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nº 12| 22 de junho de 2022

VILLA COLETIVA
Cultura, História e Acessibilidade

Luiz Gonzaga: figuras do cotidiano imagético musical do compositor em capas de disco. Uma iconografia musical do afeto

Elizabeth M. Carneiro da Silva

Luiz Gonzaga e o cotidiano imagético do sertão nordestino

Nascido em 13 de dezembro de 1912, em Exu, Pernambuco, Sertão nordestino, o cantor e compositor Luiz Gonzaga entrou para história da cultura popular brasileira trazendo, em sua produção musical, figuras do cotidiano imagético da região sertaneja do Nordeste.

 

A história do forró e do baião está sumariamente atrelada à figura de Luiz Gonzaga. Entre os artistas da cena musical brasileira dos anos 1940, Luiz Gonzaga foi o cantor e compositor que preencheu mais eficazmente a função de inventor de um estilo de música regional. Além de divulgar o imaginário do Sertão nordestino em suas canções, o cantor se destaca  em sua própria forma de se apresentar ao público com sua indumentária: gibão, chapéu de couro, adereços, perneiras e sanfona, características das vestes de um vaqueiro e, ao mesmo tempo, de cangaceiro. Com isso, o cantor e compositor deu visibilidade estética a sua região, cultura, dança, religiosidade, entre outras singularidades nordestinas.

Neste breve artigo, pretendo descrever e analisar três capas de discos do cantor e compositor sertanejo Luiz Gonzaga, inspirando-me no método iconográfico e iconológico proposto pelo historiador alemão Erwin Panofsky. Os documentos selecionados fazem parte do acervo da Fonoteca da Fundação Joaquim Nabuco.

Pelos seus múltiplos aspectos, o repertório do “rei do baião” traz conteúdos que mostram a ligação com sua terra natal, costumes e personagens míticos do sertão, a exemplo do Rei do Cangaço – Lampião – Virgulino Ferreira da Silva, a quem admirava e o inspirava nas vestes de cangaceiro.     .

Os elementos da cultura do Sertão do Nordeste não são relatados apenas como uma narrativa expressa nas músicas do compositor, mas também como motivos estéticos para compor as artes gráficas das capas de discos, que têm como figura principal a imagem do compositor, sua sanfona, além de paisagens e figuras do cotidiano do sertão, a exemplo do cangaceiro com espingarda, bandas de pífanos, tocadores de triângulos, vaqueiros etc.

1. Álbum: A história do Nordeste na voz de Luiz Gonzaga

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Fonte: Acervo Fundação Joaquim Nabuco. Foto da capa do LP (10 polegadas), sem autoria.

A capa desse álbum traz o encarnado como cor de fundo, que dá realce ao título do álbum na cor amarela e à ilustração desenhada ao centro com traçado em branco. A arte mostra um grupo de cinco cangaceiros a cavalo com indumentária sertaneja: gibão, chapéu de couro, cartucheira e espingarda, além de uma vegetação típica do sertão, na qual observa-se uma árvore seca, sem folhas e mandacarus no fundo do desenho.

 

À frente, próximo à árvore, vê-se um cangaceiro, com chapéu diferenciado, apresentando uma estrela maior, com espingarda na mão esquerda. Ao lado dessa figura, uma personagem que se distingue dos outros pelas vestes. Ela traz um chapéu de abas, cabelos aparentes e manta sobre o ombro. Essa figura em particular não traz arma; a mão aparenta apoiar-se na cintura, sugerindo uma figura feminina.

Esse álbum não traz na capa a imagem do compositor e cantor Luiz Gonzaga. Sua capa faz alusão a um grupo de cangaceiros, personagens históricas no cotidiano do sertão nordestino. 

Na contracapa, observa-se a ausência do autor no que se refere à ilustração e ao texto, que relata um pouco da biografia do compositor e cantor Luiz Gonzaga.

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Fonte: Acervo Fundação Joaquim Nabuco. Foto da contracapa do LP (10 polegadas), sem autoria.

