VILLA COLETIVA
Cultura, História  e Acessibilidade
n10| 15 de fevereiro de 2021

Uma “cidade progressista” e sua “gente pitoresca”: imagens do Recife na Revista da Cidade nos anos 1920

Sylvia Couceiro

A Fundação Joaquim Nabuco guarda, em seus diversos setores, um importante acervo para o estudo e compreensão da sociedade brasileira. São documentos textuais, iconográficos, audiovisuais e objetos museais, que testemunham momentos da história do país. O setor de Periódicos Raros da biblioteca Blanche Knopf/Fundaj, conserva e disponibiliza ao público cerca de 15 mil exemplares entre álbuns, folhetos, almanaques e revistas, que contam um pouco da história do cotidiano, política, comportamentos, normas, enfim, da vida social e cultural do Brasil desde finais do século XIX até a virada do século XXI. Fon Fon, O Malho, Scena Muda, O Cruzeiro, são alguns exemplos desse rico patrimônio. Dentre as coleções relativas a Pernambuco, estão preservados títulos como Almanach de Pernambuco, A Pilhéria, Rua Nova, Pra Você e a Revista da Cidade, alguns deles disponíveis on-line na página da Instituição.

A Revista da Cidade, publicada entre 1926 e 1929, é um dos periódicos mais relevantes e emblemáticos para o estudo e compreensão do Recife no início do século XX. Editada por Moraes, Rodrigues & Cia, era um magazine semanal de variedades, que se dedicava ao que se convencionou chamar na época de “vida mundana da cidade”. Em seu primeiro número, a Revista apresentava-se como uma espécie de “representante” da Cidade, comprometendo-se a lutar pelo seu progresso, sem deixar de abordar, os “problemas vários e complexos que são em toda parte os do urbanismo, fixando no comentário fino e leve, mas sempre moralizador e impessoal” (Rev. da Cidade, 29/05/1926).

Capa do 1º número 

(29/05/1926)

Capa do n°56

(18/06/1926)

Ilustração: Lula Cardozo Ayres

Capa do nº06

(03/07/1926)

Capa do n°100

(21/04/1928)

Ilustração: Villares

Nomes expressivos da intelectualidade pernambucana foram colaboradores da Revista, como Mauro Mota, Austro-Costa, Estevão Pinto, Manuel Bandeira e Mário Melo. Suas matérias, crônicas, notas, poemas e comentários, tratavam das transformações urbanas do Recife, dos temas políticos do momento, do movimento artístico e esportivo do Recife. Mas, o ponto marcante do magazine era a crônica social da Cidade. Colunas como “Notas Fúteis”, “O que ficou na Poeira da Semana” e “Bonecas... Bonecos”, registravam as festas e eventos, com destaque para o footing, as notinhas maliciosas, mexericos sobre romances secretos, vestimentas e a elegância das senhoras e senhoritas das tradicionais famílias das elites.

Uma das características que mais chama a atenção na Revista da Cidade é o farto material iconográfico sobre a vida social e aspectos físicos e humanos do Recife. Esse conjunto de imagens faz da publicação uma das mais bem ilustradas do período. São charges, desenhos e fotografias, sobre as transformações urbanas, paisagens do Recife e de cidades do interior, sobre a vida social e cultural da Cidade, além de cenas do cotidiano das camadas populares. No editorial de lançamento, seu diretor revela que pretende que a documentação fotográfica da Revista: 

Venha a ser a mais perfeita e copiosa tentada já no Recife [tratando dos] aspectos mais interessantes da nossa vida citadina, nas suas mais claras e palpitantes manifestações de atividade econômica, social, estética e mundana. (Rev. da Cidade, 29/05/1926).

Mas, o que essas imagens diziam? Qual o sentido em publicá-las? Quais as representações da Cidade e dos seus habitantes que o periódico difundia entre seus leitores? É isso que vamos trabalhar um pouco nesse artigo.

A partir da análise das fotografias publicadas sobre os aspectos físicos do Recife, percebe-se que a Revista oscilava entre a visão de uma cidade civilizada e moderna e a percepção de uma urbs atrasada, onde sobreviviam aspectos considerados antigos e ultrapassados. As imagens da reforma do Porto e do Bairro do Recife, ruas calçadas, elegantes residências, novos e imponentes edifícios oficiais, eram exaltadas pelo semanário como representantes de “uma era auspiciosa de progresso febril e tumultuária”. Em contraposição, parte da herança arquitetônica colonial, como antigos casarões, os mocambos dos arredores do centro e muitos hábitos da população eram classificados como “pragas”, “velharias”, que representavam a falta de civilidade da Cidade.  Essa dicotomia progresso versus atraso perpassa toda a existência do magazine. Ao valorizar as reformas e melhoramentos urbanos inspiradas nos padrões europeus, a Revista construía o cenário de um Recife progressista, levando o leitor a identificar-se com esses elementos e a condenar tudo o que se opusesse à realização desses ideais.

