Editorial

O dossiê Cuidado nasceu da dor causada pela pandemia de Covid-19 que assola o Brasil. O projeto editorial, que se tornou o vigésimo nono número da Revista Coletiva, foi concebido em dezembro de 2020. Naquele ano, somamos mais de 190 mil vítimas do coronavírus. Agora que a revista vai ao ar, em abril de 2021, passamos das 300 mil vidas perdidas. Neste momento trágico, nos solidarizamos com as pessoas e as famílias afetadas pela doença que mudou o curso de nossa história.

Escolhemos o "cuidado" para abordar um tema pouco explorado na profusão de artigos científicos, matérias jornalísticas, debates virtuais, programas de TV e lives sobre a Covid-19. Neste dossiê, o cuidado assume diferentes significados. O principal deles diz respeito à sua dimensão política, ética e moral. O cuidado como direito é instrumento para diminuição das desigualdades e injustiças sociais. Em tempos de pandemia, ficaram mais latentes as desigualdades de classe, raça, etnia e gênero. Mulheres, negros e negras, pessoas pobres, povos tradicionais e indígenas estão sendo afetados duramente pelo novo coronavírus. Precisamos de "cuidado". Um cuidado materializado na forma de direitos e garantias. Para enfrentar a Covid-19, precisamos de uma política nacional de combate à pandemia, vacinas e um Sistema Único de Saúde, o nosso SUS, fortalecido. 

O "cuidado", pensado e vivido egoisticamente, vira advertência contra os riscos aos quais nos sujeitamos: "Tome cuidado!"; "Não faça isso, não faça aquilo!". Diferentemente, o cuidado, promovido de forma solidária, faz dos gestos individuais uma ação de proteção à vida de todas as pessoas. Se eu uso máscara e mantenho o distanciamento físico, evitando aglomerações, não é para me proteger apenas. É para proteger toda comunidade, não somente minha família, bloqueando assim a propagação do vírus. Mas o cuidado expresso em gestos individuais e coletivos de proteção não se resume a um dever meu e seu. O cuidado é, antes de mais nada, um problema do Estado. Nossas ações de contenção da pandemia precisam ser sustentadas por políticas públicas de alívio à pobreza, tal como o auxílio emergencial, acesso a meios dignos de existência que assegurem emprego, saúde, educação, habitação, saneamento básico, meios de transporte mais seguros e, sobretudo, uma vacinação em massa que tarda a acontecer no país.   

O escritor, teólogo e filósofo Leonardo Boff, entrevistado deste dossiê, nos apresenta a dimensão humanista do cuidado, que é para ele, uma categoria da essência da vida e do próprio ser humano. Para além de cuidarmos uns dos outros, Boff faz um apelo: é preciso também cuidar do nosso Planeta Terra, nossa morada. É necessário preservar ecossistemas, seus animais, plantas e recursos naturais. Sem eles, não há vida possível no planeta, sobretudo a nossa. Somos nós que desafiamos constantemente o ambiente, esgotando suas fontes de vida. Na visão do filósofo, o coronavírus seria uma consequência das formas pelas quais exploramos destrutivamente tudo aquilo que a natureza nos oferece.

Nossa seção Especial traz o cuidado expresso pelas ações da Mestra Severina Lopes e do Mestre Zé de Bibi, ambos guardiães de diferentes manifestações culturais pernambucanas. Dona Severina cuida do Museu Ivo Lopes, espaço cultural e educativo que mantém viva a tradição da dança e do ritmo coco no município de Arcoverde. Seu Bibi cuida do Museu do Cavalo Marinho do Brasil, localizado na zona rural do município de Glória do Goitá. A festa do cavalo marinho mistura música, dança, cantorias, bonecos e teatro, reunindo diversas famílias da Zona da Mata Norte de Pernambuco, tradicionalmente reunidas nos finais de ano. Trazemos, assim, dois exemplos do cuidado perpetuado de geração em geração, por iniciativa de famílias e da comunidade, que alteram o espaço, a relação entre as pessoas e o sentido de memória e tradição impresso nas culturas locais. 

