

As perguntas que chegam ao campo literário
As literaturas indígenas têm ocupado um espaço ainda periférico nos estudos literários brasileiros, sobretudo quando analisadas a partir da sociologia da literatura e da historiografia literária. Este ensaio parte de uma dupla fratura: apesar da vitalidade e da crescente visibilidade das produções indígenas contemporâneas em espaços de reconhecimento aurático como redes sociais, eventos e festivais, elas permanecem pouco integradas às narrativas críticas que buscam interpretar a formação cultural brasileira, bem como não compõem o corpus dos currículos acadêmicos em letras e sociologia, por exemplo. Tal situação não decorre da ausência de produção artística, mas dos limites epistemológicos que historicamente estruturaram o campo literário no país.
As literaturas indígenas revelam tensões fundamentais nos pressupostos da tradição moderna de literatura e das ciências que buscam pensar o campo literário e a sociedade. Elementos como oralidade, autoria coletiva, cosmologia e memória comunitária desafiam categorias centrais do pensamento literário ocidental, especialmente a centralidade da escrita, a ideia de autoria individual e a noção de progresso literário.
Uma revisão do campo evidencia a dimensão dessa lacuna. O pesquisador Marcos Eduardo Rocha, ao examinar periódicos brasileiros de alto impacto na área de literatura, identificou um número bastante reduzido de trabalhos dedicados às literaturas autóctones ao longo de quinze anos de publicações. Esse dado sugere que o problema não é apenas quantitativo, mas estrutural: determinadas formas de produção narrativa permanecem fora do horizonte analítico dominante.
Diante desse cenário, este ensaio propõe refletir sobre como as literaturas indígenas contemporâneas contribuem para reconfigurar o campo dos estudos literários e da sociologia da literatura. Argumenta-se que essas produções não apenas ampliam o corpus literário analisado pela crítica, mas também tensionam as próprias categorias interpretativas utilizadas para compreender a cultura brasileira.
Quando o cânone desenhou suas fronteiras
A marginalização das literaturas indígenas está relacionada à própria formação do conceito moderno de literatura. A partir do século XIX, a literatura passou a ser associada à escrita, à fixação textual e à autoria individual, consolidando-se como parte dos projetos de construção de identidades nacionais.
Nesse processo, a historiografia literária organizou-se em torno de uma narrativa de desenvolvimento histórico, na qual autores e obras foram incorporados ao cânone conforme determinados critérios estéticos e institucionais. Ao mesmo tempo, diversas formas de produção narrativa foram classificadas como tradição oral, mito ou folclore, permanecendo fora do sistema literário reconhecido.
Esse modelo interpretativo contribuiu para a invisibilização de narrativas multimodais indígenas. Muitas vezes, elementos dessas cosmologias foram apropriados pela literatura brasileira sem que suas origens fossem plenamente reconhecidas. Um caso emblemático é a presença de narrativas indígenas na constituição de personagens centrais do modernismo brasileiro, cuja circulação no campo literário ocorreu frequentemente dissociada de seus contextos culturais originários.
Assim, compreender a posição subalterna das literaturas indígenas exige observar como o próprio campo literário foi historicamente estruturado a partir de critérios que privilegiaram determinados modos de produção simbólica.
Entre a voz, o corpo, o território e a palavra escrita
Um dos principais desafios para a incorporação das literaturas indígenas ao debate acadêmico reside na centralidade da escrita na definição moderna de literatura. No entanto, diferentes autores têm demonstrado que a oralidade constitui uma dimensão fundamental das formas literárias.
O escritor malinês Hampaté Bâ destaca o papel da memória coletiva e da transmissão oral nas tradições africanas, evidenciando que a oralidade não representa ausência de complexidade estética ou narrativa. Da mesma forma, outros pesquisadores da área da literatura, como Paul Zumthor e Walter Jackson Ong mostram que oralidade e escrita não são categorias opostas, mas modos interdependentes de produção cultural.
Nas narrativas indígenas, essas dimensões frequentemente se articulam de forma inseparável por meio da multimodalidade. Como observam os professores Devair Antônio Fiorotti e Pedro Mandagará, muitas produções dos povos originários não se organizam segundo as classificações tradicionais da teoria literária ocidental. Nelas, mito, poesia, narrativa, ritual e desenho podem coexistir em um mesmo processo expressivo.