A arte gráfica retrata um período histórico particular do Sertão nordestino e traz as figuras dos cangaceiros junto ao seu comandante, Virgulino Ferreira, conhecido como “O Rei do Cangaço”, além de sua mulher, Maria Bonita. O álbum, gravado na década de 1950, chama atenção por trazer uma característica típica das primeiras capas personalizadas em disco LP 33 rpm que começaram a surgir no final de 1940, em que o design era constituído por uma ilustração feita à mão.

 

É a partir dos anos de 1950 que a produção de capas de discos no Brasil começa a criar corpo. Muito embora, nessa época, o design gráfico apresentava-se, no Brasil, sem unidade e critérios formais. Nesse contexto, os profissionais em ilustração de capas de disco tornaram-se personagens fundamentais para o sucesso do long play.

Arte visual e música tornam-se parceiros capazes de transformar e relacionar o conteúdo intelectual do disco à arte gráfica. Inclusive, muitos valiam-se do contato com o mundo musical da região para elaborarem verdadeiras obras de arte. É o que nos mostra a capa do referido disco. 

A ilustração também mostra o início da preocupação do mercado fonográfico em chamar a atenção do consumidor por meio da arte, pois muitas capas de discos remetiam ao contexto histórico e social de uma determinada época. Assim, a arte dessa capa atenta para a sensibilidade do ilustrador anônimo, no que diz respeito a retratar o imaginário do sertão.  

2. Álbum: Luiz Gonzaga: Eu e meu pai

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Fonte: Acervo da Fundação Joaquim Nabuco. Foto da capa do LP (12 polegadas): Luiza Maciel

A arte visual desta capa em particular se difere da anterior pela produção. A ilustração, de autoria da capista Luiza Maciel, traz imagem do compositor ao centro da capa, com chapéu de couro e sorriso nos lábios. A imagem de Luiz Gonzaga é circundada por figuras e personagens do Sertão nordestino, são sanfoneiros, tocadores de pífano, dançadores de forró, vaqueiros, Padre Cícero, igreja e Lampião apresentando espingarda na mão e o bando de cangaceiros. Toda essa ilustração é pintada em branco sobre fundo preto. O nome do compositor é destacado em vermelho e o título da obra, em amarelo sobre fundo cinza.

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Fonte: Acervo da Fundação Joaquim Nabuco. Foto da capa do LP (12 polegadas): Luiza Maciel

A contracapa apresenta a cor de fundo vermelha acompanhada do texto de Luiz Manoel Siqueira destacado na cor branca. O texto fala sobre a relação do compositor com a sua terra e com seu pai; traz fotografias, em preto e branco e colorida, de Luiz Gonzaga com sanfona e seu pai Januário sentado sobre a cama.

As imagens da capa e da contracapa mostram respectivamente a relação do compositor com figuras e personagens do imaginário social e cultural do sertão e, por outro lado, numa perspectiva mais intimista, o afeto do compositor com seu pai.

Fonte: Acervo da Fundação Joaquim Nabuco. Foto da capa do LP (12 polegadas): Luiza Maciel

2. Álbum: Luiz Gonzaga: Eu e meu pai

A contracapa apresenta a cor de fundo vermelha acompanhada do texto de Luiz Manoel Siqueira destacado na cor branca. O texto fala sobre a relação do compositor com a sua terra e com seu pai; traz fotografias, em preto e branco e colorida, de Luiz Gonzaga com sanfona e seu pai Januário sentado sobre a cama.

As imagens da capa e da contracapa mostram respectivamente a relação do compositor com figuras e personagens do imaginário social e cultural do sertão e, por outro lado, numa perspectiva mais intimista, o afeto do compositor com seu pai.

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 Fonte: Acervo da Fundação Joaquim Nabuco. Foto da capa do LP (12 polegadas): Herondy Lucena. 

A capa deste álbum, gravado em 1982, traz imagem fotográfica do compositor Luiz Gonzaga de perfil, em sua terra natal, com indumentária branca, chapéu e gibão de couro, com os braços abertos voltados para o céu, olhando uma ave branca que se aproxima de uma de suas mãos. A paisagem policrômica da capa mostra plantações rasteiras próximas a um riacho que é destacado na cor azul claro.  Ao fundo, observa-se um céu azul de tonalidade leve com algumas nuvens e geografia com relevos e depressões, paisagem típica da região semi-árida do Nordeste; abaixo, casarios brancos e vegetação verde. 

