Procurando falatório: Stela do Patrocínio e o espaço vazio

30-Aug-2017

 

É graduada em Serviço Social pela Universidade Estadual do Ceará e escritora, tendo lançado em 2013 o livro de contos inéditos "O mais feliz dos silêncios", pela editora Substânsia. Escreve quinzenalmente para o blog "Leituras da Bel", da Jornalista Isabel Costa, no Jornal O Povo.
 

 

“Eu sou Stela do Patrocínio/Bem patrocinada/Estou sentada numa cadeira/Pegada numa mesa nega preta e crioula/Eu sou uma nega preta e crioula/Que a Ana me disse”. Assim, em um de seus poemas, se retratava Stela do Patrocínio.

 

Mulher, negra, carioca, diagnosticada esquizofrênica e que viveu por quase 30 anos na colônia Juliano Moreira destinada a pessoas consideradas com distúrbios mentais no Rio de Janeiro. Nas fatalidades da vida, nessa mesma colônia viveu a mãe de Stela, também empregada doméstica, também considerada louca. E ambas nunca se encontraram na colônia. Apenas na vida.

 

Não fosse a postura altiva de Stela do Patrocínio e seu “falatório” talvez nos passasse despercebidos sua poética, seus relatos de interna, suas percepções de ser mulher e negra, como muitas vezes no cotidiano das cidades ignoramos os loucos e suas vozes. E ainda mais as mulheres e as mulheres negras. Quantos poemas deixamos escapar das mãos e dos ouvidos por sermos tão afeitos à roda da normalidade e do padrão.

 

“Nasci louca

Meus pais queriam que eu fosse louca

Os normais tinham inveja de mim

Que era louca”

(Stela do Patrocínio)

 

Há relatos de que Stela do Patrocínio escrevia em pedaços de papelão, os quais nunca foram achados. A sua escrita talvez não tenha sobrevivido ao tempo, ao desmazelo, à sua condição de “botando o mundo inteiro pra gozar mais sem gozo nenhum”, à internação “onde a alimentação era eletrochoque, injeção e remédio”, mas a sua fala ecoa entre as paredes de tinta azul, habitadas por pacientes e “médicos cientistas”, que ela mesma por vezes chamava de família.

 

Conheci a fala de Stela do Patrocínio por Intermédio de um amigo, também escritor, Uirá dos Reis, em Fortaleza/CE, há alguns anos. Levei um tombo, um susto, uma rodadela, um safanão. Qual mulher, em tamanho acerto de palavras, é possível? Qual mulher tão maltratada pelo racismo, pelo pensamento cartesiano, pelo machismo, pela opressão dos diagnósticos é capaz de produzir tanta beleza em palavrório?

 

Eu era gases puro, ar, espaço vazio, tempo
Eu era ar, espaço vazio, tempo
E gases puro, assim, ó, espaço vazio, ó
Eu não tinha formação
Eu não tinha formatura…

(Stela do Patrocínio).



 

 

 

 

Fiquei um tempo absorta entre as palavras de Stela, que significa estrela e me guiava. Tudo me elevava para outro plano com Stela, as construções poéticas consubstanciadas em líquidos, gases puro, cabeça, espacialidade. Escrevi um conto, inspirado em Stela e para Stela, publicado no meu livro de contos inéditos “O mais feliz dos silêncios” (2013), pela editora Substânsia e que encerra esta seção.

 

Há diversos caminhos para conhecer mais da poesia de Stela do Patrocínio: vídeos independentes, curtas, documentários, peças, encenações, livros. E sempre me pergunto, assim como Mika Andrade em seu artigo “A oralidade poética de Stela do Patrocínio”, o que acharia Stela do Patrocínio sobre toda essa obra reunida? Logo ela que morreu sozinha, diabética, sem uma das pernas, de infecção generalizada, generalizante, calada, muda, reclusa e recusada. Justo ela, “nega preta e crioula”. O que diria Stela do Patrocínio? Porque Stela do Patrocínio era mulher de dizer.

 

Talvez Stela ficasse contente com a reverberação de seu palavrório. Talvez.

 

Um exemplo de bom material que se debruça sobre a obra de Stela do Patrocínio é a encenação “Entrevista com Stela do Patrocínio”. Espetáculo que se iniciou em 2001 e se desenvolveu após esse período com músicas e piano de Lincoln Antônio sobre falas de Stela do Patrocínio, com vozes de Georgette Fadel e Juliana Amaral.

 

No vídeo “Entrevista com Stela do Patrocínio (2007)”, contendo as falas dessa encenação, é possível perceber, mesmo através de outros, toda a força da poética ultrarreal de Stela. Para além do livro organizado por Viviane Mosé, publicado em 2001, que então tem sido o grande divulgador da “fala” de Stela, há uma soma de interessados e arrebatados pelo que Stela tinha a dizer e desconcertar. Porque Stela do Patrocínio era uma mulher de dizer.

