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Editorial do Dossiê n°36 - Desertificação

Edneida Rabêlo Cavalcanti (Fundaj)

Aldrin Perez (Instituto Nacional do Semiárido – INSA, Observatório da Caatinga e Desertificação – OCA)

Jonh Cunha (Universidade Federal de Campina Grande, Observatório da Caatinga e Desertificação – OCA)

Laetícia Jalil (UFRPE, Núcleo Jurema)

​A desertificação é um dos processos mais silenciosos e, ao mesmo tempo, mais devastadores, de degradação ambiental do nosso tempo. Ela não faz alarde, mas deixa marcas profundas: compromete a fertilidade dos solos, reduz a disponibilidade de água, afeta a biodiversidade e impacta diretamente a vida das populações que dependem da terra. No contexto das mudanças climáticas contemporâneas, esse fenômeno atinge extensas áreas do semiárido e do subúmido seco, diversas e dinâmicas no tempo e no espaço, e de zonas de aridez recentemente identificadas, ampliando o alcance e a complexidade desse cenário.

No entanto, abordar a desertificação implica ir além de uma leitura ambiental restrita,que frequentemente negligencia a dimensão social, histórica, política e ética, apesar de estas também integrarem o próprio conceito de ambiente. Seus efeitos não se distribuem de forma igual: atingem de maneira mais intensa as populações já vulnerabilizadas pelas desigualdades sociais, destacando povos e comunidades tradicionais, mulheres e juventudes. Nesse contexto, é fundamental reconhecer que são as mulheres, historicamente, as mais impactadas, seja pela sobrecarga do trabalho de cuidado, pela responsabilidade com a segurança alimentar e hídrica das famílias ou pelas dificuldades ampliadas de acesso à água, à terra e a políticas públicas. Mas também são elas que têm se envolvido de maneira decisiva no desenho de caminhos na busca do Bem Viver e na luta por justiça ambiental, pelos direitos aos territórios e pela sustentabilidade da vida.

O processo da desertificação, as mudanças climáticas e a perda da biodiversidade estão profundamente interligadas, compondo um sistema de retroalimentação. A elevação das temperaturas, a irregularidade das chuvas e a intensificação de eventos climáticos extremos, a devastação ambiental, a pecuária extensiva e a monoculturaaceleram a degradação dos solos e a perda da cobertura vegetal. Por sua vez, ambientes degradados perdem sua capacidade de reter água e carbono, contribuindo para o agravamento das mudanças climáticas e para o empobrecimento da diversidade biológica. Essa conexão evidencia que enfrentar a desertificação é,necessariamente, atuar de forma integrada sobre esses três eixos, reconhecendo suas interdependências.

É nesse contexto que este Dossiê Desertificação, da Revista Coletiva de Divulgação Científica, se apresenta. Mais do que reunir análises, ele propõe um deslocamento de olhar: da ideia de degradação como destino inevitável para a compreensão da terra como espaço de vida, de disputa, de memória, de culturas, de espiritualidades, e de novas possibilidades e reinvenções. O semiárido brasileiro, frequentemente associadoà escassez, revela-se aqui como território complexo, vivo e fértil de saberes, práticas e de sujeitos que dele e nele vivem, se reconhecem e se renovam. O semiárido com gente que vive e (re)existe a partir dele, moldando seus olhares e sentidos de mundo. Ao longo desta edição, convidamos o(a) leitor(a) a percorrer um conjunto de reflexões organizadas em cinco eixos que articulam passado, presente e futuro de forma cíclica e complexa, que nos permite, a partir de outras perspectivas de saberes, olhar o passado e construir futuros. Iniciamos com uma imersão no tempo profundo do semiárido, em que a história geológica e a memória coletiva ampliam nossa capacidade de compreender o presente. Em seguida, avançamos para uma análise crítica da expansão da desertificação e dos conflitos associados, evidenciando as contradições de modelos de desenvolvimento que tensionam as relações entre sociedade e natureza.

O terceiro eixo nos conduz aos territórios de resistência, onde povos e comunidades seguem recriando seus modos de vida. As lutas das mulheres, dos jovens e das redes agroecológicas ganham centralidade, revelando práticas que articulam cuidado,produção, defesa e permanência no território. Nesse percurso, torna-se igualmente indispensável envolver as juventudes que, entre permanências e deslocamentos, carregam a potência de lutar pelo presente e reinventar o futuro, e de afirmar alternativas viáveis para seus territórios. Na sequência, o dossiê apresenta experiências que materializam alternativas: tecnologias sociais, processos educativos, restauração ecológica e iniciativas enraizadas nos próprios territórios, que demonstram a viabilidade de outras formas de relação com a terra.

Encerramos com reflexões estratégicas sobre o futuro, explorando as conexões entreo combate à desertificação, as agendas climática e de conservação da biodiversidade, bem como os desafios colocados pelas políticas energéticas e pelos instrumentose conômicos emergentes. Aponta-se, assim, para a urgência de um novo pacto civilizatório, orientado pelo cuidado com a terra, com a água e com a sustentabilidade da vida.Este dossiê é mais do que uma coletânea de artigos: é uma cartografia que articula ciências e experiências, e também compromisso político. Um convite a compreender que falar de desertificação é falar sobre o futuro da terra, e sobre o nosso lugar nessa história, refletindo sobre os aprendizados comuns e o fortalecimento de novas narrativas. É também um chamado para que esse debate ultrapasse os espaços técnicos e possibilite reflexões conjuntas.

Ao lançar luz sobre esse tema, buscamos não apenas informar, mas mobilizar. Porque a terra que hoje se torna árida reflete escolhas, mas também carrega possibilidades de transformação. Que esta leitura inspire ações, debates e políticas comprometidas com a vida, e que os territórios hoje ameaçados sigam sendo chão fértil de futuro e de um novo esperançar.

APOIO
REALIZAÇÃO
LABJOR/UNICAMP
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