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Cenário de um envelhecer sertanejo: poética de uma velhice em construção

Maria Rosângela de Souza

Acredito que o exercício de representar textualmente a vida e o sentir de pessoas a partir do ato de ver e ouvir suas histórias e trajetórias requer, além de muita ação, uma imaginação e criação para permitir, com lucidez e arte, que uma paisagem quase silenciosa seja finalmente reconhecida, deixando escapar sua diversidade de cores, sons e tons.

O processo de envelhecimento como protagonista de acontecimentos e agenciamentos diversos evidencia como as pessoas idosas estão reinventando novos padrões de envelhecer nas sociedades contemporâneas, particularmente aquelas que residem no sertão piauiense, onde trabalharam e ainda convivem com familiares e amigos no campo, indo e vindo entre trilhas e roças. Interessa investigar e reconhecer as transformações no comportamento e na cultura da população idosa, estabelecendo uma aproximação com seus modos de vida, escutando suas histórias e compartilhando seu cotidiano.

A proposta de tese que desenvolvo tem por objetivo cartografar imagens e significados do envelhecer e morrer que tecem as trajetórias de agricultores idosos e familiares das comunidades rurais do Território do Vale do Rio Guaribas, especialmente aqueles pertencentes à microrregião da cidade de Picos – PI. Também é interessante verificar como esses atores estão apreendendo e/ou interiorizando os novos padrões de envelhecer que caracterizam as transformações nas sociedades contemporâneas. Que devires idosos mesclam a existência desses sujeitos na atualidade? Como elaboram novas representações considerando valores, crenças e costumes que dão sentido ao universo sociocultural dos trabalhadores rurais?

Assim, por meio de observações e práticas etnográficas e partindo de uma investigação posicionada, adentrarei pelas trilhas do sertão piauiense, transitando entre as cidades de Picos, Francisco Santos, Simões e os povoados de Lagoa dos Félix e Angical dos Domingos para dialogar com seus moradores e, assim, poder me encontrar com os idosos em suas casas, roças e vizinhanças. Nesse sentido, GEERTZ (2009, p. 11) registra: “o que um etnógrafo propriamente dito deve fazer é ir a lugares, voltar de lá com informações sobre como as pessoas vivem e tornar essas informações disponíveis à comunidade especializada de forma prática”. As cartografias que apresento ao longo deste texto pretendem retratar nacos da realidade que comecei a mapear através de trabalho de campo como parte de um projeto de doutorado em curso, junto ao Programa de Pós-Graduação em Sociologia da Universidade Federal do Ceará (UFC).

De início, convém lembrar que o semiárido é um território que possui um ecossistema com características peculiares, no qual predomina o bioma caatinga entre suas vegetações nativas, frequentes estiagens, temperaturas elevadas, terras áridas, rios secos e uma agricultura e pecuária de subsistência na maior parte de sua extensão. Segundo LIMA (2006), a expressão “semiárido” significa “quase deserto”, pois é um território onde chove pouco, com forte evaporação e altas temperaturas. Embora retratadas historicamente e politicamente como problema social, a seca “favorece” a pobreza e a dependência econômica de seu povo, assim como sua subordinação ideológica e política. Porém o semiárido não deve ser olhado como um território homogêneo, pois apresenta uma diversidade de paisagens, riquezas naturais e potencialidades para desenvolvimento sustentável de seus habitantes.

A convivência no semiárido está relacionada a questões amplas que dizem respeito à sociabilidade humana, tais como as questões de gênero, o relacionamento entre as gerações e famílias, as dimensões étnicas e culturais, os fatores econômicos, políticos e religiosos, entre outros que compõem sua diversidade cultural. Ao perceber outra estética que predomina entre homens e mulheres que convivem no semiárido piauiense, nasceu o interesse em confrontar as categorias velhice e morte com suas histórias de lutas e labutas. Eles, mais do que ninguém, deixam aflorar subjetividades dissidentes (Guattari,1986). Estas são umedecidas pela capacidade de superação que faz do sertanejo um sujeito portador de intrigantes características, pois, tendo que se adaptar à aridez e aspereza da natureza, torna-se valente e, de corpo e alma, sabe como enfrentar as controvérsias e durezas da vida. Por isso, é teimoso e resistente como a caatinga, o mandacaru e o xiquexique. Observando e capturando o que eles são capazes de enfrentar em seu cotidiano, contribuirei para que outras imagens sobre velhice sejam desenhadas na atualidade.

