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Diversidade

Socioambiental

Editor temático: Pedro Silveira 

nº 10 |  22 de agosto de 2019

Habitabilidades: humanos e tubarões em Pernambuco/Brasil

Ana Cláudia Rodrigues

Até que os leões inventem as suas próprias histórias, os caçadores serão sempre os heróis das narrativas de caça (Provérbio Africano).

 Este texto inicia-se com um provérbio africano que fala sobre uma história única, a dos caçadores. Nessas narrativas históricas se sobressai a perspectiva humana, geralmente masculina, branca e ocidental. Nesse sentido, é extremamente provocadora a afirmação da antropóloga Anna Tsing: a antropologia tem as ferramentas metodológicas necessárias para descrever “histórias multiespécies” que envolvam humanos e não humanos. Podemos falar de cogumelos, touros, leões e tubarões e aprender um pouco mais sobre suas redes de relações interespécies na construção de paisagens, assim como fazemos com os humanos. Paisagens são sempre históricas para pessoas e para animais, e, para compreendê-las, é necessário rastrear detalhes e reunir histórias de humanos e tubarões. É o que buscamos fazer a partir da pesquisa etnográfica Relações Interespecíficas: humanos e tubarões em Pernambuco/Brasil [1].

Os tubarões despertam atenção de muitas pessoas no mundo. As representações em torno desses animais são marcadas por sentimentos como medo, perigo, atração e admiração por suas habilidades de grande predador dos mares. Porém, são os aspectos culturais propagados pela mídia, como o famoso filme Jaws [2], que potencializaram o medo de sermos atacados por um tubarão, mesmo que essa probabilidade seja pequena. Os tubarões acionam o que alguns pesquisadores chamam de medo primitivo humano de ser presa de um outro animal. Segundo o engenheiro de pesca e curador do Museu dos Tubarões, Leonardo Veras, o filme Tubarão criou uma espécie de cicatriz cultural modificando as relações que se estabeleciam com esses animais. Foi após o filme que se propagou a síndrome denominada Selachofobia (medo de tubarão). No entanto, suas raízes históricas são mais profundas ancoradas numa perspectiva ocidental moderna dualista que separava a sociedade humana do mundo natural, conforme afirmam o historiador britânico Keith Thomas e o antropólogo francês Philippe Descola. Assim, criaram-se monstros perfeitos para uma expansão capitalista comercial marítima cada vez mais crescente. Narrativas vindas de povos não ocidentais para quem os tubarões exerciam importante papel simbólico e econômico foram silenciadas. Ou seja, processos de colonização não atingiram apenas humanos, o ambiente também foi afetado

Existem quase 500 espécies conhecidas de tubarões, desde pequenos animais inofensivos aos temidos tubarões-branco. Apesar de generalizarmos, os tubarões são muito diversos em forma e comportamento e apenas 20% oferecem risco aos seres humanos. Porém, quando o assunto é tubarão a palavra “Ataque” ganha destaque e tornou-se comum quando pensamos histórias entre humanos e tubarões no contexto pernambucano. Mas, como essas histórias se relacionam? 

Pernambuco apresenta dois ambientes bem distintos no que se refere a convivência entre tubarões e humanos, as praias de Recife e Região Metropolitana, o continente, e as praias do Arquipélago de Fernando de Noronha, uma ilha oceânica de origem vulcânica. A princípio são paisagens e experiências incomparáveis, mas, seguindo a perspectiva da antropóloga Marilyn Strathern, elas podem ser contrastadas criticamente, principalmente se levarmos em consideração aspectos ecológicos, políticos e históricos desses dois ambientes. 

As praias de Recife e Região Metropolitana são ambientes para várias espécies de peixes e por suas características naturais, mesmo degradadas, são ambientes para os tubarões. Historicamente há relatos de avistamento de tubarões na RMR, contudo, sem haver ataques aos seres humanos. Alguns casos foram registrados na imprensa desde o século XIX, sendo o mais conhecido o caso do Padre Serafim que foi “atacado” por um tubarão em frente a igrejinha de Piedade, um dos locais onde ocorreram mais incidentes entre humanos e tubarões. Características ecológicas e sociais são apontadas por pesquisadores como potencializadoras dos encontros entre humanos e tubarões. Condições naturais como a proximidade do mar profundo da orla, aberturas naturais nas paredes de arrecifes, um canal que vai da praia de Candeias a de Brasília Teimosa, por onde se deslocam tubarões se somam ao crescimento demográfico dos bairros do litoral sul e os desastres ambientais com a Construção do Complexo Portuário de Suape [3] na década de 1990.

