Cuidado medicado e esgotamento

Cíntia Engel

Tenho pesquisado junto de famílias e profissionais de saúde do Distrito Federal e entorno sobre demências e cuidado. Uma das coisas que aprendi é que um cuidado intenso como o de uma demência, que envolve a lida com medicamentos, o acesso constante a instituições de saúde, um cotidiano marcado por surpresas e mudanças nas relações com o corpo, casa e lembranças, conta com uma série de personagens e tecnologias. E, arrisco dizer, os medicamentos estão no centro dessas tecnologias – sendo usados com diferentes objetivos. Representam uma das principais estratégias para lidar com alguns dos esgarçamentos do cotidiano e do cuidado, seja ele feito por parentes ou por profissionais pagos. Vou contar um pequeno fragmento de uma situação. Acredito que ela possa expressar algo desses cotidianos.

Conheci uma cuidadora que vou chamar aqui de Mara. Era uma profissional de cuidado com muita experiência. Estava no final dos quarenta, formada como técnica de enfermagem e com curso de cuidadora de idosos. Uma mulher negra, de pele clara, baixa, mãe de dois filhos adolescentes. Morava com eles e com sua mãe, que estava vivendo com uma demência. Já havia trabalhado para hospitais, empresas de cuidado domiciliar e, quando a conheci, havia sido contratada em regime de carteira assinada como cuidadora de uma senhora diagnosticada com Doença de Alzheimer – vamos chamá-la de Celita. 

Celita, por vezes, ficava um tanto incomodada com o cuidado, com o fato de ter uma cuidadora, que tem a língua portuguesa como língua materna. Ela era estrangeira, uma mulher branca e nascida na Europa.  Veio para o Brasil, na velhice, porque tinha parentes aqui. Esse incômodo que ela tinha era lido como agitação pelos profissionais e, frequentemente, ela era medicada com um antipsicótico para “acalmar” esses sintomas e, assim, “facilitar” o cuidado. Mara era quem manejava os medicamentos no dia a dia e ia até as consultas em que os médicos prescreviam as receitas. O marido de Celita era seu cuidador, mas andava muito adoecido, o que colocava em Mara uma responsabilidade de cuidado ainda maior do que havia inicialmente previsto.

Um dos filhos de Celita, que morava longe e geria o cuidado da mãe pelo telefone, começou a cobrar cada vez mais de Mara. Desconfiava que ela não estava fazendo seu trabalho direito e deixava isso muito evidente nas interações com ela. Fazia provocações, insinuações e acusações. A situação piorou quando Mara adoeceu. Ela sentia mais e mais dores de estômago, por vezes vomitava, ficava tonta, ansiosa. Passou a buscar tratamento médico e por isso faltou alguns dias ao trabalho. O filho de Celita supunha que Mara mentia, o enganava, que era “preguiçosa” e não fazia jus ao salário que recebia. Insinuava que ela não estava dando valor a uma boa oportunidade de emprego. Mara, que sempre foi muito reconhecida e elogiada por seu trabalho, pensava em pedir demissão. 

O filho de Celita desconfiava das medicações receitadas pelos médicos. Não queria que sua mãe consumisse tudo o que lhe estavam receitando - “dão muitos remédios no Brasil, não é assim!”, dizia. Ele tinha razão, o uso de medicamentos antidepressivos, antipsicóticos e calmantes têm sido narrados na literatura como muito mais intenso aqui do que se comparado com Europa, Canadá ou Reino Unido (locais que concentram as pesquisas na área das demências). Mas essa desconfiança não era discutida diretamente com os médicos, era focada na pessoa de Mara: solicitava que ela desse detalhes mínimos de tudo o que fazia, das consultas, do que ela falou em tais consultas, do motivo de cada medicamento. Acumulando-se com as insinuações anteriores, aquilo ia mexendo com o juízo de Mara.

Certo dia, ela passou mal no centro de saúde que atendia Celita depois de ler uma mensagem desaforada de seu filho. A assistente social de lá disse que iria tentar encaminhá-la para uma psicóloga para lidar com esses “pesos” do cuidado. Havia, na rede de saúde, um serviço que era normalmente focado em cuidadores familiares de pessoas com demência. Entretanto, a assistente tentaria incluir Mara na lista. Afinal, toda essa situação poderia atrapalhar o cuidado. Isso se encaixava em uma categoria observada ali e na literatura especializada: a sobrecarga da cuidadora. A busca de Mara por médicos para seus sintomas de vômitos e dor de barriga também deu resultado. Disseram-lhe que era estresse e lhe receitaram um antidepressivo e um antiácido.

Nesse caso, o estresse parecia vir desse diálogo com uma relação de trabalho, com a cobrança excessiva do filho sobre o caráter de Mara – que muito se assemelha às expressões de racismo e sexismo mapeadas pela intelectual Lélia Gonzalez em sua análise das relações raciais no Brasil. Para Lélia, os empregos domésticos no país reiteram cotidianamente dinâmicas racistas mediadas pelo trabalho e pelas relações “íntimas”. 

Em muitos outros casos que conheci, o estresse parecia compor o cuidado – tanto em relações familiares como de trabalho. Vou listar algumas das situações principais nas quais esse estresse se expressava: não se conseguia tempo para dar conta dos dias e o cansaço era uma constante, a lida com as burocracias das instituições de saúde deixavam a pessoa tonta, irritada; a própria atividade de cuidado não era reconhecida por outros familiares ou patrões; insinuações, desfeitas, agressões verbais sobre o jeito de cuidar machucavam; os sintomas da doença criavam tensões e tristezas (especialmente quando eram as primeiras vezes em que ocorriam e ainda se precisava aprender a lidar com eles). Em muitos desses casos, os medicamentos eram manejados para lidar com esse estresse,  tristeza ou ansiedade. 

