E n t r e v i s t a 

Entrevista com Leonardo Boff

04.2020 | Entrevista por Alexandre Zarias e Tânia Aparecida Kuhnen

"Esperançar não é uma atitude que espera que um dia vai tudo melhorar por si mesmo. Esperançar é colocar as ações e as práticas que vão antecipando e criando ativamente a esperança. Ela se torna fruto do dinamismo intrínseco da história, mas muito mais do esforço humano de melhorar nosso mundo e o conjunto das relações".

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Recebemos especialmente o teólogo e filósofo Leonardo Boff para nos falar sobre o cuidado. Segundo ele, o cuidado é intrinsecamente humano. É uma atitude de zelo e proteção que não se dirige apenas a uma pessoa, mas também a todo grupo humano, aos animais, às plantas, aos recursos naturais, enfim, engloba toda nossa existência no Planeta Terra. Nosso planeta, que Boff chama de Casa Comum, deve ser cuidado e requer nossa atenção mais do que nunca, sob pena de não termos mais futuro. A pandemia de Covid-19, na sua visão, é consequência de nosso descaso em relação à natureza. Mas o coronavírus não ameaça somente nossas existências. Ele coloca em xeque o sistema capitalista e o papel do Estado na proteção e preservação de nossas vidas. No caso brasileiro, o desamparo estatal é expresso pelas mais de 300 mil vítimas da pandemia no mês de março de 2021. Realizada por email, esta entrevista, concluída no dia 5 de março, nos deixa uma visão otimista ao seu final. Ao lembrar-nos dos ensinamentos de Paulo Freire, Boff diz que é preciso esperançar, elemento este de nossa potência para melhorar o mundo e o conjunto de nossas relações uns com os outros.

Coletiva - O tema deste dossiê da Revista Coletiva é “Cuidado”. A ideia temática tem, evidentemente, a pandemia de Covid-19 como contexto. Nesses períodos difíceis, aqui no Brasil, pelo menos, a ideia de cuidado tem circulado de diferentes maneiras e vem assumindo significados diversos. A partir de um ponto de vista individual, o “cuidado” revela-se por meio de atitudes contraditórias. De um lado, há pessoas que reclamam cuidar de si, de sua saúde mental e bem-estar, colocando a vida de outras pessoas em risco ao agirem como potenciais vetores do vírus SARS-CoV-2. São as escapadas para a praia, as festas inadiáveis com a família e amigos, a cerveja partilhada em mesas de bar. De outro lado, pessoas que se mantêm confinadas, estendendo a ideia de cuidado para um cuidado-com-o-outro. Essas pessoas respeitam as regras de distanciamento, usam máscaras quando em público, enfim, temem não só pela própria saúde, mas compreendem que o bem-estar dos outros depende exatamente do próprio bem-estar físico, psíquico e espiritual. Nós nos indagamos: que cuidado é esse? Estamos falando a mesma língua?

 

Leonardo Boff - Tudo o que é sadio pode ficar doente. Da mesma forma, o cuidado, que é uma categoria da essência da vida e do próprio ser humano, pode ganhar uma expressão doentia que contradiz a natureza do cuidado como se vê no atual egoísmo face à pandemia de Covid-19. As pessoas cuidam-se apenas de si mesmas sem  “cuidar” de cuidar do outro. Mais grave é ainda quando os 10 países mais ricos compraram para si, para cuidarem de sua população, 3 ⁄ 4 da produção mundial de vacinas. Entretanto, 150 países onde vivem 2,5 bilhões de pessoas não ganharam nenhuma vacina. A América Latina recebeu apenas 5%. Aqui notamos o cuidado em sua forma patológica e inumana.

O cuidado, como categoria de compreensão, tem a mais alta ancestralidade. Está ligada à fábula do cuidado (n.220) de Higino (+10 dC), diretor da Biblioteca Palatina do imperador César Augusto. O conceito mereceu amplo estudo por Martin Heidegger (1889-1976), precedido de investigações em Aristóteles e em Santo Agostinho, até chegar a sua formulação maior em Ser e Tempo (1926). Os parágrafos 41 e 42 desta obra são todos dedicados à ontologia do cuidado. Para Heidegger, o “cuidado fornece os fundamentos ontológicos adequados para o ente que nós mesmos somos e que chamamos de homem” (& 41, p.262, Ed. Vozes, 2001). E continua: “o cuidado subministra preliminarmente o solo em que toda interpretação do ser humano se move” (&  41, p.265). O cuidado é tão essencial ao humano que falar dele sem falar do cuidado não é falar do ser humano.

