Diversidade

Socioambiental

Imagens: Tamara Moreira Costa Aguiar e Junia Carreira

 

nº 3    21 de setembro de 2018

Editor temático: Pedro Silveira 

 Muito além de um simples acervo     

                                                                                                                                    

André Victor Lucci Freitas,

Thamara Zacca Bispo Taumaturgo

Simeão de Souza Moraes

Tamara Moreira Costa Aguiar 

Eduardo de Proença Barbosa

 

O incêndio recente que destruiu a maior parte do acervo do Museu Nacional do Rio de Janeiro trouxe à tona um assunto, há décadas, bastante discutido no meio acadêmico, mas de pouco conhecimento da população em geral: a falta de incentivos e de apoio generalizadas à ciência e cultura no país.

A falta de recursos financeiros destinados à manutenção dos museus é o principal fator responsável pela precariedade dessas instituições. Episódios recorrentes, como o incêndio no Instituto Butantã em 2010, o fechamento do Museu Paulista em 2013, o incêndio no Museu da Língua Portuguesa em 2015 e a ameaça de fechamento da Fundação Zoobotânica do Rio Grande do Sul em 2017, são alguns exemplos do resultado do descaso dos órgãos públicos e privados com uma parte extremamente importante para o desenvolvimento da pesquisa, ensino e extensão, que são os museus.

De modo geral, os museus são vistos pela maior parte da população como locais onde existem exposições de objetos ou organismos relacionados à arte, antropologia e história natural, uma herança dos famosos cabinets de curiosités, que apareceram na Europa durante o Renascimento. Entretanto, a importância dos museus vai muito além da exposição pública e extrapola o valor físico de seus objetos, podendo ser mensurado por meio de outras funções sociais. Dentre estas, cabe ser destacado o papel dos Museus como as instituições responsáveis pela conservação da memória cultural da humanidade, por meio da proteção às peças que são os testemunhos da construção do pensamento científico, tecnológico, artístico e social da nossa sociedade. Isso acaba extrapolando para a construção e entendimento da identidade política e histórica de diversas sociedades; para a percepção crítica da realidade histórica (artes) e ambiental (ciências naturais) que nos cerca e seu uso como recurso educacional e de inclusão social; além, é claro, da democratização dos bens intelectuais associados às pesquisas realizadas em instituições vinculadas aos Museus, às universidades e institutos de pesquisa.

Todas essas características podem ser agrupadas em três pontos principais: pesquisa, ensino e extensão, que, juntos, formam os três pilares do ensino superior. Embora nem todos os museus estejam vinculados a uma instituição de ensino superior, uma parcela significativa, principalmente aquela dos que possuem regulamentação na esfera federal (e possuem os maiores acervos), faz parte da jurisdição de instituições de ensino superior. Adicionalmente, atividades de extensão podem ser conduzidas em museus não ligados diretamente a instituições de ensino superior, o que torna a extensão uma atividade intrinsicamente associada aos museus, embora não desassociada das universidades e institutos de pesquisa.

Por extensão acadêmica entende-se um conjunto de ações por parte dos integrantes da academia (estudantes, pesquisadores e professores) que visam a disponibilizar ao público externo à universidade o conhecimento adquirido com o ensino e a pesquisa desenvolvidos naquele ambiente. Essas atividades têm como objetivo final mostrar para a sociedade o que está sendo desenvolvido em termos de ensino e pesquisa dentro da universidade, isto é, o que está sendo feito com os recursos financeiros investidos nessas instituições. Sendo assim, a extensão pode ser vista como uma contrapartida entre a comunidade acadêmica e a sociedade, uma vez que os impostos pagos por esta última são (ou pelo menos deveriam ser), em parte, revertidos em verbas para a pesquisa e ensino. Em outras palavras, a extensão é o processo responsável pela democratização do conhecimento gerado nas instituições públicas e por sua transposição em uma linguagem acessível à sociedade.

Diante do panorama acima descrito, seria esperado que as atividades vinculadas à extensão acadêmica tivessem a mesma relevância e valorização que as atividades de ensino e pesquisa. No entanto, isso não acontece na prática e as atividades de extensão são, muitas vezes, relegadas ao terceiro plano. Isso ocorre por diversos fatores, que vão desde a falta de estímulo e valorização dentro do meio acadêmico, a falta de tempo livre de docentes com cargas didáticas e administrativas muito altas, até à dificuldade de implementação de projetos de extensão por resistência do próprio meio acadêmico.

