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Velhice e mudança: desafios da contemporaneidade

Neusa Gusmão

A fonte da juventude chama-se “mudança”.

De fato, quem é escravo da repetição está condenado a virar cadáver antes da hora.

A única maneira de ser idoso sem envelhecer é não se opor a novos comportamentos, é ter disposição para guinadas.

Eu pretendo morrer jovem aos 120 anos.

Quem dá brilho ao olhar é a vida que a gente optou por levar.

Olhe-se no espelho…

Lya Luft (Fragmento) 

 

Qual a imagem que temos de nós mesmos quando envelhecemos? Drummond (Revista Caros Amigos, ano 3, ed. 29) afirma que nós não percebemos muito a nossa velhice. Segundo ele, “é preciso que os outros reparem, é preciso que os outros nos tratem com atenções especiais ou com o desprezo pela velhice, é preciso que as outras pessoas nos façam sentir que nós estamos velhos”. O olhar de amigos, conhecidos e outros é que se fazem espelho daquilo que nos tornamos ao envelhecer, muito antes que possamos nos dar conta de nossa própria transformação.

Nas sociedades modernas, a velhice é um choque que nos chega primeiro pelos olhos do outro (Motta 1998, p. 228), ou, como diz Debert (1998), não é o que está em nós, pois velho é sempre o outro. Resiste-se a envelhecer, negando-se o que é considerado um ganho da velhice – a maturidade que nos equipa para viver bem e melhor. Dessa forma, a resistência ao envelhecimento confronta-se com uma dimensão interior em que o indivíduo busca não se perder, não ser negado. Aqui se expressa uma nova realidade dos sujeitos, aquela que cinde em dois, o que antes era uno – ele próprio. Diz o poeta Drummond que a tentativa de se salvaguardar dignamente se expressa na tentativa de desvincular a perda física da perda intelectual, como se fosse possível cindir as águas recebidas e perdidas do lago da vida. Muitos dizem: “Eu estou velho fisicamente, mas eu não estou velho intelectualmente”; outros afirmam: “a velhice nunca vai me pegar”. Nesse processo de luta e contradição, o velho e a velhice transformam-se em “coisa”, fetiches do mundo moderno que os fazem ser mercadorias prontas para serem consumidas e prontas para consumir. Como diz Lya Luft na epígrafe deste texto, se o que “dá brilho ao olhar é a vida que a gente optou por levar”, o que está em jogo ao envelhecermos não é o envelhecer, mas o como envelhecemos. O como importa, principalmente pela capacidade de cada um em mudar e aceitar a mudança não só do corpo, mas de sua própria interioridade. Nesse sentido, muitas vezes, a disposição para pequenas ou grandes mudanças externas ao corpo físico e mental podem agir como estímulos que se transformam em novas expectativas de vida, mais ajustadas e mais equilibradas com o curso da vida no momento em que envelhecemos.

Mudança e transgressão

A capacidade de mudar e gerar um novo lugar, uma nova forma de ser e estar consiste num ato de transgressão à ideia recorrente de que o velho e a velhice não contribuem como seres ativos na sociedade. No senso comum, “já eram”, quando ainda são. O que são: sujeitos vivos e atuantes da realidade social, ora negados, ora resgatados na vida social, porém nem sempre como cidadãos e sujeitos de direitos. Mudar é assim, força transgressora que subverte a ordem instituída e seus valores para originar movimentos dos mais variados tipos. Muitas vezes, mudar significa incorporar novos valores e comportamentos; compor com outros uma forma de ser e estar na qual opera a compreensão de mundo construída ao longo da vida e que gera sentimentos mais coletivos e comprometidos. O caso das “Vovós em fúria” do Canadá, criadoras do movimento identificado como Ranging Grannies, é exemplar.

