Diversidade

Socioambiental

nº1   13 de junho de 2018

Editor temático: Pedro Silveira 

JACAS, SURURUS E TANAJURAS NAS DOBRAS DA CIDADE             

“A diversidade, biológica e social, se amontoa defensivamente em margens despercebidas”

(Anna Tsing)                                                                                                                                      

                                                                                                                                                                                                              Pedro Silveira    

 

     Uma vez por ano as saúvas, ao fim de dias chuvosos, executam um espetáculo especial. De seus buracos no chão surgem em profusão formigas aladas, machos e fêmeas, que saem em revoada para se reproduzir. Os machos morrem logo após esse período enquanto as fêmeas, conhecidas como tanajuras ou içás, quando fecundadas, procuram um local adequado para fundar novos formigueiros, dos quais serão as rainhas, as formigas-mães de todas as outras. São muitas as içás que emergem das tocas; poucas são bem sucedidas em fundar um novo formigueiro.

 

    “Cai, cai, Tanajura, tua mãe tá na gordura” é um ditado popular em Pernambuco e na Paraíba. As tanajuras, com seu tamanho avantajado e seu abdome suculento, são um alimento muito apreciado nos interiores do Brasil, especialmente no Nordeste. É um hábito alimentar que traça uma linha de continuidade entre essas populações interioranas  e os povos indígenas que praticavam esse costume desde antes da chegada dos europeus.

 

    “Cai, cai, tanajura, tua mãe tá no Ibura” é uma variação do ditado em Recife. Não só no Ibura, bairro periférico da cidade, mas em toda Região Metropolitana, o espetáculo da revoada das saúvas é acompanhado por um outro, o de pessoas com vasilhames nas mãos coletando as tanajuras que saem dos buracos e realizam seu vôo nupcial. Nas matas que restam nos morros da cidade e nas beiras dos córregos, nos terrenos baldios, nos parques urbanos e até mesmo nas margens das rodovias e nos campi universitários, o dia das revoadas é um dia especial em que muitas pessoas, principalmente as das áreas periféricas, põem-se a capturar tanajuras. As tanajuras podem ser consumidas fritas (“na gordura”), acrescidas à farofa, compondo outras receitas ou mesmo in natura. Ademais, o gosto popular pela tanajura faz de sua coleta uma fonte esporádica de renda, já que há um mercado informal com bons preços para a iguaria.

 

 

    As tanajuras surgem dos subterrâneos, nos interstícios da cidade, nas áreas de solo exposto, de vegetação rasteira e nos fragmentos de mata. Mas elas não são os únicos co-habitantes não-humanos com quem os moradores do Recife se relacionam em sua alimentação. Adicionalmente, em muitas das áreas de onde provêm as tanajuras, encontram-se também árvores frutíferas, sejam aquelas plantadas em tempos antigos ou em tempos recentes, sejam aquelas que proliferaram sem que os seres humanos as tenham plantado. São pés de jaca, ingá, fruta-pão, pitomba, manga, abacate, macaíba, cajá e outras frutas apreciadas pela população.

 

    Assim como o efêmero espetáculo das tanajuras, o período de frutificação dessas árvores é percebido e acompanhado atentamente por uma parcela dos habitantes humanos e não-humanos da cidade. As árvores frutíferas colaboram para a segurança alimentar das pessoas e de muitas espécies de pássaros e insetos, dos timbus, dos morcegos e de toda uma fauna que teima em resistir à hostilidade da metrópole. Ademais, semelhantemente à captura das tanajuras, a coleta de frutas tem uma dimensão econômica importante para a população mais pobre da cidade, pois parte considerável das frutas coletadas é posta à venda em barracas, pequenos comércios e nas ruas da cidade.

 

     Nas safras das frutíferas, circulam pela cidade homens, mulheres e crianças com sacos de ráfia, carrinhos de mão, bicicletas equipadas com caixas plásticas, varas e outros utensílios para catar frutas. São necessárias as habilidades de subir em árvores, de utilizar os instrumentos de coleta ou de saber qual é o melhor momento de catar as frutas que caem ao chão. A antropóloga Anna Tsing nos ensina que o forrageamento, ou seja, a obtenção de alimentos por meio da procura e coleta, requer produção de lugares familiares na paisagem, aqueles lugares onde, no passado, encontrou-se o que se procurava e que, por isso, sabe-se que neles é mais provável um novo encontro. Dessa forma, para os catadores de frutas é importante trilhar os caminhos para chegar às árvores, saber ou inferir se as árvores em lugares conhecidos estão ou não frutificando e saber coletar adequadamente. Essas são, muitas vezes, habilidades desenvolvidas na infância, quando a criança tem a oportunidade de se relacionar com as árvores frutíferas.