Podemos considerar o projeto de construção do Porto de Suape como uma obra típica da política do antropoceno ou do capitaloceno. A busca pelo desenvolvimento atropelou vidas humanas e não humanas, deixando ruínas que numa escala quase imediata provocou reações de algumas espécies de tubarões e também de pessoas, como as comunidades que foram atingidas pelo empreendimento (pescadores, quilombolas). Manguezais e estuários utilizados como berçários para alguns tubarões como os cabeça-chata (Carcharhinus leucas) foram destruídos forçando deslocamentos para o estuário do Rio Jaboatão, a poucos quilômetros das praias superpopulosas de Recife. Modificações ambientais drásticas resultaram em “ataques” a banhistas e surfistas sucessivamente ao longo de quase 30 anos de convívio com o complexo. 

O empreendimento atraiu milhares de pessoas em busca de empregos. Portos atraem navios que atraem tubarões-tigre (Galeocerdo cuvier). Seguindo embarcações e seus dejetos eles chegam em um ambiente desfavorável e facilmente pessoas na água podem ser confundidas com presas. Entretanto, elas não são suas presas naturais, os humanos não fazem parte da cadeia alimentar dos tubarões. Suas mordidas são em geral exploratórias, porém causam muitos impactos no corpo humano. Os tubarões são seres sencientes e, como tais, desenvolvem habilidades para responderem às mudanças ambientais. Os tubarões não agiam dessa forma, relatam pescadores e pessoas que utilizam o mar com frequência. Se antes da década de 1990 as pessoas adentravam ao mar sem se preocupar com ataques de tubarões, a partir desse marco histórico a cultura de praia foi aos poucos sendo modificada. Há gerações de pessoas que não tomam banho de mar nas praias de Recife e Região Metropolitana. 

As belas praias que estampavam propagandas turísticas agora são associadas a ataques de tubarões e as placas de advertência são procuradas para fotografias, assim como diversos tipos de souvenirs, camisetas que retratam imagens de tubarões. Os impactos econômicos e a pressão social impulsionaram políticas mitigatórias como a proibição de esportes náuticos e a criação do Comitê Estadual de Monitoramento de Incidentes com Tubarões (Cemit). No que se refere aos impactos ambientais, poluição dos rios, manguezais aterrados, falta de políticas de saneamento e pesca predatória pouco tem sido feito pelo estado para mudar essa realidade. Assim, Pernambuco continua sendo o quarto estado no ranking mundial em ataques de tubarões e o primeiro em número de mortes [4]. O investimento em infraestruturas para Suape não é o mesmo para atendimento às vítimas dos incidentes e prevenção de novos casos, e, nem para preservação dos tubarões.

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Placa de advertência na orla da praia de Boa Viagem.

Sustentabilidade ambiental parece ser uma palavra fora de moda, mas deveria ser prioridade quando a questão é a convivência entre humanos e tubarões nas praias de uma metrópole que sofre impactos ambientais constantes advindos de uma grande construção. O complexo seria o que Anna Tsing chama de perturbação negativa no ambiente. 

Em 2018, após dois casos em um curto intervalo na mesma praia, resultando na morte de um rapaz de 18 anos, entrevistamos várias pessoas que fizeram questão de ressaltar que isso ainda era consequência da construção de Suape, “mexeram com o habitat dos tubarões agora eles estão vindo procurar alimento nas praias”. Há um reconhecimento mínimo de territorialidade, o mar é a casa dos tubarões, “precisamos ter cuidado e respeito ao utilizar o mar para banho”. Os ataques, e aqui não quero retirar o impacto causado por esse tipo de incidente na vida das pessoas atingidas perdendo a vida ou ficando mutiladas, funcionam com ritornelos, sempre lembrando que há algo em desequilíbrio nesse ambiente. 

 

Mas, por que é importante relacionar histórias de tubarões e pessoas? Estamos falando de uma grande cidade com uma das maiores densidades demográficas do país e de espécies de tubarões que, segundo estatísticas, estão diminuindo no mundo inteiro. Milhares de tubarões são mortos para serem retiradas suas barbatanas, consideradas especiarias, muitas espécies já estão em processo de extinção. História que se repete com outros animais da megafauna, como elefantes, rinocerontes em que parte de seus corpos são apropriados por humanos para satisfazer uma necessidade do mercado. É preciso encontrar formas de convivência multiespécies. Milhares de pessoas também utilizam as praias de Recife como lazer, as vezes a única diversão de baixo custo acessível. 