A velhice sertaneja apresenta-se dimensionada para efeito investigativo. Portanto, o semiárido piauiense não representa apenas um espaço geográfico do território nordestino com suas ambiguidades, mas ampliado por um recorte do social e cultural com suas diversidades. Assim, a presença do próprio agricultor e familiares são fundamentais para ampliar as visões que circulam nos discursos sobre o envelhecimento humano. É estimulante observar como eles compreendem o próprio envelhecimento e constroem identidades, ora afinadas ou não, com os novos paradigmas e tendências que caracterizam o processo de envelhecimento em outros contextos, considerando principalmente os centros urbanos. Atrevo-me a apresentar de forma preliminar apenas o que é possível visualizar em termos gerais: uma estética de envelhecer no sertão piauiense.

Apresento uma espécie de rascunho dos traços que contornam essa composição tão peculiar à vida e ao corpo do sertanejo e que reflete olhares distintos de uma realidade que se refaz continuamente, tendo em vista as transformações que ocorrem no contexto sociocultural, ambiental e tecnológico que ressoam também nas comunidades rurais. O jeito de se vestir no dia a dia indica muito bem a simplicidade que perpassa a vida de todos aqueles que residem na roça. Tecidos leves, estampas coloridas para mulheres e crianças, geralmente vestidos, saias e blusas. Os homens quase sempre usam calça, bermudas, camisas de algodão ou camisetas promocionais, chapéu de palha ou bonés durante o trabalho. Os idosos estão sempre com roupas bastante usadas, algumas remendadas e bem discretas. As mulheres aparentam idade superior a que realmente têm. Os mais jovens se referem às pessoas de 40 anos (principalmente mulheres) como se fossem velhas, e elas mesmas se consideram assim. A insolação deixa marcas profundas no rosto, sinalizando um envelhecimento superficial que vai além do corpo, já que o lugar e a condição do velho também se modificam na casa, na roça e na comunidade.

Observa-se que o idoso, depois da aposentadoria, quase sempre com 65 anos ou mais, não deixa completamente suas atividades na roça. Geralmente, continuam ativos, desenvolvendo tarefas conforme permitem suas condições físicas. Conversei com idosos que continuam indo à roça mesmo depois dos 80 anos. Um senhor de 87 anos (povoado Angical dos Domingos) revelou imensa alegria em poder plantar milho e feijão para sustentar sua família. Porém, demonstrou preocupação em sua fala quanto ao desinteresse dos jovens em dar continuidade ao trabalho dos pais e avós. Muitos vão estudar nas cidades próximas e lá fixam residência ou vão para grandes centros trabalhar em outros setores, abandonando completamente o estilo de vida do campo e sem dar continuidade aos estudos. Alguns sentem dificuldades em retornar mesmo quando não conseguem estabilidade financeira para se manter em outras cidades. Essa questão ainda é muito frequente nesta região, apesar de, nos últimos anos, haver uma tendência por parte do poder público em construir escolas e campus universitários voltados principalmente para os jovens camponeses. Todavia, os jovens trabalhadores rurais, além de escolas e universidades, desejam e necessitam de programas sociais que viabilizem sua permanência no campo junto a sua família e/ou comunidade produtiva.

Quanto aos idosos, estes não abandonam a lida da terra, a não ser em caso de doenças graves que o impeça de retornar ao trabalho, seja na roça ou no quintal. Observo que pequenas lesões, dores na coluna ou musculares, gripes, entre outros, não são justificativas para ficar em casa ou em prosa com amigos. Conheci um senhor no povoado Angical dos Domingos que manifesta um grau elevado de senilidade e que o tempo todo tem de ser vigiado para não fugir para a roça ou ficar com sua bengala em pleno sol, como se estivesse plantando. O cultivo da terra apresenta-se como prioridade para os idosos. Eles ficam maravilhados diante da roça verde e ao ver a chuva cair, molhando suficientemente suas plantações. Não percebi manifestação de tamanha felicidade, senão o olhar de quem acredita que a colheita está segura e que a roça vai vingar, conforme eles falam. A felicidade que transborda não é simplesmente por ter a certeza e a garantia do pão para sustentar a família, mas também a alegria de não ter trabalhado em vão, de não ter derramado seu suor sem nenhum resultado para seu grupo familiar e de amigos. Embora a estiagem seja algo presente na vida deles, expressa sentimentos de dor e perdas, pois não é só o fato de passarem necessidades, para alguns, até mesmo fome, mas também a possibilidade de desencadear a separação de membros da família que se sentem obrigados a irem procurar trabalho nos centros urbanos, permanecendo meses ou anos distantes da família de origem. Através dos relatos, observa-se que o tradicional fenômeno da migração ainda se reflete na realidade da sociedade rural piauiense, pois, nas famílias entrevistadas, todas possuem filhos e netos em outras regiões ou estados.

