Editorial

07.12.2020

O que eu queria mesmo era que

Todo sofrimento acabasse

Que a gente se amasse

Sem medo se aninhasse

Com zelo, se cuidasse

Porque tudo que tem

É só desgaste

Nossa espiritualidade

Deveria ser a chave

É que religião mata 

O que temos de mais potente

Escravizam nossas mentes

Batizam com nome de brankkku

E depois dizen: agora tu é gente!

Só que o tratamento não muda

O que eles não querem é que tu descubra

Que teu corpo é potente

Nkinsis, Voduns, Orixás, Encantados e Caboclos

Natureza também é nosso corpo

Mente doente, Orí descuidado

Mente doente, Orí descuidado

Mente doente, Orí descuidado

Depois de mais um dia sendo alvo

Antes de deitar, ajoelha, reza

Agradece por...

Quem descobriu o que é ser livre espiritualmente

Não esquece e tem cuidado!

Cuidado, cuidado

Cuidado!

Para não continuar sendo escravizado

Cuidado - Dendê Ma'at, 2020.

O contexto social brasileiro tem sido marcado, historicamente, por movimentos sociais comprometidos com as políticas de enfrentamento às discriminações raciais. Desde o período colonial, organizações formadas por grupos raciais minoritários vêm desobedecendo, lutando, promovendo insurreições, criando rebeliões e quilombos como atos de transgressão aos abusos e às violências produzidas pelo racismo.

O Dossiê Racismo pretende, portanto, colaborar com o debate acerca da desumanização da população negra no Brasil, problematizando as heranças resultantes das explorações coloniais e as relações estabelecidas numa sociedade antinegro. Sabemos que o regime escravocrata instituiu o uso do corpo, sobretudo do corpo negro, como objeto-mercadoria transformando homens, mulheres e crianças de origem africana em um tipo de produto destituído de racionalidade ou humanidade.

A reverberação e o impacto desta condição exploratória para a experiência social das pessoas negras no Brasil, a partir de diferentes perspectivas, é o objeto deste dossiê. Reunimos contribuições do campo da administração, antropologia, ciência política, educação popular, geografia, performance, psicologia, teatro e saberes tradicionais com o objetivo de promover um debate poroso e interdisciplinar e, com isso, garantir uma leitura sobre o tema a partir de diferentes entendimentos. O Dossiê Racismo é composto por seis artigos, uma Seção Podcast, uma Seção Entrevista e uma Seção Especial. Além do guia Saiba Mais que visa orientar um aprofundamento das temáticas aqui propostas.

A apresentação visual do dossiê é de autoria de Denilson Baniwa, intitulada “Foi só brincadeira”. A obra busca denunciar o assassinato de uma das lideranças do povo Pataxó, Galdino dos Santos, na madrugada do dia 20 de abril de 1997. O ato criminoso foi cometido por cinco jovens que decidiram jogar álcool e atear fogo em Galdino enquanto ele dormia. Em sua defesa, os jovens justificaram a ação como uma brincadeira revelando o humor racista como um modo de expressar hostilidades étnicas e legitimar estruturas de poder e dominação.

No artigo “Racismo: política, poder e dominação”, Carlos Sant’Anna apresenta um panorama histórico do racismo como uma estrutura social fundamentada a partir de relações de poder. O autor aponta para os processos políticos e ideológicos estabelecidos no Brasil, disserta sobre a ideia de raça e racismo, recusa a noção de democracia racial instalada no país e declara a necessidade de construção de uma República pós-racial, na qual privilégios étnicos, de origem regional, de gênero e classe sejam superados.

Dos domínios das relações de poder, passamos ao artigo “Controvérsia sobre a questão racial no mundo empresarial: Notas sobre o conceito de racialização”, de Pedro Jaime, que nos convida a refletir sobre os conceitos de racismo e racialização através das experiências sociais organizadas no ambiente empresarial. O texto cria uma linha argumentativa que parte do anúncio da abertura das inscrições para o Programa de Trainee 2021 da Magazine Luíza com vagas exclusivas para profissionais negros e, com isso, nos aproxima de entendimentos sobre os porquês destas iniciativas gerarem tantas controvérsias na sociedade brasileira.

De um modo geral, estas controvérsias visam criar um espaço de invisibilização do racismo e normatizar a ideia de que pautas de enfrentamento às discriminações raciais são prescindíveis. E, é por este caminho que o autor Thiago Laurentino, a partir do texto “A (In)Consciência Racial na Psicologia” nos leva a compreender o racismo como elemento estruturador das relações sociais no Brasil e convoca os profissionais da psicologia tanto a se desapegarem dos universalismos que muitas teorias indicam, quanto a conhecerem as especificidades dos grupos populacionais com os quais trabalham. Conforme o autor, “uma atuação profissional antirracista na Psicologia depende do processo de conscientização racial das(os) psicólogas(os)”.

Este processo de conscientização racial a partir dos saberes “corpo-orais” é um dos argumentos construídos por Renato Mendonça (Sobhadile) para tratar da temática das transmissões dos saberes ancestrais. No artigo “Racismo e Educação nas Culturas Populares”, o autor disserta sobre a marginalidade atribuída à cultura popular enquanto tecnologia educacional e aborda os saberes dos grupos minoritários como espaços da memória das produções científicas dos povos ancestrais em constantes processos de reinvenção e reatualização no corpo.