As políticas de mitigações, como as proibições de esportes náuticos, a evitação de banho de mar nas áreas de risco, atingem humanos de diferentes formas. Quem tem condições financeiras vai surfar em praias fora de risco usufruindo dos banhos nas piscinas naturais das praias de Porto de Galinhas, Carneiros, para onde também são direcionados os passeios turísticos. Mas, para maioria da população as praias acessíveis ainda são as da região metropolitana, ou seja, a gestão do risco possui marcadores sociais como classe, gênero e geração. Por exemplo, dos 65 casos registrados apenas dois foram com mulheres. Nesse sentido, é necessário pensar maneiras de coabitar as praias de forma em que humanos e tubarões possam conviver. 

A educação ambiental tem se mostrado um caminho viável. Porém, essa educação precisa estar mais próxima do que o antropólogo Tim Ingold denominou de educação da atenção, pois imagens e representações dos tubarões, em parte negativas, devem ser substituídas por processos de conhecimento advindos de um engajamento no ambiente. É fato que Recife e RMR não registram incidentes de tubarões com pescadores, mergulhadores, eles conhecem o mar e as condições adequadas para adentrá-lo resultado de suas vivências e desenvolvimento de percepções para estar no mar. 

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Filhote de tubarão-limão na praia do Sueste/Fernando de Noronha.

Fernando de Noronha é um arquipélago que exerceu importante papel na geopolítica do Atlântico Sul e na vida multiespécie. Ponto estratégico nas rotas de navegações, aproximadamente três graus abaixo da linha do equador, passou por diferentes ocupações antrópicas. Oficialmente sua descoberta data de 1503, mas, sabe-se que já era conhecida como ilha de apoio por vários navegantes. Suas belezas naturais e grande diversidade de animais marinhos chamavam atenção sendo apelidada de Ilha Maravilhosa e suas águas comparadas à cor de esmeraldas.

Com localização privilegiada, a ilha foi palco de várias disputas entre portugueses, holandeses e franceses. Para proteção desse lugar estratégico foi erguido em 1737 um dos melhores sistema de proteção do Brasil, a Vila dos Remédios, com 10 fortes e uma atalaia. Durante 201 anos abrigou um presídio para onde foram levados presos de diversas revoltas do Brasil e posteriormente os presos políticos da ditadura. Durante a segunda guerra mundial e o período da guerra fria, Noronha desempenhou importante papel na segurança náutica, juntamente com os americanos, acolhendo uma base para lançamento de mísseis teleguiados. 

Noronha sempre teve um fluxo intenso e temporário de pessoas, navegadores, militares, presos, comerciantes, pescadores que foram deixando suas marcas na cultura e na forma de utilização da ilha. A administração passou por várias mãos e aos poucos a ilha foi ganhando estruturas como escola, hospital e um aeroporto que facilitou o deslocamento, antes feito  pelo mar. Na década de 1980 a ilha passa a ser federalizada e sua administração dada ao governo de Pernambuco. Em virtude de suas riquezas naturais e importância para biodiversidade do Atlântico Sul, criou-se as Unidades de Conservação (UCs), abrigando uma Área de Proteção Ambiental (APA - Fernando de Noronha), onde encontramos habitações humanas e O Parque Nacional Marinho de Fernando de Noronha (Parnamar). Um dos desafios da administração das UCs, segundo o Instituto Chico Mendes de Conservação da Bbiodiversidade, tem sido conciliar a preservação ambiental e a qualidade de vida de moradores e visitantes da ilha.

O fluxo turístico ao longo das últimas décadas tem modificado o ambiente de Noronha. A economia gira em torno do turismo. Pessoas procuram a ilha para ter contato com animais marinhos como tartarugas, golfinhos, tubarões, arraias e várias espécies de peixes, um tipo de turismo ecológico, mas também porque a ilha se tornou famosa por receber celebridades e estampar capas de revistas, blogs e redes sociais de artistas famosos. Ir a Noronha tornou-se status no mundo midiático. Essa dinâmica traz várias consequências para a ilha como o crescimento desordenado, problemas com saneamento e escassez de água. O crescimento de Noronha afeta não apenas os humanos, mas toda a biodiversidade que lhe é característica.

