Fonte: Arquivo pessoal, 2017-18
 

Educação e 

Diferenças e...

n º 9 |  11 de novembro de 2019

Editores Temáticos: Alik Wunder e Antonio Carlos Rodrigues de Amorim

Por entre Contas e Douros

OU

entre rios a e-ducar uma menina ...

                                                                                                                  Elenise Cristina Pires de Andrade 

 

Gosto de montar e desmontar palavras. Onde não tem hífen, me assombra colocar um, só para ver se muda o som, o sentido, a cara de quem a lê em voz alta. Muitos exemplos poderiam aqui ser listados de títulos de textos que in-vento, mas deixarei um só: Sinfonia em AR menor: transversAR, (des)cartAR, ex-pressAR (como você leu? ☺).

Já me diverti muito deparando-me com algumas caras e bocas que muitas pessoas – principalmente em ambientes formais da academia – tentam não fazer (para não dar uma impressão de assombro e/ou reprovação) com essas minhas vontades. Mas também gosto de suprimir esses hifens (não tanto quanto o último Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa de 2009 que tirou tantos e poéticos ‘tracinhos’ de nossas palavras – brasileiras – , porque a grande maioria dos escritos realizados além mar cultivam os tracinhos como as oliveiras). Exemplo? Há muito tempo não escrevo e-mail, só email (talvez para ver se os afetos e as gentilezas per-corram com maior intensidade tais trocas de mensagens).

   

Uma menina que gosta de (des)montar sentidos. Subverter palavras. Hifens, parênteses, itálicos que invadem não somente a escrita, mas também o pensamento, arrancando-o das possibilidades por entre provoc-ações: letras-fios-ruas-gestos. Versos. Danças...

 

     

Fonte: Recortes de trechos de Andrade, 2015.
 

Dançar balé no ritmo da contagem, mas em francês et un, et deux, et trois, et quatre, pas bien! (e um e dois e três e quatro, ainda não está bom!). Seria esse o único ritmo para dançarmos? Pas bien! Que tal trançarmos as pernas e braços e caretas ao som das tranças com fitas coloridas? Tra(n)çar imagens-palavras-cores buscando não um contar até atingir o correto, o padronizado, o adequado et un, et deux, et trois, et quatre, pas bien!, mas um aglomerado de intensidades, um jorro de sensações, inadequações, provocações para revirar o bom senso e convidar o non sense a participar dos movimentos de expressão, sem pressa de ser sentido, explorado, experimentado. Et trois, et un, et et quatre et deux! Fugir de um aprender-ensinar que leve exclusivamente a uma re-cognição, e sim extrapolar uma organização linear de finalidade e realização, seja de pensamentos, objetivos, ideias, educações. E-ducar?

    O que faz esse hífen por aqui? Seria a expressão de um entre lugar, assim como a menina e o rio de Contas, na Bahia, e o rio Douro, em Portugal? Entre lugar ‘hífeno’ a pulsar vida para fora ao pretender ex-pulsar as amarras das regularidades, da supremacia de uma infinita espiral de recognições para que a educação possa atingir os espaços, corpos, almas, vontades, sentidos. “[...] quero entender o ‘educar o olhar’ não no sentido de educare (ensinar), mas de e-ducere, como conduzir para fora, dirigir-se para fora, levar para fora.”

    Ducere entendido como ‘levar’, ‘conduzir’. Intensificar o sentido da preposição ‘e’, no latim, que é derivada de ‘ex’, para fora, através do hífen. E-ducere no movimento, não voltar e não ir a nenhuma parte e não ficar parado, nem permanecer. Abandonar uma busca de sentidos, verdades e normalidades. Esvaziar da educação uma necessidade quase autoritária de didatizar o mundo para que, ao final desse percurso, pudéssemos a-PRENDÊ-lo. Nada prender, mas soltar, per-correr... esvaziar para continuar nas possibilidades das dobras, fora/dentro, rio-corpo-dança possibilitando experimentarmos um atraversamento nos pensamentos em educação, produzir riscos em devir, sempre esboçados, palavra-letra-(f/r)io. Letra-fio. Letra-rio. Letra-contas. Rio de Contas.

