOLA, que abordou Beatriz Nascimento. Porém, não estamos deslocados no espaço, nem das tecnologias e possibilidades que esse mundo pode oferecer, o que queremos é a manutenção desse espaço de terra e águas, onde a oralidade, no movimento espiralar, e as formas de saberes presentes nas rodas de diálogo e nos espaços coletivos de trabalho, de lazer e de espiritualidade, sobrevivam e alcancem essa geração atravessada com o que há de mais tecnológico, mas que precisa, também, aprender o exercício da escuta e do aprendizado, ouvindo os mestres e mestras do saber e o próprio território, que fala através dos cantos dos pássaros, dos elementos da cultura e do balanço da maré de vazante, de enchente, de lua e de escuro.

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Para contribuir neste diálogo, trago a fala de Júlia, uma jovem militante do território de Graciosa, no Baixo Sul: 

Para mim a comunidade tradicional vem como a imagem de berçário em um estado natural, ele cuida, gera e ajuda na estabilidade do ecossistema em questão; mas também é voraz e impiedoso como a natureza, estando em seu ritmo mais “primário”. O ritmo da comunidade é cíclico e os afazeres são integrados, comuns e em grupo com moradores; existe o processo de integração e de cuidado com o outro e é nesse sentido que o saber passado entre as gerações entra e é regado diariamente nessa ciclicidade. Em suma, se tirarmos do foco os conflitos territoriais, a vida é tranquila e agradável com pouca insegurança alimentar e tendo uma boa qualidade de vida proporcionada pela manutenção do espaço territorial coletivo (entrevista por Whatsapp em 09 de Abril 2024).

Frente às contradições, a partir de nossa história de vida, e em profunda conexão com o território, colocando em diálogo as poesias de André e Dalina, junto aos depoimentos de Edielson Barbosa e de Júlia, sentimos o território tradicional nas formas de ser e viver no território. O Território Tradicional se determina e determina o ritmo de vida de sua gente. Tem conflitos, divergências, cooptação, mas, como já dito, tem um jeito próprio de tratar as questões acionadas.  

Considerações Finais

 

Como nos chamou atenção Dona Maria do Paraguassu, Antonia Correia, Maria e Esperança, que hoje se somam ao chamado de Pacheco de Oliveira sobre nossa responsabilidade de não romantizar, folclorizar, exotizar, afirmamos que: não moramos em lugares distantes e isolados, a maioria de nós não habita em casas de barro ou em áreas que limitam as condições da produção. Fruto da luta ancestral, ainda que de forma limitada, temos acesso a algumas políticas públicas. Melhor, somos território rico e produtivo. 

Entendendo a importância de usar a comunicação como instrumento de denúncia, decidimos ocupar a academia; fazendo travessias com o cuidado de não gerar rompimentos com nossa identidade nem com nosso território de origem. Ainda que seja necessário concluir a  reflexão para o momento, ressaltamos que não temos intenção de encerrá-la, mas, como “outros” que buscam se nomear, refletindo sobre os contextos que estão inseridos, na responsabilidade de enfrentar os colonialistas que nos aprisionam, seguimos despertando jovens lideranças, como André, Dalila, Edielson e Júlia, que seguem na contribuição para [...] Uma confluência entre os saberes. Um processo de equilíbrio entre as civilizações diversas desse lugar. Uma contracolonização [...] (BISPO, 2018, p. 9), no sentido de fortalecer a luta, a resistência e o debate intelectual do nosso povo, demonstrando as potencialidades e individualidades das diversas formas de representação do território.

PARA SABER MAIS 

FIRMIN, Joseph Auguste Anténor. De l’Égalité des races humaines: anthropologie positive. Paris: Librairie Cotillon, 1885.

GEOGRAFAR – Geografia dos Assentamentos da Área Rural. Relatório Técnico Preliminar – Comunidade Quilombola Pesqueira Conceição de Salinas. 2019.

KUPER, ADAM.  "Cultura e civilização: intelectuais franceses, alemães e ingleses, 1930-1958".  In Cultura:  a visão dos antropólogos. tradução de Mirtes Frange de Oliveira Pinheiros. Bauru, SP: EDUSC, 2002.  (cap. 1 - pgs. 43-70).

MORGAN L.H. Capítulo I do texto: A sociedade Antiga. In CASTRO, Celso (org.) Evolucionismo cultural. Textos de Morgan, Tylor e Frazer. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2005.

PACHECO DE OLIVEIRA, João. “A eclosão do colonial em nosso cotidiano”. Revista de Antropologia Vivência, v. 5, 2018, (pp. 11-24).

RATTS, Alecsandro (Alex) J. P.  Eu sou Atlântica: Sobre a Trajetória de Vida de Beatriz Nacimento. 1. ed. São Paulo: Imprensa Oficial / instituto Kuanza, 2007. v. 1. 136p.

SACRAMENTO, Elionice Conceição. Da Diáspora Negra ao Território de Terra e Águas: Ancestralidade e Protagonismo de Mulheres na Comunidade Pesqueira e Quilombola Conceição de Salinas-BA / Elionice Conceição Sacramento. 1. Ed. – Curitiba: Appris, 2021.

SACRAMENTO, E. C. et al. Salinas: o mar, a lama e a vida. Editora Venture. Salvador, 2010.

 

SANTOS, Antonio Bispo. Somos da terra. PISEAGRAMA, Belo Horizonte, número 12, página 44 - 51, 2018

SLENES, Robert W. Na senzala uma flor: esperanças e recordações na formação da família escrava. Brasil Sudeste, século XIX. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1999, 288p.
 

OS AUTORES

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André Luiz Silva Santos é Pescador Quilombola, MC/Poeta e Militante. É Licenciado em Educação Física pela Universidade Federal do Recôncavo da Bahia - UFRB, Bacharelando em Educação Física pelo Centro Universitário de Maringá - UNICESUMAR, Especialista em Ensino de Educação Física Escolar pela Faculdade Don Alberto - FDA e Mestrando em Educação do Campo pela Universidade Federal do Recôncavo da Bahia - UFRB.

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Elionice Conceição Sacramento é uma mulher preta, da raça de Filomena. É pescadora de profissão, tradição e por decisão política, Militante da Articulação Nacional das Mulheres Pescadoras e do Movimento de Pescadoras e Pescadores, compõe a coordenação da Associação de Pescadoras/es Artesanais e Quilombolas de Conceição de Salinas. Mestra no Saber Tradicional e em Sustentabilidade junto Povos e Terras Tradicionais pela Universidade de Brasília - UnB e doutoranda em Antropologia. É autora do Livro "Da Diáspora Negra ao Território de Terra e Águas - Ancestralidade e Protagonismo de Mulheres na Comunidade Pesqueira e Quilombola Conceição de Salinas/BA" e coautora de outros como o livro Salinas, o mar, a lama e a vida.

COMO CITAR ESSE TEXTO

SANTOS, André Luiz S. SACRAMENTO, Elionice Conceição. Conceição: uma comunidade pesqueira e quilombola - circulando na academia e em outros espaços. Revista Coletiva, Recife, n.34, jan.fev.mar.abr.maio. 2024. Disponível em: <> ISSN 2179-1287.

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