O Parque e a APA buscam fazer uma política ambiental sustentável, o que tem gerado conflitos com moradores e comerciantes. A proibição da pesca nas áreas do parque é apontada como uma ação negativa para os nativos voltando a população local cada vez mais para atividades turísticas também controladas pelo ICMbio. Não se pode ter acesso a todos os locais da ilha e alguns acessos são monitorados. Mesmo com dificuldade de gestão, comum a outras unidades de conservação, elas têm, até o momento, contribuído para que a vida multiespécie se prolifere em Noronha. Não é por acaso que a imagem da ilha está atrelada a animais como as tartarugas-marinhas, mabuias (espécie de lagartixa endêmica), aves e tubarões. Noronha possui um devir de natureza e cultura muito peculiar desde a forma de se referir aos visitantes como os do continente à forma de se relacionar com o mar que lhe cerca. A dinâmica segue o fluxo da natureza embalada pelas condições marítimas do mar de dentro (mais calmo) e do mar de fora (mais agitado).

Nas narrativas dos nativos, tubarão é assunto corriqueiro, cresceram em contato com esse e outros bichos. A ilha abriga algumas espécies que a utilizam para reprodução, como os tubarões-limão (Ginglymostoma cirratum), os mais comuns, e os tubarões-lixa (Negaprion brevirostris), outras espécies são frequentes como o tigre, visto que a ilha é um ponto de passagem e refúgio de espécies oceânicas. Pessoas passaram a visitar Noronha para ver tubarões, pois é um dos poucos lugares do mundo em que a interação entre humanos e tubarões é intensa. Tem tubarão em toda ilha. Obviamente numa perspectiva histórica essas interações sofreram mudança, para algumas pessoas mais antigas, hoje existem mais tubarões que no passado, entretanto eles eram diferentes, eram maiores e não ficavam tanto tempo na ilha. 

Em 2015 ocorreu o primeiro incidente entre turista e tubarão, em seguida em 2016, 2017 e 2018 outros incidentes são registrados. Esses casos são ressaltados pelos moradores sempre para reforçar a diferença dos ataques em Recife. “Aqui não foi ataque!” Foram acidentes que aconteceram porque as pessoas desrespeitaram as regras do ICMbio, estavam em lugares proibidos para visitantes, perseguiram o animal. Em julho tivemos oportunidade de fazer campo em Noronha e pudemos perceber o frenesi de alguns turistas para ter a experiência de ver ou estar perto de um tubarão. As câmaras GoPro e os celulares estão sempre prontos para registrar esse momento. Mesmo com várias orientações e placas alertando para não se aproximar dos animais, os turistas procuram um jeito de registrar, um dos incidentes foi com uma turista que tentou segurar um filhote de limão para tirar foto. 

É difícil conter multidões ávidas por essas experiências, tem sempre alguém burlando um monitor, um guia. É comum se fazer travessias de uma parte da ilha para outra para poder ver um tubarão. Isso não significa que todo turista se comporte dessa forma, alguns, e em geral, são pernambucanos, temem a simples ideia de estar perto de um tubarão. O medo adquirido da realidade de Recife persiste, até mesmo, em contextos em que essa interação é positiva. As condições ecológicas de Noronha propiciam uma experiência diferente com os tubarões das espécies comuns da ilha, consideradas não agressivas. 

Certamente Noronha passa por ação antrópica há vários anos, mas em escalas bem diferente de uma grande capital como Recife. A própria condição natural da ilha impossibilitou por muito tempo o seu crescimento demográfico. Se os fatores ambientais ainda não são tão graves como no continente isso se deve às ações realizadas pelo ICMbio, todos os dias são realizadas palestras sobre os projetos e atividades desenvolvidas na ilha. No entanto, recentes declarações do governo brasileiro, coloca em xeque a habitabilidade na ilha, numa lógica de combate às proibições estabelecidas nas UCs, prega-se uma liberação maior para atuação dos humanos. 

Os impasses entre as políticas ambientais do ICMbio e os interesses do comércio e serviços se refletem numa frase dita constantemente por profissionais do turismo, “aqui é a terra do não pode: não pode perseguir animal, não pode entrar na água em determinados períodos, não pode entrar sem acompanhamento de fiscais”. Cabe destacar que na ilha se desenvolvem projetos importantes de preservação de espécies como as tartarugas-marinhas, desenvolvido pelo Tamar e o projeto Golfinho Rotador, ambos importantes no conhecimento desses animais que em alguns lugares estão ameaçados de extinção. 

Após os registros dos incidentes, o governo de Pernambuco, por meio do Cemit, tenta implementar medidas de prevenção de ataques. Mas essa é uma questão polêmica, pois as medidas proibitivas realizadas em Recife teriam efeitos diferentes em Noronha. Placas com teor de perigo e alerta de ataque de tubarão, na visão de comerciantes e empresários do setor turístico, impactariam o fluxo do turismo e, como existe tubarão em todas as praias da ilha, seria preciso proibir o acesso geral.

