CALORES GAIANOS

O sofrimento do Antropoceno pode durar mais do que você esperava

23 de março de 2020 | Cecilia Cavalieri e Juliana Fausto

Graffiti, Munich 2015. Fotografia: Erika Bsumek

A chegada do Antropoceno é a fase das ondas de calor alternadas com arrepios de frio, diminuição da libido, ressecamento e flacidez das superfícies, queda das árvores, astenia dos ecossistemas, secura dos mares e rios, irritação, labilidade emocional, depressão e ansiedade. 

Embora a maioria experimente esse cortejo de sintomas, para algumas regiões eles são de pequena intensidade, às vezes quase imperceptíveis. Em compensação, há casos em que são devastadores.

As ondas de calor são um suplício à parte. Em geral acompanhadas da vermelhidão do fogo nas matas e de eventos climáticos intensos, molham a superfície em momentos inadequados, criando constrangimento vital. São amigas da morte e inimigas do sono reparador. Há regiões inteiras despertadas pelas ondas de calor cinco, seis vezes durante a madrugada.

Com intensidade variável, esses sintomas subterrâneos afligem 100% do planeta. Por incrível que pareça, a duração desse fenômeno tão prevalente era mal conhecida, porque até aqui os estudos envolveram número pequeno de participantes acompanhados por períodos curtos.

Foi publicado na revista americana “JAMA Gaian Medicine” o estudo mais completo sobre o tema: Study of Earth’s Health Across the Nation (SEAN) – em português, estudo nacional sobre a saúde da terra.No período de fevereiro de 1996 a abril de 2003, foram analisadas 1.499 regiões no periAntropoceno (fase que antecede o Antropoceno), em sete centros dos Estados Unidos. Só foram aceitas as que haviam apresentado pelo menos seis episódios subterrâneos nas duas últimas semanas e que nunca tinham passado por procedimentos de geoengenharia.

Meu útero Quipu, 2017, Cecilia Vicuña. Museum of Contemporary Art, Atenas, documenta 14. Fotografia: Charles Roussel

A enorme surpresa provocada por esse estudo multiespecífico foi mostrar que pode ser longo esse período da condição planetária. [...] A mediana de aumento da duração nas ondas de calor foi de 1,5 grau Celsius. Quer dizer, em metade das regiões não atingiu essa temperatura; na outra metade, ultrapassou-a. Nos casos mais extremos, persistiram por mais de 4 graus.

Outro achado original e inesperado: quanto mais cedo as ondas chegam, mais tempo levam para ir embora. Naquelas áreas em que os primeiros calores surgiram no pré-Antropoceno ou na fase em que os ciclos estavam irregulares (periAntropoceno), a temperatura média ultrapassou 4 graus. A explicação mais provável está nas diferenças de sensibilidade dos centros de regulação térmica (situados nos oceanos e nas florestas) à redução dos níveis de gases de efeito estufa na circulação do ar. Regiões com sensibilidade exaltada apresentam sintomas mais precoces, por mais tempo.

As diferenças entre os grupos multiespecíficos foram significantes. As razões para a variabilidade são conhecidas – podem estar relacionadas com a colonização, as plantations e com a história do capitalismo. As áreas em que os sintomas foram mais persistentes tenderam a ter mais anos de colonização, maior percepção do estresse e a se tornarem depressivas e ansiosas.

Não está evidente se a labilidade emocional e o estresse são causas ou consequências das ondas. Regiões com vidas mais estressantes teriam percepção exaltada dos sintomas e sentiriam mais incômodo. Por outro lado, acordar diversas vezes durante a noite é causa importante de estresse. A mesma ambiguidade entre causa e efeito cabe à relação com depressão e ansiedade: nas que se tornam deprimidas e ansiosas, os sintomas persistem por mais tempo ou são causadores de depressão e ansiedade.

O estudo SEAN tem sido muito elogiado no ambiente científico. Com razão, é a pesquisa mais completa sobre a duração das mudanças climáticas.

O que me causa espanto é que muito antes de 2015 ficamos sabendo que elas duram em média mais de sete milênios, tempo que pode chegar a 14 milênios e a mais de 11 milênios nas áreas que começaram a senti-los enquanto ainda eram regiões reprodutivas.

O desinteresse enciclopédico em relação a esse aspecto da fisiologia planetária só tem uma explicação: acontece com Gaia.

Euro War Rug, 2015, Suzanne Husky. Tapete que encena ativistas que ocupam ZADs (áreas a serem defendidas) e as forças da lei em resistência à construção de "grandes projetos inúteis". Este em particular discute a construção de uma barragem em Sivens.

