
Pescando Aratus¹
Beatriz Mesquita Pedrosa Ferreira
Este ensaio fotográfico retrata a prática da pesca do aratu realizada por mulheres nos manguezais do nordeste brasileiro.²
Aratus (Goniopsis cruentata) são pequenos caranguejos (crustáceos) avermelhados que vivem nos galhos dos manguezais. Eles são processados e só a sua carne é vendida, já embalada em sacos plásticos. A doçura da carne os torna uma iguaria apreciada no Nordeste do Brasil.
A pesca do Aratu é realizada principalmente por mulheres, para quem é uma fonte de renda e alimento, permitindo que elas sobrevivam sem emprego formal e oferecendo uma certa liberdade em suas vidas. O beneficiamento do aratu é realizado, em sua maioria, na própria residência. Assim, podem dar conta do trabalho doméstico e da criação de seus filhos.
Ao contrário do caranguejo-uçá, o aratu reproduz-se rapidamente, mas ambos os tipos de crustáceos têm seus prós e contras. “Se o aratu se reproduzisse como o caranguejo, não haveria muito o que escolher, já que há muitas pessoas pescando. Temos sorte que ele se reproduz rápido. O caranguejo é menos trabalhoso e rende mais dinheiro do que o aratu. O aratu tem que ser catado antes de ser vendido; o caranguejo não precisa de nenhum processamento desse tipo”.
Aratus são crustáceos de movimento rápido e exigem quietude e paciência para capturar. Eles se movem com a maré e, para capturá-los, as pescadoras precisam ter um conhecimento profundo dos manguezais e marés locais. A pesca de aratu requer habilidades especiais. A capacidade de permanecer quase imóvel e a escolha do local certo nos manguezais são cruciais para o sucesso. Tentar pescar em um local onde outras pessoas recentemente visitaram seria infrutífero, então as pescadoras primeiro inspecionam o local de perto em busca de marcas e sinais que indiquem a recente coleta por outros pescadores. As pescadoras então entram no manguezal e começam a se mover em um círculo enquanto pescam. Se houver homens na área, as mulheres geralmente se movem para outro local.
Este ensaio fotográfico retrata o modo de vida das pescadoras de aratu, bem como os processos de produção que elas seguem. As pescadoras mostradas aqui são lideradas por Elialda Avelino, uma liderança da comunidade de Puxim do Sul, que sempre está acompanhada por dois ou três colegas de trabalho que podem ser familiares ou vizinhas, já que a pesca de aratu nos manguezais nunca é feita sozinha.
As imagens fazem parte da pesquisa intitulada ‘Ecologia política da pesca de crustáceos em manguezais no Nordeste do Brasil’, que foi realizada pela Fundação Joaquim Nabuco, em Áreas Marinhas Protegidas de Uso Sustentável (Resex) no Nordeste do Brasil. Este ensaio é baseado na Resex de Canavieiras, sul da Bahia, Brasil.


Figura 1 – Preparação e organização do material
Este motor foi adquirido pela comunidade há cerca de cinco anos. Como resultado, o tempo de viagem diminuiu e o território de pesca aumentou. A pesca, no entanto, é mais viável quando há quatro pessoas para dividir os custos de combustível.
É uma longa jornada para encontrar o local ideal para pescar, tipicamente, um manguezal que ainda “não foi pescado”, ou seja, não foi colhido na noite anterior. Locais com colmeias de abelhas são estritamente evitados. A escolha do local de pesca geralmente fica a cargo da pescadora mais experiente do grupo.


Figura 2 - Entrando no manguezal, escolhendo o local de pesca
Entrar no manguezal requer conhecimento e atenção. É preciso usar roupas especiais para se proteger de insetos; meias e calçados especiais para facilitar a caminhada e o equilíbrio nas raízes do manguezal; e uma busca meticulosa para decidir onde começar a pescar.
Por que pescar aratu?
“O caranguejo[-uçá] traz mais dinheiro, mas dá trabalho; mais adequado para homens! O guaiamum é mais claro, mas só aparece de vez em quando. O aratu está presente o ano todo. Combina mais com as mulheres. Os homens não gostam, eles preferem o caranguejo.”


