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Jangada, os jangadeiros e o etnógrafo

Francisca de Souza Miller

O livro “Jangada: uma pesquisa etnográfica” (1957) é um clássico de Luís da Câmara Cascudo escrito, originalmente, para a Societé d’Études Historiques Dom Pedro II, e, posteriormente, ampliado para o Serviço de Documentação do Ministério da Educação.

 

Como já dizia Bronislaw Malinowski (1984), um dos principais representantes da antropologia britânica, os resultados da pesquisa científica, em qualquer ramo do conhecimento humano, devem ser apresentados de maneira clara e honesta. Um trabalho científico só terá valor como tal se nos permitir distinguir claramente, de um lado, os resultados da observação direta e das declarações e interpretações nativas e, do outro, as inferências do autor, baseadas em seu próprio bom senso e intuição psicológica. Nessa perspectiva, é necessária a apresentação dos dados para que os leitores possam avaliar com precisão, quão familiarizado está o autor com os fatos que descreve e sob que condições obteve as informações dos informantes. A obra de Cascudo é um bom exemplo do que acabamos de dizer.

 

Jangada é um livro de observação etnográfica de grande importância científica e literária por trazer não só a memória dos mestres de pesca como também a observação participante do autor quando das suas idas ao Canto da Praticagem e mesmo ao Canto do Mangue, localizado nas Rocas, bairro de Natal, capital do Rio Grande do Norte.  Assim denominado, o bairro das Rocas foi, inicialmente, a residência única dos homens do mar, casinhas de palha e algumas raras de taipa espalhadas na areia dos morros. Hoje é um bairro populoso e comum. Os pescadores, à semelhança do que acontecera em muitas outras praias, foram “empurrados” para longe.

 

É uma etnografia em cujo processo o autor é, ao mesmo tempo, cronista e historiador. Suas fontes de informação são, indubitavelmente, bastante acessíveis, não estando incorporadas a documentos materiais fixos, mas sim ao comportamento e à memória dos mestres de pesca.

 

Há contos de peixes enormes, assombrações do mar, diz Cascudo, contados por informadores, muitos deles amigos fiéis de confiança do etnógrafo, companheiros de pescarias fáceis, de conversas velhas, como Mestre Filó, falecido em 7 de novembro de 1944, em Natal.

 

Luís da Câmara Cascudo revela a preocupação de fixar, além da vida cotidiana e dos lendários dos jangadeiros, o seu linguajar característico, o pescador como homem silencioso no meio da musicalidade selvagem do mar e o cajueiro como árvore preferida dos pescadores e suas moradas típicas.

 

A caiçara, espaço de trabalho e sociabilidade, ainda hoje observada pelos pesquisadores, é descrita por Cascudo como uma barraca coberta de folhas de coqueiro e de lados livres, clube de conversação, lugar do conserto dos apetrechos da pesca, do comentário da vida alheia ao sono profundo estirado na areia convidativa.

 

Cascudo estuda o ofício do jangadeiro e de sua mulher rendeira. Também a renda, que seria trazida pelo português, cujo uso restringiu-se às praias, e não aos sertões. Além disso, descreve as suas pescas principais e de preparativos mais demorados – pesca do voador, da albacora, da toninha, da bicuda -, bem como as grandes festas praieiras: a procissão dos afogados e a dança “coco de roda”, também chamada de bambelô, o verdadeiro divertimento praieiro.

 

São ainda objetos de estudo do pesquisador, o modo alimentar do jangadeiro, a sua alimentação, o preparo dos voadores amontoados na praia aos cuidados das mulheres e das crianças, o fumo, os dias de preceito, as lendas (a sereia do Paricé), as jangadas fantasmas.

 

O conhecimento tradicional é o modo típico nordestino de o jangadeiro viajar atento às referências do litoral. Sua navegação observada pela marcação de pontos de costa, determinada em função do rumo e do caminho andado. O seu saber acerca das posições nítidas do caminho e do assento para encontrar a “pedra marcada”. O caminho corresponde à latitude, norte e sul, e o assento diz respeito à longitude, leste e oeste.

 

Luís da Câmara Cascudo nos revela, pela primeira vez no Brasil, a maneira bem típica de o jangadeiro marcar pesqueiros como objetos de propriedade pessoal, e ainda outros aspectos do ofício dos pescadores, dos hábitos e da psicologia dos grandes mestres. Mestre de jangada é conhecedor do mar, familiar dos ventos, sabedor dos segredos e conhecedor dos peixes.

Cascudo trata da origem histórica e evolução da jangada, a qual, de acordo com os cronistas, teria vindo da Índia, mas fixada, com características atuais e típicas, apenas em praias do Nordeste brasileiro. A jangada comum, popular e típica, é a de seis paus. A vela, a bolina e o remo de governo foram as modificações principais e simplificadoras que o gênio inventivo do jangadeiro nordestino introduziu na velha e complicada jangada. Esta teria sido observada pelos portugueses na Índia e, mais tarde, seria também assinalada em águas do Pacífico, às costas peruanas, como variedade de gôndola genovesa, construída apenas de paus de jangada e coberta de palha.