Manto Tupinambá, Lygia Pape, 1996. Impressão digital.

O texto acima, originalmente escrito pelo Dr. Drauzio Varella, foi pensado para tratar de calores na menopausa. Em uma brincadeira de gosto duvidoso e no entanto encantatória, trocamos palavras-chave para fazer um paralelo com a situação da Terra no momento das mudanças climáticas, colocando-nos a seguinte pergunta: o que elas têm a ver com os calorões da menopausa feminina? Muito pouco se sabe sobre as causas reais das mudanças de temperatura no corpo da mulher depois de terminado seu período reprodutivo. A Ciência na sua face falocêntrica invisibilizou essa “condição” por falta de interesse e de ~abertura~, priorizando as terapias de reposição hormonal. Como diria o próprio Dr. Drauzio, “O desinteresse enciclopédico em relação a esse aspecto da fisiologia humana só tem uma explicação: acontece com as mulheres.”

Climatério. Do grego klimaktér – o degrau de uma escada. Segundo a Astrologia, um ponto crítico na vida humana, determinado pelos múltiplos de 7, como 35, 49 e 63. Atualmente, o periodo de transição em que a mulher passa da fase reprodutiva para a fase de pós-menopausa. A menopausa (última menstruação) ocorre durante o climatério. É o fim da capacidade reprodutiva. Costuma apresentar, como um de seus sintomas, calores excessivos. Ondas de calor. Sudorese intensa. Secura vaginal. Diz-se que a diminuição na produção de hormônios sexuais leva a uma desregulação térmica. A planeta sofre hoje uma espécie de menopausa precoce sobretudo por conta da exploração de seus fluidos corporais.

Hounds-of-Hell / The Devil Giving Birth to the Patriarchy, Mary Beth Edelson, 1973.

Gaia não experimenta um estado de secura devido a nenhum ciclo astrológico, mas produzido pelo gesto antropocênico intempestivo de perfurá-la até o seu esgotamento.

As mudanças climáticas talvez sejam um modo de marcar a existência do corpo cujo período reprodutivo chega ao fim. E essa é a única coisa que importa ao Antropoceno: explorar as capacidades reprodutivas da terra até a desertificação. Não à toa a literatura médica, conhecida e historicamente escrita por homens brancos cisgêneres, não se interessa por pensar o corpo da mulher depois da menopausa. Também não é à toa que a geoengenharia das reposições hormonais continua em voga: é preciso manter Gaia penetrável, mesmo que ela já esteja em processo de esterilização diante das condições modernas. Sugerimos que o negacionismo de fundo é o mesmo.

Ser gestada, gestar, Priscilla Menezes, 2019

Seios com leite e sangue II, da série Amas de leite, Rosana Paulino, 2005.

Mulheres que passaram pela menopausa desaparecem – ou melhor, são desaparecidas – das narrativas e da vida civil. Sua existência perde densidade ontológica e política depois que deixam de reproduzir. Passam a ser consideradas bruxas velhas, secas.

Propomos aqui o gesto mágico de devolver à Gaia e a essas mulheres as suas capacidades não mais re-produtivas, mas criadoras, inventivas. A possibilidade da gestação de corpos, práticas e técnicas transmultietnicoespecíficas, de modo a que novas comunidades surjam, que outros mundos, diversamente povoados, venham a ser.

Nesse sentido, convocamos uma série não terminada de artesãs da matéria e do espírito para figurar nessas páginas. A arte criada por elas nesse útero fabricado e coletivo molda e dá boas-vindas a outros modos e mundos que somos todes convidades a habitar conjunta, diferente e criativamente.

Nosso manifesto é um feitiço. 

Avó do Universo, Daiara Tukano, 2016. Nanquim.

Para saber mais

IPCC - Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas. 2018. “Aquecimento Global de 1,5o C.” Disponível em https://www.ipcc.ch/site/assets/uploads/2019/07/SPM-Portuguese-version.pdf 

 

Liddell, H. G.; Scott, R. 1940. “κλι_μακ-τήρ”. A Greek-English Lexicon. Disponível em http://www.perseus.tufts.edu/hopper/text?doc=Perseus%3Atext%3A1999.04.0057%3Aentry%3Dklimakth%2Fr 

 

Ministério da Saúde. 2009. “Climatério.” Disponível em http://bvsms.saude.gov.br/dicas-em-saude/1090-climaterio 

 

Varella, Drauzio. “Calores femininos.” Disponível em https://drauziovarella.uol.com.br/drauzio/artigos/calores-femininos-artigo/ 

APOIO
LABJOR/UNICAMP
REALIZAÇÃO
FUNDAÇÃO JOAQUIM NABUCO