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Cultura Marítima Pesqueira em Pernambuco

Introdução: Letícia Barbosa

O pescador é um dos mais icônicos representantes do Nordeste brasileiro, sendo inclusive reconhecido como uma categoria profissional própria pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), embora ainda não seja considerada como comunidade pelo censo. A ela somam-se ainda as marisqueiras e os jangadeiros com atividades afins. Esses trabalhadores, com frequência marginalizados, são essenciais naquilo que é a base de qualquer sociedade: a alimentação.

 

Da Zona da Mata Sul de Pernambuco, no município de Rio Formoso, Moacir Correia, pescador da comunidade quilombola Engenho Siqueira, defende com razão a prática da pesca artesanal, bem como a agricultura familiar. “Sem o agricultor, sem o pescador, o médico não faz cirurgia. Com fome, professor, não leciona. O carro depende da agricultura. O astronauta não come vento. Submarino, minerador, tudo depende da comida, e essa comida tá no mar e tá na terra.  E pasmem, as guerras só se ganham quando soldados estão com alimento. Como um soldado vai brigar com fome? Até a guerra, que infelizmente existe, depende do alimento. Tem um dito assim: ‘não sejais contra quem produz alimentos’ “, argumenta Moacir. 

 

Neste cenário, a exposição Cultura Marítima Pesqueira de Pernambuco proporciona ao público o acesso a parte do acervo iconográfico preservado pela Fundação Joaquim Nabuco (Fundaj) sobre a prática pesqueira artesanal. São 18 fotografias com origem em diferentes coleções acompanhadas de textos contextualizados, além de itens da tradição da pesca, como uma imponente jangada, adquirida pela instituição em 1979 e instalada na sala de exposição.

 

Para Moacir, levar as fotografias e os objetos de memória a um museu vinculado a uma instituição de pesquisa é significativo. “Antigamente a universidade era só interna, hoje já tá assim, externa. É o campo na universidade, a universidade no campo. Isso é muito importante para que [nos] valorizem realmente; isso nos deixa orgulhosos, repassando nossos conhecimentos, coisas que antigamente não tínhamos  oportunidade", explica o pescador que marcou presença na abertura da exposição.

 

Defensor da preservação da memória e da educação popular, Moacir Correia foi o precursor de um museu comunitário em seu território, e hoje ele abriga em torno de 3 mil fragmentos de peças advindas de décadas, além de livros e outros artefatos que ajudam a reconstituir a história de uma região fortemente influenciada por indígenas caetés e pessoas negras que resistiram à escravidão.

“Se não existir museu, não existe gente, existem zumbis.  Ele [o visitante] vai conhecer a cultura, os valores, o prestígio; como nós estamos aqui, porque

estamos, como viemos, quem construiu o Brasil ou o mundo. Então, os objetos

no museu, tanto aqui na Fundaj, como em outros museus, têm a importância do resgate”, explica.

 

Mais do que o cotidiano do trabalho da pesca, a mostra evidencia  o olhar de quem se propôs a representar tal realidade. Para Rita de Cássia Araújo, pesquisadora da Fundaj e curadora da exposição, as imagens carregam na sua composição um processo de escolhas decorrente das concepções dos fotógrafos e fotógrafas. A leitura, portanto, tem uma inevitável e interessante carga de polissemia e ambiguidade.

 

Por conta disso, apesar das potencialidades dos registros, não se deve deixar de lado a visão crítica ao apreciar as produções. Sobre esse ponto, a curadora destaca aspectos como a rara presença de mulheres nas imagens, que, de acordo com Rita, só aparecem em ações de interação nos espaços públicos a partir dos anos 1960. Por trás das lentes não é diferente, a maioria das imagens são assinadas ou colecionadas por homens.

 

Outra questão avaliada pela pesquisadora é o viés de exotismo com que os trabalhadores e trabalhadoras da pesca são retratados, colocados, por vezes, no lugar do folclórico e como "o outro", o objeto de estudo. A ausência de coleções produzidas pela própria comunidade pesqueira é um dos motivos apontados por Rita para essa dificuldade de humanização dos registros e, assim, de uma representatividade.

 

Entretanto, a exposição faz um importante retrato de um período. Muito do que é fotografado é o resgate de práticas e tradições que foram repassadas dentro das comunidades pesqueiras através das gerações: estrutura das jangadas, instrumentos utilizados, entre outros elementos.

