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entrevista

O fenômeno da Desertificação

Em entrevista para a Coletiva, Alexandre Pires - Diretor de Combate à Desertificação (MMA) apresenta uma perspectiva do fenômeno da desertificação no semiárido brasileiro.

11. 2025 | Entrevista por Edneida Rebêlo, Letícia Barbosa e Karla Delgado
                      | Edição: Edneida Rebêlo e Isabelle Annes  

Alexandre Pires é natural do Sertão do Pajeú, nascido no distrito chamado Jabitacá, no município de Iguaracy, em Pernambuco. Filho de agricultores, migrou aos 14 anos para Recife com o intuito de estudar e, atualmente, é formado em licenciatura em Ciências Biológicas pela Universidade Federal Rural de Pernambuco (UFRPE), com mestrado na área de Extensão Rural e Desenvolvimento Local, também pela UFRPE. 

 

Hoje, Alexandre atua como Diretor de Combate à Desertificação e Mitigação dos Efeitos da Seca, na Secretaria Nacional de Povos e Comunidades Tradicionais e Desenvolvimento Rural Sustentável, do Ministério do Meio Ambiente e Mudança do Clima (MMA). Com uma trajetória marcada por sua participação em diversas articulações e organizações da sociedade civil, ele promove a agroecologia, a recuperação ambiental e a convivência com o semiárido como estratégias necessárias para o combate à desertificação.

 

Nesta entrevista, o biólogo apresenta uma perspectiva do fenômeno da desertificação no semiárido brasileiro, destacando a importância da participação ativa das comunidades, as iniciativas para a recuperação dos ecossistemas e a necessidade da implementação de políticas públicas que promovam a sustentabilidade nos territórios.

 

Coletiva: Você tem uma trajetória consolidada na articulação de políticas socioambientais voltadas, principalmente, para a convivência com o semiárido. Eu queria que você contasse um pouquinho desse processo até chegar na sua atuação de hoje, no Governo Federal.

 

Assim que terminei a universidade, fui trabalhar no Centro Sabiá, que é uma ONG que  atua com agroecologia, promoção da segurança alimentar e convivência com o semiárido e foi uma das organizações que participou da construção da  Articulação do Semiárido Brasileiro (ASA Brasil). Esse período  de 21 anos no Centro Sabiá foi  tanto de reconexão com o passado que eu deixei no Pajeú, como de compreender  a agroecologia e a convivência com o semiárido como uma estratégia viável para a atividade da agricultura familiar nas regiões do semiárido brasileiro. Durante o período que estive lá, fui da coordenação executiva da ASA, acompanhando toda a agenda do programa de cisternas, programa Sementes do Semiárido, e o DAKI-Semiárido Vivo, um projeto, em parceria com o Fundo Internacional para o Desenvolvimento da Agricultura (FIDA), de cooperação e troca de experiências entre agricultores das regiões semiáridas da América Latina. Também fui membro do Núcleo Executivo da Articulação Nacional de Agroecologia (ANA), que me permitiu acompanhar, monitorar e propor políticas públicas voltadas para a agenda do semiárido. No período que estive no Centro Sabiá, ASA e ANA, representei essas redes em espaços como o Comitê de ATER do CONDRAF e a CNAPO, isso me oportunizou conhecer um pouco sobre os processos das políticas públicas.  Fiz parte da transição 2022-2023, onde trabalhei representando a ASA, que foi convidada a compor o governo de transição e me indicou para acompanhar o GT do desenvolvimento agrário. Então, o nosso grupo de trabalho pensou no conjunto de políticas e iniciativas que precisavam ser retomadas a partir de 2023, mas também na estruturação do que hoje é o Ministério do Desenvolvimento Agrário e Agricultura Familiar. Logo após, acabei sendo convidado pela ministra Marina Silva para assumir o Departamento de Combate à Desertificação, no MMA. 

 

Coletiva: Dentro da sua experiência prática e de gestão, como você acha que o fenômeno da desertificação tem se manifestado nas regiões semiáridas brasileiras? Quais são os territórios prioritários levando em consideração a gravidade do quadro ambiental e a vulnerabilidade das comunidades atendidas? 

