Foto: Eduardo Prestes Massena, UNIRIO, 2019.

Educação e 

Diferenças e...

n º 12 | 24 de fevereiro de 2020

Editores Temáticos: Alik Wunder e Antonio Carlos Rodrigues de Amorim

- Quem vai ao banheiro é o que?

- É gente. [1]

Maria Luiza Süssekind

Sara Wagner York 

Lorena Azevedo do Carmo

Entre rolos de papel higiênico, ódios e solidariedades, à captura das intervenções em nossa intervenção, currículos nos escorrem pelas mãos. Apostando conhecer nos fluxos e deslocamentos, fazendo com coletivos-singulares complicados e implicados nas conversas, no ano de 2019, decidimos apresentar os resultados de nossas investigações, também, sob uma estética de ocupação. Organizamos a Intervenção Curricular na qual bricolamos, em 13 banners e uma gravação, alguns rastros das escritas produzidas pelos estudantes, e montamos no banheiro masculino [2]. Tessituras de múltiplos sentidos de currículos que apareceram nas escritas de final de semestre, como palimpsesto, rascunhavam as cartografias das abissalidades habitantes dos conhecimentos curriculares, das políticas educacionais, e nas arquiteturas sociais e edificadas. Anteriormente, argumentamos no sentido de entender que  

os currículos e as escritas são criados cotidianamente como uma conversa complicada e que por isso há a necessidade de ouvir o que os praticantes da vida cotidiana têm a dizer se queremos entender os conhecimentos como condição de existência na relação entre as pessoas

Quase-metáfora dos currículos CISheteropatriarcais, coloniais, racistas e euroNortecentrados [3], o banheiro masculino - nada hospitaleiro para quem não atinge o padrão de masculinidade CISfalocentrada, com seus imponentes mictórios fixados nas paredes de modo acessível ao escrutínio do olhar público que mapeia silenciosamente os lugares sociais pertinentes às diferenças entre as genitálias e suas funções – foi ocupado e TRANSformado em galeria pela estética grafitada, pelas escritas desobedientes e percorrido por corpos que rejeita e nega. Onde o sujeito bem assentado na autoafirmação fálica faz uso do coxo (espaço coletivo onde se mija em pé) e os outros fazem uso da "casinha" - o espaço privativo, invisível, como é o banheiro feminino. Demarcadores de violento binarismo, território controlado, cujos usuáriosproprietários não admitem a diferença, como no recente caso de Lanna Hellen, mulher trans, expulsa de um banheiro público feminino, era ocupado pela Instalação, e se movimentava em direção a territórios pós-abissais.

Foto:  Exposição Conversas na/da/com a formação: uma instalação curricular. (Eduardo Prestes Massena, UNIRIO, 2019).

Antes de inverter o mapa e chegar ao banheiro, e, como apelidamos, fazer o Banherão precisamos falar sobre a Prova Platô. Desde o ano de 2016, inspirados por Deleuze e Guattari, ao final dos cursos de Currículo [4], vimos utilizando uma forma de registro conversado em que estudantes escrevem sobre o que aconteceu e o que aprenderam. Não atribuímos nota a essa prova já que os registros deixados nas inúmeras páginas de prova são anônimos e compartilhados. Com a invenção da Prova Platô registramos pessoas comuns criando - como já indicava o historiador Michel de Certeau (1994): teorias curriculares, conhecimentos, em situações de formação que valorizam o dissenso, as práticas orientadas para o Sul epistemológico, ou, para uma política da diferença, num esforço de autoria sem assinatura. Estudantes, acreditamos, têm encontrado nas provas espaço para expressar, além de suas aprendizagens referentes aos conteúdos das disciplinas, suas insatisfações, angústias, desejos, solidariedades, ressentimentos, ódios e o que mais lhes aflore. 

Os infinitos usos que nos permitem estas provas além do sentido de interação, compartilhamento e registro, a posteriori dos currículos criados a cada semestre, indicam-nos, também, pistas para pensar as teoriaspráticas com currículos e a formação de professores. A valorização ecológica e reconhecimento da pluralidade dos saberes com a utilização da Prova Platô, ao nosso ver, é uma posição política identificada com a luta pela educação pública, laica e democrática como um espaço de enfrentamento ao pensamento abissal. Leituras das mais de oitocentas páginas de Prova, trazem manifestações de ódio para a par com solidariedade e sororidade reforçando nosso argumento de que currículos são vivos e feitos de vida, transbordam os conhecimentos acadêmicos, deslocam mapas abissais em escritas múltiplas, e, enredam poemas, relatos, figuras, referências e conversas - sim, muitos são os comentários aos escritos dos colegas... Nas conversas curriculares inaudíveis que se fizeram rabiscos, nos perguntamos: Quantos corpos usam cabines minúsculas para gritar em meio aos sons de descarga? Quantos conhecimentos curriculares habitam as escritas dos cubículos que se dizem sanitários? 