Nascido ao final dos anos de 1980, o primeiro grupo (há outros fora do Canadá) surgiu com atitudes que parodiam a imagem do velho/velha e usam valores e leis existentes em relação à velhice para denunciar os excessos da sociedade capitalista moderna, em nome de um mundo melhor não para as “vovós em fúria”, mas para aqueles que viverão depois delas. A meta é salvar o planeta e, para tanto, “infernizam o poder”, lutando em nome de causas humanitárias e ecológicas. Hoje, o grupo já consta de uma lista do governo canadense sobre pessoas e entidades que podem representar uma ameaça “à soberania do país”. Para elas, isso é a glória, posto que a ameaça provenha de “um grupo de velhinhas que usam chapéus ridículos e cantam desafinado” (CA 1998, p. 37).

As “Vovós em Fúria” (Ranging Grannies) entendem que fazer rir com suas brincadeiras resulta em simpatia e faz nascer a reflexão. É isso, segundo a reportagem da Revista Caros Amigos (ano? ed.?), que motiva “uma senhora com mais de 60 anos a sair de casa com roupas ridículas, guarda-chuvas, agulhas de tricô ou porcelana chinesa na mão, para confrontar os poderosos, os gananciosos e os ignorantes.” Na defesa de um mundo melhor para seus netos, agem e incomodam, afirmando que não são velhas, são sábias. Elas sabem que não vão conseguir acabar com testes nucleares, com a exploração do trabalho infantil, com a poluição e outros fatos do mundo moderno, mas procuram, com suas ações, propiciar alegria e, junto com ela, informação. “E informação é liberdade, liberdade de fazer escolhas e mudar situações”, diz a reportagem. As vovós enfurecidas do Canadá entendem seus atos como de desobediência civil pacífica e irradiam uma alegria de viver e uma compreensão da própria vida que iluminam o ambiente. Pode-se dizer que ilumina a vida e conduz a outro modo de ser e viver a própria velhice.

Vivência e experiência

O velho e a velhice portam uma vivência e uma experiência a serem comunicadas e compreendidas pelo mundo dos homens e que resulta da maturidade alcançada no fluxo das experiências individuais e coletivas. Nesse sentido, o velho exerce um papel mediador nas tramas da vida social que exige pensar os diversos tempos e espaços em que o “outro” se faz igualmente sujeito. Sendo assim, ele não constitui uma folha apagada pelo tempo ou a caminho disso. A cultura de que é portador resulta da vida em acontecimento, de sua rotina e das rupturas que lhe são próprias. Desse modo, a cultura que lhe é própria e por meio da qual decodifica a vida à sua volta representa a experiência vital de seu tempo e espaço em termos de si mesmo e como sujeito coletivo que é. É do interior da cultura que emerge um patrimônio cultural e social a um só tempo particular e universal. Da mesma forma, é no âmbito mais singular e mais geral da cultura que o debate da autonomia e dos direitos se coloca para aqueles que envelhecem.

Nessa perspectiva, a velhice constitui um “tempo estratégico” da vida em sociedade, no qual, simbolicamente, está em jogo a finitude de tudo que nos constitui como humanos, ou seja, a nossa identidade, a nossa alteridade. O problema desse “outro”, portanto, não está no velho ou na velhice por aquilo que é, senão pelo que representa. O que representa está em nós e na imagem que construímos de nós mesmos como padrão do que é ser de modo completo e pleno.

É por essa razão que a sociedade moderna investe tanto no velho de hoje e na velhice por intermédio de programas sociais. Fazer isso é buscar a garantia de proteção contra os próprios medos impostos pela fragilidade da condição humana. Assim, pode-se dizer que a velhice do outro que — não sendo nós — nos espelha, se nos impõe como realidade da natureza, e isso nos obriga a ter que pensar as imposições, os limites e as possibilidades da cultura para, então, resgatar a integridade de ser e restabelecer o nós em novas bases. Com isso, espera-se expulsar de dentro de cada um o outro, natural e decrépito, para buscar referências positivas no campo da cultura e do social. Como fazê-lo, no entanto, se a modernidade nega ao velho a condição de sujeito, produto e produtor de cultura? Em jogo, a natureza do social em que os velhos, de modo geral, constroem seu mundo.

