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Entrevista com Berenice Bento 

Por Alfrancio Dias Ferreira

A escola como um lugar de disputas e desafios

Referência nos estudos de gênero no campo das ciências sociais, a socióloga Berenice Bento discute nesta entrevista à Revista Coletiva o papel da escola nas questões de identidade de gênero e sexualidade no cenário contemporâneo. Na pauta da conversa, a ideologia de gênero, que embasou a retirada das questões envolvendo gênero e diversidade sexual dos planos de educação, e os desafios para a construção da equidade de gênero e orientação sexual.

 

Doutora em Sociologia pela Universidade de Brasília (UnB) e com dois pós-doutorados, um pela UnB e outro pela City University of New York, nos Estados Unidos, Berenice é autora dos livros A reinvenção do corpo: sexualidade e gênero na experiência transexual (Garamond/EDUFRN), O que é transexualidade (Brasiliense) e Homem não tece a dor: queixas e perplexidades masculinas (EDUFRN) e ganhadora do Prêmio Nacional de Direitos Humanos, concedido pela Presidência da República, em 2011.

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Nesta entrevista foi usada a “@” para substituir os artigos “o” e “a”, a fim de neutralizar o gênero das palavras em respeito às identidades de gênero transexuais e não-binárias.

Revista Coletiva – Quais políticas de subjetivação do corpo e de gênero estão sendo inscritas no campo da educação atualmente? Que políticas de normalizações são criadas para subjetivar os corpos na escola?

Berenice Bento – Eu acho que a escola está dentro de um processo mais amplo, nos marcos das sociedades disciplinares, nos termos de Foucault, que tem como projeto a produção de corpos dóceis e disciplinados, portanto, de subjetividades capturadas. Pensar a escola como instituição disciplinar é tentar entender os mecanismos que atuam na produção das subjetividades. Essas instituições tentam capturar subjetividades. A noção de biopoder, diferentemente, irá nos ajudar a pensar a política de formação e controle da população. Mas eu acho que isso é um dos lados desse processo. E, se concordarmos com Foucault, diremos que onde tem poder tem resistência.

 

A escola, portanto, é também um espaço de resistência e de produção incessante de fissuras. O debate em torno da inclusão das expressões “gênero”, “identidade de gênero” e “diversidade sexual” é uma demonstração clara de que a escola é um espaço de disputa, tanto intermuros, como extramuros, a exemplo das acirradas discussões que aconteceram nos parlamentos brasileiros. Internamente, as disputas acontecem todos os dias, por motivos os mais variados. É uma estudante trans que demanda o respeito à sua identidade de gênero, são estudantes que são perseguidos porque são do candomblé, as censuras e as rebeldias em torno dos cabelos crespos das pessoas negras.

A escola, ou melhor, o sistema educacional, pode ser visto como um dos múltiplos tentáculos da sociedade, voltado para a normalização das questões de gênero e das sexualidades. Não devemos pensar uma relação do tipo escola versus sociedade, como algo separado das outras instituições que compõem o que Foucault vai chamar de sociedade disciplinar. A promessa, no entanto, é que a escola (desde sua separação da religião) seja um espaço de produção de sujeitos críticos, que tenham a capacidade de ler o mundo que os cerca. Seria a educação formal o lugar onde se conquistariam referências teórico-metodológicas para se produzir leituras, mais ou menos originais, do mundo que nos cerca. Eu acho que essa promessa não é cumprida. E é, portanto, consideravelmente mentirosa.

 

A escola era um lugar segregador dos gêneros, escolas de meninos e meninas, tudo separado. Um espaço marcado por constantes agressões físicas e simbólicas d@s professor@s[i] em relação aos estudantes, e d@s estudantes entre si. E isso tem mudado, não por conta de uma vontade singular, mas hoje estamos vendo a escola como um lugar de disputa em todas as esferas (os currículos, a carga horária, os dispositivos de controle – a chamada, as provas). Vejam, por exemplo, a ocupação das escolas pela comunidade em São Paulo. Um nível de politização e engajamento que me encheu de orgulho de ser professora. Ali, diante de nossos olhos, uma lição poderosa de participação na vida pública.