 

 

 

Foto:  Exposição Conversas na/da/com a formação: uma instalação curricular.  (Eduardo Prestes Massena, 2019).
 

Levados ao banheiro, os resultados da pesquisa nos permitiram ocupar esse território que compõe os cotidianos de escolas e universidades deslocando-o do abismo, abalando as prescrições controladoras de como usar os artefatos, e invertendo a equação em que o banheiro deixa de ser público, limitando, controlando, abissalizando, desumanizando e invisibilizando usos possíveis, que são infinitos. Entre usos e ocupações, como os cotidianos enredam-se na diferença, nas artes dos fazeres invisíveis, fato interessante, em nosso segundo Banherão, os funcionários responsáveis pela limpeza de banheiros que não podem usar, chamavam os colegas a visitar e propagandeando a exposição no “banheiro mais cheiroso” da UNIRIO. Assim, o banheiro público, pensado como mais um dos limites/fronteiras/território curriculares onde os direitos humanos são obnublados, a partir da discussão do sociólogo Boaventura de Sousa Santos (2013) acerca do acesso aos direitos humanos, é problematizado sob a afirmação de que “a grande maioria da população mundial não é sujeito de direitos humanos. É objecto de discursos [de direitos humanos]”. Ou seja, embora público, nem todo mundo pode ir ao banheiro, como afirma o filósofo Paul B. Preciado (2019), já que o CISheteropatriatcado se utiliza de tal determinação (in)contestável para projetar um futuro a partir da violação de sua própria premissa, tornando a maioria dos sujeitos das escolas objetos dos discursos dos direitos humanos, e não os assumindo como sujeitos desses direitos. De modo abissal, faz uso das distinções invisíveis para criar hierarquias visíveis que qualificam, ou não, as pessoas a serem seus usuários. 

É nesse sentido que a discussão proposta pelo sociólogo a respeito dos direitos humanos beneficia-se quando enredada à afirmação do direito ao uso dos banheiros públicos em detrimento do binarismo banheiro femininoXmasculino. Se por um lado os direitos humanos se tornam símbolo incontestável de dignidade humana, por outro o discurso sobre os direitos humanos é empregado para justificar sua própria violação. Questões como quais outras lógicas de dignidade humana existem no mundo, se a hegemonia dos direitos humanos na contemporaneidade seria uma vitória ou uma derrota, ou até mesmo se seria possível produzir usos contra hegemônicos de tal entendimento dos direitos humanos que não protegem grande parte da população mundial, são nossas dúvidas pertinentes. Assim, as batalhas cotidianas exigem admitir que as diversas perspectivas de conhecer o mundo, se não hegemônicas, por exemplo, não existem como conhecimento, como também os usos, a emoção, o feminino, a infância, o gênero e outras experiências relacionais e sociais têm silenciadas suas potências criadoras de conhecimentos. No território abissal, as pessoas comuns, professorxs, estudantxs e “os produtos do trabalho se tornam mercadorias, coisas sociais, com propriedades perceptíveis e imperceptíveis”, como afirmado por Karl Marx (1977).

Além de compartilhar o trabalho construído na pesquisa, a instalação torna-se obra coletiva a cada montagem, compartilhada ativamente com visitantes, uma vez que, ao seu final, uma “porta de banheiro” fica disponível para registros sobre o que viramouviramsentiram. No caminho de Bacurau, lembramos que, a todo tempo, alguém interpela "você conheceu o museu?" aos visitantes, numa prática curricular sobre onde são guardadas e o que é a memória, mas ainda, de onde, sempre partem as soluções. Ali, quem frequenta o museu sabe que para tudo há solução e que entre tantas soluções as re(tali)ativas são sempre as menos bem-vindas.

Nesses tempos em que a diferença tem sido caçada por pensamentos ultraconservadores, pesquisamos e escrevemos para resistir, empurrar, deslocar, as linhas abissais do capitalismo, da colonialidade, do CISheteropatriarcado e bacurar [5], reconhecendo as redes de solidariedade para não só sobreviver, mas, viver. Bacurar é valorizar as diferentes formas de conhecer e enxergar até a ave que só sai à noite [6]. É, como se diz, na periferia do Rio de Janeiro, sobre as pessoas, invisibilizadas, que precisam cotidianamente sobreviver às violências dos transportes coletivos, de quem volta tarde, no último ônibus, pega o carro bacurau

 

 

 

Foto:  Exposição Conversas na/da/com a formação: uma instalação curricular. (Eduardo Prestes Massena, 2019).
 