A velhice como espaço de cultura

A cultura supõe diferentes temporalidades, ao passo que a sociedade oferece a ilusão de um tempo único, cronológico e linear, diante do qual, ao atingir a velhice, o homem, em sua realidade física e psicológica, tenderia a fenecer. Para a cultura, a condição humana não se limita à natureza que lhe é própria, mas comporta uma dupla temporalidade: a dos homens e de sua maturação e a dos homens e sua continuidade, expressa na continuidade da história do mundo. A maturidade do indivíduo encontra, assim, a possibilidade de confundir-se com sua consciência e com a consciência do mundo em que vive. Alcançá-la, nessa convergência, é alcançar a compreensão daquilo que se é e, com isso, transcender a própria finitude. A velhice, compreendida como parte da cultura, seu processo e seu produto, torna-se capaz de gerar outros frutos que possibilitam a continuidade, não do indivíduo em si mesmo, mas de seus atos, feitos e conquistas. Os produtos culturais assim criados persistem para além dos indivíduos, para além do velho e da velhice, na continuidade da história de seus imediatos e também na de seu grupo e de sua humanidade. Tudo e todos como parte da história do mundo e por ela responsáveis. Aqui, o homem reencontra a segurança de si e daquilo que busca — a sua eternidade.

Compreende-se, então, outro olhar, capaz de engendrar a superação da velhice como limite, como fator de discriminação e, ainda, da expropriação da própria velhice como fato que nos retira o lugar e a pertença. Ao optar por não cumprir simplesmente as regras impostas e inaugurar certa rebelião, conquista-se não só uma mudança, mas abrem-se espaços para uma maior liberdade. A vida como aventura implica, então, uma relatividade de posições, mas é também a vida que se libera e nos libera, mesmo quando já não é exequível a sua forma; assim, transcende, transgride e se contrapõe a si própria. Portanto, não basta olhar os velhos em sociedade para descobrir-lhes as marcas cronológicas; é preciso um olhar que lhes descubra as propriedades, vale dizer, a alma.

Para Saber Mais

CA. Vovós enfurecidas do Canadá. Reportagem de Verena Glass. Caros Amigos. Nov. 1998.________. (1999). Uma prosa (inédita) com Carlos Drummond de Andrade. Caros Amigos, ano 3, n. 29, ago. 1999.

DEBERT, Guita Grin (1998). Antropologia e o estudo dos grupos e das categorias de idade. In: BARROS, Myrian M.L. (org.). Velhice ou terceira idade. Rio de Janeiro: Ed. Fundação Getúlio Vargas.

LARROSA, Jorge (1998). O enigma da infância ou o que vai do impossível ao verdadeiro. In: LARROSA, Jorge e LARA, Núria P. de (orgs.). Imagens do outro. Petrópolis: Vozes.

LUFT, Lya. A Idade e a Mudança. Disponível em: http://www.flickr.com/photos/maria_eugenia/3951784008 Acesso em 10/08/2011

GUSMÃO, Neusa Maria Mendes de. (2006) Maturidade e Velhice: um olhar antropológico. In: NERI, Anita Liberalesso (org). Desenvolvimento e Envelhecimento. Perspectivas biológicas, psicológicas e sociológicas. Campinas:Papirus.

MOTTA, Alda Britto (1998). Chegando pra idade. In: BARROS, Myrian M.L. (org.). Velhice ou terceira idade. Rio de Janeiro: Ed. Fundação Getúlio Vargas.

A Autora

Neusa Gusmão é antropóloga e professora da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp).

Como citar esse texto

GUSMÃO, Neusa. Velhice e mudança: desafios da contemporaneidade. Revista Coletiva, Recife, n. 5, jul.ago.set. 2011. Disponível em: <Link>. ISSN 2179-1287.

APOIO
REALIZAÇÃO
LABJOR/UNICAMP
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