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Diversidade

Socioambiental

Editor temático: Pedro Silveira 

nº 19 |  29 de março de 2022

SABER DA CAATINGA: O encontro e o desejo coletivo de salvaguardar saberes

Marília Nepomuceno Pinheiro

Saber da Caatinga através da vida dos comuns e das mulheres da Chapada do Araripe é saber de um profundo poço de saberes vivos de nossos Brasis. Alargando os nossos horizontes e nos convidando a perceber as “agricultoras da subsistência do mundo”, ou as “tecelãs da memória”, como sugere Silvia Federici em sua obra “Reencantando o Mundo”, sobre sujeitas sociais populares e comuns de nossos mundos,  somos, neste Encontro, convidadas a olhar ou a nos re(en)cantar para a política dos comuns, para a comunidade e para os saberes e fazeres que detém as mulheres e os comuns deste território. Olhar, pensar, ouvir, conversar ou (en)cantar em coro, como sugere Federici, sobre as estratégias que devemos nos munir, não para o passado, e sim para futuro, desemboca na mola propulsora que tece o Encontro de Saberes da Caatinga e seu desejo de salvaguardar nossos saberes e práticas tradicionais de cura e cuidado entre nós e o ambiente, enquanto estratégia de reencantamento coletivo do mundo e ferramenta da ciência de um poço profundo, como nos relembra Silvanete Maria Lermen:

“Eu sempre digo que quem faz a nossa história somos nós, desde que a gente conte, que a gente registre. Nós precisamos registrar isso. Por isso que eu estou aqui, agradecendo a vocês por estarem nesse espaço socializando. E aqui, são os meninos e as meninas que vão estar nos ajudando a fazer esse relato. Na verdade, nós vamos contando pra elas, e elas vão escrevendo, já que a gente não tem essa habilidade tão boa de escrever com uma facilidade maior. Então, eu gostaria que cada uma de vocês dissesse o nome, quantos filhos tem e se pudesse quantos anos mora aqui, então isso é muito interessante para elas poderem saber que somos filhas daqui mesmo. Porque falar dos Paus Dóias é dizer que aqui nós temos um berço de saberes ancestrais muito profundo, que muitas vezes nós que estamos aqui e nem nos tocamos que temos isso é tão profundo, tão histórico e é o que faz a nossa resistência e nossa continuidade.” 

Maria Silvanete, em conversa coletiva junto a sua comunidade da Serra dos Paus Dóias,

em Novembro de 2021.

1. SOBRE O DESEJO DE SALVAGUARDAR NOSSOS SABERES

O trecho acima, narrado por Maria Silvanete Lermen, agricultora, benzedeira, meizinheira [1] e orientadora em Saúde Comunitária da Serra dos Paus Dóias, povoado no alto da Chapada do Araripe, no município de Exu, Sertão do Araripe Pernambucano, evidencia a pertença ao campo socio-biodiverso em que estão inseridas antigas e novas sabedorias de cura entre os residentes do sítio paleontológico da Chapada do Araripe. A Chapada do Araripe, muito pouco conhecida entre os brasileiros de maneira geral, é um santuário vivo para seres humanos e não humanos, segundo narram seus moradores, suas experiências e histórias. Maria Silvanete Lermen é uma das protagonistas de seu território, liderança ativa em sua região e uma das colaboradoras do Encontro de Saberes da Caatinga, ação autônoma entre detentores de saberes e práticas de cura da Chapada do Araripe e seu entorno, que reúne raizeiros, benzedores e parteiras para, em comunhão, trocarem e partilharem experiências de cura, movimentando-se para o fortalecimento de suas atividades cotidianas e ancestrais de cuidado em saúde nas suas comunidades.

2. UM ENCONTRO DE SABERES, HISTÓRIAS E LAÇOS

O Encontro de Saberes da Caatinga representa um espaço de construção coletiva e de trocas entre os  detentores de saberes e fazeres tradicionais - meizinheiras, raizeiros, benzedores e parteiras, onde também é autorizada a presença de pessoas externas aos seus universos cotidianos e comunidades. Curiosos, pesquisadores, terapeutas e demais pessoas acompanham, anualmente, há 5 anos consecutivos, o espaço do Encontro de Saberes da Caatinga para se nutrir de informações, aprendizagens e fortalecimentos junto às mestras e mestres dos saberes populares e tradicionais e suas práticas de cura, sobretudo junto aos seus hábitos e às plantas medicinais da Chapada do Araripe.  

