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Educação e 

Diferenças e...

Editores Temáticos: Alik Wunder e

Antonio Carlos Rodrigues de Amorim

nº21 | 13 de abril de 2022

Dos  intermezzos ou “O que foi que aconteceu?”

Davina Marques

Tenho me dedicado a pensar pelos meios. A palavra “entre” aparece em muitas das minhas escritas e, quanto mais busco compreender esse miolo das coisas, dos seres e das relações, mais a coisa parece se alargar e alargar.

Entre fabulações, entre literatura-cinema-filosofia, entre questões indígenas, afro-brasileiras, africanas de língua portuguesa, entre...

Ad-entro o entre e descubro um mundo de gente pensando a respeito disso. Com Gilles Deleuze e Félix Guattari, os seus intercessores = artistas e pensadores singulares, com as torções que eles provocam em ou a partir do que leem..., sigo estudando. “Até quando, Davina?” – quando se surpreendem estudantes, amigos, familiares. “Eu gosto” – tem sido a resposta. Máquina desejante.

Tenho buscado compreender o que acontece quando... Quando alguém se envolve com projetos de pesquisa e de extensão na instituição em que trabalho, os institutos federais (IFs), por exemplo. A carga curricular dos nossos cursos de Ensino Médio  é desafiadora para muitos e muitas estudantes. Pois eu saúdo essa gente que vem com garra e disposição para fazer e acontecer na nossa escola. E, com 16, 18 disciplinas do currículo regular, eles e elas ainda têm pique para se dedicar a projetos de pesquisa e de extensão, ou para se envolver neles.

As pesquisas e as extensões não são intermezzos, talvez seja necessário deixar isso claro. A pesquisa e a extensão com-põem-se como parte integrante da formação que os IFs promovem. Intermezzos estou chamando os espaços-tempos que atravessam os projetos ou que dilatam o tempo cronológico para os tempos intensivos ganharem força. Temos os intermezzos da disposição para entrar em um projeto e da formação; os da preparação e da oferta de oficinas e rodas de conversas; os intermezzos da criação e da participação em eventos; e os da experimentação, da pesquisa e da criação artística.

 A minha questão é como esses dois elementos do tripé mexem com quem participa dos projetos. A pesquisa e a extensão, é preciso lembrar, também compõem a carga horária docente. Então o meu questionamento, que, a princípio, se referia a participantes dos projetos, também tem a ver comigo. 

Se somos compostos ou feitos de linhas e fluxos [1], que movimentos singulares fazem de nós o que somos?

Responder passa por entender os des-caminhos do mangue, das picadas, dos desejos – o emaranhado dos fios.

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Figura 01: Des-caminhos de um eu. Fotografia com pós-produção (2021).

Acervo pessoal.

Deve ter acontecido algo, que não saberemos o que foi, mas que é da ordem do incorpóreo, daquilo que nos coloca em contato com um imperceptível, diriam os filósofos franceses que me inspiram (DELEUZE; GUATTARI, 2004). No entrecruzamento das linhas há estruturações, saltos, fugas, fissuras, rompimentos, atravessamentos.

De repente, surge a possibilidade de se trabalhar em um projeto como bolsista. E alguém se coloca como desejante bolsista. Atravessa-se um processo de seleção para uma única vaga. Conexões de todo tipo. E, no desenrolar dos caminhos escolhidos, nas palavras de uma das bolsistas, “meu pensar, meu falar, meu agir transformados por poder ouvir, sentir e compartilhar”.

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Figuras 02 e 03: O câmpus e os deslocamentos de formação. Fotografia e fotografia com  pós-produção (2021).

Acervo pessoal.

Quando experimentamos algo de maneira singular, somos afetados para sempre, deixamos de ser os mesmos. Entramos em ressonâncias outras. Através da experiência sensível (pelas vias das percepções), entre outras formas de ver e de sentir, nossos corpos são habitados e atualizados por gérmens e outros mundos antes em estado virtual (ROLNIK, 2018).

Em espaços-tempos entre, experimentamos leituras, viagens, encontros com filmes e obras de arte e cultura.

No entre, vislumbramos outras vidas e entramos em contato com todo um tecido conjuntivo de um possível funcionar rizomático. Os meios de individuação [2] em que mergulhamos nos projetos de pesquisa e de extensão movimentam instabilidades, dobras, que podem nos levar a outras singularidades de ser. As individuações são transitórias, dinâmicas, sujeitas a acontecimentos e a devires. Nas experimentações, as criaturas e os seres mudam.

Assim, no entre de intermezzos, vamos nos fazendo o que somos, bordados singulares.

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Figura 04: Do bordado sobre nós – marcas incorpóreas. Fotografia com pós-produção (2021). Acervo pessoal.

E o que foi que aconteceu? 

Nas palavras de uma outra bolsista, em um “processo de construção do conhecimento que não parou nos livros, nas oficinas, nos relatórios”, na concretude de conhecer toda “uma existência marcada por violências, tristezas, injustiças, mas muita beleza também – sobretudo a beleza e a singularidade de viver”, tudo isso “abalou algumas das minhas crenças, desconstruiu alguns pensamentos e edificou muitas outras percepções que carrego para a minha vida acadêmica, profissional e pessoal também”.