A seção de artigos pode ser dividida em duas partes. A primeira parte apresenta os aspectos mais gerais do cuidado, os quais são confrontados com o atual contexto da pandemia do coronavírus. Nesse sentido, a filósofa Tânia Kuhnen, da Universidade Federal do Oeste da Bahia (UFOB), aborda o cuidado na perspectiva feminista. A historiadora Flávia Biroli, da Universidade de Brasília (UnB), destaca a atual centralidade das relações de cuidado e as possibilidades desiguais de cuidar e receber cuidado. Rubia Giordani e Marisete Hoffmann-Horochovski, sociólogas da Universidade Federal do Paraná (UFPR), tratam do falso dilema entre manutenção da economia e proteção da vida, que foi instalado desde o início da pandemia, destacando também a importância do SUS no Brasil. Pedro Silveira, antropólogo e pesquisador da Fundação Joaquim Nabuco (Fundaj), um dos editores da Revista Coletiva, argumenta que a relação entre cuidado e ecologia não é uma escolha. Para ele, a relação que assumimos com outros seres, espécies e recursos do nosso planeta tem relação direta com os problemas ecológicos que enfrentamos, inclusive com a pandemia de Covid-19. Encerrando essa série de artigos, temos a contribuição de Regina Vieira, professora da Faculdade de Direito do Recife, da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), que analisa o cuidado na ótica do direito e da legislação vigente no país, destacando a problemática acerca do trabalho remunerado e não remunerado das pessoas cuidadoras que são, em sua maioria, mulheres.

Na segunda parte, compondo o conjunto de artigos deste dossiê, apresentamos contribuições específicas ao debate sobre o cuidado. Uma delas é o artigo de Guita Debert, antropóloga e professora da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), e da doutora em Ciências Sociais, pela mesma universidade, Amanda de Oliveira. Ambas as autoras abordam a problemática que, de um lado, envolve o crescimento do número de idosos no país e, de outro, o declínio da estrutura familiar tradicional como suporte de cuidados para essa população. O "mercado de cuidados" também faz parte das preocupações da pesquisadora Cíntia Engel, doutora em Antropologia pela UnB. Sua análise recai sobre a demência e as tecnologias farmacológicas utilizadas como mediadoras das relações sociais de cuidado.

 

Representando os milhares de profissionais à frente do combate aos danos causados pelo coronavírus, contamos com as reflexões da enfermeira Maria de Lourdes Feitosa Lima, líder do Setor Covid do Instituto Nacional de Câncer (INCA). Ela trata da finitude da vida humana, tendo como exemplo os profissionais da saúde junto a pessoas que lutam contra o câncer no contexto da pandemia de Covid-19. Finalmente, encerramos a seção de artigos com o texto de Rogério Christofoletti, professor de Jornalismo da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), e Dairan Paul,  doutorando  do Programa de Pós-Graduação em Jornalismo desta universidade. Eles defendem um jornalismo cuidadoso, preocupados com os efeitos das notícias em nossas vidas, num contexto em que as informações circulam velozmente sem o devido cuidado de apuração e avaliação de seus  impactos sociais. 

O dossiê Cuidado completa-se com o belo trabalho desenvolvido por Bruna Angotti, doutora em sociologia pela Universidade de São Paulo (USP), e Regina Vieira (UFPE), que criaram o podcast "Cuidar, verbo coletivo". Em dez episódios, o podcast traz uma série de entrevistas que abordam o cuidado, na pandemia, em seus mais diversos aspectos. 

Para encerrar a apresentação deste dossiê, já convidando leitoras e leitores a refletir conosco o alcance social do cuidado, neste momento tão difícil que enfrentamos, aproveito para anunciar que, a partir deste número, a Revista Coletiva realizará uma série de lives para discutir com nossas colaboradoras e colaboradores os temas tratados em suas publicações. Portanto, não deixem de se inscrever em nosso Canal multiHlab, no Youtube, para conferir nossa série de encontros virtuais. Para tanto, basta clicar aqui.

Alexandre Zarias

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Cláudio Roberto de Jesus

É Sociólogo, com doutorado em Geografia pela UFMG. Professor do Departamento de Políticas Públicas da UFRN. Coordenador do grupo de pesquisa Violência, trabalho e ilegalismos e do projeto de extensão Motyrum Penitenciário. Membro do Observatório da Violência do Rio Grande do Norte - OBVIO-UFRN.

Expediente

Editor temático: Alexandre Zarias I Editor executivo do dossiê: Pedro Silveira | Editor-chefe: Allan Monteiro | Apoio editorial: Aline Cavalcanti e José Felipe Soares | Revisão: José Felipe Soares | Capa: Candido Portinari, 1957, pintura a óleo/tela, 65x53 cm, Rio de Janeiro-RJ, coleção particular | Entrevista: Alexandre Zarias  e Tânia Aparecida Kuhnen |Seção Especial: Maria Lana Monteiro e Alexandre Zarias | Artigos:Tânia A. Kuhnen; Flávia Biroli; Rubia Carla Formighieri Giordani e Marisete Teresinha Hoffmann-Horochovski; Pedro Silveira; Regina Stela Corrêa Vieira; Guita Grin Debert e Amanda Marques de Oliveira; Cíntia Engel; Maria de Lourdes Feitosa Lima; Rogério Christofoletti e Dairan Paul | Seção Saiba Mais: Alexandre Zarias  | Podcast: Bruna Angotti e Regina Vieira.