O evento, que acontece desde 2017 no Posto da Serra, Exu-PE, reúne, durante 3 dias, detentores de saberes populares de cura e celebração da vida no território, vindos do Araripe e seu entorno, desde  Pernambuco, ao Ceará e ao Piauí.  O Encontro tem se tornado um espaço de partilha de suas histórias e seus conhecimentos relacionados à saúde e às vivências em suas comunidades. Durante os três dias, os protagonistas do Encontro, como são chamados durante os três dias de evento, dividem-se em três grandes rodas, referentes às áreas do saber relacionadas às raízes/plantas, parto e bênçãos/rezas. Desta maneira, eles se organizam para relatar suas experiências, técnicas e sabedorias que são atentamente escutadas pelos pares e pelo público interessado, participantes de diversas regiões do país e do mundo que vão até o Encontro ano a ano. 

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Rodas de  meizinheiras, raizeiros, benzedores e parteiras no Encontro de Saberes da Caatinga, na Chapada do Araripe.

Diante de uma reunião de escancarada força e necessidade de realização por parte dos protagonistas que, ano a ano, se esforçam para manter e acolher o grande número de pessoas que se somam ao Encontro, conseguimos pensar a partir do que a filósofa Vinciane Despret aponta, e nos colocamos a perceber que mergulhados e, cada vez mais, conscientes de que estamos em tempos de extinção, temos tecido teias (e este Encontro é prova disto) e nos implicado a criar outras histórias para nos ensinar a mudar nossa relação com o mundo, tornando-o menos violento, menos mecânico e menos dominador.

 

Este Encontro, o Saberes da Caatinga, tem figurado, portanto, como fio largo e forte, bastante significante, nesta teia de experiências e entrelaçamentos de novos e antigos esforços, junto às narrativas que inspiram mudanças de rumos coletivos entre seres humanos e não humanos, com raízes fincadas a partir do Araripe e sertões nordestinos e brasileiros. A noção de Malha de Tim Ingold, antropólogo largamente conhecido por pautar questões entre Natureza e Cultura, relacionando-as à vida em sociedade, (pensada metaforicamente também como uma teia de aranha, em que o fio da teia é feito do corpo da própria aranha e, por isso mesmo, é a própria aranha em si), nos ajuda a entender e fazer uma boa leitura do que é o Encontro de Saberes da Caatinga e ver seus protagonistas como os próprios fios e malha ativa da vida comunitária na Chapada do Araripe.

 

Os protagonistas, mestras e mestres, sujeitos que promovem cura e saúde, podem ser lidos como a personificação dos fios da teia/malha que constrói e é/são o próprio Encontro e a vida naquele lugar, assim como podem ser lidos como agentes ativos da fabricação de laços e de uma ecologia da atenção, tato e preocupação, uma ecologia responsável ou uma cosmoecologia, como nos diz Vinciane Despret em “O que diriam os animais se…” acerca das noções da vida e de nossas práticas sociais no mundo e em comunidade.


O Encontro e seus protagonistas, além de nos pôr a pensar nas noções de Malha e de Cosmoecologia, nos coloca também a pensar como a noção de Autoatenção, pautada pelo antropólogo da saúde Eduardo Menendéz, é valorosa neste contexto do Encontro, na Chapada do Araripe, em relação ao vivido e proporcionado dentro dos processos e práticas de (re)construção das identidades dos protagonistas, se legitimando, visibilizando e firmando seus ofícios de meizinheiras, raizeiros, benzedores e parteiras, detentores de saberes e fazeres de cura, mestras, mestres e cientistas populares; como robustas Práticas de Autoatenção, numa dimensão não só de práticas de cura relacionadas à saúde humana e à profilaxia de doenças, mas num sentido político e comunitário dentro do território e entre o povo, em processo de autoatenção e legitimação política entre si.


