Foto: as autoras, 2018.

Educação e 

Diferenças e...

n º 11 | 24 de janeiro de 2020

Editores Temáticos: Alik Wunder e Antonio Carlos Rodrigues de Amorim

Encontrar, reiventar(-se) e transitar

 

Érica Speglich

Vivian Battaini

Rachel Andriollo Trovarelli

Há encontros que vem como sopros a encher de movimentos mãos e sonhos guardados. Não estamos aqui a falar de encontros acidentais que luminosa e sorrateiramente adentram nossas vidas quase sem querer. Estamos a falar de encontros forjados num cotidiano de trabalho em grupo, disponibilidade para criar conjuntamente, disposição para reinventar(-se) constantemente, listas de tarefas intermináveis, reuniões longas e diálogos infinitos.

Foto: as autoras, 2018.

Tínhamos em mãos a tarefa (autoimposta) de construir um curso de especialização em Educação Ambiental e Transição para Sociedades Sustentáveis. É um curso de extensão, oferecido no Laboratório de Educação e Política Ambiental, a Oca[1], da ESALQ/USP[2] com duração de dois anos[3]. Entre os objetivos do curso estão a proposta de contribuir para a formação de profissionais que atuem na transição, a criação de uma comunidade de aprendizagem que se retroalimente e inspire na proposição de intervenções educadoras sustentáveis, o oferecimento de  subsídios teóricos e práticos para a construção de conhecimentos nas áreas de educação, ambientalismo, políticas públicas e intervenção educadora, dialogando com sentidos existenciais e utopias individuais e coletivas e a contribuição para compreensão sobre limites e possibilidades de atuação em políticas públicas no atual modelo de organização das sociedades. Essas propostas são o nosso pano de fundo, ideias para as quais sempre voltamos nos momentos de planejamento e que buscamos enfatizar ao longo das atividades e aulas sem, no entanto, nos fecharmos a elas.

As atividades, aulas e discussões giram em torno de quatro eixos. O primeiro eixo, denominado de educação ambiental volta-se a conhecimentos mais teóricos, metodológicos e técnicos que possam ser a base para a criação de ações educadoras voltadas às questões ambientais. No eixo que denominamos “utopia, espiritualidade e conjuntura” buscamos apresentar e discutir “utopias e utopistas de distintos tempos e espaços no campo da ciência, da espiritualidade e da política”  como um subsídio para um olhar para si e para a construção de projetos compartilhados de sociedade e de futuro. O terceiro eixo tem como foco as políticas públicas de transição, procurando “contribuir para o aprofundamento da compreensão sobre políticas públicas e correlatos, exercitando o fazer político cotidianamente, bem como oferecer subsídios teóricos e práticos para dar escala às intervenções educadoras ambientalistas”. O quarto eixo, que denominamos “intervenção e conhecimento científico” propusemos  o desenvolvimento, pelas estudantes, de pesquisas-intervenções educacionais individuais e coletivas que exercitem a relação entre os aprendizados e discussões teóricas e ações práticas .

Embora o termo “sociedades sustentáveis” tenha muitos (e intensos) desdobramentos, é no conceito de transição, esse que nos coloca no meio de (ou em meio a) algo, que a proposta do curso toma forma e força. Porque estar em trânsito envolve sair de algo ou algum lugar que não se quer mais e não necessariamente há um só ponto de chegada. E visto que não há como transitar fazendo as mesmas coisas dos mesmos jeitos, nosso esforço se voltou para a criação de um curso que pudesse ser, também, um espaço-tempo de transição para estudantes e para a equipe construtora do curso. E é deste espaço-tempo de transição da equipe que estamos a escrever. 