 

As fotografias são divididas nos seguintes módulos: cultura marítima e jangada; modos de morar e ambiente; mulheres; e homem e caranguejo. Atravessam ainda temáticas como a relação com a Marinha brasileira e a atuação do Estado em questões como a nacionalização da pesca e o assalariamento dos pescadores. A exposição já está disponível para visitação na sala Waldemar Valente, do Museu do Homem do Nordeste, campus da Fundaj de Casa Forte, desde o dia 9 de novembro de 2023.


Neste Especial, vamos transportar os leitores para dentro da Cultura Marítima Pesqueira de Pernambuco. Para isso, compartilhamos na íntegra todo o material que compõe a exposição. Além disso, o Especial conta ainda com a participação especial de Moacir Correia em uma performance autêntica, e não programada, realizada na abertura do evento, em que ele explica as funções de cada parte da jangada em sentido prático e simbólico no cotidiano das relações da comunidade.

Texto de abertura 

Por muitos anos, as comunidades pesqueiras foram negligenciadas e postas no lugar do "outro exótico", resultando em uma visão reducionista da magnitude do que é a cultura marítima pesqueira e sua história. 

Há milênios, o mar aberto, com a sua a imensidão, desafia a humanidade a enfrentar o desconhecido. Mais próximas de nós, premidas pela necessidade, as comunidades pesqueiras que se formaram ao longo do litoral brasileiro, particularmente as situadas na costa do atual Nordeste, originalmente constituídas por homens e mulheres livres pobres e escravizados, precisaram enfrentar os mistérios do oceano mar. Ao fazê-lo, desenvolveram uma cultura própria, documentalmente identificada já na segunda metade do século XVIII. Dentre as técnicas e os artefatos que integram seus conhecimentos e memórias ancestrais, destacam-se a jangada à vela, a rede de pesca e outros instrumentos de trabalho, em cuja construção e para cujo aprimoramento tradicionalmente concorreram e concorrem os trabalhadores e as trabalhadoras da pesca artesanal. 

Entre aqueles que constituem a sociedade englobante, desde os tempos coloniais e por quase todo o século XX, o mundo da pesca artesanal exerceu ao mesmo tempo fascínio e estranhamento, sendo os pescadores e as pescadoras artesanais muitas vezes traduzidos como o "outro" distante e alheio a si. Mais tarde, foram representados como um dos tipos regionais que caracterizam e simbolizam a atual Região Nordeste do país. 

Esse sentido de ambiguidade se expressa e se evidencia, dentre outros, por meio da representação visual das comunidades pesqueiras construída pelos fotógrafos profissionais e amadores que atuaram em Pernambuco durante o século XX, a exemplo da maioria dos que integram esta mostra fotográfica, cujas coleções fazem parte do acervo do Centro de Documentação e de Estudos da História Brasileira Rodrigo Mello Franco de Andrade, da Fundação Joaquim Nabuco. 

Suas fotografias revelam-nos uma visão idílica e romântica do mar, ao mesmo tempo que demonstram aspectos do processo de construção e consolidação de uma estética sobre a pesca e os pescadores artesanais. Suas lentes fragmentam a totalidade que conforma o modo de vida das comunidades pesqueiras, dando-nos mostra de ignorarem a existência de uma cultura marítima, organicamente construída a partir das diversas relações sociais por elas travadas no transcurso do tempo; responsável também por forjar uma identidade e dotar de sentido à sua existência enquanto grupo social específico. 

Ao passo que dão protagonismo à figura masculina, exaltando-lhe certos atributos como a força física, a destreza nos movimentos e a coragem por enfrentar o mar aberto em embarcações aparentemente tão simples como as jangadas; invisibilizam a figura da mulher, desmerecendo absolutamente o papel central por ela exercido no interior do grupo. 

Ao trazermos a público essas fotografias, convidamos a todos e a todas a conhecer uma certa imagem e memória histórica e socialmente construídas sobre as comunidades marítimas que cultivaram e cultivam a pesca artesanal no Nordeste brasileiro, com ênfase no estado de Pernambuco, predominantes desde os tempos da Colônia ao século XX. De igual modo, convidamos o público a refletir sobre esta produção imagética, muitas vezes utilizada pelos detentores do poder como veículo para manter intactas as estruturas sociais que marcaram e marcam a injusta e extremamente desigual sociedade brasileira, relegando à gente do mar e da pesca artesanal um lugar social de subordinação. 

