Imagem para o texto_Revista FUNDAJ_2021.

Educação e 

Diferenças e...

Mandala Devir...(2019)

nº17 | 29 de junho de 2021

Editores Temáticos: Alik Wunder e

Antonio Carlos Rodrigues de Amorim

Filosofia da Diferença e pesquisaformação narrativa (auto)biográfica: diálogos possíveis

Joelson de Sousa Morais

Mergulhado na escrita da tese de Doutorado em Educação, que venho desenvolvendo junto à Faculdade de Educação da Universidade Estadual de Campinas (FE/UNICAMP), tenho percebido a possibilidade de estabelecer um diálogo entre a Filosofia da Diferença e a abordagem da Pesquisaformação [1] narrativa (auto)biográfica em educação. Trata-se de uma escolha tanto política, quanto teoricaepistemológica, a qual tem levantado muitos questionamentos e deslocamentos para quem está em um percurso de produção do conhecimento científico.

Nem sempre tais escolhas e caminhos têm sido confortáveis; por vezes, desafiantes, indicando a importância de explicitar, para mim mesmo e para os que possam ler o que escrevo, como este diálogo tem me feito enxergar um conjunto de possibilidades e outros pensamentos.

Por que entrelaçar essas vertentes teóricas na produção do conhecimento científico? Como trazer a pertinência de um saber e um conhecer que sejam tecidos por pensamentos singulares, e que se retroalimentam em uma realidade multifacetada e complexa que venho construindo nas escritas de si em diálogo com muitos outros nos percursos da pesquisaformação doutoral? O que, desse movimento de pesquisar e formar, tem surtido em mim?

As contribuições de Deleuze, Guattari e Foucault têm se tornado um alento para situar as multiplicidades, incertezas e, ao mesmo tempo, as incompletudes de um pensamento pautado por uma racionalidade técnica e instrumental que engessa as visões plurais de experiências, as quais poderiam ser vistas por outros ângulos, em uma pesquisa científica, por exemplo.

Nesse sentido, na tessitura da tese de doutoramento, as escritas narrativas (auto)biográficas, do pesquisador-narrador-autor e das professoras iniciantes participantes da pesquisaformação, apontam para a criação como agenciamento de subjetividades, como uma capacidade que se reflete na dupla potência entre crer e inventar.

É impressionante como, mesmo depois de muitos séculos do surgimento da ciência, do modelo newtoniano-cartesiano e, diante da emergência de outras tantas correntes de pensamento, dispositivos metodológicos e o advento das tecnologias da informatização, a academia e a sociedade ainda se amparem em formas de conceber o positivismo em seus múltiplos desdobramentos, como modo privilegiado de produzir saberes e conhecimentos.

A abordagem da pesquisaformação narrativa (auto)biográfica, na qual estou imerso, abre também a possibilidade de questionamento dos princípios hegemônicos, buscando pautar-se em outras facetas da compreensão e interpretação da realidade, em que sejam possíveis a formação e a transformação dos sujeitos, muitos dos quais professores pesquisadores em seus percursos, como modo outro de dar sentido à existência, à vida, à aprendizagem e à formação.

Venho compreendendo a pesquisaformação[2], como um processo de entrelaçamento do ato de pesquisar e de formar, simultaneamente, em movimentos indissociáveis, porém que se expressam de forma articulada, produzindo consciência no sujeito e surtindo transformações intensivas e substanciais como um olhar para si ao longo de sua vida.

Neste século XXI, em especial nos últimos anos tão conturbados, principalmente, em 2020 e 2021, em que se alastra uma pandemia sem precedentes, destruindo vidas e gerando outras formas de convivialidade, aprendizagens e modos outros de pesquisar e formar, não é possível compreender a realidade atual, caracterizada por mudanças bruscas, insuspeitadas e inconstantes como as tecidas na existência do momento, sem levar em consideração outras formas de construção do conhecimento. 

