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Gênero e envelhecimento

Alda Britto da Motta

A condição etária/geracional sempre foi, ao longo da História, importante fator de organização social, classificando e discriminando os indivíduos e grupos. Por isso mesmo, a condição de idade afeta de forma diferenciada tanto homens e mulheres (teoricamente definidos em termos de gênero, construção cultural sobre a condição sexuada) quanto indivíduos das várias classes sociais. Principalmente na velhice, período que sumariza, ao mesmo tempo, conquistas e perdas das etapas de vida anteriores.

Estudos e pesquisas realizados no Brasil demonstram o que a própria observação do cotidiano já deixa entrever – há uma especificidade de gênero na situação de velhice. Os dois sexos podem ter experiências que sejam, ou aparentam ser, comuns, mas a condição geracional enseja também relações, situações e representações distintas.

Nesse grupo geracional, as mulheres têm alcançado destaque, mas não simplesmente porque são maioria populacional (55,8%). Além de mais longevas que os homens (esperança de vida de 77 anos, enquanto a masculina é de 69,4), elas têm se destacado socialmente como apresentadoras de uma nova imagem da velhice, mais dinâmica e mais alegre, participando de grupos geracionais, aprendendo a ser mais “leves” e gregárias. Podendo ter uma perspectiva mais distanciada das lides familiais e cuidando da própria vida; sentindo-se, enfim, mais livres.

Na visão tradicional da sociedade, a velhice das mulheres era, como bem analisou Lins de Barros (1981, p.13), “duplamente insignificante”:

Ao homem velho se dá uma atenção maior, na medida em que se percebe a aposentadoria como uma mudança radical de vida – uma passagem de um mundo amplo e público para um mundo doméstico e restrito… A mulher, na velhice, está no ultimo estágio de um continuum sempre ligado á esfera doméstica.

Tantos anos depois, esse quadro mudou muito, e a própria domesticidade persistente nas mulheres pode ser vista também como possibilidade de melhor adaptação à situação de “não trabalho” da velhice.

O fato de a maioria das velhas atuais nunca ter tido vida profissional ativa e, ao mesmo tempo, ter experimentado uma vida sexual e social muito mais restrita e reprimida do que os homens da mesma geração resultou em trajetórias sociais diferenciadas e tendeu a conduzi-las ao estágio em que agora vivem de forma também diferente do que ocorre com os homens.  Assim é que grande número de mulheres (de classe média, principalmente) considera a etapa atual de idosas como o momento mais tranqüilo, livre e feliz de suas vidas. Alcançando, com a velhice, um tempo de consolidação de experiências, de libertação de várias obrigações domésticas e, sobretudo, dos controles reprodutivos, vivendo um tempo social propício à mudança, alimentado pelas ideias libertárias do feminismo, estão podendo vivenciar experiências e modos de vida novos. Essas mulheres falam muito em liberdade, como se existisse, agora, uma “liberdade de gênero” que se sobrepusesse, em muitos momentos, à condição geracional tradicional das mulheres.

As pesquisas registram declarações também de mulheres de bairros populares, não obstante as dificuldades trazidas pela situação de classe, no sentido de igualmente identificarem a velhice como um momento de satisfação e liberdade (Britto da Motta, 1999; Souza, Pontes & Rocha, 1994):

Estou feliz. Agora que eu estou velha, ele [o marido] não se incomoda que eu saia, não. Eu me considero uma pessoa jovem, porque quando eu estava jovem eu nunca tive direito de ir a lugar nenhum (C., 73 anos).

Ninguém me manda mais. Chego em casa a hora que eu quero, não tem ninguém pra perguntar a hora que eu chego. (R, 74 ANOS)

Como analisei em trabalho anterior (Britto da Motta, 1998), é uma estranha liberdade, a de todas elas. Estranha pela dupla valência: como liberdade de gênero, assinala-se positivamente – mulheres que podem circular, viver conforme sua vontade; mas como liberdade geracional, e, sobretudo existencial, tem também o sentido do marginalismo: podem sair para passeios e reuniões, porque já não importam tanto como mulheres, fêmeas desejadas da espécie: já não são bonitas (velho não significa feio e gasto?), não irão atrair os homens, nem os de sua idade, culturalmente direcionados para os corpos jovens; já não reproduzem, não há muito o que preservar.

Curiosamente, ainda quando referem-se a algum problema de saúde, em geral, sentem-se tão satisfeitas que concluem que estão bem e que vivem melhor agora. E se afirmam como “jovens”, porque algumas experiências e prazeres referenciados à juventude elas só conheceram na velhice.