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Fonte: Acervo da Fundação Joaquim Nabuco. Foto da contracapa do LP (12 polegadas): Herondy Lucena.

Na contracapa, vemos a mesma paisagem, sendo que o pássaro branco se encontra pousado na mão do compositor, que o observa com sorriso nos lábios, característica presente na representação visual da face do cantor e compositor.

Essa composição mostra a presença da ave, conhecida como “Asa branca” no sertão nordestino, que simboliza a esperança da chegada da chuva na região. 

Historicamente, a seca é um problema geopolítico na referida área, o que obriga a migração de uma legião de nordestinos que partem, num Pau de Arara (meio de transporte usado na região), a caminho da cidade grande em busca de emprego e sobrevivência para manutenção da família. A história de Luiz Gonzaga representa a saga de muitos nordestinos que abandonam sua terra e sua família para arriscar a vida na cidade grande. 

Essa composição de Herondy Lucena (autor da capa) traz elementos que se destacam na policromia da paisagem.

 

A chegada da ave branca (Asa Branca) que, nessa composição quase onírica, simboliza um elemento mítico para o sertanejo, representa a esperança do retorno da chuva, da paisagem verde e dos tempos de fartura no Sertão. Possivelmente, essa simbologia mítica se estende à tipografia com letras em formato antigo, estilo “gótico”, remetendo à forte fé e religiosidade que habita o imaginário histórico e social do nordestino. O Long play traz, na primeira faixa, a música: O Rei volta para casa, que intitula o álbum. O disco foi lançado em 1982, período de surgimento de novos movimentos musicais na MPB, tais como a Bossa Nova, em 1950; o Tropicalismo, no final da década de 1960 e o Pop Rock dos anos 1980, o que resultou em novos rumos e interesses da indústria fonográfica brasileira.

Considerações Finais

 

A partir dos três álbuns, busquei constituir uma Iconografia Musical do afeto,      centrada numa razão sensível, o que oportunizou o diálogo entre o logos (razão/ estrutura), proposto pela Iconologia de Panofsky, e a philia (amor/sensibilidade) que surge como um elemento imprescindível “a arte de fazer arte” e a “arte” de descrever uma obra artística”, o que nos leva a considerar que é possível interpretar a vida social  levando-se em consideração novos olhares expressos na arte, os quais podem incluir o aspecto sensível impregnado na afetividade e na humanidade, a fim de se amadurecer uma visão integrativa de uma obra de arte, que envolve os aspectos socio-histórico-culturais e também o aspecto psicológico.

Este estudo, ainda que aberto a novas interpretações, pode contribuir com pesquisadores iniciantes ou mesmo com aqueles que, de alguma forma, foram afetados pelos efeitos narrativos das músicas e imagens das capas de discos do cantor, sanfoneiro e compositor Luiz Gonzaga.

A AUTORA

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Elizabeth M. Carneiro da Silva é graduada em Psicologia,  mestra em Sociologia pela Universidade Federal da Paraíba e assistente em ciência e tecnologia da Fundação Joaquim  Nabuco/Cehibra/Fonoteca.

PARA SABER MAIS 

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DURAND, Gilbert. Estruturas antropológicas do imaginário. Cidade: Editora, 2002.

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MAFFESOLI, Michel. Elogio da razão sensível. Petrópoles: Vozes, 1998

PAIS MACHADO, José. Vida Cotidiana: enigmas e revelações. Cortez, São Paulo, 2003.

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TEDESCO, João Carlos. Paradigmas do cotidiano: introdução à contribuição  de um campo de analise social. Edunisc; Passo Fundo:UPE,2003.

COMO CITAR ESSE TEXTO

SILVA, Elizabeth M. Carneiro da. Luiz Gonzaga : figuras do cotidiano imagético musical  do compositor em capas de disco. Uma iconografia do afeto. (Artigo). In: Coletiva - Villa Digital. nº 12. Publicado em 22 jun. 2022. Disponível em https://www.coletiva.org/villa-coletiva-n12-luiz-gozanga-figuras-imageticas-do-compositor-em-capa-de-disco. ISSN 2179-1287.

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