Revista Coletiva – Nessa perspectiva, quais os limites das escolas em lidar com os sujeitos que fogem às normas de gênero, perturbando-as e rasgando-as?

Berenice Bento – A escola faz parte da sociedade. Os casos de homofobia, racismo, machismo e transfobia existentes, tudo isso faz parte da sociedade, com tudo de maravilhoso e maldito que atravessa as relações sociais extramuros da escola. Em todas as instituições sociais, não existe espaço para a existência trans. E com a escola não é diferente. A escola é um lugar muito tenso, de disputas terríveis, tal qual a família. E são essas as instituições que vão formar e fazem parte do processo de socialização primeira na constituição do sujeito.

 

Os primeiros vínculos acontecem na família e na escola, lugares em que se aprende, ainda muito cedo, a importância de se comportar de acordo com as expectativas sociais. Na escola, também se aprende que existe uma coisa chamada hierarquia, que as diferenças não são toleradas e são tratadas com violência. Um colaborador de pesquisa me disse que, até os nove anos de idade, não tinha muito clara a diferença entre menina e menino. Já nos primeiros dias de escola, escutei alguém o chamando de “viadinho”.

 

Cada um de nós tem determinados repertórios biográficos em relação a estas duas instituições. No entanto, ao longo dos meus anos como pesquisadora e professora, concluo que a escola tem se mostrado historicamente como uma instituição do fracasso em lidar com as homossexualidades, as bissexualidades, as travestilidades, as transexualidades. A tese de doutorado de Luma Nogueira de Andrade (Travestis na escola: assujeitamento e resistência à ordem normativa) e de Maria Leuça Teixeira Duarte (Escola: lugar político da diversidade sexual e de gênero) mostra as engrenagens da escola funcionando para fazer os chamados “dissidentes de gênero e sexual” abandonarem suas fileiras.  

 

Acontece que as motivações deste abandono não estão nas estatísticas assépticas de “evasão escolar”. Não é “evasão”, é expulsão, próximo à que assistimos em Tropa de Elite quando o capitão faz de tudo para o cadete pedir para sair. O “pede para sair” é uma força ainda mais terrível que joga nos ombros dos estudantes a responsabilidade por seu “fracasso”. O seu suposto fracasso serve para esconder o horror que acontece dentro dos muros da escola.

Revista Coletiva – O campo da educação também pode ser um campo de desaprendizagens da regulação normativa de gênero, a partir de inserção, permanência e fricções que pessoas transexuais realizam?

Berenice Bento – Acho sim, até porque há microrresistências, mas que têm uma considerável potência. A vida não acontece na esfera macro. A vida acontece na sala de aula, nos restaurantes universitários, nos banheiros escolares. Por exemplo, a norma que estabelece a utilização do nome social nas universidades. Embora saibamos que isso é uma “gambiarra legal”, também sabemos que as gambiarras têm sua funcionalidade. Resolvem um problema de caráter emergencial.

 

Estamos lutando para que a lei de identidade de gênero seja aprovada no congresso, mas sabemos da composição do parlamento. No atual mandato, não vamos conseguir nada. Enquanto isso, o que fazemos? @s estudantes trans precisam estudar e ter um ambiente escolar de respeito. Daí a importância da aprovação do nome social no sistema educacional. Isso não é pouco, em vários aspectos.

 

Primeiro, a pessoa vai ficar no ambiente universitário por, no mínimo, quatro anos. Ela terá paz. Não terá que negociar com cada professor, a cada semestre, sua identidade de gênero. Depois de quatro, cinco anos ela terá uma carreira e melhores condições de se inserir no mercado de trabalho. Usar o nome social também contribui para o processo jurídico. Quando essa pessoa for solicitar mudança de nome e sexo no judiciário, terá como argumento o uso do nome social na universidade. Veja, é uma micropolítica, não é uma norma geral. É local. E, de repente, alguém olha para ele ou para ela e se pergunta: “Uma travesti na sala de aula, minha colega de sala?” Isso sim, tem uma potência de mudar as mentalidades e a cultura.