 

Alexandre: Uma das medidas tomadas pelo Departamento de Combate à Desertificação foi a atualização dos dados das áreas suscetíveis à desertificação do Brasil. Quando estamos falando de desertificação, nós estamos falando, sobretudo, das situações em que aquele território se torna suscetível a esse processo. Seguindo as regras da Convenção das Nações Unidas de Combate à  Desertificação (UNCCD), foi definido índice de aridez que orienta tecnicamente os países a elaborar dados sobre seu território. Esse índice é formado por quatro  categorias climáticas: subúmido seco, semiárido, árido e hiperárido, que já são os desertos. Em outubro de 2023, o Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais (CEMADEN) e o Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE) apresentaram dados que mostraram um crescimento das áreas do clima semiárido sobre o clima subúmido seco, na ordem de 140.000 km², comparando 2005 a 2020. Além disso, mostra  uma primeira área de clima árido na região central do semiárido brasileiro, que é de aproximadamente 6.000 km². Para se ter uma área comparativa, o território do Distrito Federal é de pouco mais de 5.600 km2. Também, segundo dados do Observatório da Caatinga e Desertificação (OCA), dos 860.000 km² de área da Caatinga, cerca de 107.000 km², que dá algo em torno de 10 milhões de hectares, estão em situação grave e severa de degradação da terra. O índice de aridez é um cálculo matemático que busca entender a diferença entre o quanto chove e qual é o potencial de evaporação, ou seja, se está chovendo, mas está evaporando mais do que chove, significa dizer que o ambiente está perdendo mais água, então está mais próximo do semiárido e do árido. E vice-versa. Esse dado relata que há um crescimento da perda de umidade e da vegetação, que foi mais de 45% devastada na Caatinga, fazendo com que esse território fique cada vez mais seco. Nós estamos gerando um processo de degradação muito rápido com a supressão da vegetação nativa e o uso descuidado dos nossos solos, e isso tudo está fazendo com que esse processo de suscetibilidade à desertificação fique cada vez mais presente, o que é extremamente preocupante porque perde da fertilidade do solo gera perda de biodiversidade, de produtividade, de água e isso tudo gera insegurança alimentar, migração forçada e perdas econômicas. Temos consciência de que precisamos seguir olhando os núcleos de desertificação identificados pelo professor Vasconcelos Sobrinho desde a década de 60. Ele foi um pesquisador da Universidade Federal Rural de Pernambuco, criador da disciplina de Ecologia da Conservação e o primeiro eco-pesquisador que identificou áreas desertificadas no país. Os quatro núcleos identificados por ele são: Gilbués, no Piauí; Irauçuba, no Ceará; Seridó, do Rio Grande do Norte e Paraíba; e Cabrobó, em Pernambuco. Cada núcleo recebe o nome de um dos municípios, mas envolve vários outros do território. Então no campo da prioridade,  entendemos que é necessário continuar olhando para esses núcleos identificados por Vasconcelos Sobrinho, além de verificar os dados do indicador de aridez, para identificar quais de fato são os municípios ou regiões mais suscetíveis à desertificação. Nós estamos, em parceria com o OCA , definindo quais são as áreas prioritárias para uma ação, a partir de quatro indicadores centrais:  o próprio índice de aridez, o indicador de degradação da terra, o índice recorrente de secas e um indicador socioeconômico nesse território do semiárido e da Caatinga, especialmente. A partir desses quatro indicadores, é possível definir quais são as áreas prioritárias para uma ação do Governo Federal e dialogar com os governos estaduais e municipais para que exista uma ação articulada nas três esferas de governo, com todo o apoio da comunidade científica e acadêmica para dar suporte a essa ação e a participação ativa da sociedade civil.

 

Coletiva: A sua participação, que é de uma pessoa que veio da agricultura, demonstra a importância de ter as pessoas da localidade trabalhando nesses projetos. Em que medida você enxerga que a mitigação e a adaptação dependem do fortalecimento das capacidades locais e da participação ativa das comunidades? 

