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nº 11 | 14 de outubro de 2021

VILLA COLETIVA
Cultura, História e Acessibilidade

A coleção Brito Alves e a história visual: imagens e imaginários em rótulos

Igor Calado 

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A Coleção Brito Alves reúne rótulos de cigarros de Pernambuco (e de outros lugares) do final do século XIX e início do século XX. É composta por 1.252 itens que começaram a ser colecionados pelo comerciante Vicente de Brito Alves. O trabalho foi continuado por seu filho, o advogado José de Brito Alves. Este último faleceu em 1963, e a coleção foi doada pela sua família ao então Instituto Joaquim Nabuco de Pesquisas Sociais já no ano seguinte.

 

Estes rótulos dizem muito sobre os hábitos de consumo, propaganda, imaginário visual e artes gráficas da época e dos lugares em que circularam. Em oposição a obras de arte, livros e outros materiais pensados “para durar”, os rótulos entram na categoria de impressos “efêmeros”: materiais banais, de vida útil curta e que não costumam ser guardados ou colecionados, como tickets, papéis de carta personalizados e cartazes. Vistos muitas vezes como obras menores, os impressos efêmeros são, todavia, uma incrível janela para se conhecer detalhes pequenos e prosaicos de outros tempos.

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A impressão de materiais numerosos e baratos, como são a maioria dos efêmeros, tornou-se possível em grande medida pelo desenvolvimento da tecnologia da litografia, um método de gravura que revolucionou o campo das artes e da produção gráfica no século XIX. Desenvolvida por volta de 1798 por Alois Senefelder na Baviera, hoje parte da atual Alemanha, a técnica consiste em trabalhar quimicamente a superfície de uma matriz de impressão ― geralmente uma pedra calcária ― a fim de criar zonas que repelem ou atraem substâncias gordurosas. Depois do tratamento, uma tinta oleosa pode ser aplicada sobre a matriz, mas só irá "grudar" sobre as zonas que atraem gordura. Por meio da manipulação dessa diferença química, é possível criar áreas com e sem tinta e formar desenhos.

 

A técnica se disseminou por Alemanha, França e Inglaterra na década de 1800; a partir de 1815, espalhou-se rapidamente pelo resto da Europa e por diversos países da América. A primeira oficina brasileira foi instalada no Rio de Janeiro, então capital do país, em 1825. A litografia servia para diversos usos: reprodução de obras de arte já existentes; criação de obras artísticas originais; ilustração de livros; impressão de circulares, cartazes, partituras musicais; e para a impressão de rótulos comerciais para bens de consumo, como alimentos e bebidas (particularmente doces, licores e outras bebidas alcoólicas), remédios e produtos derivados do fumo, como rapé, cigarros e charutos.

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O século XIX viu, ao mesmo, tempo um aprofundamento da cultura de consumo e uma explosão de produção de impressos gráficos ― daí a expansão das marcas como forma de diferenciação entre produtos concorrentes e de segmentação de público, o que se manifesta pela identidade visual aplicada a materiais publicitários e embalagens.

 

Os rótulos de cigarros da coleção tinham originalmente o formato de caixas, ou mesmo de faixas (com as quais se enrolavam charutos ou cigarros), que foram desdobradas, planificadas e coladas sobre uma prancha pelos seus proprietários originais. A maior parte dos itens é oriunda de Pernambuco, mas há também exemplares do Rio de Janeiro, da Paraíba e de outros lugares. 

Os rótulos contêm imagens e textos, com grande diversidade no uso da tipografia. Entre as informações presentes, costumam constar a província ou estado de origem, o nome da fábrica, o endereço da loja, a marca, o impressor e outros dados do produto.

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Já os artefatos visuais comumente incluem listéis (letreiros que simulam flâmulas) onde estão escritos os nomes das marcas, figuras centrais (que constituem o principal elemento gráfico) e elementos adicionais (como figuras ou artefatos que servem para emoldurar a figura central, a exemplo de querubins, folhagens, molduras etc.). As figuras centrais mais comuns incluíam crianças, mulheres em poses supostamente sensuais, homens vestidos à moda da cidade, indígenas, retratos de personalidades locais, nacionais (o imperador) e internacionais (geralmente líderes políticos estrangeiros de renome), cenas bem-humoradas, brasões, representações dos edifícios ligados à fábrica, querubins, estrelas, animais, vegetação ligada ao fumo e outras plantas.

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Os rótulos são feitos com papéis de diferentes cores, que interagem com as cores da impressão. Os desenhos são geralmente impressos com uma única cor (monocromia) ou duas, mas não é difícil encontrar exemplos com três e mesmo quatro cores de tinta diferentes (fora a cor do papel). As cores mais comuns nas tintas são tons de preto, azul e verde, seguidos por vermelho, laranja e amarelo. Na litografia, cada cor utilizada implica na preparação de uma matriz diferente e uma nova passagem do rótulo na prensa, tornando o processo mais complexo. Além disso, é necessário garantir o registro das impressões, ou seja, fazer com que cada impressão de cor se encaixe corretamente. Quando isso não acontece, é fácil notar que os registros apresentam impressões desalinhadas (um defeito bastante comum).

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O conjunto da coleção já serviu de fonte documental para diversas pesquisas, como História em Rótulos de Cigarro, publicada pelo Instituto Joaquim Nabuco de Pesquisas Sociais em 1971 e de autoria de Mauro Mota, um dos pesquisadores da casa. Mais recentemente, figurou na dissertação Cinco Décadas de Litografia Comercial no Recife: por uma história das marcas de cigarros registrada em Pernambuco, 1875-1924, defendida por Edna Lucia Oliveira da Cunha Lima para o Mestrado em Design da PUC-Rio em 1998 ― trabalho que se tornou referência no tema.

 

A Coleção Brito Alves está digitalizada e pode ser consultada online no site da Villa Digital. Além dela, a Fundação Joaquim Nabuco possui outras coleções de rótulos comerciais de outros gêneros de produtos, como cachaças e doces do século XX. E, fora da Fundaj, também há coleções de rótulos e marcas de cigarros de Pernambuco em outras instituições, como a de registros oficiais guardados pela Junta Comercial desse estado.

O AUTOR

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Igor Calado é recifense, bacharel em Cinema e Audiovisual pela UFPE (2017) e monitor na Villa Digital da Fundação Joaquim Nabuco. Desenvolve pesquisas na área de história da imagem.

COMO CITAR ESSE TEXTO

CALADO, Igor. A coleção Brito Alves e a história visual: imagens e imaginários em rótulos. (Artigo). In: Coletiva - Villa Digital. Publicado em 14 out. 2021. Disponível em: <https://www.coletiva.org/villa-coletiva-n11-colecao-brito-alves-historia-visual-imagens-imaginarios-rotulos-por-igor-cal>. ISSN 2179-1287.

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