Foto da autora em sobreposições utilizando o aplicativo Snapseed, 2021.

Educação e 

Diferenças e...

nº19 | 08 de outubro de 2021

Editores Temáticos: Alik Wunder e

Antonio Carlos Rodrigues de Amorim

Cartas para conversar 

Lucia Estevinho 

Desafiada a escolher uma carta para um exercício literário durante a disciplina  “Literatura, Cultura e Sociedade” do Programa de Pós-Graduação em Divulgação  Científica e Cultural da Universidade Estadual de Campinas, escolhi um postal enviado  pelo meu pai da cidade de São Vicente, Cabo Verde e endereçado a seus pais que residiam  no Brasil, na rua Afonso de Freitas, 349, na cidade de São Paulo, capital. A carta-postal  ficou sobre minha mesa de trabalho por várias semanas para um exercício constante entre  ela e outros materiais propostos pela disciplina, tais como: textos acadêmicos e literários, materiais audiovisuais, exposições artísticas. Em uma das aulas realizamos a leitura da  obra Cascas de Didi-Hubermann[1] para discutir a temática “Cartas como gesto”. A leitura  de trechos da referida obra nos trouxe possibilidades de experimentações, uma delas foi sair fotografando o chão, uma vez que o livro faz referências às “coisas chãs”[2]. Com este  desafio e por estar habitando na semana deste encontro uma casa de memórias [3], fui  movida pelos afetos que esta casa me traz e pelo chão: dela própria e das estradas de terra  que a circundam. Muitas fotografias foram registradas nesses chãos, muitas vezes sem  perceber o que fotografava. 

Manipulando as fotos em um aplicativo para celular e, com o livro Cascas com  registros rabiscados durante a leitura, comecei a colocar para conversar trechos[4] do livro  com duas cartas: a carta-postal, objeto escolhido para trabalhar durante a disciplina e uma  carta que meu pai havia escrito para um tio que residia em Portugal e que não foi postada,  ficando guardada na casa de memória. Deixando me levar por conversas que as cartas  provocavam, fui tecendo uma carta para mim a partir dos objetos que foram ganhando vida por entre linhas desenhadas por letras, pela fotografia do postal e as que registrei em um dispositivo móvel. A proposta foi interrogar o meu olhar a partir da sensibilização que a leitura de Cascas me trouxe. Pensar nas cartas como um segredo que se compartilha e sair a deriva como se a escrita fosse a própria deriva.

 

Segue uma carta-costura de memórias para quem sabe, ela possa trazer outros fios de memórias criados pela experiência da escrita por cartas, por trechos de textos que  apanhamos de outrem na possibilidade de criar outras existências. 

Cartas para mim ... 

A possibilidade de localizar o tempo … o desenho das letras em um papel ... Sempre quis escrever com a mão direita, por isso observava tanto os gestos da  mão sobre o papel. Pai escrevia com a direita, mas eram garranchos[5], ele dizia assim.  Ensaiava com gestos, volteios pelas mãos antes de iniciar a escrita. Dizia que era canhoto,  e que a professora o obrigou a escrever com a direita; a mão esquerda sempre machucada  pela régua.

Hoje em minha mesa de trabalho se encontra o postal escrito em alto mar para a  família que o aguardava no Brasil, olho com atenção a escrita, ou melhor o desenho das letras da carta-postal, antes só prestava a atenção ao conteúdo, mas agora o desenho das letras importa.

Foto: da autora em sobreposições utilizando o aplicativo Snapseed, 2021. 

 

“Coloquei três pedacinhos de casca de árvore sobre uma folha de papel. Olhei,  olhei, julgando que olhar talvez me ajudasse a ler algo jamais escrito” (Didi-Huberman,  2017, p. 9) 

Respiro antes. Vou olhar a carta-postal, espero um pouco, não sei o que irei  encontrar ao examinar o desenho das letras.

 

“- Cabo verde - 4 -1-1955 - Queridos pais: Saúde e felicidade é o que mais lhe deseja a todos este seu filho que ao escrever esse postal ...” (carta-postal).  

Não reconheço a letra, o seu desenho... Será que pediu para alguém escrever o  postal? Poderia ter escrito em um pedaço de papel e pedido para alguém comprar o postal,  desenhar as letras e postar. Será que saiu do navio para comprar a carta-postal? Sentiu os  pés em uma terra estrangeira? 

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Foto da autora em sobreposições utilizando o aplicativo Snapseed, 2021

 

“[...] 9 dias de água, pois o barco é muito vagaroso, o que me vale é que ainda não enjoei,  apesar de tudo ter ajudado ao atravessar a tempestade. [...]” (carta-postal). 

