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Política e

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Foto:  Confinamento / Edição de Túlio Velho Barreto / Reprodução da Internet.

Cidadania

nº 11 |   08 de maio de 2020

Editor temático: Túlio Velho Barreto

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De exílio e confinamento: pânico num país tropical em tempos de crise política e sanitária
 

Cristina Buarque

 

Feminista, Cientista política e Antropóloga
 

Distante daqui, na Alemanha, quando nos encontrávamos refugiados após a decretação do Ato Institucional n 5 (AI-5), um amigo dizia que loucura pega. Ele se referia aos resultados comportamentais que nós, os brasileiros, apresentávamos em decorrência do intenso contato pessoal que mantínhamos na colônia de exilados. Nas terras frias, criávamos intimidades e amores impossíveis, da mesma forma que, por nada, nos odiávamos, nos intrigávamos e fazíamos as pazes. 

 

Na verdade, vivíamos muito tensos, encangados em nós mesmos numa busca frenética de referências. Éramos muito jovens, meio adolescentes, e nos sentíamos sós, sem pai, sem mãe, sem irmãos, sem vizinhos, sem faculdade, sem trabalho, sem espaço político para nos engajar, e sem uma língua para nos fazer entender. Outsiders, estávamos fechados dos lados de fora e de dentro daquela sociedade, robusta em histórias macabras, sem poder nos mover. Era um confinamento a céu aberto. Já conhecíamos outras situações de exclusão (cadeia, clandestinidade, refúgios) e, naquele momento, estranhávamos o desconhecimento do desconhecido. 

 

Os alemães pareciam mais distantes de nós do que os franceses. Assim, pouco ou nada de nós identificávamos naqueles cidadãos-trabalhadores e na sua grandeza filosófica. Além disso, a maioria de nós que ali chegou depois do golpe militar do Chile, ocorrido em 1973, nascera no interregno entre a Paz e a 2a Guerra Mundial e, desde a vida  intrauterina, introjetara que os alemães eram perversos ao ponto de se ensaboarem com produtos higiênicos feitos com a gordura dos judeus mortos nos campos de concentração. Por esse dado, quase ancestral da nossa formação, não podíamos entender aquela solidariedade disciplinada, assertiva e respeitosa com que eles nos acolhiam. Logo a nós, os esquerdistas da América Latina; há muito estávamos convencidos de que eles eram maus e diferentes de nós. Isso não bastava, nos vangloriávamos de ser sentimentais e donos da paixão. Pensávamos que isso era o que tínhamos de melhor na nossa cultura para oferecer a qualquer outro povo, e talvez fosse! Nem por isso erámos menos contraditórios nos nossos sentimentos íntimos e públicos. No meu caso, por exemplo, a ideia de que seríamos emocionalmente superiores aos europeus era inconcebível e, assim, via como um grave defeito tal manifestação no meu companheiro franco-brasileiro, mas o amava muito, relevei. 

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Chegada de refugiados brasileiros na então Alemanha Federal vindos do Chile, em fevereiro de 1974, após o golpe militar naquele país. Fonte: Acervo pessoal da autora.
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Passeata dos Cem Mil contra a ditadura militar no Brasil, realizada no Rio de Janeiro em 26 de junho de 1968. Fonte: Evandro Teixeira/Reprodução da Internet.

Foi necessária mais de uma década e voltar ao Brasil para entender como são certas coisas e, finalmente, me esclarecer sobre as diferenças e, mais sério ainda, compreender que uma vez “marginal”, sempre “marginal”. Isso porque entendi que marginal não é apenas quem comete infrações, mas, também, aquele que se insurge contra a cultura. Não é somente aquele que faz mal à comunidade ou aos indivíduos, mas aquele que não suporta ver esse mal e se rebela. É aquele que por essa visão e sofrimento torna-se perigoso e é perseguido, expulso e destroçado. Marginal é o contrário do malfeitor, mas, também, do establishement. É aquele que foi posto à margem por razão de classe, de cor, de sexo, de religião, de idade, de desejo sexual... 

 

Esta perspectiva de entendimento sobre os que fazem mal ao Brasil, que distingue o marginalizado do malfeitor, quase vingou! E nós que vínhamos do exílio, do feminismo, do ambientalismo, do antirracismo, da defesa dos índios, dos pobres e oprimidos, da liberdade sexual, do direito a todas as religiões pensamos que a felicidade resistiria à usura. Fomos felizes! 


Mas, passados muitos anos, em 2016, surge Jair Bolsonaro e sua ruma de terraplanistas e neoliberais do fundo de uma época cruel, onde o terrorismo de Estado foi o mecanismo para governança, dizendo em alto e bom som que vai perseguir, expulsar e destroçar todos esses marginais. Ele anunciou essa sina quando demonstrou admiração pelo torturador-condenado Carlos Alberto Brilhante Ustra, votando para afastar Dilma Rousseff da Presidência da República. A partir da ousadia de haver pronunciado o impronunciável em público, e não haver sido odiado e repudiado, naquela ocasião, pelos que assim deveriam fazê-lo, ele não nos deu mais sossego. Tudo de bom e de ruim Bolsonaro agrava fazendo sofrer a nossa humanidade. Desde os tempos antigos de Nero, o imperador que incendiou Roma e intrigou a todos, jamais se vira alguém mais irascível, mais malévolo, mais odioso na governança do que ele. Um medo imenso passou paulatinamente a calar na boca do estômago dos que votaram e não votaram nele.