Escrevemos para compartilhar, mas, especialmente, para nos repovoar da beleza e da potência do que fizemos (e continuamos a fazer)  e, com isso, conseguirmos enfrentar as mudanças e urgências atuais. Quando começamos a nos juntar e idealizar este curso não passava pelo nosso imaginário quantos retrocessos nas políticas sociais, ambientais, culturais e econômicas viveríamos nos anos que viriam, como o golpe de 2016 e a eleição da extrema direita desmontando avanços sociais históricos no Brasil. Urgências que nos parecem atravessar o tempo (que teima em se esticar) dos trabalhos coletivos, das tomadas de decisão compartilhadas e das negociações das diferenças. E dessa escrita, que se constrói como um auxílio na retomada de fôlego, numa insistência em continuar. O mote para estarmos juntas[4] foi (e continua sendo) pensar na formação de formadoras capazes de atuar nesta transição. Para isso, porém, foi (e é) essencial vivenciar os desafios de trabalhar em equipe para construir um curso que fomente este transitar. Uma equipe que transita e se forma ao construir um curso de formação.

Muitas foram as inspirações e os convites que escolhemos aceitar nessa construção, fruto dos caminhos percorridos por cada uma de nós até a escolha por esse encontro. Para algumas de nós, inspirações que vem com as vivências, estudos e pesquisas junto à Oca em que as troca cotidianas entre as pessoas se faz tão (ou mais) forte que os conceitos apreendidos em teorias. Para outras, são os conceitos filosóficos e os mergulhos em livros que inspiram o pensamento para a criação de ações. Em parte da equipe a relação com diferentes formas de espiritualidade é inspiração essencial para estar/olhar/agir no mundo. Para (não necessariamente) outra parte, a arte. Outras seguem conectadas com o vivenciar o natural e a beleza cotidiana, como num simples caminhar descalço pela grama. 

Há quem se atraia pelo convite dos filósofos Michael Hardt e Antonio Negri em seu não manifesto a nos provocar a reinventar a maneira como nos relacionamos umas com as outras e com o mundo, a nos inspirar na criação de processos abertos a inovações e desejos. Há quem (apenas ou também) responda ao convite do pensador francês Edgar Morin para uma navegação por arquipélagos de certezas em meio a um oceano de incertezas. Em nossa releitura cada arquipélago tem a sua história, sua dor e suas delícias e seu convite é para conhecer cada um deles e construir, conjuntamente,um oceano que é diverso mas mantém algo em comum. 

Convites que trazem desafios que se espalham por entre ações, discussões, pensamentos e escritas e que acreditamos serem potentes para existir, resistir e construir outros futuros. Num processo permanente de autogestão, autoanálise e pesquisa-intervenção coletiva que provoca a constante reinvenção de si e dos combinados coletivos: esse encontro forjado no trabalho coletivo a que nos referimos no início deste texto. É preciso compreender aquilo que cada uma de nós quer/pensa/deseja para o curso e é nessa reflexão - que passa pela outra e por si mesma - que acreditamos estar a potência de reinventar. Reinventar o que queremos, pensamos, desejamos para o curso e para o(s) futuro(s). Mesmo que as diferenças não sejam tão abissais é assim que construímos algo que, acreditamos, pode potencializar a criação de ideias/desejos/pensamentos nas estudantes. Talvez o que nos permita transitar e propor a ideia de transição seja esse movimento no qual nos encontramos. Mas talvez seja exatamente aquilo que nos desencontra, nas inspirações e convites múltiplos que não (necessariamente) se combinam. Talvez ambos.

Foto: as autoras, 2018.