Procuro no desenho das letras algo que identifique a grafia dos “garranchos”, não  encontro. Faço aproximações pela foto do postal, a tinta as vezes está borrada: uma gota  de água? Uma intempere do tempo que marcou a carta-postal? Uma marca que o tempo  deixou ofuscando o desenho das letras. Um lastro do tempo apontando a idade de mais de meio século do artefato; cumprindo um papel de privacidade para que as gerações  futuras não possam decodificar algo que não foi destinado a elas.  

“[...] Meu próprio tempo em lascas: um pedaço de memória” (Didi-Huberman, 2017, p.  10). 

O desenho não mostra os desvios do traço os quais davam graça aos “garranchos” proporcionando-me uma intimidade com sua palavra escrita. Quando viajava ele anotava  os pedidos no talão de notas enquanto eu observava suas mãos dançando sobre o papel,  com o tempo eu passei a anotar ao seu lado. Porém o M de sua assinatura na carta não era o mesmo que fazia ao meu lado anotando os pedidos sem fim de medicamentos.  

“Eu morto, o que pensará meu filho(a) desses resíduos” (Didi-Huberman, 2017, p. 10). 

“Peço desculpas por nunca ter enviado notícias. Cheguei no Brasil em janeiro de 1955, já  estamos em 1983 e nunca dei notícias” (carta não enviada). 

Uma carta escrita não enviada responde à pergunta de um parente que ficou  distante. Porque ele nunca escreveu? Ouço uma canção[6] que me acalma diante desta  dificuldade de comunicação que o tempo não cura. Marcas. 

“Caminhei por entre as bétulas [...]. Em mais de uma língua eslava o substantivo “bétula” está associado à renovação primaveril, evocando a seiva que volta a circular nas árvores  [...]” (Didi-Huberman, 2017, p. 12). 

O desejo de conhecer os castanheiros ou o “souto[7]” que estavam muito presentes  na fala do pai. 

“[...] Esta filha, Ana Claudia também tem uma quinta, aqui chamam fazenda. Eu gosto  muito de estar lá, pois me lembro da nossa aldeia que tenho tantas saudades e de nosso  trabalho com a horta, as ovelhas e as castanhas” (carta não enviada). 

A esta escrita acrescentaria a pergunta: será que o solto de castanheiros que eu ajudei o António a plantar ainda estão lá? As palavras – solto, garranchos, cavalgadura e  tantas outras, será que eram apenas ele que as diziam? Começo a perceber as palavras que eram dele e de mais ninguém. Foi por estas histórias que os castanheiros[8] me  perseguiram ao longo dos anos. 

Foto da autora em sobreposições utilizando o aplicativo Snapseed, 2021

 

“[...] chão fissurado, ferido, varado, rachado. Escoriado, dilacerado, aberto.  Desagregado, estilhaçado pela história, um chão que berra” (Didi-Huberman, 2017, p.  27).

Foto: da autora em sobreposições utilizando o aplicativo Snapseed, 2021.

 

 

 

Ao olhar o chão, fotografando ao acaso, mas “orientada por um saber construído desde a infância” (Didi-Huberman, 2017, p.71) caminhando dentro de uma casa de memórias, as soleiras das portas, me chamam a atenção, talvez porque elas sempre estão  no entre, entre um lugar e outro, entre um cômodo e outro; entre os quartos, entre os  quartos e a sala, entre a sala e a varanda; entre a sala e a cozinha. Registros do chão,  registro das soleiras e por elas caminhar com os olhos da memória. Há muita coisa no chão que eu não percebia. Tudo é impressionante, desde o ruído que um taco de madeira  provoca ao pisar dos pés até o colorido do ladrilho que mesmo sendo um material frio,  não tira o calor do olhar. O vermelho provoca, o amarelo traz memorias junto com o azul das portas e janelas.  

“Essa mesma porta da qual não podemos hoje, senão contemplar a soleira quebrada”  (Didi-Huberman, 2017, p. 55). 

 

“Seu filho que ao escrever este postal encontra-se em Cabo Verde. Já com 7 dias de  viagem, até a ilha da Madeira foi uma viagem (palavra borrada). Mas depois sabe Deus  como!...” (carta postal). 

 

Entre Brasil e Portugal, Cabo Verde. Entre Portugal e Cabo Verde, tempestade. 

 

“Gostava muito de fazer-lhes uma visita, mas tenho muito medo de avião e, de navio, a  viagem é muito longa. Na vinda para o Brasil passei por mal bocados em alto mar. Ainda  tenho um postal que enviei de Cabo Verde aos meus pais que já viviam no Brasil [...]” (carta não enviada). 

