Racismo e educação nas culturas populares

Renato Mendonça (Sobhadile)

A mãe de Ponciá Vicêncio havia anos vinha andando de povoado a povoado. E nessas andanças, em cada lugar que passava encontrava trabalhos de barro, feitos por ela e pela filha (...). Nunca mais tocou na massa, mas continuava cantando muito, como no tempo em que as duas entoavam juntas as canções. Cantava as cantigas de sua infância, aquelas que tinha aprendido dos mais velhos, no tempo em que era criança. Cantava as que tinha aprendido com a mãe e que tinha oferecido depois, mais tarde, à filha. E nessas canções havia muitas que eram dialogadas e, quando chegava a parte em que entraria a voz da filha, a mãe de Ponciá se calava. Fazia silêncio para escutar lá do fundo de sua memória, a voz-menina que, mesmo tendo crescido, mesmo estando distante, se presentificava cantando em suas lembranças.

 (EVARISTO, 2017, p. 73-74)

Passeando pelos textos de Conceição Evaristo, sempre identifico elementos que fortalecem tradições familiares e um constante exercício de construção e manutenção da memória. A saga da família Vicêncio nos revela aspectos formadores importantes dos sujeitos que vivem em solos Tupiniquins. Destaco os processos migratórios, as violências policiais, diretamente relacionadas às estruturas patriarcais, o racismo operante, entre outros.

Evaristo é capaz de expor inúmeras mazelas sócio raciais em estruturas de crônica e poesia entretanto, prefiro começar esta conversa falando das formas de transmissão de conhecimentos, do ato de educar, presente nos valores “corpo-orais”, na escuta dos mais velhos, na compreensão da importância do silêncio enquanto forma processual de amadurecimento da informação.

Nesse contexto a epígrafe apresenta o manipular do barro e o canto como ações que conectam mãe e filha mesmo à distância. Sobre estas formas de conexão, o que pretendo destacar é que ambas se tornam concretas pela experiência do FAZER e do fazer com e/ou pela outra pessoa. Não há autodidatismo, são fazeres ancestralmente orquestrados.

Importante saudar a possibilidade que temos hoje de consultar a preta velha Conceição ainda em vida, pois as máscaras do silenciamento dos corpos pretos ainda existem simbolicamente, foram muitas Anastácias apagadas no percurso da história. Vivemos em um momento histórico no qual as construções das referências não brancas estão sendo elaboradas pelos próprios reis e rainhas das Congadas e/ou Maracatus.

Nos espaços de educação formal ainda há a inclinação para identificar as histórias dos Tapirapés ou do reino do Ndongo (quando se fala sobre) com o distanciamento metodológico da academia, promovendo ausência do debates entre as diferenças e possibilidades de encontros afastando a construção do que Nego Bispo denomina como pensamentos que se envolvem e nos envolvem.

Um breve contexto

A cultura popular quando classificada como um campo de estudo vai assumir o papel enquanto lugar marginal de produção de conhecimento. Atuar nas margens sempre foi condição atribuída aos povos indígenas e afro diaspóricos, questiono então: O saber marginal não é central na vida dos povos historicamente ocultados e marginalizados?

Há formas plurais de significados no que se refere a cultura popular, quando ligada ao termo folclore sustenta a herança de superação da tradição, do antigo e do rural, sendo compreendida como a transformação, o novo e o urbano. O termo Folclore surge como uma tentativa de afirmação de um campo do conhecimento justamente no período da revolução industrial em solo inglês. Desta forma, a localização dos sujeitos que não pertenciam a elite e eram classificados como povo, estava associada ao formato do operariado, ou seja, do trabalhador braçal.

Como nos mostra o antropólogo Carlos Rodrigues Brandão em seu livro “O que é Folclore”,  a escola inglesa tratou de diferenciar o termo Folclore com letra maiúscula como sendo o “saber erudito” do grafado com letra minúscula como o “modo de saber do povo”. Esta divisão hierárquica entre aquele que estuda e o “objeto”, entre o pensar e o fazer, é herdada também no contexto pela cultura popular. Não preciso lembrar quais corpos foram condicionados a trabalhos forçados na história nacional.

Resumo aqui, que o racismo se apresenta na cultura popular embasado em pelo menos três falsas ideias, a primeira já apontada como a lógica da superioridade do fazer teórico sobre o prático ou do intelectual sobre o manual. A segunda ligada diretamente ao princípio do “mito salvacionista branco”, ou seja, uma figura que exerce o papel de “resgate” das tradições populares através de algum sacrifício.

Esse segundo ponto exploro justamente por ser mais atual e perceptível no cotidiano civilizatório. O racismo nesse contexto ocorre renovado por práticas assistencialistas de locomoção dos acontecimentos, nas quais há uma necessidade travestida de deslocamento das produções da cultura popular de uma pré determinada periferia para um pré determinado centro. Centro esse que normalmente é compreendido como livros, teses, museus e palcos das artes contemporâneas.

Como terceiro ponto, quando o termo popular assume o sentido de “povo” na tentativa de criar um pertencimento de identidade nacional, atribui-se também um pensamento que generaliza os corpos pretos e dos povos originários, fazendo com que se perca de vista a pluralidade afetiva, gestual, artística, política e geográfica destes inúmeros povos que constituem o “movimento da história”, como disse Beatriz Nascimento no texto do filme Ori, de 1989, com Direção de Raque Gerber.

