VILLA COLETIVA
Cultura, História  e Acessibilidade
| 02 de outubro de 2020

Adeus, Berzin! Olá!

Caderno de recordações.

Fabiana Bruce Silva

Que não é o que não pode ser que, não é o que não pode, ser que não é, o que não pode ser que não, é o que não, pode ser, que não, é

- Titãs, Cabeça Dinossauro -

Fotografia. Comecei diversas vezes este pequeno artigo. Historiadores gostam de revisitar acervos. Faz parte de suas práticas. Não imagino lacunas a preencher. É o tempo quem esculpe. Prefiro falar de fantasmagorias: formas de expressão que reverberam memórias coletivas e sociais[1]. Formas vivas presentes, de dentro e de fora. Pensar em potências que estão por aí e que reaparecem vez por outra, até porque permanecem. Às vezes é miragem. A orientação é no sentido de encontrar contemporaneidade em Alexandre Guilherme Berzin (Riga, 1903 – Recife, 1979). A riqueza de sua biografia, para a fotografia, para a história da fotografia no Recife e no Brasil, está também na obscuridade que aparece nas sombras de alguma luz. 

 

Mas vamos por partes. Procurei em meus papeis de pesquisa, em DVD’s e HD’s antigos e fui revendo. Agora, enquanto fico em casa, evoco Berzin e imagino um pequeno diálogo: “- Você vai para a terra de Iracema!?”, pergunto. Ele veio. Tinha 24 anos quando chegou. Fico imaginando as preparações para a viagem, a angústia ao viver a incerteza do que viria, as referências do Brasil que teria recolhido em revistas, almanaques, postais. O que deixaria. As alegrias desejadas do que deviria. O medo. E a coragem de seguir. De chegar. Saindo do porto de Hamburgo a caminho de Belém do Pará, em 1927. 

 

Situado num círculo de acolhimento e amizades, na casa dos Fidanza, chegou depois no Recife. Essa história que intentei contar em minha tese (2005) e que suponho saber. Imaginei, recompondo significações montadas com os fragmentos da documentação guardada pela Fundaj. Não pesquisei as viagens aos arquivos de partida e as leituras das línguas diversas encontradas em suas anotações: leto, alemão, talvez polonês e russo. Identifiquei indícios onde procurei ver, e revejo, registros da época vivida por importante personagem. Simpatizei com a documentação. E novamente agora. Parei no começo, no caderno de despedidas do jovem viajante fotógrafo: sem pauta, de capa dura esverdeada, puída pelo tempo, com um trevo de quatro folhas em pequeno relevo do próprio papel. Um dos primeiros documentos que vi.

Fiquei encantada com o forro do caderno, com as breves marcações, por dentro. Depois, abri caixas e mais caixas guardadas na Fundaj, algumas reaproveitadas de negativos. Envelopes timbrados e não timbrados, álbuns, negativos e mais negativos em formatos diversos[2]. Acondicionei os positivos. Identifiquei, simplesmente relacionando conteúdos, indexando-os em capilhas fornecidas pela instituição. E ainda tenho muitas dúvidas a respeito da biografia de “Berzin”, desde quando ele ainda não era o fotógrafo que atuou no Recife por cinquenta e um anos. Como anunciou Jota Soares[3]. Em quem me fiei. O fotógrafo, e sua documentação me mostrava, já cartografava o Recife e marcava os lugares onde fotografava, como vai aparecer nos mapas do artista gráfico Manoel Bandeira, que reproduzi no Álbum de Berzin (2011).

 

 

Em algum momento de minhas pesquisas a respeito do fotógrafo, das quais já se passaram pelo menos quinze anos, decidi focar no que tinha em mãos e olhar com os recursos disponíveis. Meu receio era o de que, vindo de uma zona de conflito, Berzin tivesse empatia com o totalitarismo. Fui demovendo esta ideia partindo deste pequeno “caderno de recordações”, que assim batizei, mas que poderia ser também um “caderno de despedidas”. Ali, ele recolheu assinaturas de amizades, poemas, mensagens, desenhos. Era “Bersing”, como aparece numa guirlanda de sombras que emolduram um casal de camponeses, com montanhas e pequeno vilarejo, ao fundo. Havia deixado àquela altura de ser “Behrsing”, que era como assinava seu pai, Emil Markus, nascido em 1874, morto em 1945.

