Editorial

Estamos diante de uma monumental tragédia climática. Quando chamamos ela de climática, estamos reduzindo num termo coisas que têm um desdobramentos que nem conseguimos sequer relacionar.

Ailton Krenak

O Dossiê Emergência Climática tem como objetivo tratar do tema do aquecimento global por meio do olhar das humanidades. Para tal, convidamos pesquisadores, pensadores e ativistas de diversas áreas (antropologia, filosofia, sociologia, estudos urbanos, literatura, estudos das ciências, ecologia, arte), indígenas e quilombolas, para contribuir com ensaios temáticos, entrevistas e reportagens que abordam a crise climática em múltiplas dimensões, buscando se acercar de seu contexto cosmopolítico, configurações socioambientais, perspectivas culturais e modos de superação. 

Fizemos deste tema uma multiplicidade de questões menores. Como contarmos histórias relevantes, críticas e potentes no atual regime climático por e a partir das ciências humanas, sociais e das artes? Que histórias podemos contar para compreender seus devires, enriquecer nosso imaginário e analisar sua constituição, apontando para um pluriverso de possibilidades de existir e resistir num mundo cada vez mais aquecido e com paisagens arruinadas? Intentando se desvencilhar das narrativas negacionistas e da governança tecnocrática e mercadológica da crise, os escritos deste número da Coletiva buscam dar algumas respostas ou, pelo menos, provocações e inspirações críticas para multiplicar nossas possibilidades de prever e fazer mundos alternativos. 

O Dossiê é composto por escritos que comungam da emergência e da urgência de contar histórias quentes para além da análise fria dos números e do design gerencial e tecnoburocrático dos efeitos do aquecimento global, apontando para perspectivas outras, que ultrapassem a estatística da catástrofe, trazendo a tona sua faceta existencial, corpórea, afetiva, associativa, transformativa, cosmopolítica, metafísica e seus contornos racistas e sexistas. Seguindo a proposição de Bruno Latour, buscamos criar um espaço para se compor um mundo comum mediante as humanidades, as artes e à política de dentro e a partir da incontornavelmente imersão na tarefa de lidar com a “monumental tragédia climática”. A emergência climática seria, segundo Joseph Stiglitz,  nossa terceira guerra mundial. Nomeando um tempo de transformação do planeta pela ação humana que não pode mais ser minimizada como uma simples “mudança” natural do clima pelo aquecimento global ou negada como fazem os negacionistas climáticos, mas tratada como uma emergência, como crise e como iminência do colapso, um fato incontornável do que vem sendo chamado de antropoceno, capitaloceno ou o tempo das catástrofes

Desde a conquista das Américas e circum-navegação global, os complexos agroindustriais e as práticas de devastação das florestas tropicais e temperadas vem conformando toda uma complexa cadeia de produção, circulação e consumo de mercadorias dependentes de combustíveis fósseis e responsáveis pela emissão de carbono na atmosfera a um ritmo cada vez mais acelerado, criando infraestruturas antropocênicas que se materializam em paisagens arruinadas e no clima mais quente. Com a Grande Aceleração do período pós-segunda guerra mundial a taxa de emissão de carbono na atmosfera se tornou cem vezes maior do que qualquer outro ponto da história humana pré-revolução industrial, engendrando o aquecimento crescente do planeta. 

Segundo o Painel Intergovernamental de Mudanças Climáticas (IPCC) - o coletivo de cientistas engajados em compreender o clima e orientar políticas globais - o razoável seria mantermos a concentração de carbono à menos de 400 partes por milhão e a temperatura entre 1, 5 a 2 graus célsius, para que tenhamos condições de seguir vivendo num planeta minimamente habitável. Números não expressam o calor dos acontecimentos: independentemente da hipótese que nós vamos presenciar, o aquecimento global já ocupa nossos corpos, espaços e imaginário, com cenas de  degelo do ártico, aumento do nível dos oceanos, morte dos corais e mega extinção de espécies, aumento da incidência de fenômenos extremos como tornados e incêndios, seca e savanização de florestas tropicais como a amazônica e a caatinga, circulação de milhões de refugiados climáticos e cada vez mais a contaminação de nossos corpos pelas pandemias contemporâneas, como a COVID-19.