Assim, é importante destacar que as meizinheiras e raizeiros, as parteiras e os rezadores, benzedores e benzedeiras, grupos que estruturam e promovem o Encontro são, em sua maioria, anciões que sempre existiram em suas comunidades, vivendo suas práticas passadas de geração a geração, e construindo seus saberes e fazeres nos espaços da vida cotidiana comunitária, sem necessariamente terem, até então, construído um espaço coletivo e aberto ao público, como é o Encontro de Saberes da Caatinga. Tudo isso torna essa articulação coletiva, que promove o Encontro, ainda mais significante por representar a compreensão e a necessidade de afirmação, por parte de seus protagonistas, no cenário contemporâneo, em sua região e em suas comunidades.

3. TECITURAS DE UMA PANDEMIA

Diante do cenário social a que todo o mundo foi submetido com a pandemia da Covid-19, é  importante colocar que algumas outras novas camadas foram inseridas aos fios do Encontro, pois a procura por soluções e estratégias para tratamento de problemas de saúde, via detentores de saberes e conhecimentos populares e tradicionais, se intensificaram no momento em que despertou-se uma reflexão coletiva sobre a necessidade de resgatar os conhecimentos, saberes e práticas populares de cura do humano e dos territórios, haja vista que os sistemas oficiais de saúde, público e suplementar, se encontravam sobrecarregados com as demandas ocasionadas pelo Coronavírus.

 

Esta percepção da alta procura e demanda pelo conhecimento do cuidado e da saúde popular e tradicional, inclusive, foi motivadora para a manutenção do Encontro em plataforma e ambiente virtual no ano de 2021, momento em que o protocolo sanitário no Brasil foi de distanciamento social.

 

Deste modo, meizinheiras e raizeiros, rezadores, benzedeiras e parteiras do Araripe, acreditando na necessidade de disseminação de seus conhecimentos, para que o público que os procuravam tivessem alguma autonomia no enfrentamento dos desafios de saúde que atravessavam, se mobilizaram para realizar algumas lives e um Encontro virtual. Este encontro aconteceu no segundo semestre do ano de 2021, diferentemente dos anos anteriores, em que os Encontros presenciais ocorriam sempre durante os meses de Janeiro. O Encontro ficou gravado na plataforma pública do Youtube e pode ser acessado no Canal Saberes da Caatinga

4. UM ENCONTRO COM OS SABERES DA CAATINGA

Dentro de um emaranhado de fios, como a imagem proposta pelo antropólogo Ingold, fios que são trilhas entrelaçadas das existências humanas e não humanas que fazem o Encontro, os Saberes da Caatinga, ou melhor, as práticas e saberes do povo da Chapada do Araripe e seu entorno, nos relembra que as coisas são mesmo suas relações, e, em tempos de extinção, estarmos produzindo novas (que são também antigas) histórias de cuidado entre nós e entre outros, nos motiva a viver e a tecer outros mundos a partir dessa teia/malha em encontros. Esse emaranhado, para Ingold, é o que dá textura ao mundo, e, por conseguinte, podemos entender também que dá textura aos encontros.

 

É nesse sistema radicular, de fios de uma teia de encontros, que também está a minha experiência enquanto alguém que chegou até o Saberes da Caatinga como observadora e ouvinte atenta, aprendiz das sabedorias da terra e da cultura, e também dos movimentos em coletivo, em busca de novas-antigas narrativas e cuidados com o mundo humano e não humano. Mãe de duas crianças, nordestina, filha de pretas e indígenas, tive minha vida elaborada por universos humanos comuns e, por isso mesmo, especiais e, há três anos, fui chamada para compor a “família” (é assim que são referidos os colaboradores e as colaboradoras do Encontro) da Troca de Saberes da Caatinga.

 

Havia chegado até o evento um ano antes, como uma ouvinte atenta, comum, como são quase todas as pessoas que se dispõem a acompanhar as rodas dos raizeiros, das parteiras e dos benzedores, e fui convidada por Seu Antônio, raizeiro fundador da reunião, e pelo grupo de pessoas que cuidam da articulação e organização dela, para que usasse os conhecimentos que detenho de outros universos da vida naquele espaço. Passei, assim, a compor a equipe que articula e colabora com a realização dos três dias de Encontro de Saberes da Caatinga no Posto da Serra, Exu-PE.