Nos desafios da contemporaneidade, afirmo a necessária e profícua articulação entre a Hermenêutica da temporalidade e narratividade, a pesquisaformação narrativa (auto)biográfica, e a Filosofia da Diferença , como diálogos possíveis, convidando esses autores a um entrelaçamento teoricoepistemológico, corroborando com a potencialidade de olhar o passado, situando o presente e pensando no futuro.

Ser professor, hoje, não é o mesmo que dois anos atrás, muito menos cinco ou mais anos. E o processo de estar se constituindo reflete na tessitura de uma subjetividade, para a qual confluem outros tantos modos de praticar uma existência, como também, empreender didáticas, mobilizar dispositivos metodológicos outros, praticar afetos, compartilhar emoções, aprender e se formar, o que requer outras dinâmicas, formas de pensamento e compreensão da realidade.

E se os processos de temporalização da existência humana se articulam narrativamente, vejo que as escritas narrativas (auto)biográficas, produzidas por mim nesta pandemia, mergulhado no processo de tessitura da pesquisaformação doutoral, têm me mostrado tais aspectos e muitos outros do tempo presente.

Em um texto maestral, A escrita de si, Foucault fez uma contundente provocação acerca da escrita como estética da existência e domínio de si, refletindo sobre os processos de construção do conhecimento, os quais tanto o acompanharam e mobilizaram em suas escritas narrativas, capazes de gerar transformações, (auto)formação e emancipação.

A obra desses autores refletidas neste texto, foram produzidas em escritas narrativas reflexivas, muitas delas (auto)biográficas em que aludiam às suas experiências para, então, compreender a si próprios e os movimentos de compreensão, interpretação e tessitura de um saber e conhecimento em diálogo com os outros tantos em seus percursos formativos.

Se estou partindo da ideia de uma subjetividade constituída por agenciamentos de enunciação, percebo que as escritas narrativas (auto)biográficas potencializam um conhecimento de si, em que venho compondo em uma pluralidade de leituras, produção da escrita do texto da tese, articulado aos processos de compreensão e interpretação das narrativas que venho produzindo em diálogo com as professoras iniciantes, que  mostram-me outros tantos de mim com elas, delas e para elas comigo.

Hoje, não consigo perspectivar a existência, passando e sendo implicado por processos de (auto)formação e produção de saberes e conhecimentos científicos, ancorado em uma visão hegemônica e clássica de aprender, escrever e me formar. Talvez isso tenha ocorrido por me permitir a tantas experiências de vida, formação e de outros tantos âmbitos, a que venho me lançando nas incertezas e bifurcações da vida.

Isso sim tem me tornado ou vem me fazendo ser ou estar sendo o que sou, que daqui a pouco não o serei mais, uma vez que me deparo com um vir a ser, eis o que me representa. Afinal de contas, sinto-me o tempo todo deslocado por um fluxo de forças potenciais que me desloca, reatualizando sempre novas figuras em um constante devir.

Portanto, a Filosofia da Diferença tem se mostrado como uma corrente de pensamento mais do que necessária para enxergar as escritas narrativas, situando-as na abordagem (auto)biográfica do que penso, faço e venho tecendo no tempo presente, com a visão no futuro e os caminhos e descaminhos que a vida, a pesquisa e a formação têm me levado a galgar, juntamente com as professoras iniciantes, participantes da pesquisaformação doutoral.

Somente é possível agregar sentido um saber e um conhecimento, que, situando-me como professor universitário, pesquisador e narrador em que se nutrem essas dimensões de formas imbricadas, de modo que possa atribuir significação a uma existência, vendo, por diferentes olhares um mesmo fenômeno e realidade, que, por meio de uma visão única e parcelar, não me seriam possíveis de compreender e me transformar.