 

 Os três nomes de Alexander me parecem marcar três tempos em sua vida e uma origem que, penso, de acordo com algumas pistas, volto a dizer, remetem a um lugar de tensão, de conflito, e da coragem de abrir-se ao novo. Berhsing como o pai, Emil – Papiersaalmeister, encarregado da produção numa fábrica de papel em Posen, cidade da Polônia. Primeiro Estado tomado pela Alemanha nazista, nos processos da sua guerra veloz[5]. Bersing como o jovem que vive, ainda nos anos 20, em plena República de Weimar, de dançarinas e melindrosas, de palhaços e velhos ignorantes (vide os desenhos); que convivia com artistas, cujos desenhos compõem o caderno de recordações. Berzin, em terras de coqueiros, entre Belém e Recife. 


Por que a mudança de nome? Capricho da juventude? Para se separar de que? Para conservar o que? A vida, vejo agora. Imaginei (2005) que teria sido para simplificar a pronúncia de seu nome junto aos nativos. Os desenhos no caderno de despedidas têm datas distintas, marcando as passagens da saída de Riga, a viagem pela Europa e a vinda para o Brasil: 1923, 1924 em Riga; 1927, em Dresden; 1931, 1937, em Belém do Pará, no Recife de Pernambuco. Vi, agora, em sites de genealogias, que “Berhsing” consta entre nomes perseguidos pelo regime do Terceiro Reich. Imagino que, estando no Brasil e fazendo viagens entre Recife e Belém, Berzin poderia ter sido aconselhado a não voltar para a Europa e a se estabelecer definitivamente entre os coqueiros.

Nos anos trinta, ainda, encontrei mais recentemente, fotografias onde Berzin aparece como receptivo de “outros alemães” que chegavam a Recife, acompanhando fotógrafos em caminhadas por lugares populares, convivendo com os nativos, em banhos de mar e nas beiras dos Rios Capibaribe e Beberibe. Conforme relatos de contemporâneos, Alexandre Berzin, dizendo-se alemão, teria errado ao apostar que o Governo Vargas ficaria do lado do Eixo. O que nos faz pensar muito mais no germanismo presente entre as forças políticas e culturais locais, suas ressonâncias. História que precisamos revisitar mais, para ampliar a compreensão (e desvendar até) dos pontos de vista da cultura visual local. 

A documentação ainda nos sugere que “Berzin, o velho”, entre outras visões, se interessava pelo movimento expressionista Der Blaue Reiter (Alemanha, 1911-1914) e por Edward Weston (1886 – 1958). Quando se admirava com a possibilidade de se fazer filmagem de um fotógrafo em seu laboratório, aludindo a um documentário que assistiu, sobre Weston, no “Consulado Americano” – a anotação não tem data. Possivelmente o filme “The photographer”, de 1948, promovido pelo United States Information Services, fotografado e dirigido por Willard Van Dyke, cujas imagens iniciais são de ondas que arrebentam na praia, tema do fotógrafo estadunidense e dos pernambucanos, entre eles AB.

NOTAS

[1]  Visão compartilhada com os estudos culturais, da imagem social e da cultura visual; uma antropologia do visual.

[2] Merecem tratamento e identificação para melhor compreender o acervo como um todo, as singularidades do fotógrafo e seu entorno; as fotografias do “FOTO AB”, 3X4, as “fotos sociais”, para aprofundar a aproximação com a sociedade fotografada. Igualmente, a leitura de cartas e outros documentos, que se encontram em leto e alemão, em especial, possibilitando intervenções variadas e criativas.

[3] Jota Soares (Propriá, Sergipe, 1906 – Recife, 1988), cineasta do Ciclo de Cinema do Recife.

[4] Dizia Jota Soares: “Assinalando a passagem dos seus trinta anos de ‘FOTO AB’, cumprimos um dever de gratidão a êsse (sic) técnico renomado, cujo trabalho tem sido uma das mais belas e significativas páginas na história da nossa fotografia. Acima de tudo, entretanto, apreciamos em Berzin sua nobreza de caráter, motivo sólido para que possua invejável e ilimitado cabedal de amizades”. Diário de Pernambuco, DP. Recife, (2° Caderno), domingo, 24/02/1963, p. 3. Recorte de jornal da Coleção AB/FCCR, Fundaj, Recife -PE.

[5] Num dos desenhos aparece “o dedo em riste”, figura recorrente no universo da República de Weimar (1919 – 1933). Símbolo do “Reichstag”, cuja “maldade consiste em incriminar o povo com [seu] dedo em riste”, como nos diz Jürgen Habermas (2003, A Era das Transições).

A autora

Fabiana Bruce Silva é historiadora e antropóloga. Professora de História Contemporânea na UFRPE 

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Ao futuro, em sinal de estima e consideração:

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