 

Da carta-postal brotam narrativas: de outras cartas e livros, sobre os desenhos das letras, da dificuldade em escrever, sobre o M de Manuel, sobre um lugar em alto mar, sobre um entre lugares, sobre uma rua esquecida na cidade de São Paulo, sobre ser estrangeiro em uma terra desconhecida. Feridas. Flores. Pedras. Terra batida. 

 

“[...] Há superfícies que transformam o fundo das coisas ao redor [...] Podemos pensar que a superfície é o que cai das coisas: que advém diretamente delas, o que se espera delas, delas procedendo, portanto. E que delas se separa para vir rastejando até nós, até a  nossa vista, como retalhos de uma casca de árvore. Por menos que aceitemos nos abaixar  para recolher alguns pedaços” (Didi-Huberman, 2017, p. 70).

Me abaixo para pegar a flor no chão de terra batida e a coloco na entrada da casa,  bem próximo da soleira, um convite para entrar; entrar no tempo, nas memórias, nas  cartas.  

Notas

 

[1] Segundo Ilana Feldman que escreve a orelha do livro Cascas, esta obra é um “Misto de ensaio, narrativa fotográfica e relato de uma experiência, texto a um só tempo poético e filosófico, num estilo claro e denso, Cascas também pode ser lido como uma carta. Carta às gerações futuras, destinadas a interromper os modos de construção da memória, as possibilidades de transmissão do conhecimento sensível e, acima de tudo, destina-se a interrogar o próprio olhar”. 

[2] Logo nas primeiras páginas do livro, Didi-Hiberman comenta da sua timidez, do gesto de olhar para o chão, de como esse gesto o permitiu olhar para as coisas que não se dão a perceber, uma vez que situam abaixo da nossa visão frontal das coisas. “Julguei então por bem transformar essa genérica timidez diante das coisas, essa vontade de fugir ou de permanecer em uma perpétua atenção flutuante, em observação de tudo que está embaixo: as primeiras coisas a serem vistas, as coisas que temos “debaixo do nariz”, as coisas chãs” (Didi-Heberman, 2017, p. 28). 

[3] Me refiro aqui a casa da minha família situada na zona rural, com muitos objetos significativos à minha memória.

[4] A obra Cascas é referenciado nesse texto não pelo seu conteúdo, mas por sua forma; como uma carta, uma vez que é assim que a obra é referenciada por Ilana Feldman que escreve a orelha do livro. “Cascas pode ser lido como uma carta”. E é como uma carta que eu cito trechos do livro Cascas. 

[5]  Essa palavra era sempre usada pelo pai ao se referir àsua escrita, aos seus desenhos de letras. No dicionário encontramos o seguinte significado: “Doença no caso das cavalgaduras. Arbusto tortuoso, gravetos. Sentidos da memória. Já a palavra cavalgadura: substantivo feminino. Besta de sela, cavalar, muar ou asinina. [Figurado] Pessoa estúpida, malcriada”. 

[6]  A canção Sodade (Amandio Cabral / Luis Morais) interpretada por Cesária Evora ecoa a saudade de uma terra distante e da escrita para esquecer. “[...] Se vou escrever muito a escrever. Se vou esquecer muito a esquecer. Até o dia que vou voltar [...]”. 

[7]  A palavra souto significa “bosque denso”; “local repleto de castanheiros; castanhal”.  

[8]  “Considerada como a “árvore-do-pão” nas regiões a norte do Tejo [em Portugal], o castanheiro foi a base da alimentação antes da chegada da batata e a principal fonte de hidratos de carbono no norte da Península Ibérica.” 

PARA SABER MAIS

DIDI-HUBERMAN, Georges. Cascas. Trad. Por Ilana Feldman. São Paulo: Editora 34, 2017. 

GAGNEBIN, Jeanne Marie. “Memória, história, testemunho”. In: GAGNEBIN, Jeanne Marie. Lembrar escrever esquecer. São Paulo: Editora 34, 2006, p. 49-57.

Autora

Lucia de Fatima Dinelli Estevinho

Lucia de Fatima Dinelli Estevinho é professora do Instituto de Biologia e do Programa de Pós-Graduação em Educação da Universidade Federal de Uberlândia (UFU). Atualmente, é pesquisadora do Programa de Pós-Doutorado da Universidade Estadual de Campinas (UNICAMP). Pesquisa imagens em conexões com Arte, Vida e Educação no Antropoceno. Integrante dos grupos de pesquisa Uivo (IARTES-UFU) e Humor Aquoso, vinculado ao  Laboratório de Estudos Audiovisuais (FE-UNICAMP).           

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