 

Muitas colegas ativistas e acadêmicos defendem a necessidade de leis gerais para tudo, a exemplo do casamento entre pessoas do mesmo sexo, a criminalização da homofobia e a lei do feminicídio. A lei é importante, mas não tem a capacidade de dizer: agora, todos nós não somos racistas, somos respeitosos com as diferenças. Eu também não sei exatamente o alcance simbólico da lei em um país na qual as instituições formais vivem uma crise de legitimidade profunda.

Revista Coletiva – No que se refere à inclusão das temáticas de gênero e diversidade sexual nos currículos escolares, a partir de suas experiências de pesquisas quais questões têm sido discutidas? Quais posturas estão sendo assumidas? Existem silenciamentos? Qual(ais) posturas  são assumidas pela escola?

Berenice Bento – Não existe inclusão. Há cursos financiados pelo Ministério da Educação (MEC), a exemplo do curso Gênero e Diversidade na Escola (GDE). Mas nós estamos lidando com algo mais profundo. Acho que deveríamos ter muitas outras experiências. Os relatos e os desafios dos professores e professoras são gigantescos. Cito um relato que escutei em um dos cursos de formação em gênero que participei. A merenda escolar era servida em pratinhos cor rosa e azul. Quando chegou a hora de um menino comer, não tinha mais prato azul, apenas o rosa. Ele se negou a comer porque rosa era “a cor das meninas”.

 

Minha pergunta: por que a secretaria de educação daquele município não comprou todos os pratos brancos ou amarelos? Se a professora tivesse um mínimo de discussão sobre gênero, iria problematizar essa relação (rosa = menina, azul = menino). O que ela fez? Esperou um prato azul para seu estudante. Todos os dias somos confrontados em nossos cotidianos com questões como essas. Outro relato: um aluno de 14 anos que queria ser chamado de Lana. A professora me perguntou: “O que eu faço?” Eu respondi: “Respeite sua aluna. Chame-a pelo nome pelo qual ela quer ser reconhecida. Isso irá garantir que ela tenha um ambiente escolar melhor, de conforto psíquico para que ela estude, garanta que ela fique na sala de aula, protege-a”. Além dos conteúdos, devemos saber que ser professor@ exige uma posição ética intransigente de defesa d@s noss@s estudantes. Nada é mais triste do que ver um@ estudante não voltar para sala de aula. Não basta balançar os ombros e pensar: isso não é problema meu.

O GDE, somado aos ativismos, cada vez mais potentes no Brasil, ajudam a questionar que escola é essa. Mas ainda é pouco. A questão de gênero é transversal, ou seja, gênero e sexualidade são temas que devem compor a formação de uma profissional, seja de que a área for. Por exemplo, médic@s e enfermeir@s terão que lidar com uma mulher trans no hospital. Essa mulher trans vai precisar de um curativo porque ela acabou de passar por uma cirurgia de transgenitalização. Como lidar com esse corpo sendo que a enfermeira ou o enfermeiro, não parou para pensar sobre os corpos para além da dicotomia homem-pênis, mulher-vagina?

 

Esses são exemplos que apontam para a necessidade de pautar essa discussão de forma permanente no espaço educacional. Um juiz terá que se posicionar diante da demanda dessa mesma mulher pela mudança do nome e sexo nos documentos. Esse corpo irá transitar por várias esferas constitutivas do poder baseado no saber. O que nós temos assistido é uma ignorância profunda dos operadores da medicina e dos operadores do direito em relação aos corpos dissidentes de gênero. São os movimentos sociais que os têm ajudado a superar essa ignorância.