 

Alexandre:  Se a gente quer encontrar o caminho para enfrentar as mudanças climáticas, as respostas também estão nos territórios. São os agricultores e agricultoras, assentados da reforma agrária, indígenas, quilombolas, comunidades de fundo e fecho de pasto, extrativistas e outros povos e comunidades tradicionais que sabem sobre resiliência e adaptação. Isso não tira, em hipótese alguma, toda a produção científica extremamente relevante para a formulação das políticas públicas. Mas é necessário por parte dos governos, seja do Governo Federal ou dos estados e municípios, olhar para o que as comunidades estão fazendo. Não é à toa que o semiárido brasileiro é uma das regiões semiáridas mais densamente populosas do mundo. Ela é assim porque as populações tradicionais, indígenas, quilombolas, vaqueiros, caatingueiros e agricultores familiares, foram construindo estratégias de como conviver com esses ambientes, armazenar e guardar água e alimentos e  prevenir o que era possível. Tudo isso é conhecimento que precisa ser compreendido e aprendido por parte dos governos para construir as políticas e ações para esse território e com esses povos. A democracia nos trouxe uma maturidade, nem sempre exercida, de que não dá para construir sem os sujeitos de direitos. Se olharmos para isso, enquanto gestores públicos, no lugar onde nós estamos, com a sensibilidade e abertura que é necessária, podemos construir boas políticas públicas a partir da realidade das pessoas, e não fechados no gabinete apenas a partir do entendimento teórico.  

 

Coletiva: A ONU indica que a juventude e as mulheres têm bastante espaço nesse lugar de combate à desertificação. Você tem exemplos aqui no Brasil, principalmente em Pernambuco, de iniciativas encabeçadas por juventudes, mulheres e comunidades tradicionais que podem servir de exemplos de adaptação e mitigação aos impactos da desertificação? 

 

Alexandre: Na região do Pajeú, existe uma instituição chamada “Rede de Mulheres Produtoras do Pajeú”. Elas estão executando um projeto apoiado pelo Fundo Nacional do Meio Ambiente, gerido pelo Ministério do Meio Ambiente e Mudança do Clima e focado na agenda do combate à desertificação, trabalhando com a restauração socioprodutiva em sistemas agroflorestais com grupos de mulheres. Uma outra iniciativa se chama “Escola de Formação em Convivência com o Semiárido", que existe desde 1992 e poucas pessoas sabem. Lá, o Instituto Regional da Pequena Agropecuária Apropriada (IRPAA), uma ONG que atua no sertão, principalmente da Bahia e Pernambuco, desenvolve um trabalho de formação de jovens em toda região do semiárido brasileiro, a partir de uma metodologia de imersão de jovens agricultores, indígenas, quilombolas e outras comunidades tradicionais que fazem um mergulho de forma coletiva sobre os conhecimentos teóricos, práticos, científicos e técnicos da convivência com o semiárido. Esse trabalho que o IRPAA desenvolve é muito potente, porque ajuda também os próprios jovens a compreender melhor o semiárido. Às vezes, a visão negativa da Caatinga é falta de conhecimento sobre essa região, do que esse território tem de potencialidades. Quando passa a conhecer, passa também a compreender melhor, a defender e a construir de forma mais sustentável. Existe ainda uma terceira experiência que são as comunidades de fundo e fecho de pasto. São mais de 1000 comunidades no estado da Bahia, com um modo de vida comunitário para criação de animais. As comunidades criam coletivamente, em uma lógica de manejo sustentável, em que a quantidade de animais está adequada ao tamanho da propriedade/área coletiva e a disponibilidade de Caatinga para alimentar esses animais. Essa forma de vida é uma experiência muito positiva no combate à desertificação, porque elas conseguem produzir conservando a região. 

 

Coletiva: Quais iniciativas que você participou tem alcançado resultados concretos no combate à degradação do solo e na recuperação dos ecossistemas?

