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Foto: Esquerda Diário. Chuvas em Juiz de Fora, 2026. l

Política e

Cidadania

Editor temático: Túlio Velho Barreto

nº 25 | 10 de maio de 2026

 Colapso Climático vai acontecer, sabemos nos adaptar?

Marília Arruda

Todo ano é a mesma coisa, já virou um roteiro cruel e previsível!


Nos primeiros meses do ano, com verão em alta, as chuvas intensas chegam e em poucas horas, sem pedir licença, devastam territórios por todo país. Escancaram a força da natureza e a fragilidade da nossa resposta coletiva. Deslizamentos de terra, inundações, enxurradas, casas destruídas, pessoas soterradas e como consequência disto, mortes, pessoas desabrigadas, desalojadas e desaparecidas. A tragédia é muito mais que material, ceifa vidas e destrói memórias e histórias, no meio da lama e água.


As consequências dos eventos extremos climáticos já são uma realidade no Brasil e, nos últimos anos, cada vez mais recorrentes. O último boletim de impactos do Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais (CEMADEM/MCTI), do dia 18 de fevereiro de 2026, aponta que, em janeiro, foram emitidos 610 alertas tanto hidrológicas como geológicas, ocorrendo de fato 308 eventos.


Não é projeção, não é alerta distante, é fato vivido. Em Pernambuco, nos municípios do Recife e Jaboatão dos Guararapes, e no Rio de Janeiro, em Petropólis, milhares de pessoas sofreram com as inundações, em 2022. O Rio Grande do Sul foi ainda mais castigado com quatro enchentes entre 2023 e 2025. E, em, 2026, foi a vez de Minas Gerais, sobretudo as populações de Ubá e Juiz de Fora, e São Paulo, no município de Peruíbe.


Em Minas foram contabilizados 73 mortos (65 em Juiz de Fora e oito em Ubá) e 33 desaparecidos, 208 vítimas foram resgatadas com vida e 12 mil pessoas desalojadas. A Defesa Civil de Juiz de Fora determinou a evacuação preventiva de 600 famílias, já que o solo está enxarcado e a previsão é de mais chuvas. O Governo Municipal decretou estado de calamidade e o Governo Estadual anunciou a liberação de 48 milhões para fortalecimento de assistência a saúde em Ubá, Juiz de Fora e Matias Barbosa. O Governo Federal vai antecipar pagamentos do Programa Bolsa Família e Benefícios de Prestação Continuada para moradores da área. Além disso liberou um Auxílio Reconstrução, no valor de 7,3 mil reais para quem teve perdas materiais nas áreas atingidas. Outro auxílio foi a Compra Assistida do Programa Minha Casa, Minha Vida, para quem perdeu o imóvel, com subsídio integral.


Não são números frios, são nomes que ainda não apareceram, são corpos soterrados em escombros e lama, são crianças fora da escola, idosos sem remédio, mulheres tentando salvar o pouco que sobrou. A tragédia acontece em tempo real e, ainda assim, seguimos tratando com amadorismo todo esse contexto.


É o colapso climático chegando para todos, sobretudo para pessoas mais vulneráveis, que vivem em áreas urbanas inadequadas.


Em entrevista recente, o diretor substituto do CEMADEM afirmava que é preciso estar preparado para agir. Mas as perguntas que ecoaram em mim foi: a gente sabe como agir? A gente foi treinado? As comunidades sabem o que fazer quando a água sobe, quando o morro cede, quando o alerta toca?


Adaptação climática é coisa séria e nós, infelizmente, não estamos preparados e ainda perderemos muitas vidas. Essa é a dor de quem é da área, saber que vai acontecer, mesmo que alguns neguem tal fato.


O Brasil possui o Plano Nacional de Adaptação Climática, que foi aprovado no ano passado. Tem uma Política Nacional de Educação Ambiental, que, em 2024, finalmente incorporou a questão climática como conteúdo obrigatório nos currículos escolares. Mas quase dois anos se passaram e apenas uma parcela ínfima das escolas conseguiram, de fato, trabalhar esse tema de forma concreta.


Enquanto isso, nossa população segue exposta, as periferias cada vez mais duramente atingidas e pagando um preço altíssimo.


É verdade que hoje temos um governo federal que age, que demonstra empatia, que se faz presente nas emergências e isso importa muito. Mas não basta. Empatia não segura encosta, solidariedade não substitui prevenção e resposta emergencial não pode ser nossa única política pública.


O que precisamos é garantir que as pessoas sobrevivam e saibam se salvar, que tenham informação, treinamento, rotas de fuga, protocolos claros. Precisamos de infraestrutura climática para administrar, nos momentos de crise, e não parar escolas para isso.


A adaptação climática precisa virar prática cotidiana e não ficar apenas no discurso esperando a próxima chuva cair e o barranco ceder. E que seja uma realidade antes do anúncio da próxima lista de mortos. Sem envolvimento social e governamental para a adaptação e sem educação climática de verdade a tragédia só mudará de território.

PARA SABER MAIS

ARRUDA, Marília. Das Margens ao Centro: Interseccionalidade e Sustentabilidade das Catadoras de Recicláveis da Região Metropolitana de Recife. [Moreno]: Ser Poeta, 2025. 

 

BATAGLIA, Bruna; GARRIDO, Carolina De F.. A emergência climática bate à porta: como superar fatalismos e imaginar futuros sustentáveis?. 1. ed. Rio de Janeiro: Mórula Editorial, 2025. 

 

MILANI, Carlos; HARDUIM, Luisa; CASTRO, Mariana. Antropoceno, mudanças climáticas e ciências sociais no Brasil. 1. ed. Rio de Janeiro: Mórula Editorial, 2025. 

 

MINISTÉRIO DE CIÊNCIA, TECNOLOGIA E INOVAÇÃO (MCTI). Mudanças Climáticas no Brasil: Estado da Arte e Fronteiras do Conhecimento. Brasília: Ibict, 2025.  Disponível em:      https://doi.org/10.22477/9788570132468        . Acesso em: 08 abr. 2026.

 

OBSERVATÓRIO DO CLIMA (OC). Quem precisa de justiça climática no Brasil?. São Paulo: OC, 2022. Disponível em: https://oc.eco.br/wp-content/uploads/2022/08/Quem_precisa_de_justica_climatica-DIGITAL.pdf. Acesso em: 08 abr. 2026.

A AUTORA

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Marília Arruda é Doutora em Alterações Climáticas e Políticas de Desenvolvimento Sustentável (Universidade de Lisboa/Universidade de Brasília), Mestra em Desenvolvimento e Meio Ambiente (UFPE), Especialista em Gestão Ambiental Urbana, Turismóloga e Gestora Ambiental. É a criadora do Goles de Ciências Recife, projeto cultural que democratiza o conhecimento cientifico, aproximando a ciência da sociedade com linguagem descomplicada e acessível.

COMO CITAR ESSE TEXTO

ARRUDA, Marília. Colapso climático vai acontecer, sabemos nos adaptar? In: Coletiva - Política e Cidadania. nº 25. Publicado em 10 mai. 2026. Disponível em:<

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