O cuidado é, em seu sentido primeiro, uma atitude de desvelo, de atenção e de zelo que se devota a uma pessoa ou a algo pelo qual temos especial ligação afetiva.

Por causa desse envolvimento afetivo, o cuidado pode significar também preocupação, inquietação e até perturbação pela pessoa amada, pois ela tornou-se preciosa e objeto de amor. Já o velho padre Vieira comentava: "quem tem cuidados não dorme”.

Um terceiro sentido foi desenvolvido pelo conhecido psicanalista inglês Donald Woods Winnicott, que fez do cuidado (care) o eixo estruturador de toda sua psicologia especialmente voltada às crianças. Para ele, o cuidado nunca vem desnudo, mas comporta um conjunto de dispositivos de apoio, de sustentação e de proteção sem os quais a vida humana corre risco. Chama a isso de “holding”. Winnicott aprofundou especialmente os dois movimentos  que são indissociáveis ao cuidado: a vontade de ser cuidado e a vontade de cuidar. Isso é evidente na relação mãe-bebê: este sente necessidade de ser cuidado e a mãe, a vontade de cuidá-lo. O mesmo ocorre no corpo médico,  especialmente, em momentos gravíssimos como os da Covid-19: o enfermeiro/a ou o médico/a ou o intensivista são extremamente exigidos. Sentem necessidade de serem cuidados e o dever os leva a cuidar dos acometidos pelo terrível vírus. Fundamentalmente, tal situação pertence à condição humana frágil e exposta a riscos: a pessoa, por vezes, sente necessidade de alguém que o cuide, que lhe suscite esperança e, ao mesmo tempo, em outra ocasião, sente necessidade de cuidar do outro submetido ao estresse ou à desesperança.

No atual momento em que a vida humana corre risco e o próprio planeta pode perder sua capacidade de produzir vida, e que a vida pode ser totalmente destruída pela falta de cuidado do ser humano em sua relação para com a natureza e ao futuro comum, o cuidado ganha relevância imprescindível: ou cuidamos na Casa Comum ou todos poderemos ser ameaçados de não ter mais futuro. Face a essa emergência planetária, o Papa Francisco escreveu duas encíclicas de ecologia integral, dirigidas a toda a humanidade, não apenas aos cristãos, a Laudato Si (2015). Leva como subtítulo que equivale a seu verdadeiro título “Sobre o cuidado da Casa Comum”. E na mais recente Fratelli tutti (2019) chega a dizer: “estamos no mesmo barco. Ou nos salvamos todos ou ninguém se salva”(n.32). Por tais advertências, secundadas pelos melhores cosmólogos, astrofísicos e biólogos, nos damos conta da necessidade do cuidado. Ou cuidamos da herança sagrada que herdamos do universo ou de  Deus, a Terra viva e a biodiversidade da natureza ou “engrossaremos o cortejo”, do dizer de Zygmunt Bauman, “daqueles que rumam na direção se sua própria sepultura”.

Coletiva - De um ponto de vista institucional, essas contradições encontram ecos na forma de organização da economia e do setor público. Abrimos ou fechamos escolas? Autorizamos ou não a abertura de bares, museus, cinemas, restaurantes, etc.? Na conta da pandemia, como definir o que é essencial ou não para nossas vidas? As respostas de municípios, estados e governo federal apontam para lados diferentes. Aliás, assistimos a um completo abandono do governo federal em relação a um plano nacional para preservação da vida e mitigação dos efeitos nefastos da pandemia de Covid-19. O Estado, que deveria cuidar de sua gente, seu povo, parece exatamente agir na direção contrária. No Brasil, gerencia-se a morte.  Nesse sentido,  como pensar o cuidado como política de Estado?

Leonardo Boff - A primeira tarefa de um chefe de Estado e de seu governo é cuidar da vida do povo. O atual presidente não governa para todo o país, mas apenas para os seus seguidores, ele mesmo e muitos deles,  inscritos no mais retrógrado fundamentalismo de viés ultra-direitista e proto-fascista. Quando todos os países reconheceram a gravidade da intrusão da Covid-19, ele a tratou como uma “gripezinha” que iria logo passar. Negou e continua negando os dados científicos a ponto de não elaborar nenhum plano específico para enfrentar a epidemia. À frente do Ministério da Saúde colocou um general que nada entende de medicina e como seu assessor um veterinário. Tal decisão mostra seu total desprezo pelo corpo médico e pela ciência. Jamais mostrou solidariedade às famílias cujos membros, já passando de 270 mil, foram vitimados pelo vírus. Possui um caráter claramente necrófilo, desprezando o uso da máscara e facilitando conglomerações.  Se nossas instituições maiores como o Parlamento e o Supremo Tribunal Federal tivessem mais sentido de empatia e amor ao povo, deveriam ter já interditado o presidente por razões éticas, políticas e patológicas. Seguramente, as grandes maiorias não aceitarão a alternativa: ou morrer de fome ou morrer de vírus. Preferirão morrer lutando pela vida dos filhos famintos e por eles mesmos, com grandes manifestações e mesmo levantes. Estimo que este presidente, a seu tempo, deverá enfrentar o Tribunal Internacional Penal por crimes contra a humanidade.

