VILLA COLETIVA
Cultura, História  e Acessibilidade
nº5 | 04 de maio de 2020

Histórias de higiene e propaganda: o mundo nas embalagens de sabonete Eucalol
 

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Cibele Barbosa 

Uma breve história da limpeza

 

A limpeza corporal com o uso da água e do sabão, antes de ser um hábito natural, constituiu-se em uma prática que recebeu múltiplos significados ao longo da História no Ocidente. No século XVI, por exemplo, lavar as mãos e tomar um banho, hábitos tão incentivados nos dias de hoje, inclusive pela criação do  Dia Internacional da Higienização das Mãos(OMS) , eram práticas indesejáveis para grande parte dos europeus. A higiene prezada pelas elites era uma limpeza seca: trocas de roupas eram um privilégio e um marcador social de distinção. Pós perfumados, lenços para enxugar o suor, uma troca de roupa e pronto: o indivíduo estava completamente limpo. Naqueles tempos, o asseio pessoal era algo para se exibir: apresentar-se em roupas não sujas, mas sem vinculação alguma com razões sanitárias.

 

Por que o uso da água e do sabão na higiene dos corpos perdeu tanto espaço na Europa Moderna? Uma das razões, e talvez uma das mais decisivas, pode ser observada no significado social que foi atribuído à água durante o surto da Peste que assolou os europeus no século XIV. Na época, a crença do contágio residia na propagação dos miasmas e, sob esse pressuposto, era necessário isolar as pessoas dos ares infectados. Dessa forma, os banhos compartilhados, prática comum na Idade Média, deveriam ser banidos. Nesse sentido, o sabão, que tinha chegado à Europa via mercadores árabes pelos idos do século VIII e havia se tornado um artigo de luxo nos tempos medievais, o famoso savon de Marseille, foi substituído, nos tempos modernos, pela toillete seca dos perfumes e pós perfumados que entravam em cena para inibir os odores de corpos não lavados. 

 

As descobertas científicas do século XIX propiciaram ressignificações importantes com relação à higiene, palavra que é cunhada e chega aos ouvidos ocidentais nas primeiras décadas dos anos 1800. A princípio, a higiene pública estava voltada para o   reordenamento urbano, o descarte de excrementos, a distribuição de água e uma maior circulação de ar, entre outras medidas que visavam conter os ares odorentos gerados pelos acúmulos de dejetos humanos nos vários episódios de epidemias de cólera, difteria e outras doenças que assolavam os espaços superlotados com o crescimento das cidades.

 

Na segunda metade do século XIX, uma nova concepção de higiene, desta vez centralizada no cuidado dos corpos, alçou o duo água e sabão ao grau de importância que hoje nos é apresentado quando vemos campanhas maciças na TV a nos incitar a lavar as mãos para salvarmos nossas vidas da pandemia gerada pelo Coronavírus

 

Com a descoberta dos vírus e bactérias a partir da microbiologia de Pasteur, a associação entre medidas de higiene dos corpos e promoção da saúde instaurou uma cultura sanitária e uma compreensão epidêmica marcando uma bio-lógica que passou a ser internalizada, não sem resistências, no século XX.

 

A segunda revolução industrial e a eclosão de uma lógica de expansão do mercado de consumo não perderam de vista o momento no qual o banho e a lavagem das mãos com sabão adquiriam importância renovada na sociedade. Propaganda e atrativos visuais embalavam o produto moldado para fazer parte do cotidiano das famílias de classe média.

 

Esses produtos também chegaram às casas das elites brasileiras cujos hábitos mimetizavam modelos e incorporavam o imaginário civilizacional europeu. A indústria de sabão existia no Brasil desde meados do século XIX. Porém, no século XX a formulação voltada à higiene pessoal, com acréscimos de aditivos e aromas, foi tomando conta das práticas de consumo dos brasileiros. 

 

Melhorias nos parques gráficos somadas aos incrementos na produção e desenvolvimento de estratégias de propaganda possibilitaram a difusão de imagens  em embalagens e na imprensa. A história do consumo se entrelaça assim à história da saúde pública. Elevado a veículo de promoção da saúde individual e coletiva, o sabão, assim como outros produtos, passou a ingressar na ciranda do consumo por meio de apelos visuais que trabalhavam como expressão ou mesmo construção de subjetividades.

Os sabonetes Eucalol

Também, entre os sabonetes

Só um deveis eleger

Como um signal de hygiene

Que todos devemos ter

 

Eucalol-Eis o escolhido 

Entre todos! Entre mil

Eucalol-o mais querido 

Sabonete do Brasil

(Rótulo do sabonete Eucalol, anos 1950. Acervo Fundaj)

Tomemos como exemplo os sabonetes Eucalol, cujos rótulos fazem parte de uma das coleções de acervos históricos da Fundação Joaquim Nabuco, doada pelo historiador Denis Bernardes, que reuniu, juntamente com seu irmão Damião Bernardes, cerca de 500 estampas do sabonete.

