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VILLA COLETIVA
Cultura, História  e Acessibilidade
nº4 | 30 de agosto de 2019

Cartões-postais
 

Cibele Barbosa 

Com o advento da fotografia nos anos 1840, foram abertas as portas para novas formas de registrar e perceber o mundo. Os modos de se tornarem visíveis as paisagens e as pessoas não estavam mais atrelados às disposições e imaginações dos artistas e gravuristas. Nos primeiros anos após a invenção de Daguerre, a euforia tomava conta de cientistas, artistas e amadores que supunham estar diante de uma reprodução objetiva e inconteste do real. Desde cedo, diferentes suportes de fotografia disputavam espaço em exposições, museus e lojas. No entanto, os primeiros inventos fotográficos como o daguerreótipo não poderiam ser replicados. Com o passar de alguns anos, outros processos fotográficos permitiram a reprodução ilimitada das imagens. O progressivo barateamento dos materiais utilizados na técnica, aliado à evolução das câmeras, (em 1888 a chegada da câmera portátil Kodak facilita o manuseio por amadores) possibilitou uma explosão da produção e do consumo de imagens em uma escala jamais vista. 

 

É nesse cenário, de fins do século XIX, que presenciamos o fenômeno do consumo popular de imagens por meio do cartão-postal. Fotografias de estúdios fotográficos eram reproduzidas aos milhares nos cartões que circulavam transportando imagens de povos e paisagens distantes. Além das imagens externas ou etnográficas, a fabricação de cenários, poses e situações produzidas em estúdios, voltadas para decorar a comunicação postal e com o objetivo explícito de serem comercializadas, tomou conta do mercado visual do início do século XX. 


Diferente da imagem pessoal da fotografia em formato carte de visite, onde o interesse consistia majoritariamente em o indivíduo retratar-se e apresentar-se para a sociedade, o cartão postal de fotografias de estúdio expunha rostos anônimos para representarem papéis e gestos que impunham-se como meio comunicacional. Eram imagens de casais, crianças, mulheres em situações cotidianas; charges, ilustrações e caricaturas também se juntavam ao universo da iconografia postal direcionando e influenciando olhares, percepções e subjetividades. Para além do teor explicativo, comunicativo, didático ou propagandístico, também havia o elemento estético bem como o erótico, os quais eram estampados em cartões vendidos a baixo custo, o que tornava o colecionismo uma prática de interesse das elites daqueles tempos.

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Fotos: Divulgação/Acervo Fundação Joaquim Nabuco 

Os cartões-postais também serviam como propaganda dos progressos urbanos em exposições onde os governos destacavam as realidades que queriam tornar visíveis. Sob esse mesmo contexto, o incremento nos transportes diminuía distâncias e impulsionava o turismo que, por sua vez, era alimentado e alimentava-se das imagens postais.

 

O colonialismo europeu e o domínio de territórios africanos e asiáticos também foram fomentados por uma vasta produção de cartões-postais que, inundados de estereótipos de cunho racial, constituíam um imaginário exótico e racializado de populações não europeias. No Brasil, era comum postais que exotizavam negros e indígenas bem como grupos populares e comunidades periféricas tachadas de “tipos”.

 

O estudo das representações sociais e dos imaginários produzidos na era da reprodutibilidade técnica da fotografia e, especialmente, do cartão-postal, cujo período áureo se deu entre o final do século XIX e as primeiras décadas do XX, é uma ferramenta complexa e rica de informações para diferentes campos do conhecimento. 

 

A Fundação Joaquim Nabuco, em seus acervos do CEHIBRA (Centro de Documentação e Estudos da História Brasileira), é uma das principais instituições públicas brasileiras detentora de coleções de cartões-postais. Grande parte são de imagens históricas de cidades brasileiras, em especial do Nordeste, em fins do século XIX e primeira metade do século XX. Outras, mais ecléticas, são compostas de diferentes tipologias e temáticas, desde cartões de cidades estrangeiras, paisagens orientais, fotografias de estúdio, como gravuras, florais decorativos, datas comemorativas, ilustrações, e outros muitos estão disponíveis no site da plataforma Villa Digital.   

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Cibele Barbosa é doutora em História pela Universidade Paris IV/Sorbonne e pesquisadora da Fundação Joaquim Nabuco. Atualmente coordena o Projeto Trocas Atlânticas e o Programa Institucional Educação e Relações Étnico-raciais.
 

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