As placas da praia do Sueste informam sobre os cuidados necessários em encontros com animais como caravelas, tartarugas, moreia, arraias e tubarões. Para os tubarões as informações são as seguintes: caso visualize um tubarão, mantenha distância, jamais tente persegui-lo, encurralá-lo ou tocá-lo. Evite entrar no mar antes das 9 horas e depois das 16 horas, quando o acesso é proibido. Apesar dos incidentes até o momento serem atribuídos aos descuidos dos turistas, preocupações com o socorro aos possíveis casos são pertinentes exigindo protocolos diferenciados, mas que garanta o atendimento adequado. O hospital de Noronha é de pequeno porte não tendo estrutura suficiente para atendimento de alta complexidade.

É através de teias históricas e culturais que observamos os aspectos relacionados a ambientes multiespécies onde tubarões e humanos estabeleceram relações, contatos, e isso não está desconectado de elementos sociais, políticos e econômicos presentes em contexto de países em desenvolvimento, metrópoles industriais marcadas pelo capital. Projetos de desenvolvimento e tubarões se conectam de formas diversas. 

Seguindo a proposta de uma comparação menos generalista e mais aberta a possibilidades interpretativas podemos levantar alguns pontos nos dois contextos, afinal um pode aprender com o outro de forma a não cometer os mesmos erros. O desequilíbrio ambiental, o crescimento populacional e as ações de desenvolvimento são apontados como causas das interações negativas entre humanos e tubarões em Recife. Nesse sentido, Noronha em menor escala, vem apresentando problemas típicos de crescimento populacional e desenvolvimento do turismo que não combina com a proposta de sustentabilidade ecológica da ilha. Possivelmente isso não afetará apenas humanos e tubarões, mas toda uma assembleia (nos termos da antropóloga Anna Tsing) de seres. A descrição crítica como caminho epistemológico e metodológico na antropologia pode apontar formas sustentáveis de habitabilidades tanto em contexto em ruínas, como Recife, como em Noronha. No continente uma das saídas para convivência entre humanos e tubarões é cuidar do ambiente e minimizar os efeitos das ações antrópicas, respeitando as condições desse ambiente. Para compartilhar a praia é preciso reconhecer que ela é habitada por muitos seres, e que podemos utilizá-la de forma responsável. Em Noronha um alerta está sendo dado por vários pesquisadores: é preciso frear, precisamos de um desenvolvimento mais lento. 

NOTAS

 

[1] Pesquisa realizada no PPGA/UFPE com participação de docentes, alunas de pós-graduação e graduação, desde 2018.

 

[2] Filme de Steven Spielberg lançado na década de 1970. No Brasil, o filme foi nomeado “Tubarão”.

 

[3] Abrange um porto, um distrito industrial, uma refinaria e um estaleiro.

 

[4] Segundo o International Shark Attack File (ISAF), a capital pernambucana é a 4ª do mundo e a 1ª do Brasil/América do Sul em ataques de tubarões perdendo apenas para Flórida, Austrália e África do Sul. Mas é o primeiro em número de mortes. 

PRA SABER MAIS:

DESCOLA, Philippe & PALSSON, Gísli. Naturaleza y sociedad. Perspectivas antropológicas. México: SigloVeintiuno, 2001.

ESCOBA, Arturo. O lugar da natureza e a natureza do lugar: globalização ou pós-Desenvolvimento? In: A colonialidade do saber: eurocentrismo e ciências sociais. Perspectivas latino-americanas. Buenos Aires, CLACSO, 2005. 

 

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NASCIMENTO, Grazielle Rodrigues. GEOPOLÍTICA DO ATLÂNTICO: o caso do Arquipélago de Fernando de Noronha-Brasil. Anais ANPUH- RN, 2013.

 

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STRATHERN, Marilyn. O efeito etnográfico e outros ensaios. São Paulo: Cosac & Naif, 2012. 

 

TSING, Anna. Viver nas ruínas: paisagens multiespécies no antropoceno. Brasília: Mil Folhas, 2019.

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Ricardo Alexandre Pereira de Oliveira e Emmanuel Duarte Almada

| nº 9 |  19 de julho de 2019

Ana Cláudia Rodrigues é professora adjunta do Departamento de Antropologia e Museologia da UFPE. Coordenadora da pesquisa “Relações Interespecíficas: humanos e tubarões em Pernambuco/Brasil” e do grupo de pesquisa Naturezas, Culturas e Técnicas - PPGA/UFPE.

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