Fiorotti argumenta que essa característica desafia diretamente os instrumentos analíticos consolidados no campo literário. Nesse sentido, a dificuldade de reconhecimento dessas produções pode ser compreendida como parte de um processo mais amplo de colonialidade do saber, no qual determinados modos de conhecimento foram legitimados enquanto outros foram marginalizados.
Narrativas que deslocam o centro
As literaturas indígenas contemporâneas não se limitam a reivindicar inclusão no campo literário: elas frequentemente atuam como intervenções críticas nas narrativas sobre a cultura brasileira. Ao mobilizarem memória, território e cosmologia, essas produções questionam as formas pelas quais o Brasil foi historicamente interpretado.
O trabalho do artista e ativista Makuxi Jaider Esbell ilustra esse movimento. Ao reivindicar Makunaima como ancestral a partir de uma narrativa pictórica mítica, o artista reposiciona essa figura no interior dos debates sobre arte e literatura. Realiza, assim, uma operação crítica que reabre questões centrais da história literária brasileira e do pensamento social. Segundo os pesquisadores Roberto Mibielli, Sheila Praxedes Campos e José Luís Jobim, o manifesto de Esbell cria um jogo de espelhos entre diferentes temporalidades e discursos, aproximando-se de uma forma híbrida entre ensaio, ficção e crítica cultural.

Figura 1 – Artista Makuxi, Roraima, Brasil. Fonte: Acervo pessoal.¹
¹ A imagem foi registrada durante ações do projeto pedagógico “Atalhos”, realizado em parceria entre o artista Jaider Esbell e o grupo de estudos e pesquisas Macondo: artes, culturas contemporâneas e outras epistemologias, da Unidade Acadêmica de Serra Talhada da Universidade Federal Rural de Pernambuco, em 2016. A proposta consistiu na criação de uma obra de arte coletiva, destinada a marcar simbolicamente nossa ocupação histórica, que coincidiu também com as ocupações de escolas e universidades após o golpe de Michel Temer. Para mais informações: https://www.facebook.com/macondoufrpe/
_edited_edited.jpg)
Figura 2 – Jaider Esbell durante a costura da obra “Atalhos”, mural pintado na faixada do bloco 3 de salas de aula da Unidade Acadêmica de Serra Talhada da Universidade Federal Rural de Pernambuco. Fonte: Acervo pessoal.
_edited.jpg)
Figura 3 – Jaider Esbell durante a costura da obra “Atalhos”, mural pintado na faixada do bloco 3 de salas de aula da Unidade Acadêmica de Serra Talhada da Universidade Federal Rural de Pernambuco. Fonte: Registro do fotógrafo parceiro Alvaro Severo.
_edited_edited.jpg)
Figura 4 – Obra da exposição “As mil faces de Makunaima”.
Fonte: Museu de Arte Contemporânea do Rio Grande do Sul (2022).

Figura 5 – Obra “Macunaíma 4”. Fonte: Museu de arte contemporânea do Rio Grande do Sul.
Nota: Esta obra integra uma série de animações que dão movimento à série de pinturas “Macunaíma, o meu avô em mim” (2018).
Esse tipo de movimento evidencia que a literatura indígena contemporânea participa ativamente das disputas simbólicas que atravessam o campo cultural. Mais do que ampliar o repertório literário, essas produções deslocam o próprio eixo interpretativo das narrativas sobre o país.
Outras memórias para imaginar o Brasil
Ao mesmo tempo em que adentra numa vereda crítica sem precedentes no campo da estética, as literaturas indígenas contemporâneas têm contribuído de maneira significativa para a problematização da ideia de brasilidade. A professora potiguara Graça Graúna observa que essas produções evidenciam tensões presentes em um país que frequentemente se apresenta como plural e multicultural, mas que ainda mantém estruturas persistentes de exclusão.
Um aspecto marcante dessas obras é a articulação entre oralidade e escrita. O escritor e educador indígena Daniel Munduruku descreve essa relação como um fio delicado que conecta diferentes formas de transmissão cultural. Mesmo quando registradas em livros, muitas narrativas permanecem ligadas a práticas coletivas de memória e conhecimento.