Quanto aos homens, as mudanças são bem menores. Eles sempre gozaram de real liberdade de gênero, isto é, de todos os direitos de ir e vir, inclusive de viver a rua em todas as suas dimensões, na vida pública e na política. Envelheceram com esse enorme diferencial. Para os de classe média, liberdade, quando mencionada, sempre referiu-se a “independência” e “tranquilidade” econômica (Debert, 1986).

Para os homens das classes populares, quando a velhice ou o tempo de aposentadoria são referidos como boa fase da vida, o que é muito menos comum do que entre as mulheres, estão presumivelmente reportando-se a uma positividade ou liberdade que são geracionais, mas guardam um forte sentido de classe: falam como ex-trabalhadores que atingiram “uma época de descanso em que, desobrigados do trabalho, têm mais tempo para o lazer” (Souza Pontes & Rocha, 1994).

Assim é que Sr. Manoel, 73 anos, na minha pesquisa, (Britto da Motta, 1999) declarou, taxativo:

“Eu me aposentei para me sentar.”

Ambos os sexos ainda costumam unir-se, entretanto, na crítica ao “excesso de liberdade” da juventude (aliança de gêneros, propiciada pela subjetividade geracional, numa circunstância de distanciamento – hierárquico – entre gerações). Ao mesmo tempo, têm também em comum o fato de serem objeto de preconceito e descaso por parte de outras gerações.

Voltando às mulheres, foram as idosas de classe média o segmento que acompanhou mais diretamente a revolução de ideias trazida pelo feminismo e seguramente cabe mais diretamente a elas a observação de Debert (1988 p.:68):

As mulheres percebem que vivem… Uma experiência inédita na história. Suas mães e avós tornaram-se, com a idade, cada vez mais infelizes. Elas vêm vivendo uma experiência de independência nunca antes experimentada. Como irão se sentir as atuais jovens profissionais, muito mais livres do que suas mães, no tempo da velhice?  Que diferenciais de gênero persistirão? Estarão elas mais próximas do modelo masculino atual de “independência”?

É o que já parece apontar, em 1981, a pesquisa de Lins de Barros sobre mulheres de classe média, profissionais, predominantemente solteiras ou viúvas. Sem família para “cuidar”, isto é, sem o tradicional ônus das obrigações domésticas, e sem o conhecido controle marital, se expressam simplesmente como profissionais e, não raro, encontram a liberdade também como viúvas.

O que sugere uma possível menor diversidade de experiências de gênero na velhice, num futuro próximo, que em alguns casos já se anuncia. Anuncia-se, inclusive, pela mais visível participação de idosas “jovens” (60,70 anos) no mercado de trabalho — inclusive aquelas que não haviam participado antes; como também pelo início e crescimento da participação política em associações e fóruns de aposentados, antes espaço quase totalmente masculino (Azevedo, 2004).

Para Saber Mais

AZEVEDO, Eulália Lima. Um palco de múltiplas vozes: a nova invenção dos/as idosos/as em luta pela cidadania. Tese de Doutorado, Programa de Pós Graduação em Ciências Sociais, UFBA, 2010.

BRITTO DA MOTTA, Alda. Chegando pra idade. IN: LINS DE BARROS, Myriam Moraes (Org.). Velhice ou Terceira Idade? : Estudos antropológicos sobre identidade, memória e política. Rio de Janeiro: Fundação Getúlio Vargas, 1998.

______________ .Não tá morto quem peleia: a pedagogia inesperada nos grupos de idosos. Tese de Doutorado, Programa de Pós Graduação em Educação. UFBA, 1999.

____________________________. As dimensões de gênero e classe social na análise do envelhecimento. Cadernos Pagu, Campinas, UNICAMP, n. 13, p. 191-221, 1999. IN: DEBERT, Guita (Org.) Dossiê Gênero em Gerações.

DEBERT, Guita Grin. História de vida e experiência de envelhecimento para mulheres de classe média em São Paulo. Caderno do Ceru, 19, jun. 1984.

____________________________. Idosos na sociedade brasileira no limiar do século XXI. IN: GICO, Vânia; SPINELLI, Antônio; VICENTE, Pedro (Org.). As Ciências Sociais – Desafios do milênio. Natal, RN, EDUFRN. PPGCS, 2001

LINS DE BARROS, Myriam. Testemunho de vida – um estudo antropológico de mulheres na velhice. Perspectivas antropológicas da mulher. Rio de Janeiro, Zahar (2), 1981.

SOUZA, Nadiesel: PONTES, Paula & Rocha, Sérgio. As representações do envelhecimento. Salvador, Departamento de Sociologia, UFBA, 1994. (Trabalho final de Graduação)

A Autora

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Alda Motta é doutora em Educação pela Universidade Federal.

Como citar esse texto

MOTTA, Alda. Gênero e envelhecimento. Revista Coletiva, Recife, n. 5, jul.ago.set. 2011. Disponível em: <Link>. ISSN 2179-1287.

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