 

Ressalto aqui que eu, mulher branca, e as obras aqui citadas (que fazem releituras da obra de Stela), também de pessoas brancas, não damos conta da dimensão da importância da escrita, da poética e da representatividade que tem e que ainda poderá ter, em toda a sua expressão, a obra de uma mulher negra, pobre e considerada louca. Não por acaso muitas outras mulheres negras não conhecem Stela e seu palavrório. Historicamente e culturalmente muito se tem negado aos negros e negras. Se temos uma luta constante por ser mulher, as mulheres negras o fazem dobrado em esforço e resistência. Talvez resida aí também o fato de ter encontrado poucas referências de releituras da obra de Stela feitos ou realizados por negros e negras que não fossem artigos acadêmicos. E esses também não foram muitos. Minha pesquisa se pautou em releituras artísticas da obra de Stela, as que tivessem algo substancial a acrescentar a sua poética, como se pudéssemos buscar um sopro último de sua existência: assim cheguei aos trabalhos elencados anteriormente no texto.

 

Há sempre mais a entender quando se ouve e lê Stela do Patrocínio. A cada nova visita de outrem ou em sua própria obra me espanto com a clareza, com a verdade, com a manifestação da palavra viva e misteriosa de quem Stela parecia ser tão íntima. E muito embora alguns artigos sobre sua obra digam que é necessário saber e entender a vida de Stela, a vida de interna, para reconhecer sua poesia livre e liberta, afirmo que basta apenas abrir o peito e ler em voz alta, como quem sabe das coisas, todas as palavras, bem redondas e colocadas, para sentir de lá que a poesia habita é dentro da gente. Loucura é não sentir.

 

 

 

 

EU TENHO DELICADAMENTE CONSTRUÍDO PALAVRAS

(Ayla Andrade)

Para Stela do Patrocínio

 

Eu tenho delicadamente construído palavras. As tenho esculpido na pedra dura. No peito. No ruído que segue, madrugada afora.

 

Esta tenho sido eu.

 

Euforia do mim mesmo. Na minha condição. Suportando.

 

As recentes sangrias me têm feito bem. Cresci, criei corpo. Ganhei cabeça, ganhei corpo, ganhei espírito e antes, e antes me quiseram cortar cabeça. E agora ganhei cabeça. Taí, cabeça. E os pés que levam a gente pra onde a gente vai. Junto com a cabeça.

 

E hoje me botaram na esquina e me puseram perguntas. Eu não sei perguntas. Eu sei respostas. Pra isso existem respostas. Pra saber. Eu sei de curtas e longas. Eu decorei. Eu sei quando eles querem que eu diga sim e eu digo sim. Mas eu queria dizer não. Mas só eu sei disso. Eu sei quando eles querem que eu diga não. Eu digo bem grande, não. E eles vão embora.

 

Eu conto os azulejos e eles voltam. São muitos azulejos. Eles voltam e, de novo, eu ganho cabeça. Eles pensam cérebro, eu penso alma. Eles pensam bolso, eu penso flauta. Mas eu digo não, por que eles pensam não. Aí eu guardo a flauta no bolso e deixo pra mais tarde.

 

Eles ainda não voltaram. Conto os azulejos. As torres. As vezes que dei tchau. As vezes que voltei. Eu dou as respostas, eles me dão mais de mim. Por isso falo comigo. Tenho poucos momentos de nós. Eu e eu. E fico calada pra depois contar o que aconteceu. Pra mim. E quando eu conto, eu fico surpresa. De mim.

 

Eu gosto do banheiro, o banheiro tem o silêncio que tenho eu. Eu conto tudo pra mim no banheiro por que ele sabe guardar segredo.

 

O banheiro é pequeno, mas cabe muitos segredos por que tem muitos azulejos. E azulejo é azul? O meu não é. O meu é borrado de sujo e amarelo de sol. Mas só se for duas da tarde que é quando o sol me visita. Eu o deixo entrar por que ele me aquece. Ninguém mais me aquece. Só o sol. Mas ele também aquece todo mundo. Eu queria o sol só pra mim. Eu queria um sol só pra mim. Pra ele me aquecer quando eu quisesse, por que aqui, só às duas da tarde. Então às duas da tarde eu sento onde o sol bate e abro o peito.

 

 

Para saber mais:

ANDRADE, Mika.  A oralidade poética de Stela do Patrocínio. Disponível em:  <https://mikaandrade.wordpress.com/tag/stela-do-patrocinio >. Acesso em: 17 de dez. de 2017.

 

ANDRADE, Ayla. O mais feliz dos silêncios. Fortaleza: Ed. Substânsia, 2013.

 

FADEL, Georgette et. al. 2007. Entrevista com Stela do Patrocínio. Disponível em: < https://www.youtube.com/watch?v=atwV3JYVaXw >. Acesso em: 16 de dez. de 2017.

 

LUNA, Ive Novaes. A maravilhosa expedição do falatório de Stela. Interthesis, vol. 06, Nº 2, jun./dez. 2009. Florianópolis/SC. Disponível em:  <goo.gl/RRWRKy >. Acesso em: 15 de dez. de 2017.

 

PATROCÍNIO, Stela do. Reino dos bichos e dos animais é o meu nome/ Stela do
Patrocínio. Viviane Mosé (Org.). Rio de Janeiro: Azougue Editorial, 2001.

 

 

Ayla Andrade é graduada em Serviço Social pela Universidade Estadual do Ceará e escritora, tendo lançado em 2013 o livro de contos inéditos "O mais feliz dos silêncios", pela editora Substânsia. Escreve quinzenalmente para o blog "Leituras da Bel", da Jornalista Isabel Costa, no Jornal O Povo.

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