Figura 3 - como atrair o aratu?
Atrair o aratu é uma atividade melhor se feita sozinha, e por isso as pescadoras se separam enquanto pescam. Assim como o movimento do corpo humano afasta o aratu, certos estímulos os atraem, incluindo iscas - geralmente pequenos caranguejos chamados almofala (Aratus pisonii); a casca das árvores; e também certos sons, por exemplo, o som de assobios. Muitas pescadoras relataram que nos manguezais, enquanto pescam aratu em silêncio, sentem como se todos os seus problemas desaparecessem. A quietude necessária para atrair as criaturas parece trazer paz para a vida das pescadoras de aratu também.
Cinquenta aratus são necessários para um rendimento de meio quilo de produto processado. A produção diária varia entre meio e dois quilos por dia no inverno, e pode chegar a até oito quilos por dia durante o melhor período de pesca, que é o verão. O tempo de viagem para chegar aos pontos de pesca no manguezal, pescar e voltar ao porto de origem pode levar de quatro a seis horas.



Figura 5 – Processamento
Muito mais trabalho e tempo são necessários na fase de processamento. Os aratus são cozidos logo após a pesca e, então, sua carapaça é removida. Esse trabalho pode se estender até à noite, com um quilo de aratu levando até duas horas para ser processado. O preço do quilo depende da época do ano. No verão, quando a produção é maior, o preço fica em torno de R$ 20,00 (5 USD). As conchas residuais são usadas como fertilizante e ração para galinhas. Os ovos produzidos com alimentação à base de cascas de aratu têm a gema vermelha e são considerados como de melhor qualidade. As mulheres relatam que a produção vem diminuindo. Nos últimos 20 anos, a prática da pesca noturna com luzes, realizada principalmente por homens, embora proibida no Acordo de Gestão da Área Marinha Protegida Resex Canavieiras, cresceu.
NOTAS
2 Gostaria de agradecer aos pescadores e lideranças que me apresentaram seu universo pesqueiro. Aos gestores da Resex de Canavieiras; à Amex - Associação Mãe da Resex que organiza os extrativistas e às pescadoras de Puxim do Sul, na pessoa de Elialda Avelino, que me acolheu em sua casa.
PARA SABER MAIS
ARAÚJO, A. R. R.; BARBOSA, J. M.; OLIVEIRA, I. M. B. Estrutura populacional do aratu
Goniopsis Cruentata (Latreille, 1803) no estuário dos rios Piaui/Real, estado de Sergipe,
Brasil. Acta of Fisheries and Aquatic Resources, v. 9, n. 1, p. 7–18, 2021. < https://doi.org/10.46732/actafish.2021.9.1.7-18>
CARDOZO, L. S. et al. Discussões do Conselho Deliberativo da Reserva Extrativista de
Canavieiras, Bahia, Brasil: da gestão pesqueira à ambiental. Revista de Gestão Costeira Integrada, v. 12, n. 4, p. 463–475, 2012. <https://doi.org/10.5894/rgci367>
DIEGUES, A. C. A Pesca construindo sociedades: leituras em antropologia marítima e pesqueira. São Paulo: Núcleo de Apoio à Pesquisa sobre Populações Humanas e Áreas Úmidas Brasileiras/USP, 2004.
FAO. Voluntary Guidelines for Securing Sustainable Small-Scale Fisheries. Rome: FAO, 2015. 34 p.
ICMBIO. Atlas dos Manguezais do Brasil. 1. ed. Brasília: Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade, 2018a.
A AUTORA

Beatriz Mesquita é pesquisadora do Centro de Estudos de Cultura, Identidade e Memória da Fundação Joaquim Nabuco (Fundaj). Envolvida em pesquisas sobre governança do meio ambiente. É doutora em Recursos Pesqueiros e Aquicultura (UFRPE) com mestrado em Desenvolvimento e Meio Ambiente (UFC).
COMO CITAR ESSE TEXTO
FERREIRA, Beatriz Mesquita Pedrosa. Pescando Aratus(Artigo). In: Coletiva - Política e Cidadania. nº 26. Publicado em 17 set. 2025. Disponível em:<https://www.coletiva.org/div-socioambiental-n26>. ISSN 2179-1287.
Anteriores
Beatriz Mesquita e
Kaylanne Belo
nº 25 | 15 de julho de 2025