 

Essa escrita, portanto, é fruto de uma observação permeada por afetos e laços e se dá através de uma colaboração que desempenho com o maior prazer, onde tenho a oportunidade de observar, aprender, ouvir e viver atentamente coisas que não poderia experimentar se não estivesse naquele espaço com detentores de saberes em grupo, dispostos a oferecer entre si uma troca de conhecimentos e informações sobre os saberes que detém, além de estarem em busca de se fortalecerem juntas e juntos em seus ofícios. 

5. TEIAS DE SABERES DA CAATINGA

O Encontro de Saberes da Caatinga figura, portanto, como um importante encontro no calendário anual da região do Araripe, e conta atualmente com apoios diversos para que se realize, advindos da Fundação Osvaldo Cruz (Friocruz-PE); Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio-PE); Rede de Agricultores Experimentadores do Araripe; Centro de Assessoria e Apoio aos Trabalhadores e Instituições não Governamentais Alternativas (CAATINGA ONG) e Universidade Federal de Pernambuco (UFPE). Assim, o Encontro tornou-se um espaço de visibilização dos saberes e práticas de cuidado e cura, especialmente no que diz respeito à plantas, comidas e hábitos humanos em relação ao território.

 

Durante o Encontro e as rodas, fica em bastante evidência a sabedoria tradicional que emerge diante do território e bioma da caatinga e do cerrado, (já que o topo da Chapada do Araripe é cerrado e seu entorno baixo, caatinga) com a partilha de informações sobre as ações terapêuticas de plantas medicinais e fitoterápicas, cuidados necessários para manter o equilíbrio ecológico da flora local, cuidados tradicionais utilizados no período gestacional e vida reprodutiva, e práticas de cura que levam em conta o aspecto sutil/emocional do indivíduo. Todos estes temas e fios são costurados enquanto há a troca de saberes entre os protagonistas do Encontro, nas rodas sobre raízes, partos e benzos ou rezas.


A interação advinda deste evento cria e fortalece laços entre os protagonistas, proporciona visibilidade a seus ofícios, aos territórios e aos biomas, além de ser capaz de produzir uma memória coletiva para eles próprios, para a região e o estado, sobre quem são e o que fazem. Em dias atuais, onde a prática da ciência hegemônica e ocidental continua sendo exaltada como episteme e caminho norteador para os conhecimentos e práticas de cura e saúde na vida do humano; e em tempo onde uma discreta Política Nacional de Plantas Medicinais e Fitoterápicos [2] - Portaria Interministerial nº 2.960/2008, na ocasião, assinada por 10 ministérios: Casa Civil; Agricultura, Pecuária e Abastecimento; Cultura; Ciência, Tecnologia e Inovação; Desenvolvimento Agrário; Desenvolvimento Social e Combate à Fome; Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior; Integração Nacional; Meio Ambiente e Saúde -, que previa a implantação, nas Unidades Básicas de Saúde, de Farmácias Vivas e Manipulação para a produção de fitoterápicos e, até hoje, não alcançou avanços nem sua implementação, assistir e observar o nascimento e a invenção de uma memória coletiva de um Encontro de Troca de Saberes entre Raizeiros, Parteiras e Benzedores, e seres não humanos, no Araripe, é de uma importância e re-existência significativa desses grupos diante da sociedade.


Etnografar essa experiência nascida dos anseios, mobilizações e necessidades da população da região do Araripe é lançar atenção para os processos de reinvenção de antigas questões que estão sendo movidas para a realização do Encontro e também compreender e pensar o campo da continuidade da memória, os intertextos sobre natureza e cultura, mundo humano e não humano, fazendo-se necessário compreender as potencialidades e contradições que permeiam as relações sociais que o estruturam.