Talvez, seja essa cosmovisão o que falta a muitos professores pesquisadores que estão na academia, vivendo no século XXI, mas pesquisando, orientando e produzindo conhecimentos com o olhar, o traquejo e o saberfazer do século XIX. Que fique essa reflexão para mim e para você, leitor deste ensaio, desejando, quem sabe, críticas e diálogos outros, que possam vir a se estabelecer e existir!

Notas

[1]Primo pelo uso de duas ou mais palavras neste texto destacadas em itálico, como escolha política e teoricoepistemológica, pautada nos estudos nos/dos/com os cotidianos escolares, significando a possibilidade de empreender a construção de outros sentidos e palavras na produção do conhecimento científico.

[2] Vale ressaltar que Josso usa pesquisa-formação separada por hífen e, no Grupo Interinstitucional de Pesquisaformação Polifonia (UNICAMP/UERJ), do qual faço parte como pesquisador, adotou-se, da referida autora, tal palavra-conceito e passamos a reinventá-la, resultando em pesquisaformação em itálico e destacado, a partir de um modo próprio e peculiar, com o qual produzimos conhecimentos dentro do grupo.

Para saber mais

 

ALVES, Nilda. Cultura e cotidiano escolar. Revista Brasileira de Educação.  n.23, Rio de Janeiro, Maio/Agosto. 2003. p.62-74. Disponível em: <https://www.scielo.br/scielo.php?pid=S1413-24782003000200005&script=sci_arttext>. Acesso em: 12, maio, 2021.

 

BRAGANÇA, Inês Ferreira de Souza. Pesquisaformação narrativa (auto)biográfica: trajetórias e tessituras teórico-metodológicas. In.: ABRAHÃO, Maria Helena Menna Barreto; CUNHA, Jorge Luiz da; BÔAS, Lúcia Villas (Orgs.). Pesquisa (auto)biográfica: diálogos epistêmico-metodológicos. Curitiba: CRV, 2018. p.65-81. Disponível em: < https://grupopolifonia.wordpress.com/artigos-em-periodicos-profa-dra-ines-ferreira-de-souza-braganca/>. Acesso em: 01 jun. 2021.

 

DELEUZE, Gilles. Empirismo e subjetividade: ensaio sobre a natureza humana segundo Hume. 2.ed. Tradução de Luiz B. L. Orlandi. São Paulo: Editora 34, 2012. 

 

FOUCAULT, Michel. A escrita de si. In.: _____. Ética, sexualidade, política. Tradução de Elisa Monteiro, Inês Autran Dourado Barbosa. Rio de Janeiro: Forense Universitária, 2004.

 

GUATTARI, Félix; ROLNIK, Suely. Micropolítica: cartografias do desejo. Petrópolis: Vozes, 1996. 

 

JOSSO, Marie-Christine. A transformação de si a partir da narração de histórias de vida. Educação, Porto Alegre/RS, ano XXX, n. 3 (63), p. 413-438, set./dez. 2007. Disponível em: https://revistaseletronicas.pucrs.br/ojs/index.php/faced/article/view/2741/2088. Acesso em: 01 jun. 2021.

 

PEREIRA, Marcos Villela. O limiar da experiência estética: contribuições para pensar um percurso de subjetivação. Pró-Posições, Campinas, v. 23. n. 1 (67), P. 183-195, jan./abr. 2012. Disponível em: https://www.scielo.br/j/pp/a/sQFMpDZ3pfqhFYjwQVmLVQL/?lang=pt&format=pdf. Acesso em: 01 Jun. 2021.

 

RICOEUR, Paul. Tempo e narrativa. Tradução Claudia Berliner. Revisão da tradução Márcia Valéria Martinez de Aguiar. São Paulo: Editora WMF Martins Fontes, 2010. 

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O Autor

Joelson de Sousa Morais

Doutorando em Educação pela Universidade Estadual de Campinas (UNICAMP), Mestre em Educação pela Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN), Pedagogo e Professor Substituto da Universidade Federal do Maranhão (UFMA)/Campus Codó. E-mail: joelsonmorais@hotmail.com

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