Foto: acervo pessoal da autora.

Educação e 

Diferenças e...

n º 13 | 25 de maio de 2020

Editores Temáticos: Alik Wunder e

Antonio Carlos Rodrigues de Amorim

Mundo Recife-Capibaribe, um rio que é o mundo

Profa. Ma. Waldirene de Jesus

            Rio que é um mundo (in Febre do Rato). O Rio Capibaribe é o rio de corpos e poesia, rio do submundo. Rio dos excluídos e da minoria que sobrevive entre as suas margens.

 

            O Rio é puro movimento, fluir, devir... 

            Os encontros com o rio/água são linhas de fuga, são instantes-rio temporários. O rio nunca enquadra, passa e faz tudo se movimentar.

           O Rio prolifera sentidos, passa pelos ratos, pelo sangue, pelo suor, pelo esgoto, pela urina e resiste. 

          No rio coexistem capivaras, pedras, caranguejos, homens, sapos, ratos, cadáveres e esgoto. Nunca há mistura, mas contaminação pelos movimentos/moléculas do rio. Aparecimento de “corpos que não o são”, corpo homem-esgoto, corpo cadáver-rato etc.

                Proliferam devires. Territórios do homem-peixe-capivara-rato-caranguejo-sapo-pedra-esgoto. Podemos sentir os cheiros, os sons e poesias. Nos afectamos pelas imagens e pela falta do rio.

                O filme Febre do Rato questiona o modelo de progresso. Nas palavras de Josué de Castro é rio poluído e da pobreza. Rio da exploração do rico pelo rico e do pobre pelo pobre, indiferenciados em um cenário de capitalismo/consumismo. Rio do homem que produz a “merda” e come. Na voz do personagem Zizo:

Um homem 

Que produz a merda 

Que suja o mangue

Que nasce caranguejo

Que é comido pelo homem

Que produz a merda

 

Josué de Castro (in Febre do Rato)

 

Recife começa no rio. Rio liso. Cidade sem começo nem fim. 

 

Gente que vive às margens do progresso e fora dele. Bandeira coração.

         No início do filme a câmera acompanha o rio. Vemos a imponência do Rio nos minutos iniciais. Aos poucos o rio vai sendo excluído das cenas, mas segue seu curso. Os personagens não podem encerrar suas vidas no filme. Libertar os personagens e o Rio, trazê-lo de volta ao fundo e nas escritas.  Às margens do rio Capibaribe uma série de casas precárias.  Vemos casas em construção precária às margens do rio. Vemos uma  imagem colada de “cabeça para baixo”, preanunciando as reviravoltas do filme e de Recife.

A

imagem fragmentada e invertida.

             Recife às avessas. Formas raras de vida que coexistem com rio e resistem.

             Nas palavras de João Cabral de Melo Neto, um rio que atravessa o “avesso” da cidade:

“A gente da cidade

Que há no avesso

Do Recife

 Tem em mim um amigo,

 Seu companheiro mais íntimo.

 Vivo com esta gente,

 Entro-lhe pela

Cozinha;

Como bicho de casa

 Penetro nas camarinhas.

 As vilas que passei

Sempre abracei como amigo;

Desta vila de lama

 É que sou mais do que amigo:

 Sou o amante, que abraça

Com corpo mais confundido;

Sou o amante, com ela

 Leito de lama divido. ”

 MELO NETO. Obra completa, p. 140-141.

                                Na sequência do filme, as imagens reforçam a ideia de ver Recife por uma outra janela. O personagem apresenta, territorialidades de minoria. As vidas públicas e privadas não seguem os modelos dominantes e esperados. 

          Recife está além do inferno na piada. Cenário marcado pelas desigualdades sociais. Aos olhos de Zizo, uma Recife dos que perderam a capacidade de espernear para as coisas mudarem, dos que desaprenderam. O “homem que não ri” e não consegue ver por outras janelas e só conhece as verdades postas habita Recife. Segundo o poeta este é o homem ao qual devemos tomar distância. Devir verdade.

                                O mundo Recife nas imagens de Cláudio de Assis é puro gozo. Gozo das linguagens e dos corpos que são criados. Gozo dos pensamentos.

