Editorial

"Laroiê Exú, que o senhor me dê caminho para entregar minha mensagem a esse povo do Ayê. Odoiá, nossa mãe Yemanjá, que nos embalou até aqui, nos moldando atlânticas, marés, manguezais. Fazendo da lama, cais. Fazendo da folha orvalhada, alimento, palavra escrita, serigrafia de dança, poesia dita. Iansã, filha dos ventos, aquela que dobra o fogo, a água e o ar. Obá, “não tem homem que enfrente”. Ewá, de butuca no meio da mata, “virgem da mata virgem”. Da pedreira esborra refletindo o dourado do sol na água doce, Ora Iê Iê, Oxum. Nanã, a coruja que tudo vê e tudo viu, planta um pé de sabedoria em nós, mulheres negras, das sementes dos frutos que damos a esta terra desde que a humanidade abre caminho por este chão."

Um dossiê relicário de uma razão feminina e negra

 

Apresentamos aqui um pequeno acervo, uma coletânea de textos e imagens relativa às Mulheres Negras no Brasil. Um dossiê ao qual pertencem algumas provocações, informações, pessoas, fatos e falas, a fim de dar corpo e imagem ao que vem sendo pensado e feito por e para mulheres negras. Nosso recorte traz aspectos referentes ao trabalho, à estética e à política, através das artes, ciências sociais e cultura. Ele vem de um tempo em que as dificuldades prosseguem viscerais, latentes e manifestas em nossas vidas, em um cenário realista de extermínio das comunidades negras periféricas, exploradas pelo capitalismo contemporâneo, coberto pelo véu da colonialidade patriarcal, racista e sexista.

 

Nesse sentido, onde é possível soar nossas vozes e implantar a fonte de nosso eco? No sempre, manufaturado por nós mesmas, timbrado de nossas práticas ancestrais, que nos imprimem desejos e, sobretudo, por onde ir nas rotas do agora. Em nossa fuga e resistências históricas ao sistema colonial de dominação masculina, construímos uma identidade forjada enquanto mucamas, atualmente conhecidas como empregadas domésticas, corpos do tipo exportação e quase membros da família. Essa é a história forjada e forçada em nós, contudo, somos e permanecemos múltiplas, em vários cenários. E mesmo nessa forja, a cada geração nutrimos o que queríamos ser hoje e estamos aqui, variando e ampliando nosso raio. Eparrei Oyá!

 

Negras jovens e velhas, poetas tal qual Stela do Patrocínio; capoeiristas, como Maria Felipa, mestra Janja e mestra Di; dançarinas como Marlene Silva; intelectuais, tal qual Beatriz Nascimento, Neusa Santos Souza e Marielle Franco, sempre presentes; Yas, como Mãe Stela de Oxóssi, Ya Miriam de Sangó, Yemanjá, Ya Denise de Ogum e Iansã. Mulheres do Direito, como Angela Davis e Kimberlé Crenshaw, poetas livres e pensantes, como Audre Lorde, e educadoras pela transgressão e organização, como bell hooks e Nilma Lino Gomes.

 

Neste dossiê, contaremos com a escrita de cinco autoras-pesquisadoras em seus respectivos campos. Rivane Arantes e Juliane Lima contribuem na perspectiva do direito. A primeira discorre sobre trabalho doméstico e colonialidade no campo dos direitos civis e interseccionalidade; a segunda faz um apanhado sobre o direito à cidade e ao lazer, com seu recorte de classe e raça, elucidando as nuances do que se constitui por racismo ambiental.

 

Passando para o campo da arte, aparecem Gabriela Santana e Ayla Andrade. Aquela recobre aspectos de uma dança que se insere no contexto de decolonização dos corpos, esta, com sua escrita, nos apresenta a obra de Stela do Patrocínio, cujo dizer poético mergulha no lago da decolonização da mente, da escrita e das formas de conceber a sanidade. Ainda no campo da arte atravessada por cultura, história e crítica social,  Francineide Marques, com a proposição de uma leitura para o Feminismo Angoleiro, expõe aspectos e elementos de um feminismo transnacional, com uma firme alusão à cultura bantu no Brasil. Para firmar o pensamento, entrevistamos Vilma Reis, que elucidou o viés da prática do movimento de mulheres negras e sua incidência nas políticas públicas brasileiras, ao considerar as especificidades das múltiplas vozes quando a questão é raça, gênero, sexualidade e território.

 

Nossa seção especial sela o dossiê com o Especial Slam das Minas em Pernambuco, feito pelas estudantes de Rádio, TV e Internet e Ciências Sociais, Aline Cavalcanti e Marcela de Aquino. Trata-se de um pequeno tour pelo que está sendo feito, atualmente, na arte da palavra e das ruas através da força motriz de mulheres negras e periféricas. Jovens de vigor organizadas para causar muita desordem aos parâmetros racistas e sexistas de uma cultura que se pretende dominante, mas que nos parece uma madeira oca, pois não nos representa. Criemos, então, nossas representações.  

 

Devido à passagem por esses tempos difíceis que atravessaram o calendário de nosso editorial, lançamos mão de mais um artigo que estava fora do roteiro até março de 2018. O texto, que faz uma análise sobre a execução de Marielle Franco, é assinado por mim e Adriana Mendes, integrantes do coletivo de mulheres negras Cabelaço-PE. O relato e análise são condizentes com a dor e a missão de dar continuidade aos passos das mulheres negras.

 

Contamos com ilustrações de Ianah Maia, plenas, pretas, tingidas e escritas, inspiradas na subjetividade de mulheres não-brancas, negras, que se amam e se amam entre si, numa busca por irmandade, cuidado e Bem Viver. A revisão dos textos contou com o empenho de Hugo Gonçalves e Ingrid Nascimento. Sou muito grata pelo trabalho atento.

 

Agradeço o convite do editor Pedro Silveira, homem branco, do sul, com os pés de antropólogo nas matas do Nordeste e a cabeça na filosofia da Capoeira Angola, onde nos encontramos para além e antes da academia. Agradeço, igualmente, a abertura de caminhos, com a proposta que é inaugurada com esta edição da Revista Coletiva, numa instituição pública que sofre as consequências e as dores do golpe que assola nosso país. A Fundação Joaquim Nabuco, que leva o nome do renomado abolicionista, assiste o cordão de quem segurou nas mãos, ombros e ventres as reais vivências e virtudes para o abolicionismo nas Américas, as Mulheres Negras.

 

A parceria deu caldo, é cor de cobra coral. Boa caminhada pela leitura, camaradinhas! Espero poder conversar e versar mais e mais. Asé!

                Cecília Godoi

    Editora deste dossiê

Expediente:

Editora temática: Cecília Godoi | Editor-chefe: Pedro Silveira | Apoio editorial: Aline Marcela Cavalcanti, Beatriz Jatobá, Hugo Gonçalves, Marcela de Aquino, Maria Luiza Alves e Paloma de Castro | Revisão: Hugo Gonçalves e Ingrid Nascimento | Capa e ilustrações: Ianah Maia | Entrevista: Pedro Silveira | Seção Especial: Aline Marcela Cavalcanti, Cecília Godoi e Marcela de Aquino | Artigos: Ayla Andrade, Cecília Godoi e Adriana Mendes, Gabriela Santana, Juliane Lima e Rivane Arantes | Seção Saiba Mais: Aline Marcela Cavalcanti, Cecília Godoi e Marcela de Aquino

APOIO
LABJOR/UNICAMP
REALIZAÇÃO
FUNDAÇÃO JOAQUIM NABUCO