O Banherão, sendo território Bacurau, de deslocamento, foi um dos possíveis desdobramentos para nossa pesquisa a partir do vasto material construído com as/xs/os estudantes e foi criado pensando nas milhões de pessoas trans, travestis, mulheres e crianças que temem ir ao banheiro nas escolas e universidades que frequentam. Por isso, finalizamos nossa escrita convidando você para fazer um banherão, mas advertindo que se vier, venha em paz [7]

 

 

 

Notas

[1] Referência ao filme Bacurau, cena em que a personagem, de fora da cidade, pergunta: “Quem nasce em Bacurau é o quê?”. Uma criança do local responde: “É gente!”. (MENDONÇA FILHO; DORNELLES, 2019).

[2] CURRÍCULOS EM FORM-AÇÃO NA UNIVERSIDADE-ESCOLA: currículos, cotidianos, formação de professorxs, diferença e justiça cognitiva JCE/ FAPERJ/Universal/CNPq; CONVERSAS NA/DA/COM OS PROFESSORES – PROExC/UNIRIO. 

[3] Nossa escrita, por estar inserida no campo das pesquisas nosdoscom os cotidianos, emprega a justaposição, escrita e estetização diferenciada de palavras a fim de buscar reinventar as palavras já que a língua[gem] prescrita não alcança acessos aos sentidos do vivido (ver tb. SÜSSEKIND, 2017). 

[4] O Grupo de Pesquisa Práticas Educativas e Formação de Professores/GPPF da Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro/UNIRIO, é formado por professores, estudantes e pesquisadores da graduação, da pós-graduação da instituição e atua em co-docência nas turmas de graduação. 

[5, 6,7] Referência ao filme Bacurau de Kleber Mendonça Filho e Juliano Dornelles, 2019.

PARA SABER MAIS:

 

 

CERTEAU, M. A invenção do cotidiano: artes de fazer. Petrópolis: Vozes, 1994.

 

MARX, K. O Capital. Crítica da Economia Política. Livro 1. Vol. 1., 1a edição 1890. Rio de Janeiro: Ed. Civilização Brasileira, 1977 (?) (s/d).

 

MENDONÇA FILHO, K.; DORNELES, J.. Bacurau. 2019.

 

PRECIADO, Paul B. Lixo e Gênero, Mijar/Cagar, Masculino/Feminino. eRevista Performatus, Inhumas, ano 7, n. 20, abr. 2019. ISSN: 2316-8102.

 

SANTOS, B. S.. Se deus fosse um ativista dos direitos humanos. Coimbra: Ed. Almedina, 2013, 160 pp.

 

SÜSSEKIND, Maria Luiza. O QUE ACONTECEU NA AULA? Políticas, currículos e escritas nos cotidianos da formação de professores numa universidade pública. Teias (Rio de Janeiro), v. 18, p. 134-148, 2017. DOI: https://doi.org/10.12957/teias.2017.30506. Disponível em: https://www.e-publicacoes.uerj.br/index.php/revistateias/article/view/30506. 

 

SÜSSEKIND, M. L; AZEVEDO, L.; GOMES, A. C.; MASKE, J.; MASSENA, E.; NASCIMENTO, S.; PIMENTA, A.; REIS, M.; TKOTZ, S.. Da conversa à prova platô ao banherão Relatos de uma pesquisa nosdoscom os cotidianos à captura de escritas curriculares. In: 9ª Reunião Nacional da ANPEd: Educação Pública e Pesquisa: ataques, lutas e resistências, 2019. Niterói – RJ. Anais das reuniões nacionais da ANPEd. Trabalho Encomendado. ISSN: 2447-2808.

 

SUSSEKIND, M. L.; PAVAN, Ruth. OUTRAS METODOLOGIAS E OUTRAS EPISTEMOLOGIAS: PESQUISAS COM CURRÍCULOS A CAMINHO DE BACURAU. Revista Teias, 2019, v.20, n.59, Pp: 1-7.

Maria Luiza Süssekind, também conhecida como Luli, é professora dos cursos de Pedagogia e Licenciaturas da UNIRIO/Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro. É Cientista do Nosso Estado/FAPERJ, Pesquisadora PQ2/CNPq/Universal/CNPq. Atua como primeira Secretária da ANPEd/ASSOCIAÇÃO NACIONAL DE PÓS-GRADUAÇÃO E PESQUISA EM EDUCAÇÃO. Líder do GPPF/Grupo de Pesquisa Práticas Educativas e Formação de Professores. ORCID: https://orcid.org/0000-0002-7296-615X. E-mail: luli551@hotmail.com 

Sara Wagner York ou Sara Wagner Pimenta Gonçalves Júnior é cabeleireira, mulher trans/travesti, pai, avó e professora de inglês em uma escola pública de ensino fundamental em uma pequena cidade do litoral e faz mestrado em Educação pelo GENI (Grupo de pesquisa liderado pelo Prof. Dr. Fernando Pocahy, com bolsa de estudos CNPq no PROPED/UERJ. E-mail: sarayork@live.com.pt 

Lorena Azevedo do Carmo é mestranda do PPGEdu/UNIRIO e integrante do GPPF. E-mail: lorena.azevedo33@hotmail.com

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