Imagens: Dennys Lenon

Educação e 

Diferenças e...

As fotografias foram produzidas e capturadas no parque e igarapé Altamira na cidade de Altamira-PA

n º3   04 de outubro de 2018

Editores Temáticos: Alik Wunder e Antonio Carlos Rodrigues de Amorim

VIDA DE UM IGARAPÉ (QUASE) MORTO 

                                                                                                                                  Carlos Augusto Silva e Silva

   Parque Altamira, Igarapé Altamira, Açaizal e Baixão do Tufi. Esses lugares mobilizaram o pensamento, e fizeram um biólogo pensar sobre as águas de um igarapé. O que ficou após moradores serem removidos de suas casas por conta da instalação de um Complexo Hidrelétrico? O Igarapé Altamira, mesmo sujo, era lar de diversas pessoas. E hoje, o que ele é? E o que ele pode se tornar? Biólogos estudaram e fizeram testes de qualidade da água, análises sociais com moradores e “revitalização” do ambiente, no entanto, o que outros biólogos podem propor nesse mesmo local que o difere? É nesse sentido que um biólogo decide fabular outras experimentações, outros testes... Criação de novas memórias, novas formas de habitar o lugar desabitado... Ali, nas margens sujas é onde tudo começa, igarapé-rio-mar-oceano... é um ciclo descíclico. 

O enfoque neste texto não está direcionado a um sujeito biólogo em si, mas, principalmente, nos processos produzidos a partir de conversas com os moradores, fotografias de quando ali moravam, alguns objetos rejeitados e uma árvore que não aguentou ver seus vizinhos-amigos serem arrancados, pois, de acordo com a biologia oficial, está morta. Um biólogo que buscava por outras biologias, coletando não mais amostras in-orgânicas, e sim afetos, lembranças; transformando tudo isso numa art(e)biologia. Vale ressaltar que as frases que estão em itálico foram inspiradas diretamente por conversas com os moradores.   

Saudade é o nome dele 

Saudade é o nome. Ele - o igarapé - sempre levou o nome da cidade que embelezava: Altamira. Mas já sabemos que seu nome não era apenas Altamira... Sobre ele, calcava-se diversos apelidos, que as pessoas utilizavam para lê-lo. Mas só aqueles que estavam lá sabiam como tratá-lo. Palavras que iniciaram este texto, mas não deram início a ele, que o encerra, mas não o acaba, assim como o igarapé. Palavras que geram vida, aliás, sempre teve vida lá. E a vida acontecia nele, nas suas águas, mesmo quando elas não estavam na forma líquida, a vida acontecia; quando as águas baixavam, as crianças corriam para o igarapé seco que ficou debaixo das casas e brincavam, fabulavam-se moradias, pontos dos encontros, tudo acontecia lá... as vezes se brincava de se esconder, ou se fazia casas ali, ou íamos brincar de casais... tinha os primeiros beijos. Se fosse para brigar com alguém da outra rua a “reunião” sempre era debaixo de qualquer casa. Lá poderia ser um lugar não muito legal para se morar, mas todo mundo era bem mais feliz. Foram tempos bons. Todo mundo era bem mais feliz que hoje.

Mu-danças
 
O igarapé adorava dançar. Tanto que seu verbo preferido era mu-dançar. E assim ele fez, dançou, mudou...
 

Toda imagem é um mundo...

Uma possibilidade de desorganizar as formas estabelecidas para...

Biologia...

Arte...

Biólogo...

Artista...

Movimentos de criação.

Morando nas nuvens... Pontes entre Os barracos e as vidas

As casas eram suspensas, quanto mais alto melhor
 

Um igarapé numa poça d’água
 

     Aonde vão as lembranças de um biólogo? Grudam nas palavras que fazem florescer folhas de vida; imagens que são sementes de poemas.  Bebedor de palavras, mastigador de folhas, engolidor de lama. O igarapé nasce molhando um povo que bebe palavras, mastiga folhas e engole lama. O igarapé nasce do povo; nasce no povo; um povo que está por vir...  Multidões.
 

     Uma imagem, uma lembrança, uma dança; águas que compuseram corpos nutridos por elas, propõe-se a movimentar… São disparadores para além do flash da câmera: memórias, lembranças, envolvimentos, mar-manto, tecidos sendo águas, rio... O rio ou igarapé que ali um dia se fez, hoje se refaz, porém de outra forma. Como? Dançando…

      O igarapé, o biólogo, as árvores, as lembranças, os moradores... quase morreram, isso não significa que eles não morreram, mas, que experienciaram uma parada, mas não um término. Morte momentânea. Escaparam. Nasceram da morte uma potência criadora. Atravessaram a morte, renasceram e transformaram cada molécula da existência numa nova vida alagadiça.

Carlos Augusto Silva e Silva é graduado em Ciências Biológicas, pela Universidade Federal do Pará, com mestrado em Educação em Ciências pela mesma Universidade. Tem experiência na área de educação, com ênfase nas relações entre arte e biologia. Realiza também trabalhos com produções fotográficas, dança e performance.

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