Diversidade

Socioambiental

Editor temático: Pedro Silveira 

nº 7  |  06 de maio de 2019

Ano novo
 

Maíra Ribeiro
 

          No dia 1º de janeiro de 2019, Jair Bolsonaro assumia a presidência do Brasil. Imediatamente após sua posse, o novo presidente assinou uma medida provisória alterando drasticamente a organização do Poder Executivo. No âmbito das políticas públicas para os povos indígenas, desvinculou o órgão federal indigenista - a Fundação Nacional do Índio, Funai – do Ministério da Justiça, vinculando-o ao Ministério da Mulher, da Família e dos Direitos Humanos. Nesse mesmo bojo, a demarcação, identificação e delimitação de terras indígenas, bem como o papel interveniente nos processos de licenciamento ambiental que afetam povos indígenas, passaram da Funai para o Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento. Nas entrelinhas, o governo assumia que política indigenista deveria ocupar-se com o bem viver indígena, enquanto território era assunto sério que seria tratado por aqueles que precisam de mais terra para produzir riqueza e lucro.

         No mesmo dia 1º de janeiro de 2019, no mesmo planalto central que condecorava as mudanças de rumo do país, um ancião xavante falecia. Soube da morte de Pio Tsowa’õ Örebewe como um fato que não tardaria a acontecer, mas que era inacreditável que se concretizava. Mais ou menos como a posse do novo presidente. Senti um nó na garganta.

        Pio foi um dos primeiros anciãos que conheci, em 2010, quando entrei na Funai em Nova Xavantina, Mato Grosso. Se tem algo que me lembro é que ele já era muito velho naquela época. O registro geral diz que seu nascimento foi em 1917, mas ninguém sabe ao certo quando isso aconteceu. Certo é que foi antes do contato frequente com as comunidades não-indígenas. O melhor jeito de contar o tempo Xavante é através dos grupos etários. Estes se formam em média a cada quatro ou cinco anos e nunca se dissolvem. Conhecendo qual é a função que certo grupo etário está incumbida – como jovem iniciado ou padrinho - é possível inferir a idade das pessoas que compõem aquele grupo.

         Conta-se que os Xavante têm uma história de migração rumo ao oeste, como muitos povos Jê. Participaram de um aldeamento religioso na região de Goiás velho no século XVIII até início do século seguinte, quando fugiram cruzando o rio Araguaia, onde ocuparam o território que lhes seria definitivo. Viveram em relativo isolamento no leste mato-grossense, na região da serra do roncador e da bacia do rio das mortes. Nas décadas de 1940 e 50, o contato tornou-se inevitável com a Marcha para o Oeste e com as pressões crescentes de ocupação de seus territórios por latifundiários e posseiros.

         Pio nasceu num tempo em que não existia língua portuguesa, dinheiro, enxada, supermercado, carro, aposentadoria nem Funai na vida dos Xavante. Era um tempo em que as comunidades se ocupavam mais circulando pelo cerrado, entre acampamentos, caças e coletas, do que nas suas aldeias, plantando nas roças de toco. Talvez por isso Pio era extremamente forte.

      A vida dos Xavante perpassa pela vivência no cerrado. Os buritis que nascem agregados nos varjões e vales são a matéria prima para construção de moradias, confecção de cestos e adornos e para as corridas de tora. Nestas corridas, que podem ser masculinas ou femininas, os participantes revezam nos ombros toras de buriti que chegam a cem quilos numa corrida de cerca de cinco quilômetros de extensão. É uma disputa de força e poder entre os grupos etários rivais, que correm em meio ao cerrado até o centro da aldeia. Quando chegam, os integrantes do grupo vencedor, de mãos dados e em roda, cantam em frente às casas da aldeia.

