Foto: Caio Gusmão Ferrer/Julho 2017/Projeto Perpendicular Invisível.

Educação e 

Diferenças e...

n º 10 |  09 de dezembro de 2019

Editores Temáticos: Alik Wunder e Antonio Carlos Rodrigues de Amorim

Existimos: a que será que se destina?

 

Sandra Kretli da Silva

Gláucia Conceição Carneiro

 

Cajuína

Existirmos: a que será que se destina?

Pois quando tu me deste a rosa pequenina

Vi que és um homem lindo e que se acaso a sina

Do menino infeliz não se nos ilumina

Tampouco turva-se a lágrima nordestina

Apenas a matéria vida era tão fina

E éramos olharmo-nos intacta retina

A cajuína cristalina em Teresina

(Caetano Veloso)

O livro As existências mínimas, do filósofo francês David Lapoujade, convoca a pensar sobre diferentes modos de existências que povoam o universo e, assim, provoca uma problematização a respeito de alguns fragmentos de existências singulares, de modo que seja possível estar à altura das potencialidades e intensidades que acompanham cada existência e suas virtualidades. Os seres e as coisas existem, mas lhes falta realidade. Há também existências “mais” reais que outras: “[...] um amor que se intensifica”, “uma dor que aumenta”, “um temporal que ameaça a cair”. Será que a intensidade das coisas possibilitaria a expansão da realidade? Como tornar mais real aquilo que já existe, já que a arte do ser é a variedade de seus modos de existência?

 

Problematiza-se aqui quais têm sido os modos possíveis de existência: como os seres estão ocupando o mundo? Existe um único mundo para todos esses seres? Assim, um único ser pode existir e participar de vários planos de existência e pertencer a vários mundos. Considerando que cada ser possui sua arte de existir, é possível cartografar modos de existências ativadas tanto pelos artivismos urbanos em Belo Horizonte quanto na arte de (re)existências de professoras da educação infantil de escolas públicas do município de Vitória, no Espírito Santo.

 

A seguir, alguns fragmentos dos encontros com esses dois diferentes modos de existir: o território do professorar e as performances artivistas. As duas movimentações têm produzido forças mobilizadoras de afectos e afecções, provocando intensas vibrações corporais e arroubos no pensamento, além de atualizar ações que efetuam processos de criação e novos modos de existir nesses diferentes planos de experimentação.

Movimentos ab-errantes nas ruas de Belo Horizonte. Foto: Caio Gusmão Ferrer/Julho 2017/Projeto Perpendicular Invisível.

As corporeidades dissidentes que compõem os artivismos urbanos assumem o erro, a errancia e as corporeidades erráticas como afirmação da vida. Trata-se de um modo de existência que insiste em existir e compor diferentemente com a diferença. As corporeidades dissidentes de gênero e sexualidade quase sempre são lidas como “erradas”, “vagabundas”, “vadias”. Mas são esses modos de existência que desterritorializam e reterritorializam outros possíveis na cidade. Ao reativarem a etimologia latina da palavra “errância” [errantæ/errantia] cujo sentido é o de “desvio”, “afastamento” da norma, do que é considerado normal, o ativismo urbano, por meio das performances, produzem movimentos de ab-errância na cidade. Os movimentos aberrantes dos artivismos tanto quanto as invencionices das crianças criam uma importante linha de fuga no currículo da cidade e das escolas, produzindo possíveis brechas nos corpos que cruzam tanto com os signos artivistas quanto com os signos disparados pelo devir-criança.

 A designação de “errância”, entendida como “desvio”, tanto quanto a entendida como “falsidade”, “engano” e/ou  “erro” torna-se vetor de perturbação na normalização dos corpos na cidade, inaugurando outras maneiras de se compor com a cidade. O mesmo ocorre com as professoras de educação infantil quando entram em devir-criança e conseguem atravessar o portal do tempo intensivo da infância com seus movimentos também ab-errantes. Quando tal encontro acontece, quer dizer, quando os corpos se abrem para o infinito, as práticas curriculares conseguem romper as tentativas de padronização e regulação da vida por meio da educação. O currículo, sendo então um “modo de existência” com um grau enorme de plasticidade, pode resistir, tornando-se suporte para tantos outros modos de existir: suporte e/ou plataforma de lançamento para que signos de perturbação transformem a cidade numa sala de aula e a sala de aula numa floresta de possíveis.