Revista Coletiva – O eixo VI do relatório da Conferência Nacional de Educação (CONAE), de 2010, sugeriu que a discussão de gênero e diversidade sexual passasse a fazer parte da política de valorização e formação inicial e continuada dos professores, ser inserida no Programa Nacional do Livro Didático (PNLD), nos currículos de licenciatura, no currículo da educação básica, dentre outras recomendações. A partir das discussões de aprovação no Congresso Nacional do Plano Nacional de Educação (2014-2024) pautadas no conservadorismo e fundamentalismo, as expressões “gênero” e “diversidade sexual” foram suprimidas, dando início ao movimento “Ideologia de Gênero”, que embasou também a retirada das questões de gênero e diversidade sexual dos planos nacional, estaduais e municipais de educação. Em sua opinião, qual o impacto desse discurso para a escola?

Berenice Bento – Essa pergunta é interessante, mas eu não sei te responder em uma única direção. Eu acho que esse discurso tem efeitos rizomáticos. Não terá apenas um efeito, causa e consequência. Têm efeitos interessantes e positivos na perspectiva transformativa e efeitos de recrudescimento. O que parece que se tornou claro agora, era o já sabido por nós: gênero é uma categoria política. Não é uma categoria biomédica, diagnóstica, como ainda insiste a quinta edição do Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais, o DSM-5. Quando os parlamentares denunciam uma suposta “ideologia de gênero”, na verdade eles estão colocando em cena uma teoria de gênero já bastante conhecida de todos nós e que diz que a anatomia é o destino.

 

Estamos disputando teorias de gênero, e não ideologias. Ideologia é um conceito cunhado pelo socialista Karl Marx e que tem como objetivo entender como as classes sociais produzem posições de poder a partir da complexa relação entre infraestrutura (base econômica) e superestrutura (esfera das instituições sociais). A “teoria” defendida pelos parlamentares abre espaço para disputas, uma vez que aquilo que já estava nos livros de biologia como verdade inquestionável (homem = masculinidade = pênis e mulher = femininlidade = vagina) precisa ser transformado em discurso político e anunciar-se como verdade no espaço público. Isso é bom porque abre espaço para uma discussão que antes inexistia.

 

Contraditoriamente, ao trazer esse debate para a esfera pública, os parlamentares, que queriam manter o gênero atrelado à biologia, tiveram que tirá-lo de lá para o mundo da política. Parte considerável do pensamento hegemônico da medicina está assentada na pressuposição de que os corpos são dismórficos e ser homem ou mulher é uma expressão da diferença natural dos corpos. Aqui, religião, ciência e medicina parecem que não estão em contradição. O que notamos foi um discurso dito científico da medicina “invadindo” o parlamento e sendo transformado em político propriamente dito. Político no sentido de um determinado grupo de interesse que estabelece uma posição de interesse em torno de um debate público. Quais são os efeitos positivos disso?

 

O mais profundo, acredito, é exatamente o não desejado pelos parlamentares: demonstrar que há teorias diferentes para explicar os sentidos para as masculinidades e feminilidades. O segundo, diz respeito à mobilização que aconteceu.  O que eu vi na Câmara de Vereadores de Natal foi uma disputa aberta em torno das sexualidades e dos gêneros. Do nosso lado, conseguimos unificar um campo de luta (feministas, transfeministas, ativistas gays e lésbicas, estudantes) que, geralmente, está isolado ou disputa entre si. Várias concepções sobre feminismo estavam unificadas na luta em torno da manutenção do gênero e da diversidade sexual no plano de educação do município. Fomos derrotados, mas isso não significa que não continuaremos com nossas atividades acadêmicas e de ativista. Uma colega lamentava dizendo que a não inclusão significava a retirada de recursos para o financiamento de projetos com o recorte de gênero.

 

Mas, concretamente, nós tínhamos recursos? Quais recursos nós temos? Sempre vivemos em um deserto orçamentário para nossos temas. Já estamos acostumados a fazer milagres com a escassez de recursos. Eu tenho certeza que os núcleos de estudos de pesquisas de gênero nas universidades que ofertam cursos e palestras não irão parar suas atividades, que continuaremos com nossos projetos de extensão, seminários, parcerias entre universidade e movimentos sociais. Mas há um dado interessante: na mesma semana em que tivemos a rejeição da inclusão desses temas no Plano Municipal de Educação, uma alteração da Lei nº 9.394, de 20 de dezembro de 1996 (Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional), foi aprovada no Senado. Acrescentou-se um inciso que afirma a necessidade de políticas públicas que visem a “promover ambiente escolar seguro, adotando estratégias de prevenção e combate a práticas de intimidação e agressão recorrentes entre os integrantes da comunidade escolar, conhecidas como bullying”.

