Editorial

O corpo humano é o tema deste número da Coletiva. Antes de tomá-lo como evidência, fizemos dele uma grande questão. Ao invés de buscarmos respostas em compêndios anatomofisiológicos, optamos por nos dedicar ao que o corpo tem de mais expressivo nas artes, em geral, privilegiando o que nos ensina a dança, a literatura, a fotografia, o cinema, a moda e as práticas de inscrição e marcação da pele por meio da tatuagem. Nesses múltiplos campos do saber e do fazer, o corpo sujeita-se a muito enfoques, mas guarda uma unicidade de origem pelo fato de sua significação ser o produto de nossa capacidade humana de simbolizar o mundo. 

 

Nosso entrevistado é o antropólogo e sociólogo francês David Le Breton, da Universidade de Estrasburgo, conhecido no mundo todo por suas obras que tratam das diferentes dimensões simbólicas do corpo. Muitos dos seus livros já traduzidos para o português tratam da sociologia do corpo, dos rostos, das emoções, sensações e sentidos, da dor, do desejo de desaparecer de si, do silêncio, etc. Para ele, o cinema e a literatura são a caixa de ferramentas dos cientistas sociais, permitindo-lhes problematizar, a partir de diferentes ângulos, a experiência corporal ordinária da vida cotidiana. Le Breton nos conta uma história pouco conhecida da sua biografia como cineasta e romancista, depois de uma incursão pelo Brasil quando jovem, e também do quanto o cinema e a literatura influenciam sua obra.

 

Nossa equipe de redação, antes de sentar-se para preparar o Especial deste número, colocou em movimento os corpos de cada uma de suas integrantes. Trocamos a sala de redação pela pista de dança do Centro de Educação e Cultura Daruê Malungo, em Chão de Estrelas, na Zona Norte do Recife. Lá fomos recebidos pelo arte-educador Mestre Meia-Noite que, entre passos de frevo, samba e ciranda, nos falou da arte de educar jovens e adultos através da dança. O resultado dessa experiência pode ser conferido no vídeo que fizemos ao lado de jovens e crianças que frequentam o espaço. 

 

Ainda, nos caminhos que a dança nos abriu para falar do corpo, iniciamos a sessão de artigos com um texto da performer e bailarina Flávia Pinheiro. Ela nos brinda com uma reflexão a respeito de seu processo de criação artística que emerge do movimento corporalizado como única possibilidade de ser no mundo. Seu texto acompanha imagens e links de vídeos que potencializam sua energia e criatividade performática que nos inquietam a respeito de nossa própria existência. O corpo-expressão, o corpo-mídia e o corpo-cultura personificados por Flávia são tema do texto da professora Denise Siqueira, do Programa de Pós-graduação em Comunicação da Universidade Estadual do Rio de Janeiro. Ela trata do corpo de dançarinos e dançarinas como obras de arte em constante construção.

 

Dos domínios da dança, passamos à arte de escrever e contar histórias. A professora de Literatura Brasileira Eliane Robert Moraes, da Universidade de São Paulo, aborda o “baixo corporal” expresso em obras como Macunaíma, de Mário de Andrade, e O caderno rosa de Lori Lamby, escrito por Hilda Hilst. Para ela, ambos autores “pervertem os gêneros literários, criando uma prosa deslocada, desbocada e definitivamente debochada” que caracteriza o melhor da erótica na literatura nacional.

 

Cinema e fotografia também abrem espaço para uma dupla reflexão na Coletiva. De um lado, a forma de representação dos corpos, estáticos ou em movimento. De outro, a reação causada por essas formas de representação nos corpos do público que frequenta galerias de arte e salas de cinema. 

 

André Melo Mendes, professor do Departamento de Comunicação Social da Universidade Federal de Minas Gerais, questiona o espanto causado aos visitantes pelas fotos do artista Miguel Rio Branco na galeria reservada que leva seu nome no Instituto Inhotim, em Brumadinho, Minas Gerais. A série Maciel, entre outras obras ali expostas, retrata os corpos decadentes, machucados e mutilados de prostitutas, moradores de cortiços e das ruas de uma das partes mais antigas do Pelourinho, em Salvador, na década de 1970. Segundo o autor, esse conjunto de fotos produz um choque em seus espectadores, questionando o ideal de corpo “apolíneo que se coloca como a principal referência de corpo capaz de proporcionar prazer e reconhecimento àqueles que o possuem”. 

 

O corpo da tela do cinema confronta-se com os corpos dos espectadores diante da tela no texto de Ana Cristina Zimmermann e Soraia Chung Saura, professoras do Departamento de Pedagogia do Movimento do Corpo Humano, da Escola de Educação Física e Esporte, na Universidade de São Paulo. Ambas discorrem sobre o “Projeto Cinema e Corpo” iniciado em 2011. Por meio da exibição de filmes, são promovidos debates acerca das relações entre cinema e corpo com a participação de diretores de cinema, professores e alunos.

 

Os dois últimos artigos da Coletiva abordam a transformação do corpo. A historiadora Silvana Jeha nos conta um pouco da história da tatuagem no Brasil. Seu texto acompanha um vídeo no qual destaca a simbologia da tatuagem até meados da década de 1970, período em que era considerada prática marginal, sendo de uso corrente entre soldados, marujos,  prostitutas e criminosos. Passando das inscrições da pele para a cirurgia estética, trazemos as reflexões de Beatriz Pires, professora do Curso de Têxtil e Moda da Universidade de São Paulo. Ela analisa dois casos emblemáticos em que duas pessoas modificam o corpo a fim de se adequarem ao mundo da moda sem fazer “distinção entre vestes, pele, carne e ossos”.

 

Assim, a Coletiva convida vocês para partilhar um pouco mais dos saberes acerca do corpo humano na contemporaneidade. Somando textos, imagens e vídeos, reunimos artistas, pesquisadoras e pesquisadores em torno de  uma reflexão acerca de nossas diferentes formas de ser e existir no mundo. Esse esforço combina o jornalismo científico com as ações de pesquisa, ambos frutos do investimento público em educação de qualidade no Brasil. Desejamos uma boa leitura a vocês! Enquanto isso nós, aqui da Coletiva, continuamos em movimento...  

Alexandre Zarias

Alexandre Zarias é doutor em Sociologia pela Universidade de São Paulo (USP). Mestre em Antropologia Social, Especialista em Jornalismo Científico e Bacharel em Ciências Sociais pela Universidade Estadual de Campinas (Unicamp). É pesquisador e professor da Fundação Joaquim Nabuco (Fundaj). Professor colaborador do Programa de Pós-graduação em Sociologia da Universidade Federal de Pernambuco (PPGS-UFPE).

Expediente

Editor temático: Alexandre Zarias | Editores-chefes: Darcilene Gomes e Pedro Silveira | Apoio editorial: Aline Marcela Cavalcanti e Débora Oliveira | Revisão: Glória de Andrade | Capa:  Amanda Pietra | Entrevista: Alexandre Zarias | Seção Especial: Débora Oliveira (texto); Alexandre Zarias e Glória de Andrade (revisão); Karla Delgado (vídeo)| Artigos: Flávia Pinheiro; Denise Siqueira; Eliane Robert Moraes; Ana Cristina Zimmermann e Soraia Chunga Saura; André Melo Mendes; Silvana Jeha; Beatriz Ferreira Pires | Seção Saiba Mais: Alexandre Zarias, Débora Oliveira e Glória de Andrade.

APOIO
LABJOR/UNICAMP
REALIZAÇÃO
FUNDAÇÃO JOAQUIM NABUCO