No entanto algumas crises são sempre passageiras, assim como as crises econômicas ou políticas, mas as mutações climáticas nos ensinam uma verdade inconveniente: ela não vai passar. Uma transformação ecológica é duradoura, irreversível e vai nos dar muita dor de cabeça. Mesmo que tenhamos que afirmar esta verdade consensual por diversos regimes de conhecimentos, das ciências climáticas aos conhecimentos tradicionais, e mantê-la em nosso radar, muitos a negam em falsos debates enquanto outros ofertam alternativas infernais, autoproclamam-se gestores dos “tempos difíceis” e  se empenham numa narrativa da crise como modo de governo em uma aposta na insegurança existencial crônica, criando mundos onde novas formas de gestão da população, nem sempre democráticas e quase nunca justas, são postas em prática. Vejamos como forças do mercado e de governos da extrema direita se valem da crise para apostar suas fichas em narrativas negacionistas, na xenofobia contra refugiados climáticos e de guerras, em projetos de exclusão e de mais controle securitários e autoritários, ou numa vertente neoliberal, com projeções de saídas via mercado, mantendo desigualdades, e pela aplicação arriscada de geoengenharia à escala global

Ao mesmo tempo, as esferas ditas civilizatória como o IPCC e as Convenções das Nações Unidas não estão sendo eficazes para convencer governos e pessoas a agirem frente a um, cada vez mais inegável, regime climático global crítico. Acadêmicos das humanidades penam em mostrar que a mutação climática se realiza de forma diferente e desigual em cada parte do planeta e as esquerdas não estão sendo eficientes em promover e alavancar uma alternativa ecossocialista como saída para a crise.  Para além dos sonhos autoritários e dos novos lucros de uma “economia de baixo carbono”, a linguagem hermética e tecnocrática dos cientistas e os acordos nunca cumpridos e quase sempre sabotados pelos governos de ocasião, como o Acordo de Paris, dificultam o agir coletivo para, como sabiamente escreveu Ailton Krenak, “adiar o fim do mundo” ou como nos ensina o xamã David Kopenawa Yanomami, impedirmos a “Queda do Céu”. Os “nossos responsáveis” parecem jogar dados viciados com nosso futuro. Irresponsabilidade é o nome do jogo que os de sempre sempre ganham. A incerteza é se o dado continuará sendo jogado. 

É no sentido de desafiar os pressupostos de uma humanidade homogênea e de afirmar que há outros sistemas de pensamento e atitude num mundo diverso que a bióloga e antropóloga Karine Narahara, em artigo que abre o Dossiê, nomeia os responsáveis pelo atual desastre climático. Em  “Sobre a máquina de morte do Ocidente”, Karine Narahara mergulha dos conceitos formulados por Marimba Ani, pensadora de origem africana e do incansável intelectual ameríndio Ailton Krenak e por meio de sua etnografia realizada junto aos Mapuche da Argentina, para realizar uma crítica potente “à maquinaria ocidental” racista materializada na indústria petroleira que se funda  no dualismo entre natureza (como objeto passivo) e cultura.

Somando-se os corpos excluídos no antropoceno, pelo racismo e pela hegemonia epistemológica e ontológica do Ocidente, temos os corpos femininos e o corpo terra. Em uma composição que fala por si mesma, entre o textual e as imagens, a arte e a filosofia, a contribuição “encantatória”  de Cecilia Cavalieri e Juliana Fausto, intitulada “Calores Gaianos”, nos brinda com uma “brincadeira séria”, um jogo metafórico e subversivo que põe frente a frente o aquecimento da terra e o aquecimento do corpo feminino diante do funcionamento de uma Ciência falocêntrica e branca.  

Marcelo de Trói, em “Salvador das mobilidades e da crise climática”, também não se desvencilha de nomear o tempo que vivemos e os responsáveis pela crise climática no antropoceno. A partir da constatação etnográfica e histórica de uma metrópole brasileira cada vez mais quente, Trói figura uma Salvador cada vez dominada pelos automóveis e suas vias de concreto e asfalto em 100 anos de um governo para os carros, uma carrocracia, e os modos de resistência dos corpos dissidentes e contra-hegemônicos.

O artigo “Por uma verdade capaz de imprever o (fim do) mundo”, de Alyne Costa, nos convida a contar outras histórias sobre o mundo em mutação. Argumentando a favor de uma verdade que impreveja o apocalipse ao invés de decretá-lo, Alyne perfaz uma crítica ao pensamento do fim do mundo que contamina nosso imaginário a partir da escatologia cristã e que engendra nossas formas de lidar com o problema do aquecimento global que explicam muito de nossa incapacidade de agir. Alyne Costa, assim como Karine Narahara, argumenta que a presunção da existência de uma verdade única, presentes nas narrativas que pensam a realidade como dado, como exterior aos humanos, obscurece nossas vistas para modos de pensar e habitar o mundo onde a contingência e o inesperado está presente num mundo em devir, em contínua fabricação e mutação. 