 

Na justificativa do projeto, pode-se ler: “Os efeitos do bullying são deletérios, causando enorme sofrimento às vítimas. Isso é ainda mais grave quando se trata de bullying nas escolas, por afetar indivíduos de tenra idade, cuja personalidade e sociabilidade estão em desenvolvimento. Além disso, a vulnerabilidade das vítimas costuma ser acentuada pelo fato de apresentarem alguma característica que as tornam “diferentes” da maioria dos alunos – justamente o que as faz alvos preferenciais dos praticantes do bullying”. Ou seja, o legislador entra em pânico com a palavra “gênero”, mas propõe políticas para proteção dos “diferentes”. Quem são esses “diferentes”?  Ou seja, a LDB nos assegura agora realizar todos os tipos de trabalhos acadêmico-pedagógicos para promoção da equidade de gênero, sexual e racial em todo sistema de educação.

Revista Coletiva – Em tempos adversos, quais os desafios curriculares e pedagógicos para a construção da equidade de gênero e orientação sexual?

Ricardo AntunesBerenice Bento  – Estamos no momento em que nós temos que recusar o pensamento do “desvalor do pensamento” por alguma coisa como dignidade. A forma, por exemplo, como o governo italiano de Sílvio Berlusconi [político neoliberal que foi primeiro-ministro da Itália entre 1994 e 1995, 2001 e 2006 e 2008 e 2011] tratou as crianças estudantes imigrantes, num contexto de restrição das fronteiras do país para a imigração, ou pelo governo fascista húngaro, para não citar todos os demais, fez com que tivéssemos hoje uma política institucionalizada denominada pelo sociólogo italiano Pietro Basso como uma política de “racismo de estado”. Usa-se o imigrante para o que lhes interessa, para fazer o trabalho sujo e para rebaixar os salários e se jogam fora os estudantes imigrantes, jogam fora os imigrantes quando eles não interessam mais. Então, você não tem como segurar esses milhões de homens e mulheres que estão desesperados numa guerra que não é deles.

Lembram que diziam: “Vamos tirar o Saddam Hussein”? Mas o problema do Saddam Hussein era o país. Só muito excepcionalmente é que o mundo poderia intervir em guerras desse nível quando o banho de sangue é completo. Os Estados Unidos intervêm na política dos países do Oriente Médio por causa das riquezas de petróleo lá produzidas, e querem mostrar que o american way of life é o melhor modelo do mundo e que a democracia americana, também é a melhor. A Alemanha, que quase nos levou à hecatombe 60 anos atrás, não está qualificada para dizer, hoje, como é que os gregos devem viver, quando os gregos, muito antes de a Alemanha existir, já viviam a república. Está tudo de cabeça para baixo. O trabalho é um dos enigmas da nossa sociedade. Se nós não formos capazes de retomar uma vida dotada de sentido para o trabalho e fora do trabalho, nós vamos continuar sustentando um sistema de metabolismo social. Um sistema no qual o trabalho é desprovido de sentido porque ele produz para uma sociedade que é desprovida de sentido de tal modo que a nossa vida no trabalho não tem sentido humano/societal e a nossa vida fora do trabalho também não tem.

Não faz nenhum sentido trabalharmos 12h, 14h por dia para produzir bombas ou um produto que daqui a um mês vai estar desatualizado. Saiu a Apple, amanhã a Nokia vai querer fazer um superior para vender mais e a gente joga fora o anterior. Essa é a lógica do consumo: eu vou jogar fora esse que comprei faz dois meses e agora saiu um que faz outra coisa, depois jogo fora o outro para comprar outro diferente. E eu não sei se vocês sabem, a empresa Apple queria antecipar um lançamento para quebrar uma concorrente e dizer: “o nosso saiu primeiro”. Porém, um jovem que trabalhava na Foxconn, na China, onde se produz os aparelhos da Apple, foi profundamente penalizado porque cometeu um erro que quebrou a programação e o seu “atropelo” fez com que o cronograma de antecipação mudasse e a grande transnacional perdeu a chance de lançar o seu produto na frente. Isso foi em 2009 e o operário se suicidou por não suportar a culpabilização. É essa a produtividade que nós queremos? Não.