Simbolo do progresso:

"Recife Novo". nº102

(05/05/1928)

Marcas do atraso: "Caveira de burro".

nº 01 (25/05/1926)

Câmera dos Deputados e Ginásio Pernambucano 

nº 04 (19/06/1926)

Curiosidades de fotográfo"

nº  (12/06/1926)

"Velharias do Recife". n°12

14/08/1928

Além dos aspectos físicos da Cidade, a Revista publicava uma profusão de fotos da vida social do Recife, sobretudo das famílias abastadas, pertencentes às elites. Folheando suas páginas podemos comparecer a casamentos, dançar com os casais nas festas dos clubes sociais, como Jockey, Internacional e Country, fazer o footing na rua Nova com as mocinhas e senhoras ou rezar nas missas da Matriz de Santo Antônio. Se quisermos mais diversão, podemos torcer pelo Barroso ou pelo Sport nas regatas do Capibaribe, participar das partidas de futebol no campo do Náutico ou do América, assistir a uma película romântica no Royal, ou tomar um refrescante banho de mar nas praias de Olinda ou em Boa Viagem. 

Casamento. nº75

(29/10/1927)

Festa no Country Club. 

n°15 (04/09/1929)

O Footing n° 163

(06/07/1929)

Missa na Matriz. nº10

(31/07/1926)

Banhos de mar nº78

(19/11/1927)

Regatas no Capibaribe nº67

(03/09/1927)

Time do Náutico n°07

(10/07/1926)

Contudo, em meio às cenas de diversões e frivolidades das famílias abastadas, chama a atenção uma coletânea diferente de fotografias. Pelas lentes de fotógrafos como Francisco Rebello, Parahim e Fidanza, as sessões “Scenas da Cidade” e “Typos da Cidade”, mostravam um outro lado da “progressista e moderna” urbs Maurícia. Longe das festas elegantes e das apresentações teatrais do Santa Isabel, trabalhadores almoçavam sentados pelas calçadas, homens jogavam dominó em frente à mocambos, mendigos esmolavam pelas ruas do Centro, ambulantes ofereciam suas mercadorias, lavadeiras carregavam suas trouxas em direção ao rio. Já no seu primeiro número, em 1926, a Revista da Cidade destacava:

Obedecendo ao programa de arte e originalidade que se traçou, procurará dar em cada número seu, a começar de hoje, uma cena típica da cidade. Inicia a série com “A hora do almoço”, encantadora fotografia do requintado artista Francisco Rebello. (Revista da Cidade, 29/05/1926, nº 01)

Essas fotografias, apresentavam os trabalhadores e trabalhadoras das camadas populares como personagens “pitorescos" e "curiosos", como se os mesmos não fizessem parte do cotidiano da Cidade. Um dos mestres em capturar esse tipo de flagrante foi o fotógrafo amador Francisco Rebello. Nascido em Goa, Rebello estabeleceu-se no Recife como empresário no ramo de importação, apaixonando-se pela Cidade que registrou por meio das suas lentes. Sua produção está presente desde o primeiro número do periódico até seus exemplares finais. 

Jogo de dominó. n°36

(29/01/1927)

Hora do almoço. n°1

(29/05/1926)

Cariry. n°10

(24/07/1926)

Vendedora de tapioca. n°151

(13/04/1929)

Vendedor ambulante. n°32

(01/01/1927)

A lavadeira. n°10

(31/07/1926)

Cenas do Nordeste. Panelas de barro. n°58

(02/07/1927)

Contudo, em meio às cenas de diversões e frivolidades das famílias abastadas, chama a atenção uma coletânea diferente de fotografias. Pelas lentes de fotógrafos como Francisco Rebello, Parahim e Fidanza, as sessões “Scenas da Cidade” e “Typos da Cidade”, mostravam um outro lado da “progressista e moderna” urbs Maurícia. Longe das festas elegantes e das apresentações teatrais do Santa Isabel, trabalhadores almoçavam sentados pelas calçadas, homens jogavam dominó em frente à mocambos, mendigos esmolavam pelas ruas do Centro, ambulantes ofereciam suas mercadorias, lavadeiras carregavam suas trouxas em direção ao rio. Já no seu primeiro número, em 1926, a Revista da Cidade destacava:

A “Revista da Cidade”, mercê de um programa dedicado ao registro fotográfico dos acontecimentos e cousas curiosas da cidade, deu-se a tarefa de publicar fotografias artísticas de amadores (...). Isso provocou a grita de alguém. Alguém que julga um crime mostrar aos outros aquilo que nossa terra, como todas as outras, possui de mais curioso. Os tipos apanhados em flagrante pela objetiva de fotógrafos (...), não depõem dos nossos foros de gente civilizada (...), pois toda cidade possui os seus tipos e costumes característicos, sem que isso lhes venha diminuir o valor ou atentar contra o seu conceito perante o mundo civilizado. (Revista da Cidade, 31/07/1926, nº 10.)

Ao longo dos quatro anos de existência, mesmo com a polêmica gerada, a Revista da Cidade, continuou a publicar as fotos “pitorescas e curiosas” do Recife. Contudo, a partir do segundo ano, essas imagens perdem um pouco da sua força. Talvez por ferir os brios de outros leitores, elas passam a ser publicadas em menor número, a ponto de, em alguns exemplares, não se encontrar nenhuma foto do “exotismo recifense”. Nessa fase, proliferam os retratos de paisagens, aspectos da natureza, ruínas de antigas edificações, coqueirais, crepúsculos e cenas praianas.  Abelardo Gonçalves, Phil Shafer e Moraes, são alguns dos fotógrafos que ganharam espaço nesse momento da Revista.

O Rio Capibaribe. n°163

(06/07/1929)

Coqueiral. n°76

(05/11/1927)

A despeito da reação à série de fotografias sobre “tipos populares” e “cenas da cidade”, a Revista da Cidade conseguiu deixar para a posteridade um importante acervo de imagens sobre o cotidiano de trabalho e divertimento das camadas populares da Cidade, talvez único material desse tipo publicado de forma sistemática em um periódico do início do século XX no Recife.

Para saber mais:

COUCEIRO, Sylvia Costa. Artes de viver a cidade: conflitos e convivências nos espaços de diversão e prazer do Recife nos anos de 1920. Recife: tese de Doutorado em História. UFPE, 2003.

 

NASCIMENTO, Luíz do. História da Imprensa em Pernambuco (1821 – 1954). Recife: UFPE, Imp. Universitária, 1966. Disponível em: https://www.fundaj.gov.br/geral/200anosdaimprensa/historia_da_imprensa_v08.pdf 

Acesso em dez 2020.

 

REBELO, Manoel. BASTOS, Sênia. Um imigrante português no Brasil: Francisco Manoel Rebelo. Centro de Estudos da População, Economia e Sociedade. Porto: 2017. Disponível em: https://www.cepese.pt/portal/pt/publicacoes/obras/brasil-portugal-pontes-sobre-o-atlantico-multiplos-olhares-sobre-a-e-imigracao/um-imigrante-portugues-no-brasil-francisco-manoel-rebelo Acesso em: 03/01/21.

 

REVISTA DA CIDADE. Acervo: Fundação Joaquim Nabuco. Recife: Empresa Gráfico-Editora, 1926-1929, nº 1-176. Disponível em: https://www.fundaj.gov.br/index.php/ publicacoes-digitalizadas/9997-revista-da-cidade Acesso em dez-jan. 2020-2021.

 

WANDERLEY, Marcela Lamour. Cidade-mulher : análise das representações do feminino no ambiente urbano em ilustrações veiculadas nas capas da Revista da Cidade nos anos de 1927 e 1928. Recife: dissertação de Mestrado em Design. UFPE, 2018.

A autora

Sylvia Couceiro é Doutora em História pela Universidade Federal de Pernambuco e Pesquisadora do Centro de Estudos da História Brasileira da Fundação Joaquim Nabuco.

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Historicismos na arquitetura do Recife, a coleção Ecletismo.

Adeus, Berzin! Olá!

Caderno de recordações.

Ao futuro, em sinal de estima e consideração:

fotografias e interpretações na Coleção Francisco Rodrigues, 1840-1920

nº9| 21 de dezembro de 2020

nº8| 02 de outubro de 2020

nº7| 10 de agosto de 2020

nº6 | 19 de junho de 2020

APOIO
LABJOR/UNICAMP
REALIZAÇÃO
FUNDAÇÃO JOAQUIM NABUCO