 

Na Índia, os ingleses chamavam-na jangar, termo derivado da língua malaia xangadam e, mais remotamente, do sânscrito sanghata, com o sentido de união de tábuas flutuantes. Os portugueses que serviam na Índia e no Brasil, vendo a piperi ou igapeba dos indígenas no Brasil, igual à jangada oriental, passaram para elas o nome já familiar e registrado nos clássicos quinhentistas, que correspondia perfeitamente à igarapeba dos tupis do norte, entre a Bahia e o Maranhão.

 

Historicamente, as jangadas aparecem nos rios da Europa com vários nomes: a raft na Inglaterra, a floss alemã, a singael batava, o radeaux francês, também denominada pelos gregos de schedia e, pelos romanos, de ratis, rataria. No relato do autor, a jangada seria de posse individual ou familiar e a canoa de grupos domésticos ou tribais. As primeiras estariam em número menor, no Brasil, quando da chegada dos portugueses no século XV. Desde o primeiro registro no século XV até nossos dias, apareceu e continua como elemento econômico ligado à pesca, e não à guerra ou ao transporte comum, como as canoas, as igaras, as ubás.

 

Cascudo estuda a nomenclatura, as linhas e os anzóis, a tripulação, os utensílios, a construção, a geografia e a economia da jangada nordestina, além da marcação e da divisão do pescado entre os tripulantes da jangada num paralelo erudito e seguro com as demais jangadas, de outras épocas e outras origens geográficas.

 

Trata Luís da Câmara Cascudo da jangada de seis paus à jangada de tábua, tendo esta última aparecido em 1940, no Rio Grande do Norte, como um novo tipo de jangada. Fabricada, em Rio do Fogo, por José Monteiro, falecido em 1954, e por José da Cruz, em Genipabu, a 80 quilômetros ao norte de Natal, esse tipo de embarcação se popularizou rapidamente, difundindo-se no Ceará, na Paraíba e em Pernambuco.

 

A jangada era utilizada para pescaria nas margens dos mangues, nas enseadas, onde o peixe era trazido pela correnteza macia. Pescava-se à linha, a pequenas tarrafas, nas proximidades das praias. Deve-se ao mariscador as maiores confidências sobre as assombrações marítimas, as bolas de fogo azul, os clarões inexplicáveis, perpassando por animais fabulosos que emergiam espalhando terror.

 

Cascudo apresenta a jangada como uma embarcação milenar, pois, em sua visão, ela representa a primeira fórmula consciente do navio dirigido por mão humana. A jangada desempenha uma missão mais fecunda e doméstica que garante o pescado, alongando-se ao correr da costa, desvendando os pesqueiros mais próximos. É de economia íntima, desprovida dos recursos de velocidade e de capacidade transportadora. Entretanto, a explicação para o uso da jangada era seu emprego em qualquer tempo. Nas canoas, os pescadores produziam mais peixe com as redes, mas isso exigia um tempo ensolarado e sem ventos fortes. Quando se fala em combate, a canoa é o meio de transporte indispensável.

 

Caindo chuva forte, mar picado e vento brusco, as canoas não deixavam o porto. As jangadas largavam mesmo na tempestade, se a tanto fosse necessário.

Cascudo descreve com propriedade a jangada como embarcação frágil e simples, sempre marítima, que prepara o homem para o oceano e vincula em sua alma a fidelidade aos horizontes desmarcados do mar.

 

Luiz da Câmara Cascudo descobre no pescador um homem que, como o vaqueiro, tem na profissão o exercício da liberdade individual. Acostumado à autonomia e à liberdade, tem o livre direito da escolha do dia de pesca, do caminho, do local, do trabalho, das mudanças na zona dos pesqueiros. Guiado por uma ideologia de autonomia e liberdade, o pescador foi um elemento de simpatia abolicionista ou ostensivamente ligado aos que combatiam a continuação do escravo no Brasil.

 

Além de constituir uma pequena antologia da jangada e trazer lindos poemas, Jangada: uma pesquisa etnográfica traz um glossário acerca da embarcação de grande importância para os estudiosos das sociedades de pescadores, uma vez que os vocábulos são, quase todos, desconhecidos de nossos dicionaristas.

Para Saber Mais

CASCUDO, Luís da Câmara. Jangada: uma pesquisa etnográfica. 2ª ed. São Paulo: Global, 2002.

MALINOWSKI, B. Introdução. In: ______. Argonautas do Pacífico Ocidental: um relato do empreendimento e da aventura dos nativos nos arquipélagos da Nova Guiné Melanésia. São Paulo: Abril Cultural, 1984. p.18-19.

MILLER, Francisca de Souza. Pescadores e Coletoras de Patane/Camocim. 2005. Tese (Doutorado em Ciências Sociais). Pontifícia Universidade Católica de São Paulo. São Paulo.

O Autor

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Francisca de Souza Miller é professora do Departamento de Antropologia da Universidade Federal do Rio Grande do Norte  - UFRN.

Como citar esse texto

MILLER, Francisca de Souza. Jangada, os jangadeiros e o etnógrafo. Revista Coletiva, Recife, n. 1, jul.ago.set. 2010. Disponível em: <Link>. ISSN 2179-1287.​​

APOIO
REALIZAÇÃO
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