Isso não significa que nós não podemos pensar na ciência e na produção sobre novos valores. Então, como impedir o aquecimento global? Alguém de nós tinha noção dos riscos que as mineradoras causariam ao Brasil? Rompeu uma barreira, tem mais duas ao lado na iminência de serem implodidas. Tem centenas de barreiras nas lagoas e os dejetos dos minérios de Minas Gerais. A previsão da mineradora Samarco, se houvesse uma crise tal qual a que ocorreu, era chegar perto daquela cidade que foi tomada. Isso não tem visão. E nós estamos falando de uma empresa ligada a um grupo considerado modelo, o melhor do mundo, que é a Vale S.A. (antiga Companhia Vale do Rio Doce, privatizada em 1997). Então, o que é que a Vale nos trouxe? Uma destruição inimaginável. Você imagina se a segunda ou a terceira dessas barragens tivesse arrebentado. Poderia ter parte de Minas ou Espírito Santo completamente eliminado. Então, quando a gente diz que a lógica produtiva destrói o trabalho e a natureza, isso nos impõe uma lógica da competição.

Revista Coletiva – É por isso que o senhor defende a desestruturação do capital através de um trabalho estruturante da humanidade?

Ricardo Antunes – É isso mesmo. “Trabalho é uma atividade vital”, como diria o Karl Marx [sociólogo alemão que viveu entre 1818 e 1883 e foi responsável por parte importante do entendimento atual sobre o trabalho e sua relação com o capital], mas essa atividade vital, sob o domínio da mercadoria e do capital, reconfigurou-se e se deformou ainda mais, tornando-se necessária tão somente para o enriquecimento de 1% da população. Por isso que eu digo que o trabalho estrutura o capital e enriquece o capital, desestruturando a humanidade. A saída então é pensar num trabalho que desestruture o capital para reestruturar a humanidade. O capitalismo não é o fim da história. Lembra quando eu dizia que o capitalismo é o fim máximo da história? Só que nós não sabemos as alternativas.

 

Tiveram várias para nós, socialistas, mas qual socialismo nós queremos? Do século XIX? Não, porque ele foi derrotado. Do século XX? Não, porque foi derrotado também. A humanidade vai ter que reconstruir seus projetos societais, mas só poderá fazê-los fora da lógica do pensamento dominante hoje porque a lógica desse pensamento não é voltada para o atendimento dos 99% da população, é para aquele 1%. Qual é a lógica que existe no sistema financeiro? É reproduzir mais dinheiro a qualquer custo sempre. E nós não podemos aceitar isso, porque a contrapartida disso é a desestruturação da humanidade. Recuperar o sentido do trabalho como atividade socialmente útil é incompatível com o capitalismo destrutivo. Se nós continuarmos nessa, daqui a dez anos vamos estar com índices oficiais de 25% de desemprego.

Revista Coletiva – O senhor falou que o consenso está cada vez mais difícil e isso parece ser um grande sintoma de que já não está mais tão fácil convencer as pessoas de que esse é o melhor dos sistemas.É por isso que o senhor defende a desestruturação do capital através de um trabalho estruturante da humanidade?