.jpg)
Figura 6 – Mito de Kamaueni e a origem do aracu-de-pau e outros peixes, de Feliciano Lana
Fonte: Museu da Amazônia (2023) .
Essa dimensão coletiva também aparece na forma como autores indígenas assumem em seus nomes a referência a seus povos, indicando que a autoria, nesse contexto, se relaciona a experiências compartilhadas. Ao mesmo tempo, essas produções dialogam com outras expressões literárias contemporâneas, como a literatura periférica, ampliando o debate sobre centralidade e marginalidade no campo cultural brasileiro.
Pontes entre saberes e instituições
A discussão sobre literaturas indígenas envolve também o papel das instituições acadêmicas e das políticas educacionais. A Lei n° 11.645/2008 constitui um marco importante ao tornar obrigatório o ensino de história e cultura afro-brasileira e indígena nas escolas brasileiras. No entanto, sua implementação ainda enfrenta desafios significativos.
Em regiões como Pernambuco, que possui uma população indígena expressiva distribuída entre diversos povos, o fortalecimento de iniciativas de diálogo entre universidade, escolas e comunidades torna-se fundamental. Esse processo contribui para ampliar o acesso a materiais didáticos e reconhecer saberes historicamente excluídos do campo acadêmico.
Essas iniciativas também dialogam com propostas teóricas que defendem uma ecologia de saberes, na qual diferentes formas de conhecimento possam coexistir sem que uma seja subordinada à outra. Nesse sentido, a aproximação entre literatura, sociologia e antropologia pode abrir novas possibilidades de interpretação das narrativas indígenas e do próprio contexto local.
Aprender a ler outros mundos
As reflexões apresentadas neste ensaio indicam que as literaturas indígenas contemporâneas não devem ser compreendidas apenas como um novo objeto de estudo. Elas revelam limites estruturais das categorias que historicamente orientaram a sociologia da literatura e a historiografia literária no Brasil.
Ao evidenciar a centralidade da oralidade, da memória coletiva e das cosmologias indígenas, essas produções desafiam noções consolidadas de literatura baseadas na fixidez textual, na autoria individual e na ideia linear de desenvolvimento estético. Dessa forma, o contato com essas narrativas exige uma revisão dos pressupostos teórico-metodológicos que sustentam o campo.
Do ponto de vista da sociologia da literatura, esse deslocamento é particularmente relevante. Ele sugere a necessidade de considerar formas de produção cultural que escapam aos modelos clássicos de institucionalização literária, incorporando experiências narrativas organizadas em torno da coletividade e da circulação comunitária dos saberes.
Assim, repensar o lugar das literaturas indígenas no debate acadêmico implica repensar também as bases do campo literário e das ciências sociais. Ao reconhecer essas produções como interlocutoras teóricas, torna-se possível construir uma abordagem mais plural e sensível às múltiplas epistemologias que constituem o território brasileiro.
Nesse horizonte, as literaturas indígenas não aparecem apenas como parte da história literária do país, mas como forças ativas na reconfiguração das formas pelas quais o Brasil pode ser pensado e narrado.
REFERÊNCIAS
BÂ, Amadou Hampaté. A tradição viva. In: KI-ZERBO, Joseph (ed.). História geral da África I: metodologia e pré-história da África. 2.ed. rev. Brasília: UNESCO, 2010. p. 167-212. Disponível em: https://unesdoc.unesco.org/ark:/48223/pf0000190249. Acesso em: 03 fev. 2026.
ESBELL, Jaider. Makunaima, o meu avô em mim! Iluminuras, Porto Alegre, v. 19, n. 46, p. 11-39, 2018. Disponível em: https://seer.ufrgs.br/index.php/iluminuras/article/view/85241/49065. Acesso em: 01 fev. 2026.
FIOROTTI, Devair Antônio. Do Timbó ao timbó ou o que eu não sei, eu invento. Aletria – Revista de Estudos de Literatura, Belo Horizonte, v. 22, n. 3, p. 238-252, 2012. Disponível em: https://periodicos.ufmg.br/index.php/aletria/article/view/18514/15302. Acesso em: 04 out. 2025.