         Pio era filho de Örebewe, um dos primeiros Xavante a estabelecer contato com a equipe da Fundação Brasil Central em Nova Xavantina. Me conta um dos netos de Örebewe que ele era um pacificador Xavante, e faleceu no exercício de sua missão, quando estava mediando conflito com outra comunidade xavante e foi morto por traição. Após o contato, Pio viveu na missão salesiana de São Marcos, no município de Barra do Garças e depois participou da retomada do território tradicional onde hoje é a terra indígena Parabubure, no alto da serra do roncador no município de Campinápolis.

         Pio lutava para manter o escritório da Funai em Nova Xavantina, apesar de já haver um escritório na cidade de Campinápolis, mais próximo à sua terra indígena. O motivo, dizia ele, era porque ali está o sangue do seu pai. Era como uma resistência indígena cega em meio a uma cidade que queria esquecer – ou ignorar – sua história e seu presente indígena.

        Pio ia com frequência à Coordenação Técnica Local da Funai em Nova Xavantina. Chegava sempre com a cara amarrada e respondia que não estava tudo bem, estava muito bravo e queria que eu ligasse para ele falar com o coordenador regional em Barra do Garças, ou para Brasília. Trazia ofícios escritos a mão – por um de seus filhos – e assinado com uma grande digital, pedindo as mais variadas demandas.

        Era a expressão exata da antiga política xavante. Uma liderança que perseguia persuasivamente os recursos e as articulações para conseguir melhorar as condições da sua comunidade, ou, ao menos, da sua família. Foi assim que conseguiu, em 2013, que a Funai construísse uma casa de alvenaria para ele na sua pequena aldeia. Sua casa de tijolo não rebocado e telha de Eternit emergia entre as cinco ou seis casas de palha enfileiradas em um desenho que nada lembra o formato de meio lua reivindicado pelas etnografias clássicas xavante.

        Os anciãos Xavante reclamam da nova política “que não respeita mais os caciques”. Essa nova política que se faz através de projetos de associações sobre conservação ambiental em editais com recursos da União Europeia. Essa nova política em que se elegem representantes para compor uma instância de controle social. Os anciãos Xavante que assinam com uma grande digital não estão abertos a esse mundo que não lhes abre a porta. Nem por isso abandonam sua incessante corrida atrás de recursos e articulações.

         Estes dias, viajei de Barra do Garças para Nova Xavantina. São cidades vizinhas, porém distantes 150 km uma da outra numa linha plana e quase reta de BR-158. Lembrei do dia em que dei carona nesse mesmo trajeto para o velho Pio e sua família. Ao entrar no carro, ele amarrou uma gravata xavante no espelhinho do carro, abrindo um largo sorriso em agradecimento pela carona. As gravatas xavante são feitas pelos homens com algodão, fiado e trançado, resina de uma árvore do cerrado e é colocada um adorno na ponta, neste caso, uma pena de papagaio. A gravata está no meu carro até hoje e continuará ali em memória ao ancião centenário.

        A estrada de Nova Xavantina a Barra do Garças passa rente à serra do Roncador. Um caminho que certamente essa liderança estava cansada de fazer nas suas andanças políticas rumo a Brasília, Cuiabá ou Barra do Garças. Mesmo assim, percebi que Pio admirava perplexo pelo vidro do carro, e comentou:

- O branco é muito trabalhador. Isso aqui era tudo mato. Agora é tudo fazenda. É muito trabalhador.

         Perguntei se ele andava por ali, antes do contato. Respondeu que andou demais naqueles campos e naquelas serras, conhecia tudo. Mas que ali não tinha uma fazenda antes, não tinha estrada, não tinha armazéns, só cerrado.

          Seus olhos viram todas as mudanças no seu território. Pio vivenciou a transformação radical no modo de viver do seu povo. A vida e a morte de Pio expressam que território e bem viver são indissociáveis.

 

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Maíra Ribeiro é indigenista na Funai, onde atua junto ao povo Xavante em Barra do Garças, Mato Grosso. É mãe, militante e bióloga com especialização em desenvolvimento territorial em assentamentos rurais.

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