Ao pesquisar sobre como participantes de projetos de pesquisa e de extensão se des-envolvem, sendo eu mesma participante, reencontro o meu próprio movimento de individuação. É desejo e vontade de seguir linhas, linhas maleáveis e livres. Isso é o que os projetos de temática indígena, africana ou afro-brasileira têm a potencialidade de fazer.

AGRADECIMENTOS

Este é um desdobramento dos meus estudos de Pós-Doutoramento em Educação, junto à Faculdade de Educação – UNICAMP, supervisionado pelo Prof. Dr. Antonio Carlos Rodrigues de Amorim. Agradecemos o financiamento da Pró-Reitoria de Desenvolvimento Institucional do Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia de São Paulo (IFSP), que viabilizou o afastamento remunerado para esta etapa de sua formação através de processo seletivo no Edital DDGP-PRODI-CPPD nº 2/2020.

NOTAS

[1]  Eu já escrevi sobre isso aqui: Marques, 2007. Deleuze aqui: Deleuze, 2005. Deleuze e Guattari em volumes de Mil Platôs e em Anti-Édipo (2002 a/b, 2004, 2006, 2011).

[2]  Para estudar individuação, veja Sauvagnargues 2012, 2016, 2020; Orlandi, 2015.

PARA SABER MAIS

DELEUZE, Gilles. Derrames entre el capitalismo y la esquizofrenia. Traducción Equipo Editorial Cactus. Buenos Aires: Cactus, 2005. 

DELEUZE, Gilles; GUATARRI, Félix. Mil platôs: capitalismo e esquizofrenia. Volume 1. Tradução de Aurélio Guerra Neto e Célia Pinto Costa. São Paulo: Ed. 34, 2006.

DELEUZE, Gilles; GUATARRI, Félix. Mil platôs: capitalismo e esquizofrenia. Volume 3. Tradução de Aurélio Guerra Neto, Ana Lúcia de Oliveira, Lúcia Cláudia Leão e Suely Rolnik. São Paulo: Ed. 34, 2004.

DELEUZE, Gilles; GUATARRI, Félix. Mil platôs: capitalismo e esquizofrenia. Volume 4. Tradução de Suely Rolnik. São Paulo: Ed. 34, 2002a.

DELEUZE, Gilles; GUATARRI, Félix . Mil platôs: capitalismo e esquizofrenia. Volume 5. Tradução de Peter Pál Pelbart e Janice Caiafa. São Paulo: Ed. 34, 2002b. 

DELEUZE, Gilles; GUATARRI, Félix O Anti-Édipo: capitalismo e esquizofrenia Tradução de Luiz B. L. Orlandi. 2.ed. São Paulo: Ed. 34, 2011. 

MARQUES, Davina. Experimentações: deleu-guata-roseando a educação. Dissertação (Mestrado em Educação)– Faculdade de Educação, Universidade Estadual de Campinas, Campinas, SP, 2007. Disponível em: http://repositorio.unicamp.br/jspui/handle/REPOSIP/252035. Acesso em: 23 fev. 2021.

ORLANDI, Luiz B. L. Indivíduo e implexa individuação. doispontos, Curitiba, São Carlos, v. 12, n. 1, p. 75-82, abril de 2015.

ROLNIK, Sueli. Esferas da insurreição: notas para uma vida não cafetinada. São Paulo: n-1 edições, 2018.

SAUVAGNARGUES, Anne. Artmachines: Deleuze, Guattari, Simondon. Tradução para inglês de Suzanne Verderber e Eugene W. Holland. Edinburgh: Edinburgh University Press, 2016.

SAUVAGNARGUES, Anne. Crystals and Membranes: Individuation and Temporality. In: BOEVER, Arne De; MURRAY, Alex; ROLFE, Jon; WOODWARD, Ashley (org.). Gilbert Simondon: being and technology. Edinburg: Edinburgh University Press, 2012. p. 57-70.

SAUVAGNARGUES, Anne. Somos nada mais que imagens. [Entrevista cedida a] Édio Raniere. Registro e tradução de Lilian Hack. Revisão de Rosane Neves. Revista Polis e Psique, v. 10, n. 1, p. 06-29. 2020. Disponível em: https://doi.org/10.22456/2238-152X.97503. Acesso em: 29 out. 2021.

A AUTORA

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Davina Marques é doutora em Letras pela Universidade de São Paulo e docente no Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia de São Paulo, no Câmpus Hortolândia. Integra o Humor Aquoso, do OLHO - Laboratório de Estudos Audiovisuais (UNICAMP); o GENAM - Grupo de Pesquisa em Literatura, Narrativa e Medicina (USP); o GEPLES - Grupo de Pesquisa Grupo de Estudos e Pesquisas em Linguagem, Ensino e Sociedade (IFSP-HTO); e o NEABI - Núcleo de Estudos Afro-brasileiros e Indígenas (IFSP).

E-mail: davina.marques@ifsp.edu.br 

COMO CITAR ESSE TEXTO

MARQUES, Davina. Dos intermezzos ou “o que foi que aconteceu?” (Artigo). In: Coletiva - Educação e Diferenças e… nº 21. Publicado em 13 de abril 2022. Disponível em: https://www.coletiva.org/educacao-e-diferencas-e-n21-dos-intermezzos-ou-o-que-foi-que-aconteceu-davina-marques. ISSN 2179-1287.

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