 

Alexandre: A gente tem hoje, no Departamento de Combate à Desertificação, diversas iniciativas. Uma delas é a campanha "Terra, Floresta, Água - enfrentamento à desertificação e às secas." Ela foi lançada em junho de 2024, pela ministra Marina Silva e pelo então, secretário da Convenção das Nações Unidas de Combate à Desertificação, o Senhor Ibrahin Thiaw, na Missão Climática pela Caatinga, em Petrolina. A ideia era dar visibilidade à Caatinga, com o potencial que tem e, ao mesmo tempo, os riscos que a Caatinga corre com o processo climático e da desertificação. Essa campanha está sendo formatada numa parceria do MMA com o canal Saúde da Fiocruz e com a ASA. O foco da campanha é educativo, para mostrar quais são as causas e as consequências do processo de desertificação, trazendo as experiências de convivência com o semiárido como estratégias para o enfrentamento a esse processo e mitigação dos efeitos da seca. Outra iniciativa que nós temos é uma parceria com a Superintendência de Desenvolvimento do Nordeste (Sudene), a Universidade Federal do Vale do São Francisco (Univasf) e os estados do Semiárido, para elaboração dos Planos Estaduais de Combate à Desertificação e Mitigação dos Efeitos da Seca. É um projeto sendo executado através de um processo de escuta em cada um dos estados, com seminários, reuniões técnicas, oficinas para captar da comunidade científica, das organizações da sociedade civil,  dos povos e comunidades tradicionais, dos governos municipais e dos próprios órgãos de governo do estado, quais seriam os caminhos e rumos para um Plano Estadual de Combate à Desertificação. Essa iniciativa se insere numa estratégia nossa de alinhar o Plano de Ação Brasileira de Combate à Desertificação (PAB Brasil) com os estados, com o objetivo de construir uma articulação mais duradoura do Governo Federal com os governos subnacionais, na implementação de ações para conter o processo de degradação da terra e contribuir para a  adaptação às mudanças climáticas, enfrentando o processo de secas e desertificação. Existe ainda o projeto Redeser, em parceria com a Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO), que se encerrou em dezembro de 2025, que já fez planos de manejo sustentável para mais de 600 mil hectares de Caatinga a serem recuperados nos territórios onde o projeto atua. Vários sistemas agroflorestais foram implantados, em parceria com as famílias agricultoras, para recuperar as áreas degradadas, visto que é uma abordagem técnica extremamente eficiente para recompor a biodiversidade, a fertilidade dos solos, a disponibilidade de água no ambiente, para produzir alimentos e atenuar o aquecimento global. Além desses, está sendo estruturado o programa Recaatingar, que tem como objetivo utilizar uma série de metodologias e tecnologias sociais em diálogo direto com as comunidades de agricultores familiares, assentamentos da reforma agrária, indígenas, quilombolas, comunidades de fundo e fecho de pasto, e várias outras comunidades tradicionais que atuam e vivem nesse ambiente do semiárido para cruzar o conhecimento e as práticas desses povos com abordagens que já foram comprovadas. Então, a gente tem diversos projetos sendo executados de forma estratégica em determinados lugares. 

Coletiva: A partir da sua vivência na formulação de políticas públicas, como você avalia o grau de prioridade dada ao combate à desertificação nas agendas ambientais dos governos federais e estaduais, bem como nos fóruns e seminários? Quais são os principais entraves para implementação plena dos programas no Brasil? 

 