Como exemplo temos no Brasil, especificamente da região sudeste, dezesseis comunidades jongueiras. Cada comunidade com características distintas, desde o dia das celebrações de seus ancestrais, como na forma de dançar e construir musicalidade, confeccionar tambores e vestimentas. Na diáspora, o ponto comum que as une, a cultura bantu, não as reduz ao continente África e sim as pluraliza nas centenas de reinos africanos que foram “extintos” enquanto povos após o fato histórico da cisão do território por colonizadores denominado como conferência de Berlim (1884-1885).

Nossa forma de existir é científica por excelência

Pensando a cultura popular a partir do contexto do carnaval carioca destaco o ano de 1988, na qual as escolas de samba Vila Isabel e Mangueira compuseram respectivamente o campeonato e o vice campeonato, com os correspondentes enredos Kizomba, festa da raça e Cem anos de Liberdade: realidade ou ilusão. São composições eternizadas no cenário do carnaval do Rio de Janeiro e essas obras rememoraram os 100 anos de homologação da Lei Áurea e que por consequência foi o grande tema de outras escolas no carnaval daquele ano. 

Luiz Carlos da Vila, Jonas e Rodolfo sugerem na letra do samba que “nossa Kizomba é nossa constituição”.  A Kizomba, expressão da complexa língua kimbundu que significa festa, assume um papel central na constituição organizativa dos povos descendentes de pessoas africanas, apresentam assim, uma ideia de construção autônoma e liberta das formas de pertencimento e das leis e regras que forma uma coletividade.

Já Hélio Turco, Jurandir e Alvinho escreveram que “o negro samba, negro joga capoeira, ele é o rei da verde e rosa da Mangueira”. A importância do sentido não somente do verso, mas de todo samba enredo é apontar que a ideia de realeza está presente nas experiências culturais historicamente perseguidas como o samba e a capoeira. Muitas são as crianças que vivem nas favelas que reconhecem seus reis e rainhas como pessoas da sua própria comunidade e a formalidade do nosso ensino escolar pouco destaca estes personagens da nossa história.

Aponto aqui com essas breves passagens que reinos, impérios e aldeias já produziam tecnologias, filosofias e políticas, ou seja, estruturas comportamentais anteriores as expansões marítimas europeias. As culturas populares são lugares da memória de produção científica de povos ancestrais, com a grande plasticidade de estarem se reinventando e reatualizando a todo momento.

Considerações ...

                                                                                       “moço, não se esqueça que o negro também construiu as riquezas do nosso Brasil”

A centralidade do (re)conhecimento das tradições populares – pretas e indígenas – sempre existiu em estruturas de aldeamentos e quilombos, em becos e vielas, em caatingas e matas. O racismo opera através da estratégia de oferta de visibilidade das vidas que coabitam estes espaços, normalmente desconectadas dos valores e dos pertencimentos que os seres possuem com a terra.

Qualquer sistema que privilegie as divisões dos seres, o pensar do agir, o produzir do sentir, o espírito da matéria, pouco aprendeu com os sistemas das comunidades indígenas e africanas, onde o equilíbrio entre as partes, e não a separação, é que constitui um ser desenvolvido em prol da coletividade.

Seja qual for denominação atribuída - de Folclore à Patrimônio Imaterial – a cultura popular atravessa temporalidades tendo como base filosófica a vida-morte-vida, o fim como experimentação correlata do princípio. As mestras e mestres coletivamente legitimados exercem sentido a este ciclo, que está presente no mover das rodas, nos pontos de demanda, nos martelos e loas dos palhaços da folia, na pisada forte do brincador da zona da mata, nos mastros elevados e derrubados aos cânticos de mulheres e encantados.

Para saber mais:

BRANDÃO, Carlos Rodrigues. O que é folclore. São Paulo: Brasiliense, 1994. 

EVARISTO, Conceição. Ponciá Vicêncio. Rio de Janeiro: Malê, 2017.

___________________. Histórias de leves enganos e parecenças. Rio de Janeiro: Pallas, 2017.

NASCIMENTO, Beatriz. Filme Ori (texto). Direção: Raquel Gerber. São Paulo, Angra Filmes, 131min, 1989.

TURCO, Hélio; JURANDIR; ALVINHO. Samba enredo do Grêmio Recreativo Estação Primeira de Mangueira Cem anos de liberdade: realidade ou ilusão. Disponível em: http://www.mangueira.com.br/sambaenredo. Acesso em: 02 out. 2020.

SANTOS, Antônio Bispo dos. Entrevista. Realizada por Thiago Mota Cardoso COLETIVA | Dossiê 27 | Emergência climática | jan. Fev. Mar. abr. 2020 | ISSN 2179-1287.

VILA, Luiz Carlos da; JONAS; RODOLFO. Samba enredo Grêmio Recreativo Escola de Samba Unidos de Vila Isabel - Kizomba, festa da raça. Disponível em: http://www.unidosdevilaisabel.com.br/decada-de-80/. Acesso em 02 de out. 2020

AUTOR

Renato Mendonça - Atualmente é bailarino intérprete do Grupo Cultural Jongo da Serrinha (2009) / Professor Adjunto II – UFRJ (Universidade Federal do Rio de Janeiro), EEFD (Escola de Educação Física e Desportos), DAC (Departamento de Arte Corporal) - (2010). Coordena o NECPS/UFRJ (Núcleo de Estudos Cultura Popular e Sociedade) e é membro do GRUPAR (Grupo Ancestralidades em Redes).

APOIO
LABJOR/UNICAMP
REALIZAÇÃO
FUNDAÇÃO JOAQUIM NABUCO