E existem os momentos em que as ideias se mostram arraigadas demais para a negociação, reinvenção, combinação. Há no decorrer do curso, por exemplo, a proposta da criação de Grupos de Intervenção das estudantes. É um convite às estudantes para que mergulhem nos movimentos que aqui compartilhamos como aqueles que nós, equipe proponente do curso, nos vimos mergulhadas. Ao longo da primeira turma de estudantes tivemos grupos que se movimentaram e organizaram a partir desse convite. E outros não. E precisariam? É essencial? Para algumas de nós, sim. Numa perspectiva de que uma transição não pode ser feita sozinha, que a potência de ação se faz no coletivo. Para outra(s), não. Talvez ao convidar para o mesmo movimento não estaríamos fechando o processo de transição a apenas um formato? Que outros arquipélagos permaneceriam desconhecidos? E por mais discutida, analisada e gestada que essas questões possam ter sido, aqui ainda estão em todos seus desencontros. E, repetimos, talvez seja exatamente aquilo que nos desencontra que nos permita transitar e propor um espaço-tempo de transição às estudantes.

Um de nossos desejos compartilhados é que as estudantes encontrem seus interesses, desejos e vontades dentro da diversidade de possibilidades que o curso abrange para que isso fomente e motive seus estudos e seja um dos movimentadores dos processos de ensino-aprendizagem. Criamos, para isso, a proposta de “plano de atividades” a ser criado por cada estudante, que abrange um número de horas definido mas não possui recomendação de o que deva ser realizado ou estudado e nem como. Solicita, no entanto, que cada texto, curso, filme, exposição, atividade escolhida seja acompanhada de uma reflexão sobre suas interligações com o curso. O não direcionamento e a liberdade de escolha causou estranhamentos entre estudantes, chegando a gerar paralisia. Com (bastante) persistência, criamos estratégias para facilitar que as estudantes fizessem as suas escolhas, como o acompanhamento individual pela equipe. 

Ainda assim, nem todas as estudantes chegaram a realizar tais atividades (quaisquer que fossem) o que nos levou a discutir o que acreditávamos, afinal, ser fundamental para a formação de um “especialista em educação ambiental e transição para sociedades sustentáveis”, num curso de especialização numa universidade. Nesse processo, criamos outras ferramentas para fomentar o estudo o que, para algumas pessoas da equipe e das estudantes, pareceu como uma cobrança (do tipo prova-nota-frequência-tabela). Não criar essas novas ferramentas seria deixar para trás (ou para o lado ou de lado) as estudantes que não aceitaram nosso convite? Como criar relações e processos abertos à inovação e aos desejos com pessoas que, em determinados momentos, parecem preferir se aferrolhar aos mesmos modos de fazer (e ser)? Ou, como criar relações e processos abertos à inovação e aos desejos num curso de especialização sem que isso seja compreendido como poder fazer qualquer coisa (incluindo não fazer nada)? Como trazer à tona que o processo de ensino-aprendizagem é uma relação dependente de todas as pessoas envolvidas e não responsabilidade exclusiva da equipe proponente? E por mais que sejam  (muitas) questões sem resposta, escolhemos trazê-las para evidenciar esse processo permanente de autogestão, autoanálise e a busca pela constante reinvenção de si e dos combinados coletivos que acreditamos importantes para a criação de espaços-tempo de transição. 

Esbarramos (com mais frequência e força do que gostaríamos) no mundo atual, aquele com contas a pagar. Procuramos criar um curso financeiramente acessível e contamos com apoios e financiamentos externos, bolsas, caronas e, especialmente, muitas parcerias. Ainda assim, não acreditamos conseguir pagar apropriadamente as pessoas envolvidas no volume e intensidade de trabalho que nos deparamos. A dificuldade de manter financeiramente a equipenos leva a um terceiro ano de curso (e início de uma segunda turma) com uma equipe em menor número e mais dispersa. Criar, dessa forma, encontros forjados num cotidiano de trabalho, como comentamos no início desse texto, se mostra como um desafio com o qual precisamos inventar outras formas de lidar. 

Trouxemos alguns dos movimentos que vivenciamos ao longo dos últimos anos que, mesmo pontualmente, dizem daquilo que compreendemos ser importante para a construção de um curso no qual pretendemos nos colocar e colocar às estudantes em movimentos de transição. Dizem de nossos encontros e também daquilo que se cria no desencontro. Dos desejos, ideias e ações que acreditamos potentes para existir, resistir e construir outros futuros.