A exposição se insere no contexto de iniciativas voltadas à Pesca Artesanal e Sustentabilidade Socioambiental que na Fundação Joaquim Nabuco articula pesquisa, documentação e formação e que dá nome a série de seminários organizados a partir da Diretoria de Pesquisas Sociais, que desde 2006 discute essa importante temática.

Realização: Centro de Documentação e de Estudos da História Brasileira – Cehibra / Dimeca

Centro de Estudos em Dinâmicas Sociais e Territoriais – Cedist / Dipes

COLEÇÃO ALEXANDRE BERZIN

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Cultura Marítima/Jangada 

 

A pesca artesanal constitui fator estruturante na formação das comunidades marítimas, cujo modo de vida e cultura se expandem para muito além das atividades que ocorrem no âmbito estrito do trabalho no mar. Desenvolvem-se por meio de uma gama de relações sociais e de conhecimentos construídos, acumulados e transmitidos ao longo de gerações; das regras de partilha do produto socialmente gerado pelo trabalho coletivo; das crenças místicas e religiosas e de formas de expressões culturais e de sociabilidades próprias. Aspectos esses que formam a cultura marítima pesqueira, isto é, o modo de vida que essas comunidades constroem e compartilham entre si.

Jangada entrando no mar 

AB - Artísticos – diversos M7 G2.

Autor - Ajax Pereira

A jangada à vela era o principal equipamento de trabalho dos pescadores marítimos artesanais no estado de Pernambuco, que atuavam no mar de dentro, pelo menos até o terceiro quartel do século XX. Com o passar do tempo, novas formas de relações econômicas e sociais e novas demandas comerciais e de consumo imprimiram severas modificações ao saber-fazer da pesca artesanal, tornando obsoletas algumas técnicas e tecnologias, dentre elas, a tradicional jangada à vela, cuja presença, hoje, limita-se praticamente aos registros memoriais, dos quais as fotografias aqui expostas se revelam exemplares.

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Centro de Preparação de Reservista

Autor – Alexandre Berzin

Barco com bandeira do Brasil

Autor – Alexandre Berzin

Partilha

Autor – Alexandre Berzin

Pescador com criança

                                                     AB - Artísticos – diversos M7 G2. 

                                                                     Autor - Johannes Friese

Relação com a Marinha Brasileira

O setor da pesca artesanal sofreu profundas mudanças em meio aos processos de modernização do Estado e da sociedade brasileira e da nacionalização da pesca, ocorridos a partir de 1919. 

No início do século XX a marinha brasileira instituiu o plano de nacionalização da pesca, comandando o litoral nacional e institucionalizando as colônias de pescadores, com o intuito de um maior controle do território costeiro. Essa relação tornou-se conflituosa com a imposição do alistamento dos pescadores como reservistas navais, como condicionante para continuarem a ter acesso à praia e ao trabalho pesqueiro. 

Essa relação de proximidade pode também ser vista de formas mais sutis, como pela presença de bandeiras do Brasil.

COLEÇÃO ARNALDO GUEDES PEREIRA

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Jangadas

Autor - Arnaldo Guedes Pereira 

Estado, nacionalização da pesca e assalariamento dos pescadores(as):

Pescadores e pescadoras, destituídos da autonomia política e social que lhes havia conferido relativo domínio sobre as águas e a atividade pesqueira artesanal, viram-se transformados em reserva naval para a Marinha brasileira e, logo em seguida, em trabalhadores assalariados a serviço da indústria da pesca. Finalmente, passaram a constituir força de trabalho assalariado para a aquicultura, com destaque para a carcinicultura, forma de exploração econômica que, particularmente, põe em sérios riscos a preservação socioambiental das zonas estuarinas, com seus fecundos e sensíveis manguezais. 

COLEÇÃO JUVENAL GOMES (JUJU)

Samburás

Autor – Juju

Rede de pesca

Autor –Juju

 Jangadas perfiladas

Autor –Juju

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Historicamente, consagrada na música popular brasileira como aquela que fica na beira da praia quando seu bem-querer sai para pescar em alto-mar, a mulher, trabalhadora da pesca artesanal do litoral nordestino, teve diminuída a sua atuante presença na vida cotidiana da comunidade pesqueira. Isso quando não foi completamente borrada dos registros memoriais, inclusive os iconográficos, produzidos por olhares distantes e alheios a si. 