Alexandre: O sucesso de uma política pública, entre vários outros aspectos, depende de três condições  básicas. Você pode ter a melhor estratégia de articulação, mas se não tiver uma dessas três dimensões, a meu ver não vai funcionar. A primeira é ter o instrumento legal. Ou seja, a lei, o decreto, a normativa que dá um amparo legal para a implementação daquela política. A segunda é ter a estrutura de gestão da política. Não adianta você ter uma lei que cria uma política, se ela não está localizada na estrutura de governança da gestão pública, se não é uma secretaria, um departamento, se não é uma coordenação. A terceira dimensão são os recursos. Você pode até ter um instrumento da lei, ter as pessoas, mas se não tem recurso, não funciona. Essa é a primeira gestão, na história do Brasil, em que existe um Departamento de Combate à Desertificação, já que até então o tema fazia parte de outro Departamento. Quando a gente vai para os governos dos estados, não existe essa estrutura, em muitas situações a agenda é tocada por um servidor ou servidora, mas sem uma governança estabelecida. Existe a lei 13.153 de 2015 que cria a Política Nacional de Combate à Desertificação, existe um decreto que cria a Comissão Nacional de Combate à Desertificação, existe a estrutura do departamento, mas o orçamento é muito pequeno. Em 2022, era de R$30 mil. Em 2023, foi de R$5 milhões, e desde então, com os ajustes aos quais o executivo é submetido para atender à política fiscal imposta pelo Congresso, os recursos para essa agenda têm diminuído. Os programas do executivo estão ficando sem recursos, porque eles estão indo para as emendas parlamentares, e isso merece bastante atenção da sociedade. Nós estamos instrumentalizando a política com o Plano de Ação Brasileiro, com os planos estaduais, com o Plano de Prevenção e Controle do Desmatamento da Caatinga e do Cerrado, que são os dois biomas mais afetados pelo processo de desertificação. Instalamos a Comissão Nacional de Combate à Desertificação, fortalecendo a participação popular e social. Estamos buscando todos os instrumentos para que a política possa ser aplicada, mas falta orçamento. Quando a gente vai para as estruturas dos governos dos estados, não existe diretoria, coordenação, nada que trate do tema da desertificação. Existe, às vezes, um servidor ou servidora que está ligado a um departamento, uma gerência ou algum órgão da secretaria. Quando vamos para os municípios, não tem instrumento legal, não tem decreto, não tem lei, não tem comissão, não tem orçamento. Isso é sempre uma questão que me preocupa muito. O que fazer para dotar os municípios, sobretudo os municípios pequenos, de maior capacidade da gestão ambiental? A seca alcança as pessoas e elas vão bater na porta da prefeitura, pelo carro pipa, por um atendimento de cesta básica, ou alguma situação assim. Essas questões todas, de um modo geral, são muito desafiantes e, olhando para os governos, existe um desafio gigante para os gestores públicos nas altas esferas reconhecerem que a desertificação é uma agenda climática que requer muita atenção. Nós podemos tornar esse território inviável, do ponto de vista da atividade produtiva, de perder sua biodiversidade e os recursos hídricos que ainda existem e, obviamente, tornar um território com pouquíssimas condições para as pessoas permanecerem nele.

 

Coletiva: Para além das outras medidas, as estratégias de convivência com o semiárido parecem ser frequentes nas estratégias de sustentabilidade dos territórios. Como elas aparecem nas políticas públicas e no que vem sendo pensado para enfrentar a questão da desertificação?

 