Adicionalmente, deve-se considerar também a desvalorização das carreiras de taxonomia, curadoria e museologia no meio acadêmico, não apenas no Brasil, mas em muitos países desenvolvidos. As razões para tal desvalorização são muitas e não cabe, aqui, discuti-las, mas um esforço para se reverter essa tendência deve ser feito, de modo que em médio prazo profissionais das áreas acima citadas possam incrementar as equipes das instituições de ensino e pesquisa em nosso país, revertendo em um ganho considerável em termos de pesquisa, ensino e extensão nessas áreas.

Em suma, a falta de valorização pelo público reflete diretamente na falta de interesse dos meios de comunicação em divulgar os projetos de extensão desenvolvidos em museus, universidades e institutos. Como exemplo, embora a televisão seja um dos veículos de acesso à informação mais utilizados pelos brasileiros, raros são os projetos de extensão significativamente divulgados nesse meio, especialmente nos canais abertos. O Museu Nacional do Rio de Janeiro, por exemplo, desenvolvia diversas atividades e cursos de extensão, tais como o “Clube Jovens Cientistas no Museu Nacional”, “Meninas com Ciência” e o “Repórter Natureza”. Entretanto, o museu só passou a receber maior atenção da mídia televisiva após a tragédia do último dia 02 de setembro, quando grande parte do seu acervo foi destruído pelo fogo. Infelizmente, só após essa fatalidade é que a mídia tem divulgado o que era o museu, os acervos que continha e as atividades nele desenvolvidas, que iam muito além da exposição aberta ao público, mas que recebiam pouca visitação em comparação às atividades em outros grandes museus no exterior. Não raro, o desinteresse em divulgar tais ações parte dos próprios meios de comunicação, provavelmente pela falta de entendimento da importância do que é desenvolvido nos museus, universidades e institutos.

Basicamente, está claro que é imprescindível que seja feito um trabalho de conscientização da população sobre a importância dessas instituições, sobretudo dos museus, em agregar conhecimento histórico, político e biológico. Essa conscientização envolve o estímulo ao pensamento crítico, no entendimento de eventos passados e presentes como ferramenta de reflexão social, política, histórica e ambiental. Exemplos clássicos incluem fatos históricos como o holocausto e a escravidão, que se convertem em ferramentas de conscientização e combate à intolerância, evitando-se, assim, que esses erros se repitam. Do ponto de vista biológico, a extinção prematura de muitas espécies pela ação dos seres humanos, seja por caça ou destruição de habitats naturais, deve ser abordada, estimulando o desenvolvimento de uma conscientização ambiental mais ampla. Outras atividades importantes também incluem a disseminação e entendimento da ciência de base como precursora inicial de estudos aplicados nas áreas de saúde, engenharia e bem-estar social.

Em suma, os Museus devem ter seu valor reconhecido pelos diferentes setores da sociedade, uma valorização que em última instância vai atrair a atenção dos órgãos públicos e privados ou até mesmo doações por parte  de pessoas físicas, uma prática comum em países desenvolvidos. Desse modo, espera-se que tais ações possam ser revertidas em medidas que poderão assegurar a proteção dos acervos a longo prazo e, consequentemente, incentivar o crescimento de projetos de extensão. Com isso, quem sabe em um futuro próximo os museus ocupem um lugar central em nossa sociedade como memoriais dos triunfos e das mazelas da humanidade.

Gostaríamos de agradecer ao Pedro Silveira pelo convite para escrever o presente texto  e à Junia Carreira, pela ajuda com as fotos.

     

     


 

 

Coleções biológicas do Museu de Zoologia da Unicamp 
 

Autores
 

André Victor Lucci Freitas é professor titular do instituto de biologia da UNICAMP
 

Thamara Zacca Bispo Taumaturgo é doutora em entomologia pela pós- graduação em entomologia da UFPR
 

Simeão de Souza Moraes é doutor em zoologia pelo instituto de biociências da USP
 

Tamara Moreira Costa Aguiar é mestranda em biologia animal no instituto de biologia da UNICAMP
 

Eduardo de Proença Barbosa é doutor em ecologia pelo instituto de biologia da UNICAMP
 

jackfruit-2236851_1920.jpg

Anteriores

Protesta mapuche en Vaca Muerta. Foto Em

Pedro Silveira |  nº 1 | 13 de julho de 2018

Karine N. Narahara  | nº 2  | 13 de agosto de 2018

APOIO
LABJOR/UNICAMP
REALIZAÇÃO
FUNDAÇÃO JOAQUIM NABUCO