Com olhar em torno dos negacionistas climáticos no Brasil, Jean Miguel tece uma arquitetura da constituição desse coletivo de pessoas situadas, em geral, na extrema-direita do espectro político e que buscam legitimidade nas arenas políticas e midiáticas ao vociferarem pela “suspeita” da crise climática e negação sua origem antropogênica. Presentes no atual governo federal tais pessoas dão vazão à “teorias”  contra o consenso científico em torno da origem antropogênica da crise climática e vem empreendendo um desmonte nas políticas ambientais nacionais e internacionais, retirando toda responsabilidade do estado brasileiro no enfrentamento do aquecimento global. Jean Miguel argumenta que o negacionismo climático é ao mesmo tempo uma visão de mundo e um artifício retórico/narrativo que se faz, no Brasil atual, como política de governo contra o clima. 

Guerra de narrativas? Distinção entre ficção e realidade? Para José Welton, em “Da fúria das águas ao chão em brasa”, a produção de imagens e narrativas colocam em tensão estes limites forjados entre o mundo do real e a subjetividade ficcional, entre ciência e literatura nos escritos sobre a crise socioambiental e o aquecimento global. Para o autor, fazendo coro com escritores que refletem sobre clima e literatura, como Amitav Gosh ou Úrsula Le Guin, qualquer oposição dura entre realidade e ficção é abalada pelas imagens que emergem das catástrofes climáticas e que são apropriadas pelo cinema e pela literatura. O texto “Rosita” de Mia Couto e “A Queda do Céu” de Davi Kopenawa Yanomami, analisados por José Welton, um ambientado nos eventos climáticos extremos de Moçambique e outro no chão quente das florestas Yanomami invadidas e perfurada por garimpeiros e suas epidemias xarawara, são a pedra de toque de um caminho provocativo do autor em tecer uma crítica ao capitalismo predatório e em trazer ao primeiro plano a literatura em sua guerra por intensificar o real e por ele e nele jorrar potência imaginativa e mobilizadora.

Os povos indígenas e comunidades locais nos ensinam que nossa forma de vida consumista de energia fóssil não é a única forma de vida possível. Esta afirmação certamente inspira dois artigos do Dossiê que tratam dos conhecimentos indígenas e de formas colaborativas de perceber e enfrentar o aquecimento global a partir do olhar intercientífico. Alessandro Oliveira em “Conhecimentos e politicas indígenas sobre as mudanças do clima” nos brinda, a partir de sua experiência etnográfica entre os Macuxi e os Wapichana em Roraima, com um argumento pelos saberes indígenas como antídoto para os dualismos e como uma perspectiva para a análise dos efeitos relacionais do aquecimento climático. Alessandro Oliveira nos descreve sua experiência de pesquisa colaborativa junto às organizações indígenas de Roraima para compreender a dinâmica ambiental, as mudanças do clima e propor caminhos para a gestão territorial por e a partir dos conhecimentos tradicionais. 

Ainda na Amazônia, no Rio Negro, vem sendo realizados projetos colaborativos entre pesquisadores de uma organização não-governamental e os povos indígenas com a finalidade de monitorar as mudanças ambientais e climáticas que afetam o cotidiano das muitas famílias das mais de 20 etnias que vivem nas florestas da região. Os autores do artigo “Ciclos anuais e mudanças ambientais e climáticas no rio Negro”, o antropólogo Aloisio Cabalzar e os pesquisadores Natalia Campos Pimenta, Juvêncio Cardoso (Dzoodzo) e Renata Alves, descrevem as formas de manejo do mundo que se traduz em um conjunto de práticas de observação, interpretação, cura e proteção xamânicas em diversas escalas do cosmo. 