 

Vista a partir "de dentro", do interior da comunidade que integra e a que pertence, a mulher, quase sempre negra, autorreconhece-se como marisqueira, pescadora artesanal, agricultura familiar, artesã e culinarista. Mantenedora de expressões culturais, saberes e fazeres tradicionais e identitários, é grandemente responsável pela socialização das crianças e por preservar as matas de restingas, os manguezais, as várzeas, os rios e as lagoas que compõem o ambiente com o qual lida diuturnamente e de onde provém boa parte do sustento da família.

 

O trabalho feminino na pesca é realizado, em sua grande maioria, em águas rasas, mais próximas das residências. Essa relação de proximidade é resultante dos papéis que as mulheres possuem nessas comunidades, a limpeza e venda do pescado e cuidado da família ao ensinar aos filhos os conhecimentos da atividade pesqueira. 

 Mulher pescando de jereré

Autor – Juju

COLEÇÃO BENÍCIO DIAS

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Barqueiro

Autor – Benício Dias

COLEÇÃO JOSEBIAS BANDEIRA

Vendedora de peixe

Autor – Benício Dias

Sítio de coqueiro

Autor – Josebias Bandeira

Palhoça, negros, negra com tabuleiro na cabeça

Autor – Josebias Bandeira

Colônia de Pescadores

Autor – Josebias Bandeira

Pernambuco – Habitação de pescadores

Autor – Josebias Bandeira

COLEÇÃO CONCURSO DE FOTOGRAFIA

Casa de pescadores com puçás em frente

Autor – Paulo Vianna de Vasconcellos

Coqueiral e dois burricos com açuás

Autor – Paulo Vianna de Vasconcellos

Pesca de Tarrafa 

Autor – Josebias Bandeira

COLEÇÃO JOSUÉ DE CASTRO

“Homens caranguejos”:

Nos anos 1940, o médico e geógrafo pernambucano Josué de Castro denunciava ao mundo o drama da fome.  Não aquela que conheceu na infância, a dos vencidos retirantes das secas dos sertões nordestinos; tampouco aquela ainda maior, a dos miseráveis habitantes dos mocambos do Recife, irmãos de leite dos caranguejos; mas o flagelo da fome universal, filha das desigualdades econômicas e sociais. Drama por ele fixado na imagem do "homem-caranguejo": 

Homens catando caranguejo

Autor – Josué de Castro

"[...] o povo daí vive de pegar caranguejo, chupar-lhe as patas, comer e lamber suas patas até que fiquem limpos como um copo e com sua carne feita de lama fazer a carne do seu corpo e a do corpo dos seus filhos." 

Mulheres e crianças catando marisco, sururu

Autor – Josué de Castro

COLEÇÃO JOÃO RIPPER 

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Mulher pescando com tarrafa

Autor – João Ripper

Mulheres pescando marisco na praia

Autor – João Ripper

FICHA TÉCNICA


Presidente
Luiz Inácio Lula da Silva


Ministro da Educação
Camilo Santana


Ministro da Pesca e Aquicultura
André de Paula


Presidenta da Fundação Joaquim Nabuco
Márcia Angela de Aguiar


Diretor de Pesquisas Sociais
Wilson Fusco


Coordenadora do Centro de Estudos em Dinâmicas Sociais e Territoriais
Edneida Cavalcanti


Diretor de Memória , Educação, Cultura e Arte
Túlio Velho Barreto


Coordenadora-geral do Centro de Documentação e de Estudos da História Brasileira Rodrigo Mello Franco de Andrade
Nadja Tenório Pernambucano de Mello


Chefe da Divisão do Centro de Pesquisa e Documentação
Sylvia Couceiro


Coordenador-geral do Museu do Homem do Nordeste
Moacir dos Anjos

Coordenador de Museologia

Albino Oliveira

Coordenadora de Exposições e Difusão Cultural

Silvana Araujo


Equipe pesquisadores da Fundaj
Beatriz Mesquita, Edneida Cavalcanti, Pedro Silveira, Solange Coutinho e Tarcísio Quinamo

Curadoria, seleção de imagens e textos
Luiza de Araújo Farias
Rita de Cássia Araújo


Digitalização de imagens
Luiz Carlos Costa


Impressão das Imagens
Livros Fotográficos


Produção
Bruna Pedrosa
Carol Corrêa


Expografia
Algazarra Produções Artísticas


Design Gráfico
Anderson Lucena
Marília Sobral


Montagem
Rômulo Francisco
Fernando Cavalcanti (assistente)


Iluminação
Carol Correa

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