Em fevereiro de 2020, essa sensação se aprofundou, quando fomos mortalmente surpreendidos. Agora, pela Natureza universal. Ela nos fez, da manhã para a noite, ficar frente a frente com o intocável, com o invisível, com o que nem é morto nem é vivo, com o que não passa de algo revestido por uma proteína, o Coronavírus: o inesperado.

 

Desprotegida politicamente do exercício de uma vida pública, massacrada pelo neoliberalismo aloprado e pelos sistemas de saúde rendidos ao lucro, a humanidade acordou à mercê da Covid-19, e sentiu-se, como nunca, submetida coletivamente a uma letalidade jamais experimentada, cujo enfrentamento possível está no confinamento. A ciência precisa de tempo para desenvolver vacinas e medicamentos! Os sistemas de saúde, mesmo nos países ricos, precisam de um novo tempo, de uma nova ordem para organizar serviços e procedimentos que atendam à humanidade! Bill Gates havia prevenido em 2012 que a catástrofe planetária seria sanitária. Ninguém fez nada. Aconteceu.

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Material de campanha mundial #MAOSLIMPA.
Fonte: ONU/Reprodução da Internet
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Fonte: Unicef/Reprodução da Internet.

Assim, estamos tomados pelo terror de morrermos ao mesmo tempo, sozinhos e rodeados de mortos. Para nos salvar, não há saída, devemos nos afastar de toda e qualquer pessoa, inclusive daquelas mais saudáveis e inocentes que são os netos e netas. Deles que representam o amor mais leve e, por isso, tanta alegria nos dão aos idosos. Quando envelhecemos não suportamos mais os amores pesados! Esse é um momento de imenso desespero para a humanidade, pois se ainda podemos conviver com a família que habita a nossa casa, começamos a sentir a sombra da desconfiança. Já estamos com medo das próprias pisadas. 

 

Volto ao meu amigo do começo, o Marco Antônio. A loucura da qual ele falava, agora, não está vindo pelo contato intenso, mas pela solidão severa. Por horror, amor e distância do humano. Nem na guerra, com toda a sua destruição, é assim. Por isso é falso e significa uma completa submissão de um povo à perspectiva patriarcal de sobrevivência chamar de guerra uma catástrofe, seja ela natural, como os terremotos, ou construída, como a de Brumadinho.

 

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Fonte: AFP/Sérgio Lima/Reprodução da Internet.

No Brasil, “inafortunadamente”, estamos sujeitos a padecer ainda mais do que os habitantes de muitos países, pois além de todos os malefícios da doença, do isolamento social, estamos vivendo um cotidiano em que a perversão da ordem democrática, o antagonismo à solidariedade e a contravenção do bom senso são exercidas pela autoridade maior do Estado. Vivemos sob o comando de um homem que diz não entender de economia nem de saúde, e que sua “especialidade é matar”. De um sujeito que constrói cenários grotescos para se tornar herói, salvador, um super-homem, um imperante, mas que em nenhum momento da tragédia se colocou ao lado da população. A ele e às suas aberrações devotamos, muitas vezes, a nossa segunda grande qualidade: as piadas, como se imunes fossemos às suas injúrias pessoais e políticas de natureza homofóbica, misógina, racista, étnica, classista e “velhofóbica”. Trocar o sério pela graça, barata ou sofisticada, nessa infeliz circunstância, é mais do que se deixar conviver com um irresponsável que transmite, sem piedade, a loucura e, talvez, o Coronavírus: é louvar o ignóbil. 

 

Enfim, estamos nas mãos de um celerado, cercado por idiotas – incluindo aí o seu ex-ministro da Saúde, pois ninguém de bom senso e boas intenções se junta de livre e espontânea vontade aos canalhas, como fez o Luís Henrique Mandetta, que soube desde sempre que Bolsonaro dizia e fazia atrocidades, inclusive a de gastar dinheiro público para “comer gente”. Esse misógino, chefe de uma família de supostos milicianos insinua, sem reação de seu ministério, já ter ventilado, inclusive, a possibilidade de decretar Estado de Sítio – um mecanismo de defesa da ordem jurídica – para combater uma doença que o mundo todo já contraiu, mas que nenhum chefe de governo do campo democrático, seja qualquer a sua tendência ideológica, pensou em enfrentá-la a partir de tal mecanismo extremo. Estamos em pânico, estamos física e mentalmente ameaçados de morte; nossa paixão e nossa graça não bastam. Precisamos criar novas qualidades para sobreviver. 

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Cristina Buarque é graduada em Ciências Econômicas, mestra em Ciência Política e doutora em Antropologia pela Universidade Federal de Pernambuco. Foi exilada política por toda a década de 1970, quando trabalhou no Chile, como coordenadora de projeto na Oficina de Planejamento Nacional (ODEPLAN), e na Alemanha, como tradutora, cronista e locutora para a língua portuguesa, na Deutsche Welle e no Bundespresseamt. De volta ao Brasil, a partir de 1982, trabalhou na Fundação Joaquim Nabuco (Fundaj), na gestão, tendo sido Superintendente de Planejamento e, depois, como pesquisadora, quando criou e dirigiu a Coordenadoria de Estudos da Mulher. Entre 2007 e 2014 foi Secretária da Mulher do Governo do Estado de Pernambuco e, atualmente, é pesquisadora aposentada da Fundaj. 

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