                                Gozo de ideias em desterritorialização.

                                Recife tem o cheiro do mangue e o gosto do caos:

Vocês aí dos prédios, vocês sabem o cheiro que essa cidade tem? Pois eu lhes digo o cheiro dessa cidade é o cheiro do mangue. Vocês aí desse prédio vocês sabem o barulho que essa cidade tem, se não sabem eu lhes digo, que o barulho dessa cidade é o tamanco das lavadeiras de casa amarela. Vocês aí dessas pontes, vocês sabem o gosto que essa cidade tem? Se não sabem eu lhes digo que o gosto é o gosto das putas abandonadas do caos.

                                  Gozo da água. A água está sempre à espreita dos corpos e da terra. Aparece e desaparece. Encher e esvaziar fazem parte da rotina dos personagens e do Rio. A urina no Rio denuncia a exclusão da Natureza. Ratos e capivaras sobrevivem no Rio. 

                            Deixar sobreviver os ratos e sua loucura. Loucura de viver de restos, de lixo, de cadáveres, corpos que não estão livres da febre, da água que embebe, contamina e se contamina. Devir rato. Sobrevivem os ratos e toda contaminação, sobrevivem os poetas e o homem- caranguejo. A água dilui palavras, corpos e imagens. Tornam menos sólidos os pensamentos. Cachaça.

Água é palavra amiga.

Liquida adentra a lin-gua.

Enxagua a régua que regra.

Fluir dá a vida e da poesia. 

Corre pelo corpo do poeta, seu sangue e suor.

Na poesia-Capibaribe a palavra vem molhada e suja.

A imagem cinzenta.

Cada corpo é uma várzea.

Corpo, imagem e poesia lutam junto ao Rio.

Afogam-se no mar.

Quem viu o mundo? 

O rio avistou a cidade de pedra, esse seu desvio, seu erro. Queria o rio também se contaminar pelas calçadas de cimento?

Ler o Rio. Escutar e falar com o Capibaribe.

Tempo de ajuntamento...

No objetivo de experimentar as potencialidades entre o audiovisual e a Filosofia, na dissertação Rio Capibaribe:  experiment-ação/desterritorializ-ação  do ambiente,  resistência e minoridade, defendida em 2016 no Mestrado em Divulgação Científica e Cultural,  conceitos foram tomados nas conexões com a forma resistência-minoria.

Frag-movimentos foram criados a partir do filme Febre do Rato de Claúdio de Assis, dos conceitos de Deleuze & Guattari como devir e desterritorialização, pelas imagens feitas a partir do Rio Capibaribe e da exposição Capibaribe: Meu Rio, no Forte Cinco Pontas em Recife com Curadoria de Betânia Corrêa de Araújo e Dirceu Marroquim. 

Pedaços de imagens e de palavras atormentadas pelas forças do devir e do Rio Capibaribe-Recife são o registro do relançar-se continuamente nos espaços entre territórios, trazendo/criando novas possibilidades de ver/criar/pensar/espalhar e experimentar o mundo. 

Os fragmentos questionam e se questionam, a tudo e a todos, contaminam-se e se re-ajuntam, criam pontas, pequenas fugas, re-e-ex-istem, movimentam… Frag-movimentam.

Notas

Todas as imagens pertencem ao acervo pessoal da autora.

AUTORA

Profa. Ma. Waldirene de Jesus é formada em Ciências Biológicas pela PUC-Campinas, em 1999, e com Mestrado em Divulgação científica e cultural, em 2016. É professora da rede pública de ensino há mais de 20 anos.

Anteriores 

Maria Luiza Sussekind

Sara Wagner York

Lorena Azevedo do Carmo

| nº12 |  02 de março de 2020

Érica Speglich

Vivian Battaini

Rachel Andriollo Trovaelli

| nº11 |  24 de janeiro de 2020

Sandra Kretli da Silva

Gláucia Conceição Carneiro

| nº10 |  9 de dezembro de 2019

APOIO
LABJOR/UNICAMP
REALIZAÇÃO
FUNDAÇÃO JOAQUIM NABUCO