 

Diante destas questões e levando em consideração a noção de cuidado junto à perspectiva etnográfica de Veena Das, no livro Affliction: health, disease, poverty, que em todo o percurso de sua obra reforça a importância de como escrever demanda estarmos atentas para as vozes que vão ecoar dos textos, eventos, encontros e reuniões que produzimos, pensar o Encontro de Saberes da Caatinga como um autofalante de mestras e mestres em reunião é um caminho possível. Além de podermos entender o Encontro como uma malha de fios e trajetórias de humanos que detém, talvez, significativa sensibilidade e capacidade de ação, percepção e respostas a seu ambiente sempre em fluxo. No Encontro, há um potencial e uma condição entre os seres humanos e não humanos contínua e recíproca que traz uns aos outros à existência. O meio ambiente do Encontro e seus protagonistas humanos e não humanos que os acompanham são a própria malha e vida deste encontro.


Pensando assim, é possível também alcançar as elaborações propostas pelo antropólogo Octavio Bonet, que ao evidenciar a noção de Itinerações, para educar a atenção no campo sob uma perspectiva ecológica e relacional, em itinerários de cuidado, nos possibilita reiterar que, afinal de contas, o homem não pode ser pensado em separado do ambiente, e quando buscamos e encontramos caminhos para outras formas de viver e ver o mundo e o cuidado, estamos, em verdade, contando histórias. Como traz Bonet pensando sobre Itinerações e Itinerários de cuidado, os lugares são unidos pelas histórias de quem os habita e as Itinerações não se dão em um mundo de redes que preexistem, e sim em uma malha de linhas de vida que se produzem numa contínua Itineração. A malha é, em si, a condição de existência das pessoas e das coisas. E é como nos conta Maria Silvanete:

“Quando a gente escuta Dona de Jesus dizer "eu sou Maria de Jesus, tenho tantos anos, nasci e me criei aqui, nunca precisei sair daqui". Quando essas mulheres trazem esses depoimentos, você vai percebendo que se ela diz "eu nasci e me criei aqui", ela tá dizendo assim: que eu nasci e me criei e quem me ajudou a criar, me criar e criar os demais foi tudo isso que está aqui no meu entorno, foi as frutas daqui, as frutas nativas que também se utiliza bastante, foi a própria madeira, foi as própria folha. Dona de Jesus é uma benzedeira, e ela não se apresentou como tal. Mas ela é benzedeira, então Dona de Jesus faz um benzo que é poucas as pessoas que fazem. O benzo, são poucas as pessoas que fazem. São poucas as pessoas que tem o que eu chamo de dom, as que trabalham os dons em determinados locais do corpo. Todos nós temos um dom e aí a gente nasce com esse dom, mas são poucas as pessoas que fazem aflorar esse dom, fazem despertar, fazem acordar. Essas são coisas que são poucas as pessoas que conhecem, mas é necessário nós trazermos, porque esses são os nossos saberes. Dona de Jesus faz o benzo da garganta. Ela faz um benzo geral, mas ela tem uma oração específica da garganta, que faz esse equilíbrio. Quando eu era pequena, eu lembro que quando a gente começava a se engasgar demais, diziam: "vai lá que ela levanta o pinguelinho e você para de se engasgar tanto.” É quando dizia que a campainha estava desregulada, e fazia isso. Então, a gente cresceu ouvindo isso. Essas são coisas que poucas pessoas que conhecem, mas é necessário a gente trazer, porque esses são os nossos saberes. Então, Dona de Jesus faz essa oração geral e faz essa oração também. Como eu falei de mãe, mãe também faz essa oração e faz também a oração das casas, que é o benzo nas casas, o benzo familiar. Ela faz muito isso nas famílias, entre as famílias. É tanto que às vezes eu digo: "mãe, faça mais, vai mais", porque tem dia que ela tá muito se reclamando de dores. "Mãe, vai mais, faz mais orações", então tá precisando fazer esse equilíbrio, então ela faz isso. Por isso eu tô puxando o cordão, porque quando você puxa o cordão de Dona Maria aí vai pra Dona de Jesus, aí de Dona de Jesus vem pras neta, isso é uma continuidade histórica, não é mesmo? Então faz esse equilíbrio familiar. Quando a gente tem esses dons, os dons são principalmente pra família, e aí depois a família é que vai irradiando, e vai irradiando e vai chegando mais, como é que se irradeia? Aquilo que é bom, todo mundo quer. Assim, é necessário nós praticarmos em casa e depois os demais que vão chegando, vão se agrupando, vão se achegando e vão vivenciando tudo isso.”