Alexandre:  Do ponto de vista histórico, analisando as políticas do Estado brasileiro para a população da região semiárida, elas sempre tiveram um contorno com a seguinte leitura: “É preciso desenvolver o Nordeste e isso vai fazer com que a pobreza das pessoas que vivem na calamidade das secas acabe”. Essa visão de desenvolvimento é a visão neoliberal, de grandes indústrias e abertura de estradas. Então, se viu a oportunidade de industrializar no litoral e trouxeram o povo que está sofrendo de sede e morrendo de fome para cá, porque vai ter trabalho e resolver o problema, em tese. Porque as pessoas têm vínculos com os territórios, não são lugares somente de produção. Mas o rural é, e a professora Nazareth Wanderley traz isso de forma muito marcante nas suas publicações, um lugar de vida e reprodução social. Para além de uma perspectiva de produção, ali está a casa do compadre, a capela, o campo de futebol, e a população prefere muitas vezes ficar e tentar construir as condições para poderem viver do que migrar para um processo apenas material. E aí surge, ainda na década de 1970, as primeiras construções verbais e textuais que tratam da ideia de conviver, ao invés de falar em combater a seca. Com toda a efervescência da Ditadura, muitos movimentos foram insurgindo contra a opressão daquele momento. Então, você tinha um processo de organização do povo, que foi gerando a compreensão de que era necessário construir um caminho que não fosse o do combate. Em 1992, a Eco 92 criou as três Convenções para atender as três grandes frentes de degradação do planeta : Convenção das Nações Unidas sobre Mudanças Climáticas, Convenção sobre Diversidade Biológica e Convenção das Nações Unidas de Combate à Desertificação e Mitigação aos Efeitos da Seca, que foi  formalmente criada em 1994.  Em 1997, o Brasil faz a adesão da Convenção e em 1999 recebe a Terceira Conferência das Partes de Combate à Desertificação (COP3), o que gerou  um processo de articulação das instituições para organizar a participação do país na COP. Essas organizações se articulam e elaboram um documento que se chama Declaração do Semiárido, que é o constitutivo da Articulação do Semiárido Brasileiro (ASA). Este documento trata, de forma mais explícita, o conceito de convivência com o semiárido. É o reconhecimento das práticas dos agricultores e agricultoras de uma série de estratégias de "como se faz para viver aqui?". Então, assim como as populações das regiões frias armazenam carne, salame, gorduras, vegetais e tudo mais para os períodos de inverno, o povo do semiárido armazena sementes, ração para os animais, guarda água e alimentos. O que a ASA trouxe  foi uma perspectiva de dizer que a cultura do estoque é a base para as práticas de convivência com o semiárido. Estocar água, estocar semente, estocar comida para as pessoas, estocar comida para os animais. Isso gera uma compreensão de  que conservar a mata daquela nascente, a cacimba, a área de vegetação, não fazer queimadas, não fazer desmatamento, guardar a ração e sementes, são práticas que ajudam as pessoas a conviver com o ambiente e, consequentemente, a conservá-lo melhor. Toda essa agenda do desenvolvimento sustentável, na qual construí minha trajetória e vivência, se aproxima de forma direta da agenda climática e ambiental. Ainda que a gente tenha passado a reconhecer a importância da agroecologia e da convivência com o semiárido, é fundamental destacar que essa conexão com os temas ambiental e climático já era considerada pelas organizações da sociedade civil. Essas organizações entendem que, ao produzir de forma agroecológica e ao adotar os princípios da convivência com o semiárido, também se está contribuindo de maneira concreta para a agenda ambiental e climática. Muitas vezes, porém, o governo enxerga essas práticas apenas sob a ótica da atividade produtiva, como geração de renda e promoção da segurança alimentar, o que é importante. No entanto, essa perspectiva é limitada. Para além desses aspectos, trata-se de uma abordagem estratégica no enfrentamento das mudanças climáticas e na conservação da biodiversidade, revelando um enorme potencial que vai muito além da produção em si.

 

Coletiva: Qual o papel das instituições de pesquisa e educacionais, além da imprensa, para que as informações sobre clima cheguem de forma adequada e ampliada ao público?

 

Alexandre: Veja, cada vez mais os recursos tecnológicos têm apoiado, sobretudo nós que estamos no campo da gestão pública, a ser mais assertivos na decisão de quais são os caminhos, as prioridades e os dados científicos a serem seguidos para a elaboração e a implementação de políticas públicas. A política precisa responder às necessidades da sociedade, e a produção de dados e conhecimentos é fundamental para que eu, como gestor, não privilegie Pernambuco, porque eu sou de Pernambuco. Eu privilegio os municípios que estão com maior criticidade a partir de dados técnicos comprovados. A gente tem, enquanto Ministério, buscado dados e informações de várias organizações públicas federais, trabalhando com o Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE), com o Centro de Monitoramento de Alerta de Desastres Naturais (CEMADEN), e com a Agência Nacional de Águas. Também temos feito uma opção de valorizar as instituições públicas que produzem pesquisa, dados e informações, e que tratam os dados da região do semiárido. Nós temos vários centros de pesquisa de excelência na Região Nordeste que nos ajudam a olhar para as informações que precisamos utilizar para a implementação das políticas. Posso me referir à Fundação Joaquim Nabuco (Fundaj), ao Instituto Nacional do Semiárido (Insa) , à Fundação Cearense de Meteorologia e Recursos Hídricos (Funceme), à Embrapa Semiárido,  unidade de pesquisa da Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária que têm  produzido muito conhecimento sobre essa agenda. Existem muitas instituições que têm produzido muito conhecimento, inclusive aquelas que estão enraizadas no território onde estão as questões a serem tratadas. O desafio de tradução do dado científico para uma informação mais amigável para o conhecimento popular precisa ser enfrentado. É preciso pegar os dados e traduzir para uma linguagem mais acessível, porque podem gerar informações muito potentes, que interessam a sociedade. Isso também serve para o Plano de Ação Brasileira de Combate à Desertificação (PAB Brasil), que é um instrumento de política pública, e que precisa ser popularizado, numa linguagem mais acessível para as pessoas. Esse é um desafio que, para a gente, também é importante.