Neste sentido, passamos a compreender que o corpo é no espaço, o que está para muito além de meramente admitir que o corpo é espaço ou que o corpo está situado no espaço. É a partir deste apontamento que Rachel Cabral da Silva e Nilton Abranches Junior propõem uma discussão sobre o racismo ambiental. No texto intitulado “A Naturalização do Racismo e a Espacialidade dos Corpos Pretos no Brasil”, os autores dissertam sobre a configuração de espacialidades segregadas, historicamente negligenciadas, excluídas dos processos de participação política e vulnerabilizadas pela não implantação de uma série de  medidas que promovem a saúde, o bem estar, a segurança, o acesso à educação de qualidade, como processos estruturados pelo racismo. De acordo com os autores, as configurações territoriais socialmente estabelecidas indicam a existência de padrões de uso racializado do espaço.

Por fim, concluímos a Seção dos Artigos por meio de uma narrativa que revela as experiências de corporeidades não-brancas interseccionadas às questões de gênero na obra de duas artistas: Kildery Iara e Meujael Gonzaga. Em formato de conversa, no texto “Deixar cair nas voltas que o tempo dá”, ambas as artistas tratam aspectos relacionados com a realidade dos processos criativos, as tensões existentes na cadeia produtiva da arte em tempos de pandemia e a constante resistência dos corpos dissidentes no Brasil.

A resistência negra no mundo é um dos pontos abordados na Seção Podcast. Intitulado “Da Cultura Negra em Movimento”, o podcast realizado em parceria com a Museológicas (PPGA/UFPE) apresenta o encontro de três mestres Joab Jó, Lúcia dos Prazeres e Orun Santana em uma conversa sobre racismo, cultura negra e acerca dos perigos do esvaziamento dos saberes ancestrais por meio de processos de embranquecimento institucionalizados pela sociedade brasileira. 

A relação estabelecida com a ancestralidade é um dos conceitos abordados na entrevista “Apropriação Cultural e Racismo” realizada com Rodney William. Na entrevista, o pesquisador aprofunda as noções acerca da apropriação cultural como prática estruturada pelo racismo e valoriza as articulações com as forças ancestrais como potência de resistência ao supremacismo branco e como um caminho possível de enfrentamento ao racismo, um caminho para a felicidade.

Na sessão especial, o texto teatral “Siré Obá - A festa do Rei” de autoria de Onisajé e co-autoria de Thiago Romero revelam a existência negra e sua relação com a ancestralidade como um evento em festa. O conceito-chave é a celebração performativa da existência e, por conseguinte, da resistência negra no mundo. Inspirado pelos orikis, poesias que exaltam os orixás, os autores criam um acontecimento festivo a partir de uma dramaturgia lírica e das relações entre arte e religiosidade. 

Todo o dossiê foi cuidadosamente pensado para revelar um ato de amor à negritude. O amor é a representação do empoderamento e uma intervenção revolucionária que desarticula as práticas de dominação. Amar a negritude como prática de existência política transforma nossas formas de viver no mundo e cria condições para que organizemos ações no enfrentamento ao racismo e às opressões.

A ideia desse dossiê é promover um espaço de combate e enfrentamento ao racismo, mas simultaneamente favorecer às expressões de valorização da presença, dos discursos e das cosmovisões negras no mundo. A promessa de amar a negritude cria uma resistência na interação consciente com as representações dominantes por meio de uma prática a favor das vidas e nos leva a compreender que vidas negras importam. É nessa busca revolucionária pelo amor à negritude e, por conseguinte, pela felicidade que desejamos a todos e a todas uma boa leitura.

Victor Hugo Neves de Oliveira

Victor Hugo Neves de Oliveira é Artista e Pesquisador em Dança. Professor do Departamento de Artes Cênicas da Universidade Federal da Paraíba e do Mestrado Profissional em Artes (PROFArtes/UFPB) onde desenvolve pesquisas sobre a educação das relações étnico-raciais no contexto das Artes da Cena. Doutor em Ciências Sociais pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro, com estágio doutoral em Antropologia da Dança, na Université Paris X (2016). Mestre em Ciência da Arte pela Universidade Federal Fluminense (2011) e Bacharel em Dança pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (2008). Coordena o Grupo de Pesquisa em Cena Preta onde desenvolve investigações sobre o impacto das referencialidades hegemônicas na formação universitária em dança e teatro e o Coletivo de Dança Redemoinho.

Expediente

Editor temático: Victor Hugo Neves de Oliveira | Editor-chefe: Pedro Silveira | Apoio editorial: Aline Marcela Cavalcanti e José Felipe Soares| Revisão: José Felipe Soares| Entrevista: Victor Hugo Neves de Oliveira | Artigos: Carlos Augusto Sant`Anna Guimarães; Pedro Jaime; Thiago Laurentino; Renato Mendonça (Sobhadile); Rachel Cabral da Silva e Nilton Abranches Junior; Kildery Iara e Meujael Gonzaga;| Seção Especial: Onisajé e Thiago Romero |Podcast:Joab Jó, Lúcia dos Prazeres e Orun Santana - Museológicas (PPGA/UFPE) Seção Saiba Mais: Victor Hugo Neves de Oliveira.