Outro dado relevante está relacionado com uma pretensa uniformidade na execução de atividades ou tarefas na zona rural. Estas são classificadas e divididas considerando as categorias de idade e gênero. As mulheres ainda executam as tarefas ligadas diretamente ao espaço doméstico. O cuidado das crianças, o preparo da alimentação, o cuidado da casa e dos esposos ou companheiros. Muitas acumulam também tarefas diretas na roça ou outros serviços que aumentem a renda familiar, seja ligado ao Sindicato ou a ONGs. As mulheres idosas cuidam não somente de suas casas, mas também de todas as casas e netos que moram ao redor, pois, geralmente, os filhos ou as filhas, quando não estão na roça, se ocupam em trabalhos temporários nas cidades próximas, deixando o cuidado direto de seus filhos com as avós. Aos homens, tradicionalmente ainda prevalece a noção de chefe, estando sob sua responsabilidade imediata prover o necessário para sustentar a família, seja da roça ou de outras funções, sendo de sua competência garantir pelo menos uma alimentação diária. Fiquei com uma família durante o dia, a qual preparou uma espécie de almoço/jantar, pois esperava o velho pai chegar da feira com o necessário para fabricar o alimento.

Esclareço que tenho visitado e entrevistado pequenos proprietários agrícolas, meeiros ou moradores de pequenas propriedades rurais do Território Vale do Rio Guaribas, citadas acima. A maioria, até agora, são nativos dessa região, onde nasceram e cresceram junto com seus pais, avós e bisavós. Aqueles que ainda não possuem terras circulam entre as terras de famílias conhecidas ou de parentes. Estes manifestam extrema tristeza por ter chegado à velhice e não possuir um lugar para morar, plantar e deixar para filhos e netos. Encontrei um senhor com 61 anos (povoado Angical dos Domingos) com sintomas de forte depressão por não conseguir conviver de forma pacifica com o proprietário das terras onde mora e trabalha atualmente. O mesmo é analfabeto, ainda não está aposentado, possui seis filhos, todos casados e, até o presente, nenhum obteve condições de adquirir terras próprias, dando, assim, continuidade a situação de pobreza dos pais.

Como Halbawchs diz, em a Memória Coletiva (2006), o próprio espaço é lugar da produção de memória pela simbologia que lhe é impregnado. No caso do semiárido, como território do sertão nordestino, prolifera uma diversidade de discursos e representações, formatando, assim, composições polifônicas sobre os sertões. Contudo, aprendemos a olhar o sertanejo pelo fio condutor que atravessa os saberes apresentados pela literatura, pelo cinema, pela ciência, entre outros, com uma identidade carregada por estereótipos que estampa uma condição de penúria e dependência, como se fosse a única imagem que caracteriza esses sujeitos. Como desvelar algo cristalizado no imaginário social de várias gerações e reapresentá-lo pelo avesso, com outras tonalidades? Como dar conta das mudanças e permanências nas formas de vida de homens e mulheres camponeses? São questões que emergem continuamente em minhas reflexões e formulações, atravessando intensamente minhas inquietações e curiosidades, tendo em vista reapresentar outras narrativas de um devir-idoso que mobilize olhares sertanejos do envelhecer.

Para Saber Mais

GEERTZ, Clifford. Obras e vidas – o antropólogo como autor. Rio de Janeiro: Editora UFRJ, 2009.  HALBAWACHS, Maurice. A memória coletiva. São Paulo: Centauro, 2006.LIMA, Iracilde M. de Moura Fé & Abreu, Irlane Gonçalves de. O Semiárido Piauiense – Vamos conhecê-lo? Teresina/PI: Nova Expansão Gráfica e Editora Ltda, 2006.

A Autora

Maria Rosângela de Souza é doutoranda em Sociologia pela Universidade Federal do Ceará (UFC). Professora Assistente da Universidade Federal do Piauí (UFPI).

Como citar esse texto

SOUZA, Maria Rosângela de. Cenário de um envelhecer sertanejo: poética de uma velhice em construção. Revista Coletiva, Recife, n. 5, jul.ago.set. 2011. Disponível em: <Link>. ISSN 2179-1287.

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LABJOR/UNICAMP
REALIZAÇÃO
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