Encontros intensivos com a ONG “Movimento Mecenas da Vida” que nos possibilitou pensar outros encontros com a agricultura familiar, questões ambientais e sociais, histórias outras, fotografias a se espalharem pelo Rio de Contas-BA. A partir dessa união, trabalhos no projeto de extensão e pesquisa, desenvolvido entre os anos de 2009 e 2012 entre Itacaré e o distrito de Taboquinhas, no sul da Bahia, “Olhares cotidianos da certificação turismo carbono neutro: logos e grafias de uma transformação na APA Itacaré-Serra Grande/BA” [1]. Rio que não conta et un, et deux, et trois, et quatre para dançar. Água-dança que percorre corpos, mãos, plantações, escritas, pesquisas, e-ducações a nos expelirem de possíveis calmarias. Olhares cotidianos expressos em fotografias e cartas [2] nas inúmeras possibilidades de poemar o cotidiano e não somente explica-lo, justifica-lo, mas proporcionar, nesse movimento de expressão, a in-corporação de força, luta e vida. E(s/n)tender essa poesia também como forma de des(a)pertar o político na expressão dos saberes e conhecimentos.

Estender o entendimento. Poesia-rio a provocar um desaperto no político como expressão no processo de se lançar ao hífen em uma e-ducação. Quase um desentender. Quase do Conchas ao Douro. (Des)ocupações, (des)enquadramentos que invadem e propõem, enquanto conceitos a movimentarem o (im)pensável em pesquisa e educação, o pós doutoramento “Provoc-ações: (des)ocupar imagens, (des)enquadrar escritas, perambular por Bahias e Portos” [3], quando visitamos três instituições escolares com a proposta de que os estudantes fissurassem a vontade de (re)cognição das cidades, deixando-se contaminar pela vontade de entender, sentir, explorar, inventar a cidade não apenas como cenário, mas sim como produtora de saberes, expressões, conhecimentos, poesias, e-ducações.

Fonte: Arquivo pessoal, 2017-18.
 

Fotografias de cotidianos de estudantes secundaristas a perambularem por esculturas têxteis; um fanzine produzido por estudantes estrangeiros na disciplina “Fotografia” em uma escola de ensino superior e, finalmente, alunos e alunas em uma área rural da Grande Porto, pertencente a uma turma de Percursos Curriculares Alternativos. Que cidades poderiam ser inventadas, conhecidas, sentidas, expressadas pelos gestos fotográficos dos estudantes envolvidas nessa pesquisa? Ruas, sensações, cores, muros, vivências em expansão não pretendendo identificar o que as imagens ‘representam’, ‘o que elas querem dizer’, ‘o que explicam e registram’. Produções imagéticas a partir de encontros com esses estudantes em exercícios de criação aproximando-nos de um pensar com a arte no intuito de provocar o campo da educação. Quase deseducar...

Vamos voltar um pouco lá no segundo parágrafo... uma menina que gosta de (des)montar sentidos. Subverter palavras. Hifens, parênteses, itálicos que invadem não somente a escrita, mas também o pensamento, arrancando-o das possibilidades por entre provoc-ações: letras-fios-ruas-gestos. Pois é... eis a invasão sendo apresentada de uma outra maneira, pela escolha dos procedimentos e posturas metodológicas atravessadas por essa pesquisa de pós doutoramento. Encontros em oficinas que não pretenderam delimitar, produzir, explicar, mas oficinar, momentos de experimentação, in-ventação de imagens da cidade que transgridem uma a política da representação, para, então, possibilitar a imersão em uma lógica das sensações, pulsações de lugares (re)cortados, (re)visitados em perambulações. Porto que se desgarra do cais e a-porta em outros fora/dentro. Desdobra-se em rio, em fio, em letra. De rio. Douro... Se as provoc-ações (des)ocupam imagens, (des)enquadram escritas, perambulam por Bahias e Portos... e a Bahia, levantou poeira?

Fonte: Arquivo pessoal da pesquisadora.