 

A empresa foi implantada nos anos 1920 pelos irmãos Paulo e Ricardo Stern, imigrantes judeus-alemães que chegaram ao Brasil na década anterior. Com o nome Perfumaria Myrtha S/A, a fábrica desenvolveu o sabão Eucalol à base de Eucalipto e outros produtos agregados como talcos e dentifrícios. Ainda nos anos 1920, os empresários perceberam que precisariam apostar em campanhas mais chamativas para conquistar o 

mercado. A propaganda, outrora pautada na funcionalidade do produto, passava por uma transição para modelos onde os produtos deveriam conquistar o desejo dos seus consumidores. Um exemplo a ser seguido foi a campanha bem- sucedida dos produtos alemães Liebig, extratos de carne que eram vendidos com embalagens para coleção, jogos e outros atrativos que fizeram sucesso com estampas de temas diversos, desde satíricas, art nouveau, paisagens exóticas, entre outros. 

 

O hobby do colecionismo estava em alta, e isso não passou despercebido aos empresários da Perfumaria Myrtha: entre 1930 e 1960, os sabonetes Eucalol chegavam às casas embalados com cartões ilustrados cujos versos vinham com pequenos textos descritivos. Para incentivar a prática do colecionismo e a ampliação do consumo, elaboraram séries diversas como Viagem pitoresca através dos continentes, História das habitações, Compositores, Curiosidades mundiais, Lendas da Antiguidade, entre outras. Naqueles idos, o acesso à informação era precário, restrito aos livros e publicações de custo elevado que, em grande parte, não chegavam às casas. 


A informação visual com textos curtos atingiu diferentes camadas etárias e de renda, levando informações, extraídas em grande parte de enciclopédias, sobre culturas e paisagens distantes. A chegada do sabonete em mercearias e feiras de locais remotos permitiu aos seus consumidores imaginar terras distantes, graficamente representadas em desenhos, que variavam entre os mais antigos, cujos traços eram mais simplistas, aos mais detalhistas, como os das séries Lendas da Antiguidade e As mais belas lendas do Brasil, do final dos anos 1950, cujos traços se assemelhavam à estética dos quadrinhos.

 

Fotos: Divulgação/Acervo Fundação Joaquim Nabuco 

A fidelização do produto junto ao público se operou em diferentes esferas: tanto pelo slogan de produto confiável “A última palavra da sciencia” ao se referir à pasta de dente Eucalol, como pelo conteúdo informativo e pelo viés afetivo que as coleções de estampas dos sabonetes provocavam. A popularidade que séries de ilustrações gozavam no cotidiano e imaginários das famílias, principalmente do público infanto-juvenil, levou o jornalista e compositor Hélio Contreras a compor a canção Estampas Eucalol, que ficou mais conhecida na voz dos cantores Xangai e Geraldo Azevedo, baseada em histórias mitológicas ilustradas nas embalagens do sabonete:

Montado no meu cavalo

Libertava Prometeu

Toureava o Minotauro

Era amigo de Teseu

Viajava o mundo inteiro

Nas estampas Eucalol

À sombra de um abacateiro

Ícaro fugia do sol.

 

 

O Brasil ilustrado

 

Grande parte dessas estampas colecionáveis atingiu seu sucesso durante os anos do nacionalismo do governo Vargas. As séries dedicadas ao Brasil são um bom espelho desse momento histórico, no qual o discurso oficial buscava conceber uma biografia da nação. Algumas delas informavam o público sobre temas como Bandeiras (onde os estados eram representados), Uniformes do Brasil, Índios do Brasil e em outros casos, como Brasil antigo, documentos iconográficos, como gravuras e pinturas do século XIX, eram reproduzidas pelos ilustradores. 

 

O país vivia um momento de elaboração de sua identidade nacional aos moldes do ministério de Gustavo Capanema, que criou o Serviço do Patrimônio Artístico Nacional, cujo objetivo principal era repertoriar e tombar os bens e monumentos da nação. Capanema tinha como desafio introduzir “conteúdos nacionais” na educação básica a partir de aspectos extraídos da vertente ufanista verde-amarela: uma história voltada para os heróis e instituições nacionais. Os textos oficiais se empenhavam em cimentar e assimilar uma cultura nacional unificada e para tanto era necessário organizar e divulgar acervos e documentos históricos. É nessa atmosfera que a editora José Olympio lançou, nos anos 1930, a coleção Documentos brasileiros que teve, entre os seus editores, o sociólogo Gilberto Freyre.