Coletiva -  Se, no início da pandemia, nossa relação com a natureza pareceu colocar em prova nossa atitude predatória para com o planeta Terra, nos fazendo questionar os fins do capitalismo, parece-nos hoje que esse sistema de exploração mantém solidamente seus pilares. Um dos resultados da pandemia é o aprofundamento das desigualdades sociais. Os ricos estão mais ricos e os pobres cada vez mais pobres. Um fio de esperança, que parecia nos levar a uma mudança de paradigma em relação aos nossos modos de existência terrenos, parece ter esmaecido. Como retomá-lo? Onde estão as boas experiências que podem nos apontar saídas para permanecermos uns-com-os-outros neste planeta?

Leonardo Boff - Na minha interpretação, a Covid-19 caiu como um raio sobre o sistema industrialista-produtivista-capitalista e sobre sua expressão política, o neoliberalismo. Se tivéssemos seguido os mantras que estão à base deste sistema que criou a cultura do capital, que de certa forma nos mantém a todos reféns dele, a Terra e nós mesmos estaríamos sob grave risco. Seus mantras são: o lucro em primeiro lugar, apropriado pelo indivíduo, seguindo a lógica da competição cada vez mais feroz, explorando de forma ilimitada a natureza, promovendo o Estado mínimo, favorecendo ao máximo o mercado acima da sociedade,  as privatizações dos bens comuns. Ora, esse sistema criou o antropoceno e até o necroceno, produziu a Covid-19. Esta não pode ser entendida isolada e fora de seu contexto. Ela é consequência da sistemática agressão do ser humano aos bens e serviços da natureza a ponto de destruir os habitats das milhares de espécies de vírus existentes na natureza. Perderam sua “casinha” e para sobreviverem saltam para outros animais e destes para nós. Ocupamos 83% do planeta de forma devastadora. Chegou um momento em que a Terra viva, um Super Sistema que articula o físico, o químico e o ecológico de tal forma que sempre produz vida para toda a comunidade de vida, reagiu e contra-atacou o planeta inteiro, onde habitam os agressores. Não atacou os gatos, cachorros e outros animais. Apenas os seres humanos. É um sinal de que a Terra alcançou o seu limite e se obriga  a contra-atacar defendendo-se. Mandou-nos ultimamente uma verdadeira gama de vírus, o zika, o chikungunya, o ebola e outros, além do aumento do aquecimento global, mais  eventos extremos, a  crescente erosão da biodiversidade entre outros sinais. Trata-se de uma advertência. Não podemos seguir por esse caminho já andado pela modernidade.  Ela inegavelmente tornou mais cômoda a vida, mas,  ao mesmo tempo, criou o princípio de autodestruição por armas nucleares, químicas e biológicas. O isolamento social não é fortuito. É o tempo que a Mãe Terra nos concede para repensarmos nosso curso, reinventarmos novas formas de relação para com a Terra e a natureza ou então aceitarmos o que a Carta da Terra (2003), esse importante documento de valor universal, assumido pela UNESCO, adverte em seu preâmbulo: “ou fazemos um pacto de cuidarmos da Terra e de uns e de outros ou corremos o risco de assistir a  nossa destruição e a destruição da diversidade da vida”.

Na verdade, o que nos está salvando são aqueles valores que estavam ausentes ou apenas vividos de forma individual no sistema imperante: a centralidade da vida, a solidariedade, a interdependência entre todos, o cuidado uns para para com os outros e para com a natureza, a compaixão e o amor. Sem tais valores, ancorados na essência do humano e que nos faz humanos, estaríamos todos sob grave risco de não sobrevivermos como espécie. Podemos desaparecer e a Terra seguirá por milhões de anos a girar ao redor do Sol, mas sem nós. 