 

      Se é possível olhar a cidade do ponto de vista de quem se envolve nas revoadas de tanajuras, ou dos coletores de frutas que se movimentam pelas áreas intersticiais arborizadas, há ainda um outro ponto de vista importante que passa despercebido aos cidadãos que circulam entre ruas e edifícios: o ponto de vista fluvial. A região mais central do Recife é assentada sobre uma ampla área estuarina, que aparece com destaque na obra de intelectuais como Josué de Castro e João Cabral de Melo Neto. Nela o Rio Capibaribe se encontra com a bacia do Pina, tendo ainda em Olinda o aporte do Rio Beberibe. A paisagem pré-colonial da cidade, de fato, era formada por rios, canais e ilhas deste estuário que abrigava manguezais de incalculável valor para a vida marinha. Os aterramentos, comuns desde sua fundação, deixaram como marcas na paisagem bairros com nomes de ilhas, onde ilhas não se veem; com nomes de córregos, embora eles tenham se transformado em esgoto canalizado ou em valas a céu aberto. “Onde hoje há calçamento, pode crer que havia mangue”, cantava a banda Mundo Livre S/A na década de 90.

 

      Neste cenário urbano, a atividade de pesca artesanal persiste. Os rios que formam a bacia do Pina, cuja área com manguezais é a maior que resta na cidade, dá sustento para muitas famílias de pescadores, que, em sua maioria, moram sob condições precárias em bairros como Brasília Teimosa, Ilha de Deus, Coelhos, Coque, Vila Tamandaré e Caranguejo Tabaiares. Os pescadores urbanos conhecem como ninguém os meandros aquáticos da cidade, sabem dos pontos onde ainda é possível obter peixes, camarões, sururus, ostras e outros pescados. Muitas espécies rareiam, outras não existem mais, mas é possível dizer que, enquanto houver pescados, haverá pescadores em Recife.

 

      Ser pescador é não só um modo de subsistência como também um sentimento de pertencimento e reconhecimento comunitário. A Ponte do Limão, próxima ao bairro de Santo Amaro, congrega pescadores de diversas áreas da cidade e lá há também oficinas de reparos de barcos e outras estruturas de apoio à pesca. Na Ilha de Deus, localizada no interior do estuário do Pina, existe um forte movimento cultural do qual a Associação Caranguejo-uçá é um dos grandes destaques. Esta associação, ao lado do Conselho Pastoral dos Pescadores e de outras entidades parceiras, organizou em 2017 o I Encontro dos Pescadores e Pescadoras do Recife, para dar evidência a essa atividade de modo que as políticas públicas para a cidade incluam os pescadores.

 

     Às vésperas deste encontro, o Programa Fora da Curva, da Rádio Universitária da UFPE, levou ao ar um programa que debatia o seguinte tema: “A especulação imobiliária vai acabar com a pesca no Recife?”. Poderíamos substituir os pescadores, sujeitos implícitos nessa indagação, pelos catadores de frutas ou pelas pessoas que atendem aos chamados da revoada de tanajuras. O crescimento da cidade é por um lado desordenado e, por outro, é ordenado para torná-la um espaço que beneficia o transporte motorizado individual, a conveniente (para as empreiteiras) proliferação de prédios de 30 ou 40 andares, shopping centers e centros empresariais, processo que desencadeia um trânsito insuportável e que, paradoxalmente, inviabiliza o modelo que propõe. O mesmo processo expulsa os moradores pobres para áreas distantes, omite a resolução da questão do saneamento básico, expropria os habitantes da cidade de suas áreas verdes ou as elitiza. Os espaços intersticiais vão se reduzindo, as árvores frutíferas perdem espaço. As áreas periféricas, quando não são favelas, são mares de conjuntos habitacionais sem espaço para natureza ou para lazer.

 

     Nesse cenário, consideramos que as saúvas, que podem indicar solos degradados, persistirão mais do que os peixes ou as frutas, enquanto houver solo exposto e folhas para cortar. E os moradores pobres da cidade, que historicamente aprenderam a se beneficiar de um modo extrativista-urbano nas dobras intersticiais das propriedades dos mais ricos, seguirão colhendo frutas e pescados em sua resistência de saúva.

 

    As narrativas dos moradores mais antigos da Região Metropolitana do Recife mostram uma infância em que os habitantes não-humanos tinham mais espaço para interagir com os habitantes humanos. Nas dobras da cidade ainda é possível que se proliferem espécies de plantas e animais de valor alimentar para a população, para além dos ratos e baratas que o crescimento urbano nos destina. Às margens de um projeto urbano que naturaliza e aprofunda as desigualdades, a cidade do Recife e seus arredores seguem apresentando uma diversidade multiespécies de maneiras de viver. Mesmo que desde sempre postos à margem, lidando com frutas e violência urbana, pescados e poluição, muita saúva e pouca saúde, os humanos que se engajam nestas relações ecológicas estão aí, presentes no cotidiano da cidade, e nos dão indícios de que se nos posicionarmos em outros lugares poderemos ter outros pontos de vista e avistar outras cidades possíveis. E nos alertam de que a cidade dos carros e dos shopping-centers não tem o direito de solapar a cidade das jacas, dos sururus e tanajuras. Se isso ocorre, há uma guerra entre mundos, pois o direito à cidade é o direito à multiplicidade.


 

 

Pedro Silveira é pesquisador da Fundação Joaquim Nabuco e editor-chefe da Coletiva. Tem doutorado em Ciências Sociais pela Unicamp e pesquisa temas que conectam a antropologia à ecologia.

APOIO
LABJOR/UNICAMP
REALIZAÇÃO
FUNDAÇÃO JOAQUIM NABUCO