FIOROTTI, Devair Antônio; MANDAGARÁ, Pedro. Contemporaneidades ameríndias: diante da voz e da letra. Revista Estudos de Literatura Brasileira Contemporânea, Brasília, n. 53, p. 13-21, 2018. Disponível em: https://periodicos.unb.br/index.php/estudos/article/view/10258/9078. Acesso em: 11 ago. 2025.
GRAÚNA, Graça. Contrapontos da literatura indígena contemporânea no Brasil. Belo Horizonte: Mazza Edições, 2013.
INSTITUTO BRASILEIRO DE GEOGRAFIA E ESTATÍSTICA (IBGE). Censo Brasileiro de 2025. Rio de Janeiro: IBGE, 2025.
MIBIELLI, Roberto; CAMPOS, Sheila Praxedes Pereira; JOBIM, José Luís. Jaider Esbell, Makunaima / Macunaíma e a arte / Literatura indígena. Revista Brasileira de Literatura Comparada, Salvador, v. 21, n. 38, p. 33-40, 2019. Disponível em: https://revista.abralic.org.br/index.php/revista/article/view/545/735. Acesso em: 13 out. 2025.
MUNDURUKU, Daniel. Literatura indígena e o tênue fio entre escrita e oralidade. São Paulo: Peirópolis, 2008. Disponível em: https://goo.gl/ifyvYV. Acesso em: 29 out. 2025.
MUSEU DA AMAZÔNIA. Pinturas de Feliciano Lana. Musa, 2023. Disponível em: https://museudaamazonia.org.br/pinturas-de-feliciano-lana. Acesso em: 04 mar. 2026.
MUSEU DE ARTE CONTEMPORÂNEA DO RIO GRANDE DO SUL. As mil faces de Makunaima. MAC RS, 2022. Disponível em: https://acervo.macrs.rs.gov.br/exposicoes-macrs/as-mil-faces-de-makunaima. Acesso em: 04 mar. 2026.
ONG, Walter Jackson. Orality and literacy: the technologizing of the word. New York: Routledge, 2002.
ROCHA, Marcos Eduardo. O espaço das literaturas autóctones na crítica literária contemporânea. In: SIMPÓSIO INTERNACIONAL SOBRE LITERATURA BRASILEIRA CONTEMPORÂNEA, 4-7 dez. 2016, Brasília. Anais [...]. Brasília: Universidade de Brasília, 2016. Disponível em: https://www.gelbc.com/posteresviisimposio. Acesso em: 27 out. 2025.
ZUMTHOR, Paul. A letra e a voz: a “literatura” medieval. São Paulo: Companhia das Letras, 2001.
O AUTOR

Paula Santana é Doutora e Mestra em Sociologia (PPGS-UFPE). Há mais de uma década é professora e pesquisadora da UFRPE-UAST, no sertão do Pajeú, onde coordena o grupo de estudos e pesquisas Macondo: artes, culturas contemporâneas e outras epistemologias. Desde o início de 2023 é professora do quadro permanente do Programa de Pós-Graduação em Sociologia da UFPE. É curadora e organizadora da Mostra de Cinema Indígena da UAST-UFRPE e da Sessão Kilombo. Tem interesse de pesquisa nas seguintes áreas: educação para as relações étnico-raciais, interseccionalidades, artes, culturas contemporâneas, epistemologias do sul e pensamento decolonial. No campo artístico, publica zines e livros cartoneros de maneira independente. É uma das pontas do tripé que sustenta a Baleia Cartonera, editora de livros artesanais que já publicou obras de Graça Graúna Potiguara e Juliano Varela. Como escritora, em 2019, participou da coletânea de poetas feministas Profundanças 3 e, em 2020, lançou sua primeira novela “Os cheiros do vento sul”.
COMO CITAR ESSE TEXTO
SANTANA, Paula. Vozes de Pindorama: literaturas indígenas e o desafio de repensar o Brasil a partir de outros mundos (Artigo). In: Revista Coletiva - Arte e Sociedade. nº 17. Publicado em 13 de Maio de 2026. Disponível em:
Anteriores

George Henrique Pereira
Paulo Marcondes
nº 15 | 14 de março de 2025