Por esta razão, a encíclica Fratelli tutti do Papa Francisco propõe como paradigma novo: a fraternidade sem fronteiras, o amor social, a solidariedade e o cuidado, agora universalizados para todos, como condição de garantirmos um futuro à vida, à nossa civilização e à vitalidade da Terra. O pior que nos pode acontecer seria voltarmos à antiga normalidade, marcada por brutais desigualdades, perversas agressões a todos os ecossistemas e uma péssima qualidade de vida para a maioria da humanidade. Como nunca antes na história, o destino comum nos conclama a um novo começo, inspirando-me nas palavras da Carta da Terra. Para isso, temos que mudar. Se não mudarmos e ensaiarmos um novo paradigma biocentrado para qual a vida é o eixo articulador e a economia e a política a seu serviço, iremos ao encontro de um caminho sem retorno e poderemos conhecer o destino já sofrido pelos dinossauros.

Coletiva - Parece-nos que uma das saídas é voltarmos nossa atenção e olhares para outros modos de conviver com a terra, a água, o ar, os bichos, as plantas, enfim, com os ecossistemas que nos abrigam. Povos originários, de conhecimentos ancestrais, sobreviventes de um extermínio programado há séculos, mantêm com o ambiente um tipo de relação que nos oferece paradigmas de cuidado diferentes daqueles consagrados no Ocidente. O pensador indígena Ailton Krenak chega a apontar para a existência de um “mito da sustentabilidade” envolvido na tentativa de conduzir a sociedade humana para longe da terra. Isso é denominado de “progresso” e “civilização”, mas termina por ser um processo revestido de um ideal único de forma de vida, que termina por limitar e negar a capacidade inventiva, existencial, criativa e a liberdade de todos os incluídos no grupo dos “sub-humanos”. O que temos para aprender com esses povos? Na América Latina, sobretudo, que experiências de cuidado podem nos inspirar?

Leonardo Boff -  No atual momento se trava uma feroz discussão sobre o tipo de Terra e de humanidade que nós queremos ou devemos projetar. Sabemos que há o  1% da humanidade que controla grande parte da riqueza mundial, que trama impor a todo o planeta um despotismo de natureza nova, baseado na inteligência artificial que, com seus trilhões de algoritmos, pode controlar cada pessoa e toda a humanidade - como estão controlando o que estou escrevendo -  no sentido de salvaguardar suas fortunas. Será o que de mais terrível nos poderia acontecer? Mas não é impossível, pois o gênio do capital é cruel e sem piedade, assassino de vidas da natureza e de vidas humanas. Logicamente, todo poder provoca um antipoder. Haverá rebeliões e grande mortandade que irão impor limites e até uma derrota a esta forma perversa de dominação. 

O ecossocialismo se apresenta como um projeto viável, ao colocar a humanidade como centro de tudo, a Casa Comum e a natureza incluída como a nova fase da humanidade que se decide pela vida e não pela autodestruição. Então seremos todos socialistas não por ideologia política, mas por razões matemáticas: dispomos apenas de tais e tais bens e serviços, todos limitados. Devem atender as demandas humanas e de toda a comunidade de vida (flora e fauna), pois a Terra não criou apenas a nós, mas a todos os demais seres que também merecem viver e  contar com os nutrientes necessários. Sem esquecer as futuras gerações que também têm o direito de uma Terra habitável junto com uma natureza revitalizada.

O “bien-vivir e com-vivir” dos andinos emerge como um ideal de grande potencialidade. Seu eixo estruturador é a harmonia entre todos, a começar na família, com a sociedade e com a natureza e não excluída a Divindade. A economia não é de acumulação, mas de sobrevivência, pois a Pacha Mama tudo nos dá. E o trabalho significa nossa colaboração  a ela quando algo se torna insuficiente. Num dia em que a humanidade como espécie se sentir de fato feita de irmãos e irmãs dentro da única Casa Comum junto com a natureza, o projeto civilizatório andino seria a grande e a viável proposta. 

Cabe ressaltar que nestes momentos de perplexidade nos quais a humanidade não sabe o que fazer e esperar, teria grande ganho em revistar os povos originários. Eles se sentem parte da natureza e sabem tratá-la com respeito, conhecendo suas possibilidades e seus limites. Nisso são nossos mestres e doutores. Mas quem os escuta e escutará? Ao contrário, são difamados como sub-humanos e atrasados, quando na verdade são os guardiães dos valores que perdemos e que nos poderão salvar.

Os tempos estão madurando para que haja um único mundo necessário dentro do qual coexistam os vários e diferentes mundos culturais com suas riquezas, tradições, religiões e demais valores junto com a natureza respeitada e considerada em seus direitos e seus diferentes seres como novos cidadãos compondo a grande democracia sócio-ecológica.