Ricardo Antunes – O trabalho também é muito desestruturado. Hoje as pessoas acham que o neoliberalismo foi um fim glorioso. O principal que o neoliberalismo conseguiu foi incutir a ideia de que você tem que ser um idealista possessivo porque o sucesso depende da eliminação do outro. Como é o café da manhã de muitos casais? A confusão começa aí, só para dar um exemplo. A dissociabilidade começa no universo mais micro, que é o familiar. Quando você sai do universo microcósmico e vai às empresas, a filmografia francesa e a espanhola são geniais. Muitos filmes recentes sobre as tragédias do trabalho, como o filme belga “Dois dias, uma noite” (Deux jours, une nuit) ou o britânico “Ou tudo ou nada” (The full monty), apontam que o trabalho se tornou o espaço da destruição. Mas não era para ser assim. Isso não é uma lei. O mundo é uma conquista humana, a humanidade pode buscar caminhos. Estamos numa época difícil em que a contra produção, o horror nazifascista, o horror xenofóbico e o horror dos que discriminam têm ganhado força. Isso é assustador, uma fase em que o horror desponta como o novo “pós-moderno”.

Revista Coletiva – Seria somente através de uma revolução que a gente poderia mudar esse cenário no qual 99% precisam de uma nova perspectiva de viver um sentido do trabalho que tenha realmente sentido contra 1% que comanda as regras, as leis e o mundo em si? Como podemos mudar esse cenário?

Ricardo Antunes – O capitalismo é um sistema totalizante e totalitário. Evidente que, se eu falar “sim, será por uma revolução”, deveria dizer que tipo de revolução será e eu não tenho a menor ideia. Será uma revolução como a cubana, a chinesa ou a russa? Penso que não. Então, a palavra revolução é muito marcada de um sentido histórico. No século XXI, não vamos ter uma revolução nos moldes da francesa ou da russa. No mundo atual, ou você tem uma transformação profunda, uma revolução no modo de vida e no sistema de metabolismo social que comanda a humanidade ou vamos caminhar para a destruição. E tem mais: não é só a destruição do trabalho e da natureza ao modo da ariana ou ao modo da hecatombe chinesa de hoje ou ao modo do vazamento de petróleo e gás no Golfo do México que ocorreu em 2010 com a explosão da plataforma da petrolífera inglesa British Petroleum (BP).

 

Estamos na eminência da destruição que pode advir de uma guerra. Com o deslocamento de um milhão de pessoas pelo mundo, você tem um descaso humano absoluto e a iminência de uma conflagração mundial, não restrita a um país que tem a bomba atômica. Eu diria que nós estamos numa época de transição. As placas tectônicas estão batendo. Quando elas batem, na geofísica, geram os terremotos e os maremotos. Eu estou falando das “placas tectônicas sociais”. Em meio a toda essa confusão, nós somos privilegiados porque estamos vivendo um momento espetacular para analisar isso. Pode-se dizer que é o momento mais difícil da sociedade que podemos imaginar. Mas é, ao mesmo tempo, espetacularmente imprevisível. Quem podia pensar que a União Soviética, o segundo país mais forte do mundo e com um império militar similar ao norte-americano, iria cair da maneira que caiu, sem nenhum invasor agindo para derrubá-la. Caiu igual a um castelo de areia. Ninguém poderia escrever, há alguns anos, que estaríamos à beira de um colapso soviético.

 

A história é imprevisível. Podemos estudar para compreender. A história não é teleológica, é uma criação cotidiana. A história irá aonde a humanidade for. E com a humanidade tão heterogênea, difundida e fraturada como a de hoje não há nenhum sinal apontando aonde ela vai. O momento, como disse, é difícil, mas a luta central da humanidade, neste século XXI, deve ser pela emancipação.

PARA SABER MAIS

BENTO, Berenice. Ignorância é força. Transviad@s: sexualidade, gênero e direitos humanos. Revista Cult. São Paulo, Editora Bregantini. Disponível em: <http://revistacult.uol.com.br/home/2016/03/ignorancia-e-forca/>. Acesso em: 29 jun. 2016.

COMO CITAR ESSE TEXTO

BENTO, Berenice. Entrevista com berenice Bento [maio.jun.jul.ago. 2016] Recife: Revista Coletiva. Entrevista concedida a Alfrancio Dias Ferreira. Disponível em: <https://www.coletiva.org/entrevista-dossie-precarizacao-e-trabalho-n19-com-o-sociologo-do-trabalho-ricardo-antunes>. ISSN 2179-1287.

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