Corpos-pólvora, pó, poeira [4]. Pulsações. Toques. Tocar guitarra, batuque de candomblé. Tocar a pele de todos os tons. Tocar a bola-Lua, marcar uma invenção de horizonte, toque de bola que se inventa toda vez que nela toca Messi. Bahia do sertão, de Ichu, do Colégio Estadual Aristides Cedraz (CEACO), onde vivenciamos a pesquisa “As cidades (des)enquadradas em imagens: experimentações (atra)versando o conceito de signo” com aproximadamente vinte estudantes do Ensino Médio e cinco oficinas com professores e artistas participantes. Que Ichu (des)enquadra em mim? foi o mote de nossas conversas, produções e pós produções das fotografias produzidas pelos estudantes. Um cotidiano que (se) experimenta no ar-riscar o pensamento na/com a educação. Dá, dá isso quando provocamos as potências e as forças de um arrancar-se para fora. Ex-posições. 

Fonte: Fotografia da autora. Ruas do Porto, 2017.
 

Ainda uma menina. Des-e-ducada? Talvez, em sub-versão. Versos enormes, praticamente um versão mesmo, a nos atravessar e ao Oceano Atlântico e ao sertão, e à certeza, e ao ser... Des-apare-ser? Desapareceu o artista que queria ser punk, tornou-se muito importante. Será que tornar as coisas, pessoas, ações, conceitos tão importantes des-afia um desaparecimento? Danças, rios, expressões, parênteses, hífens, cores, palavras a nos convidarem a um arrancar-se para fora. Quando construía o raciocínio perdia o idioma. Ninguém entende muita coisa que ela fala... 

Dadaísmo, dá, dá tudo.

NOTAS

[1] Projeto financiado pela Fapesb – Nº 015/2009.

[2] Esse projeto resultou em um livro de fotografias e cartas: ANDRADE, Elenise C. P.; ARBAT, Eva A. Bau; PINTO FILHO, José B. (Orgs). Olhares cotidianos (re)velam o programa turismo CO2 neutro. Feira de Santana: Uefs Editora, 2011. 

[3] Pesquisa desenvolvida sob a supervisão de Paula Guerra na Faculdades de Letras da Universidade do Porto, Portugal, realizado entre setembro de 2017 e agosto de 2018.

[4] Poesia não publicada, mas aqui apresentada com a permissão dxs autorxs: Larissa Rodrigues Santos; José Wilson Martins Fialho Filho; Antônio Henrique Vaz Sampaio. Agosto, 2013, Feira de Santana, Bahia.

PRA SABER MAIS:

 

ALMEIDA, Edivan C. Que Ichu (des)enquadra em mim? Revista Alegrar, v. Dez/2015, n. 16, 2015.

ANDRADE, Elenise C. P. Cidades, gestos, imagens em provoc-ações. In GUERRA, Paula; DABUL, Lígia. Porto: Universidade do Porto, Faculdade de Letras, 2019. Disponível em https://catalogo.up.pt/F/?func=direct&amp=&amp=&doc%5Fnumber=000896285&local%5Fbase=FLUP&pds_handle=GUEST

ANDRADE, Elenise C. P. Sinfonia em AR menor: transversAR, (des)cartAR, ex-pressAR. Remea, v. Especial, n. jan/jun, 20 p., 2015. Disponível em: < https://www.seer.furg.br/remea/article/view/4848 >

ANDRADE, Elenise C.P.; Camacho, Marcelly. Arte dos problemas e/ou problemar(-)te. Anais do IV Colóquio Internacional Educação e Contemporaneidade, 2010. Disponível em http://educonse.com.br/2010/eixo_10/e10-08.pdf

ROMAGUERA, Alda. R. T. & WUNDER, Alik. Políticas e Poéticas do Acontecimento: do silêncio a um risco de voz. Revista Brasileira de Estudos da Presença. 6(1) 124-146, 2016.

Elenise Andrade é professora do Departamento de Educação da Universidade Estadual de Feira de  Santana (Uefs). Pesquisa as (im)possibilidades entre arte, filosofia, cidades e mídias nas vibrações com as educações. Integra os grupos de pesquisa Trace (Uefs), Gefi (UFSJ) e o More than loud (Uefs-Flup/Porto/Portugal).
 

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