Coletiva - Nosso grande pensador brasileiro Paulo Freire diria que essas culturas ancestrais são culturas silenciadas. São culturas que transmitiram de geração a geração o conhecimento necessário para “cuidarmos” da Terra. E ainda, com Paulo Freire,  aprendemos que a “educação não transforma o mundo, mas sim as pessoas. São elas que transformam o mundo.” Como educar, pois, para o cuidado? O que é uma educação para o cuidado e qual é o seu potencial para mudarmos o mundo por meio dela?

Leonardo Boff - Paulo Freire é o educador para uma nova humanidade, pois põe todos no mesmo chão como iguais,  irmãos e irmãs que dialogam entre si, trocam saberes e todos se enriquecem. Recordou-nos aquilo que a tradição teológica sempre afirmou: o primeiro livro que nos foi dado é a natureza e a vida de cada um. Auscultando a natureza e os demais companheiros de existência, vamos criando nosso estar no mundo com o mundo e com os outros, acolhendo as diferenças sendo diferentes e vivendo a plena liberdade dos libertos de todas as opressões e discriminações. Depois da natureza, a cultura criou o livro que contém a sabedoria dos povos. Devemos aprender a ler para nos enriquecer da herança de todos os saberes acumulados. No fim da vida, atento aos dramas que estão ocorrendo na humanidade, conclamou-nos esperançar. Esperançar não é uma atitude que espera que um dia vai tudo melhorar por si mesmo. Esperançar é colocar as ações e as práticas que vão antecipando e criando ativamente a esperança. Ela se torna fruto do dinamismo intrínseco da história, mas muito mais do esforço humano de melhorar nosso mundo e o conjunto das relações. Para isso precisamos do amor, categoria central em Paulo Freire, traduzida também como amorosidade, amor como aquela energia que nos move continuamente na direção do outro para juntos criarmos um futuro melhor. Cultivava a utopia viável de uma sociedade menos malvada na qual não seja tão difícil o amor. Como é atual essa sua utopia mínima, num momento trágico de nossa história onde os mecanismos da necrofilia parecem suplantar a biofilia e a amorosidade. Mas a história nos tem sempre mostrado que, ao fim e ao cabo, o que prospera e triunfa é a justiça para todos, o encontro afetuoso e a amorosidade que nos traz uma discreta felicidade, possível aos filhos e filhas de Adão e Eva.

Biobibliografia

Leonardo Boff, 1938, é doutor em filosofia e teologia pela Universidade de Munique. Foi um dos formuladores da Teologia da Libertação. Durante muitos anos, foi professor de teologia em Petrópolis e, posteriormente, professor de ética, filosofia da religião e ecologia na Universidade do Estado do Rio de Janeiro. Foi professor visitante em Lisboa, Salamanca, Harvard, Basel e Heidelberg. Doutor honoris causa em política pela Universidade de Turim e em teologia pela Universidade de Lund na Suécia. Portador de vários prêmios por sua atuação em prol dos direitos humanos a partir dos empobrecidos e da formação de uma consciência ecológica, incluindo a ética e a espiritualidade, entre eles, o Prêmio Nobel alternativo da Paz de 2001 em Estocolmo. É autor de mais de 70 livros, a maioria traduzidos  nas várias línguas modernas. 

Entre suas obras cabe destacam-se:

* Igreja: carisma e poder (Vozes, 1983) o levou em 1984 a enfrentar um processo doutrinário na Congregação da Doutrina da Fé no Vaticano onde foi julgado também Galileu Galileu e Giordano Bruno;

* Ecologia: grito da Terra, grito dos pobres (Vozes, 2015) recebeu em 1994 o prêmio de melhor ensaio social do ano pela  Biblioteca Nacional e, nos USA, foi considerado um dos três livros que mais incentivaram o diálogo entre ciência e religião;

*O Tao da Libertação (Vozes, 2011) junto com o cosmólogo Mark Hathaway, galardoado com a Medalha de Ouro em Nova Ciência e Cosmologia, em 2010, nos EUA.

* O Casamento entre o Céu e a Terra: Contos dos povos indígenas do Brasil (Mar de Ideias, 2014)  recebeu o prêmio nacional do melhor livro de contos infanto-juvenis;

* A águia e a galinha (Vozes Nobilis, 2017), Saber cuidar: Ética do humano - Compaixão pela Terra (Vozes, 2014), Virtudes para um outro mundo possível vol. I: Hospitalidade, direito e dever de todos (Vozes Nobilis, 2015), e o mais recente Covid-19: A Mãe Terra contra-ataca a Humanidade (Vozes, 2020). 

 Atualmente, além de palestras e pesquisas, escreve semanalmente para vários jornais do país (como  o Jornal do Brasil) e faz parte  da Comissão Internacional  da Carta da Terra.