Movimentos ab-errantes das infâncias. Foto: Sandra Kretli.

Os movimentos ab-errantes sinalizam novos modos de existências, apontam para processos intensivos e inventivos nas práticas curriculares que tentam escapar da vida modelizada, enlatada e pasteurizada. Acionam linhas de fuga em relação a currículos universalizados e políticas de avaliações, que buscam sempre a formatação. Movimentos ab-errantes acenam para o pensamento de que currículos e escolas e processos de aprendizagens e formação de professoras e vida possam (re)existir como uma obra aberta, inconclusa, que se constitui um acontecimento. É preciso estar à espreita das existências menores, ab-errantes, já que elas exigem forças para se tornarem mais reais. Experimentar essas novas possibilidades de existências e apreender seus valores, sensações e modos de pensar ajuda a criar currículos com potencialidades e diferenças tão prazerosas quanto a deliciosa bebida cristalina de Teresina, a cajuína.

 

Assim, em cada acontecimento, seja no professorar-em-devir-criança, seja nas linhas-de-errância das performances artivistas, é possível encontrar elementos disparadores do pensamento, como a música, o cinema, a fotografia, as performances artísticas, as redes de conversações. Ao entrarmos em agenciamentos com as multiplicidades de seres, tornamo-nos testemunhas dos movimentos ab-errantes que circulam pelas ruas e pelas escolas para criar vacúolos de tempo com tais partículas de vida. É um tempo para revigorar e engendrar novas existências que passam a habitar e intensificar nossas próprias vidas. Os virtuais estão em toda a parte, esperando que a arte venha lhes oferecer uma maior e mais intensa existência. Esperamos que os pequenos gestos suscitem outros gestos, outras vidas, novas realidades — desejo de criação coletiva sempre por fazer, se des-fazer, fazer novamente de infinitos modos —, para que as existências se modifiquem, se intensifiquem e se reinventem incessantemente.

NOTAS

[1] Fragmento da música Cajuína de Caetano Veloso, criada a partir de um encontro de Caetano com o pai do poeta piauiense Torquato Neto, idealizador da Tropicália. Nesse encontro, pai e amigo tentam acompanhar o movimento ab-errante do poeta.

PRA SABER MAIS:

 

LAPOUJADE, D. As mínimas existências. Trad. Hortência Santos Lencastre. São Paulo: Editora: n-1, 2017.


CAJUÍNA: a bebida que inspirou Caetano Veloso. Texto disponibilizado em 28 abr. 2019. In: SABOR. Disponível em: https://saborclub.uol.com.br/noticias/cajuina-bebida-que-inspirou-caetano-veloso-838.html. Acesso em: 23 nov. 2019.

Sandra Kretli da Silva é professora do Departamento de Teorias e Práticas Educacionais (Dtepe) e do Programa de Pós-Graduação Mestrado Profissional em Educação (PPGMPE) da Universidade Federal do Espírito Santo (Ufes). Bolsista PDJ (CNPq). Pesquisa a força dos signos artísticos nos movimentos de invenções curriculares e nos processos de aprendizagens. Integra os grupos de pesquisa Com-Versações da Ufes e o GECC da UFMG.  

Gláucia Conceição Carneiro, a Glau, é doutoranda da Linha de Currículos, Culturas e Diferença. Participa do GECC-UFMG e do grupelho – grupo de estudos e ações em filosofia e educação da UFMG. É bolsista do CNPq. Atua na área de Educação Básica do Município de Belo Horizonte há 25 anos. Por detestar quatro paredes, amar a arte e a sensação de liberdade resolveu acompanhar uma artista trans pelas ruas da cidade produzindo o que chama de “perfografias”. Depois que terminar o doutorado jura que vai aprender a dançar.

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