Fotos: Divulgação/Acervo Fundação Joaquim Nabuco 

Em meio ao nacionalismo que imperava no Brasil, propagado pelas ondas do rádio e pela propaganda governamental, a empresa dos irmãos Stern proclamava o Eucalol como o “sabão do Brasil”. Para conquistar o mercado nacional era preciso representar-se pelos quatro cantos do país e, por essa razão, não faltaram estampas que tratassem de temas de interesse de todos os estados que se viam então representados em bandeiras e descrições de lugares e histórias ilustradas.

 

As séries também se consolidavam sob o propósito pedagógico de levar “conhecimento” para seus consumidores, coadunando-se assim com o momento de afirmação nacionalista do Estado Novo de Vargas.


 

O mundo em uma caixa de sabonete

 

Com o fim da Era Vargas e as eleições em 1945, a série de estampas Presidentes do Brasil anunciava a eleição de Eurico Gaspar Dutra (1946-1951). O período do Pós-Segunda Guerra Mundial foi marcado, no Brasil, por uma política de abertura à cultura e ao capital norte-americanos. Nos anos 1950, a série de estampas Memória maravilhosa reproduzia curiosidades de publicações estadunidenses como Believe it or not? (Acredite se quiser) de Robert. L. Ripley.

 

Os anos 1950 também são marcados por mudanças geopolíticas como o processo que desencadeou a emancipação das colônias e protetorados na África e na Ásia. Essas mudanças também foram representadas nas estampas Eucalol. Em uma delas, por exemplo, vê-se que a então colônia inglesa, atual Gana, chamada na época de Costa do Ouro, obteve a eleição do Parlamento por meio do sufrágio universal, o primeiro desse modelo na África subsaariana. Esse acontecimento, ocorrido em 1951, marca um dos pontos-chave do processo de descolonização que se efetivará em 1957. Na época, graças a vitória massiva do partido de Kwame Nukrumah nas eleições legislativas, o líder africano foi libertado da prisão e, a partir de então, sua presença no governo engendrou o processo de Independência. A importância do voto universal na eleição legislativa de Accra, capital da futura Gana, em 1951, é destacada pela imagem de uma mulher votando.

Fotos: Divulgação/Acervo Fundação Joaquim Nabuco 

No verso da embalagem, breves considerações informavam que “as eleições no território da Costa do Ouro estão influindo na vida da moderna Accra. Aqui vemos uma eleitora recebendo a sua cédula.” O texto dessa embalagem, assim como os demais dessa série, foi extraído da Nouveau Petit Larousse Illustré de 1952, uma enciclopédia ilustrada francesa muito popular na Europa daquele período.

 

Com a chegada de novas mídias sociais, de empresas multinacionais do ramo dos cosméticos, os produtos da Perfumaria Myrtha perderam espaço diante da concorrência comercial e cosmética, da mesma maneira que os rótulos como hobby e meio informativo/pedagógico perdiam importância diante de outros meios de propagação do conhecimento visual.

 

Ao todo as 2.400 estampas, distribuídas ao longo de quase três décadas, tiveram sua distribuição interrompida em 1957. No entanto, as embalagens continuaram a atuar no imaginário e na memória daqueles que, durante décadas, encontravam nas ilustrações coloridas do sabonete um mundo de histórias, lendas, gentes e lugares.

Referências bibliográficas

 

RIZZO, Wagner Antonio. Fina(s) estampas: o suporte representacional das Estampas Eucalol na encenação cotidiana brasileira e na memória publicitária nacional. (Ia Metade do século XIX-tempo presente). Tese de doutorado em História. Universidade de Brasília (UNB), 2009.

 

VIGARELLO, Georges. O limpo e o sujo. Uma história da higiene corporal. São Paulo: Martins Fontes,1996.

Para saber mais 

Estampas Eucalol. Primeiro episódio da série "De olho nos acervos", produzida  a partir das coleções de documentos do Centro de Documentação e Estudos da História Brasileira-Cehibra/Fundaj.

Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=7zxEU0BcQ1I

No Dia Mundial de Higienização das Mãos, Cibele Barbosa, autora desta publicação, correlaciona os diferentes períodos da história ocidental com o momento atual e mostra como esses hábitos mudaram até aqui, em live do Instagram. 

Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=7zxEU0BcQ1I

A autora

Cibele Barbosa é doutora em História pela Universidade Paris IV/Sorbonne e pesquisadora da Fundação Joaquim Nabuco. Atualmente coordena o Projeto Trocas Atlânticas e o Programa Institucional Educação e Relações Étnico-raciais.
 

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