Coletiva: Quais caminhos você enxerga como estratégicos para consolidar uma política pública que combata a desertificação e seja capaz de conjugar a recuperação ambiental, a inclusão produtiva e a resiliência climática no semiárido brasileiro? 

 

Alexandre: Eu aposto muito no esforço que nós estamos fazendo aqui no MMA em dialogar com várias outras áreas do Governo Federal, com os governos subnacionais, com o Consórcio Nordeste, com outras instituições de pesquisa e com a própria sociedade civil, apresentando a existência de uma Política Nacional de Combate à Desertificação. As pessoas precisam saber que existe a política e que, aquilo que elas estão fazendo em determinadas situações, está contribuindo para a implementação da mesma. Além disso, nós precisamos entender que combater a desertificação a partir da restauração socioprodutiva é um caminho chave para combatermos a miséria, a fome e a pobreza na região semiárida do Brasil, contribuindo também para a recuperação da fertilidade dos solos desse território e ampliando a capacidade de retomar a biodiversidade do Bioma Caatinga.  Nas diversas instâncias, governos, setor privado, sociedade civil e comunidade científica, é fundamental construir caminhos concretos para avançar no enfrentamento das mudanças climáticas. E eu diria mais: embora o desemprego formal esteja em queda no Brasil, ainda existe uma demanda muito grande por trabalho e geração de renda. Assim, se de um lado temos pessoas precisando de oportunidades, e de outro, uma enorme demanda por restauração de áreas degradadas, por que não aproximar essas duas necessidades? Ao fazer isso, podemos gerar emprego e renda ao mesmo tempo em que recuperamos terras degradadas. E, no médio e longo prazo, toda a população se beneficia dos resultados dessa restauração. Claro que há uma série de complexidades envolvidas, mas essa é uma forma de enxergar o potencial de articular duas questões que hoje aparecem como problemas e transformá-las em uma solução voltada ao bem comum, tanto para o Brasil quanto para a humanidade. É, no fundo, conectar quem produz com quem precisa de alimento. Talvez o Brasil pudesse, assim, dar um salto também do ponto de vista econômico, já que esse tipo de iniciativa tem um grande potencial de dinamizar as economias locais e fortalecer os territórios.

O ENTREVISTADO

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Alexandre Henrique Bezerra Pires é  Biólogo, Mestre em Extensão Rural e Desenvolvimento Local (UFRPE). Integrante da equipe do Centro Sabiá de 2002 a 2023. Integrante da Coordenação Executiva dá ASA por Pernambuco de 2014 a 2022. Natural de Iguaracy, Sertão do Pajeú, em Pernambuco.

Desde março/2023 atua como Diretor do Departamento de Combate à Desertificação e Mitigação dos Efeitos da Seca (DCDE), vinculado à Secretaria Nacional de Povos e Comunidades Tradicionais e Desenvolvimento Rural Sustentável (SNPCT) no Ministério do Meio Ambiente e Mudança do Clima (MMA). Também assume outras duas funções: Secretário Executivo da Comissão Nacional de Combate à Desertificação (CNCD) e Ponto Focal Técnico do Brasil na Convenção das Nações Unidas para o Combate à Desertificação (UNCCD).

COMO CITAR ESSE TEXTO 

PIRES, Alexandre. Entrevista com Alexandre Pires. [ de out. 2024] Recife: Revista Coletiva. Entrevista concedida a Amaro Mendonça e Cristiano Borba. Disponível em: https://www.coletiva.org/entrevista-tiaraju . ISSN 2179-1287.

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