Segundo Ailton Krenak, “quando atinamos com essa ideia de vulnerabilidade, ficamos diante de uma equação muito curiosa: porque ao mesmo tempo que nós, os indígenas, somos a parte da humanidade pronta a desaparecer, nós também somos a parte da humanidade que criou anticorpos para entender como habitar outros mundos”. Estes “corpos da resistência” criadoras de anticorpos estão presentes em nosso Dossiê em duas entrevistas especiais. Antônio Bispo dos Santos, ou Nego Bispo, pensador quilombola das encruzilhadas, semeou suas palavras sem perder a oportunidade de criar e recriar conceitos que traduzem o pluriverso dos mundos dos povos e comunidades tradicionais e que abalam o nosso mundo eurocristão. Nossa outra entrevistada, Sinéia Wapichana, é liderança ativa no movimento indígena de Roraima e da Amazônia, há anos vem se dedicando às questões ambientais articulando as conexões sempre tensas, mas necessárias, entre os conhecimentos indígenas e o científico e o papel da mulher nos projetos desenvolvidos pelo movimento indígena junto aos povos de Roraima e em escalas nacional e internacional que se dedicam ao enfrentamento do aquecimento global. 

Fechando a sessão dos artigos, temos o texto providencial de Nurit Bensusan. Nurit, inspirada pelas provocações de Bruno Latour e de Ailton Krenak, co-relaciona o aquecimento global com a atual pandemia da COVID-19, ou Coronavirus. A pandemia do coronavírus nos daria uma ideia do que pode ser um mundo imprevisível e, ao mesmo tempo, os limites dos esforços de controle e subordinação da vida não humana por um grupo “seleto” de humanos. É possível desacelerar um mundo produtor de um clima cada vez mais quente e de pandemias recorrentes?

Finalizamos nosso Dossiê com um especial sobre a Caatinga. A Revista Coletiva entrevistou alguns pesquisadores e profissionais que atuam no Semi-árido nordestino para entendermos as implicações das mudanças climáticas na paisagem semi-árida do Brasil. Uma reportagem cuidadosamente elaborada para trazer uma caatinga sem estereótipos inferiorizantes, mas ambientes onde humanos e não-humanos existem e resistem frente aos processos de devastação socioecológica dos seus ecossistemas em um clima cada vez mais quente. 

Além dos artigos, entrevistas e um especial o Dossiê presenteia o leitor, na seção Saiba Mais, com uma conjunto de sugestões de livros, sites, músicas e filmes sobre o tema.  As imagens que ilustram o Dossiê são do artista plástico Renato Trivella. São fotografias de pinturas elaboradas pelo artista por meio de diversas técnicas (óleo, acrílico, desenho) entre 1997 e 2005. Inspirado pela leitura do livro distópico "Não haverá País nenhum", de Ignácio Loyola Brandão e instigado a imaginar mundos em transformação, as pinturas refletem algumas inquietudes do artista diante da sociedade e das relações entre ser humano e natureza. Renato traz um mundo minorizado, precarizado, cercado, seco, diminuído, empobrecido de diversidade, mas ao mesmo tempo prenhe de corpos que teimam em seguir o curso da vida e afirmar possíveis mundos outros: a vida que continua. 

Thiago Mota Cardoso

Thiago Mota Cardoso é doutor em Antropologia Social pela Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC) e mestre em Ecologia pelo Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (INPA). Foi pesquisador de pós-doutorado em Antropologia na Universidade Federal da Bahia (UFBA), com o projeto Etnografias no/do Antropoceno: vidas, paisagens e politicas ameríndias. É professor adjunto do Departamento de Antropologia (DAN) da Universidade Federal do Amazonas (UFAM). Autor dos livros Paisagens em transe: ecologia da vida e cosmopolíticas Pataxó no Monte Pascoal, (IEB Mil Folhas, 2018) e O saber biodiverso: práticas e conhecimentos na agricultura indígena no Rio Negro (EDUA, 2010). 

Expediente

Editor temático: Thiago Mota Cardoso | Editor-chefe: Pedro Silveira | Apoio editorial: Glória de Andrade e Aline Marcela Cavalcanti | Revisão: Glória de Andrade | Entrevista: Thiago Mota Cardoso | Artigos: Alessandro Oliveira; Aloisio Cabalzar; Alyne Costa; Cecilia Cavalieri; Jean Miguel; José Welton; Juliana Fausto; Juvêncio Cardoso (Dzoodzo); Karine Narahara; Marcelo de Trói; Natalia Pimenta; Nurit Bensusan; Renata Alves | Seção Especial: Pedro Silveira; Glória de Andrade; Aline Marcela Cavalcanti | Seção Saiba Mais: Pedro Silveira e Thiago Mota Cardoso.

APOIO
LABJOR/UNICAMP
REALIZAÇÃO
FUNDAÇÃO JOAQUIM NABUCO