Foto: as autoras, 2017.

Notas 

  1. A Oca é um centro de produção e aprofundamento de imaginários e ideias teóricas e práticas sobre Educação Ambiental e suas interfaces. Um centro de diálogo, composto de estudos sobre educação ambiental, que coletiviza o individual. Um espaço de formação e de acolhida de educadores(as) ambientais, formando uma rede de pessoas, iniciativas e projetos emergentes (Manual do Ingressante, Oca, 2012).

  2. Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz (ESALQ) da Universidade de São Paulo (USP), em Piracicaba/SP.

  3. Entre 2017 e 2018 tivemos a primeira turma. A segunda turma iniciou o curso em março de 2019 com previsão de finalizar em fevereiro de 2021.

  4. No início do planejamento do curso a equipe escolheu procurar criar textos sem gênero. Na impossibilidade, a escolha é pelo uso do plural feminino. Mantivemos essa escolha aqui.

PRA SABER MAIS:

Para saber mais 

Hardt, Michael & Negri, Antonio. Declaração: Isto não é um manifesto. n-1 edições, 2014.

Morin, Edgar, 1921. Os sete saberes necessários à educação do futuro. 11 ed. São Paulo: Cortez, Brasília, DF: UNESCO, 2006. 

Oca/Esalq/USP. Manual do Ingressante do Laboratório de Educação e Política Ambiental, ESALQ/USP. 2012.

Oca/Esalq/USP. Orientações aos ingressantes do curso “Educação Ambiental e Transição para Sociedades Sustentáveis”, ESALQ/USP. 2019.

Érica Speglich possui graduação em Biologia, especialização em Divulgação Científica, e mestrado       e doutorado em Educação, todos na Unicamp. Sua produção acadêmica caminha entre imagens, cinema, educação, ambiente, ciência e divulgação e a atuação como professora é voltada especialmente para a formação - inicial e continuada - de professores. Fora do ambiente acadêmico, procura apoiar e manter espaços e iniciativas que promovam formas de ser e estar no mundo mais artesanais, sustentáveis e coletivas.       Participa do Conselho de Alimentação Escolar do Município de Piracicaba/SP. No Curso de Especialização Educação Ambiental e Transição para Sociedades Sustentáveis é parte da equipe pedagógica como professora, tutora e interlocutora dos projetos de intervenção.

Vivian Battaini. Coordenadora administrativo-pedagógico no Curso de Especialização Educação Ambiental e Transição para Sociedades Sustentáveis. Atua na equipe pedagógica como professora, tutora e interlocutora dos projetos de intervenção. Doutora em Ciências - Programa Ecologia Aplicada (ESALQ/CENA, 2017). Pesquisadora do Laboratório de Educação e Política Ambiental, Oca (ESALQ, 2010 - 2019). Mestre em Ciências (ESALQ/CENA, 2011). Especialista em educação ambiental e recursos hídricos (USP/São Carlos, 2010). Graduada em Ciências Biológicas (Unesp - Rio Claro, 2007). Tem experiência na área de Educação, com ênfase em Educação Ambiental.

Rachel Andriollo Trovarelli. Coordenadora administrativo-pedagógico no Curso de Especialização Educação Ambiental e Transição para Sociedades Sustentáveis. Atua na equipe pedagógica como professora, tutora, interlocutora dos projetos de intervenção e membra do Comitê de Gestão Democrática. É doutoranda em Ciências (USP), mestre em Ciências (USP) e gestora ambiental (USP). Atua na gestão de projetos socioambientais e como facilitadora de processos de grupos e organizações. É pesquisadora do Laboratório de Educação e Política Ambiental (Oca - ESALQ/USP) desde 2013, atuando em projetos de educação ambiental, formação de professores, formação de educadores ambientais, intervenção socioambiental, bem-estar e felicidade

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