Maria Silvanete, entrevista coletiva, Novembro de 2021.

NOTAS

 

[1]  Meizinheiras são como se autointitulam mulheres que materializam os saberes sobre plantas medicinais e realizam alquimia de remédios caseiros, os quais são utilizados no cuidado de seus corpos, de suas famílias e da comunidade. Desse modo, nas atividades cotidianas, elas reconstroem um saber que vem sendo repassado por gerações ao longo do tempo. Meizinheiras do Cariri Cearense

[2]  O objetivo da Política e Programa se estrutura no intuito de “garantir à população brasileira o acesso seguro e o uso racional de plantas medicinais e fitoterápicos, promovendo o uso sustentável da biodiversidade, o desenvolvimento da cadeia produtiva e da indústria nacional''.

PARA SABER MAIS

 

ALENCAR, Rívia Ryker Bandeira de (Org.). Salvaguarda de bens registrados: patrimônio cultural do Brasil: apoio e fomento / coordenação e organização. Brasília: IPHAN, 2017.

 

BONET, Octavio. Itinerações e malhas para pensar os itinerários de cuidado. A propósito de Tim Ingold. Sociol. Antropol. [online]. 2014, vol.4, n.2, pp.327-350. 

 

DAS, Veena. Affliction: health, disease, poverty. New York: Fordham University Press, 256 pp, 2015. 

DESPRET, Vinciane. O que diriam os animais se...1. Caderno de leituras n.45. 2016.

FEDERICI, Silvia. Reencantando o mundo: feminismo e a política dos comuns / Silvia Federici; tradução de Coletivo Sycorax - São Paulo: Elefante, 2022.

INGOLD, Tim. Estar vivo: ensaios sobre movimento, conhecimento e descri- ção. São Paulo: Vozes, 2017.

MENENDEZ, Eduardo L. Modelos de atención de los padecimentos: de exclusiones teóricas y articulaciones prácticas. Ciência e Saúde Coletiva, v. 8 (1), 2003. p. 185-207. 

 

______. Sujeitos, Saberes e Estruturas: uma introdução ao enfoque relacional no estudo da saúde coletiva. São Paulo: Ed. HUCITEC, 200. 

PIRES, Maria Jaidene; NEVES, Rita de Cássia Maria; FIALHO, Vânia. Saberes Tradicionais e Biomedicina: reflexões a partir da experiência dos Xukuru do Ororubá, PE. Revista Anthropológicas, v. 27, n. 2, 2016.

 

POLLAK, Michael. Memória, esquecimento, silêncio. Revista estudos históricos, v. 2, n. 3, p. 3-15, 1989.


SABERES DA CAATINGA. Canal Youtube. Disponível em: https://www.youtube.com/channel/UC16or8xaS2_itRxj5S6WrYQ?app=desktop. Acessado em 16/03/2022.

A AUTORA

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Marília Nepomuceno, brasileira nascida em Pernambuco, é uma mulher-cis negra, afroindígena, e mãe de duas crianças.

Produtora Cultural, Educadora Popular, Pesquisadora das Ciências Sociais, Técnica em Agroecologia e Mestranda em Antropologia (PPGA/UFPE).

Entre os coletivos que integra (@chadeterra, @akapiwara e @cartografia.parteirasindigena), propõe e apoia iniciativas e diálogos entre a cultura, o patrimônio imaterial e a agroecologia.

Pesquisadora Colaboradora dos grupos de pesquisa:

Narrativas do Nascer (DAM-UFPE) e OBSERVAMUS (DAM-UFPE)

COMO CITAR ESSE TEXTO

PINHEIRO, Marília Nepomuceno. SABER DA CAATINGA: O encontro e o desejo coletivo de salvaguardar saberes (Artigo). In: Coletiva - Diversidade Socioambiental. nº 19. Publicado em 29 março 2022. Disponível em: https://www.coletiva.org/diversidade-socioambiental-n19-saber-caatinga-o-encontro-e-o-desejo-coletivo-marilia-nepomuceno. ISSN 2179-1287.

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