Algumas autoras, na antropologia, têm mapeado como o corpo feminino e a manifestação de sofrimento, associada a uma série de pressões sociais, tem sido medicado com calmantes, antidepressivos e outras drogas. Sônia Maluf e João Biehl são exemplos de pesquisadoras que apontam para tal fenômeno. Outras autoras olham para essa medicalização a partir da manutenção do cuidado cotidiano. Em pesquisas sobre cuidado, os medicamentos para as cuidadoras aparecem com frequência. É o que apontam os trabalhos de Soraya Fleischer, Ana Cláudia Camargo e Raquel Lustosa, que observaram o cuidado e as condições crônicas de saúde. Jéssica Monique Batista, por exemplo, estudou o cuidado de meninos vivendo em periferia em situação de drogadição. 

Meu trabalho tem um achado parecido. O cuidado, quando estressado por um excesso de demandas, desconfiança, falta de reconhecimento, não acesso, racismo, relações trabalhistas violentas, entre outros, tem sido mantido e garantido por meio de medicamentos como antidepressivos, calmantes, ansiolíticos e antiácidos. Os medicamentos, assim, aparecem como uma tecnologia que remedia tensões do cuidado – realizado nos moldes de centros urbanos imersos em relações capitalistas. 

Não quero aqui negar as transformações físicas que causam sintomas e mesmo a potencialidade dos medicamentos em lidar com tais sintomas. Quero apenas situar os motivos e os efeitos que os medicamentos possuem nesse tipo de organização de cuidado. Em alguma medida, eles acalmam o cotidiano, fazem o cuidado continuar mesmo frente a elementos estressores que não se resolvem de modo perene. Os medicamentos como que amortecem, amainam, tranquilizam a falta de pessoas, tecnologias, e a intensidade violenta das hierarquias envolvidas no cuidado. Os estressores do cuidado são mantidos a um nível manejável – “funcional”, para usar termos dos profissionais da saúde.

Há, ainda, um outro dilema próprio desse tipo de uso dos medicamentos. Vi serem receitados para mulheres e pessoas com demência de diferentes classes e pertencimentos raciais. É uma estratégia que me pareceu consideravelmente ampla nesse universo das demências. Mas, no caso de mulheres e pessoas com demência pobres, as receitas eram mais intermitentes, os tipos de medicamentos mais pesados e com maiores efeitos colaterais, inclusive de longo prazo; e as dosagens mais altas. Os medicamentos também serviam para lidar com “problemas sociais”, como ouvi de um profissional da saúde. Ao mesmo tempo, ouvi desse e de outros profissionais que o uso excessivo, a longo termo, de medicamentos “chatos” (com muitos efeitos colaterais) era um perigo em si mesmo – a ser combatido, inclusive. Tudo soava um tanto paradoxal.

Em consonância, há também um excesso medicamentoso sendo utilizado para manejar os sintomas da demência: antipsicóticos e antidepressivos são usados de modo intenso não só para “tratar sintomas”, mas também com o objetivo de “facilitar o trabalho de cuidado”. A outra face dessa estratégia é o “dopamento”, a intensa complexidade da polifarmácia, as doenças causadas por ela – o que os profissionais chamam de “iatrogenia”: doenças causadas por tecnologias médicas. Consequências essas que são temidas por profissionais e cuidadoras. De novo, um tanto paradoxal. 

Nesse sentido, não só as cuidadoras, mas pessoas com demência têm lidado com essa opção dos medicamentos como fonte de descarga dos esgarçamentos de um cuidado que, raramente, é uma questão pública. E que é marcado por relações altamente desiguais, que interseccionam gênero, raça, idade e classe em meio às mais intricadas complicações.

Esse tema do cuidado e da sobrecarga ganhou centralidade com a pandemia do novo coronavírus. Não que essa seja uma questão nova, mas, por hora, o cansaço de mulheres com o modo como estão organizadas as dinâmicas de cuidado em centros urbanos brasileiros ocupa noticiários, assim como as vulnerabilidades dos que precisam de cuidado e trabalham com ele – especialmente porque redes mais amplas foram interrompidas, algumas delas inclusive mantidas por arranjos trabalhistas precários. É como se esse vírus tivesse colocado em evidência o tanto que a reprodução da vida e a atenção a processos de adoecimento e morte não tem figurado como uma tema público ou comunitário e como tais questões são um grande gargalo das relações desiguais de gênero, raça e classe no Brasil. 

Não é que cuidado seja apenas cansaço ou sofrimento, ou que cansaço seja uma reação quase que direta de se envolver em relações de cuidado. De modo algum. Cuidado faz necessariamente parte da vida de todos nós e transforma de modo positivo o cotidiano de muitos e muitas que dele se envolvem. Aqui recorto, contudo, alguns esgarçamentos que são comuns e latentes e uma das estratégias de se lidar com eles: remediar e continuar seguindo.

Apesar de uma forma relativamente eficiente de lidar com esgarçamentos, os medicamentos parecem trazer intensos desafios. Além disso, parece haver uma expectativa de que mantenham as relações como estão, silenciem os sofrimentos, violências e desvios da norma. Ao manejar o cansaço, tal biopolítica medicamentosa alimenta a máquina capitalista, como diria o filósofo sul-coreano Byung-Chul Han. O cansaço – e suas tecnologias de manejo – tem um potencial de estabilizar as relações.

O filósofo Peter Pelbart, ao olhar para as intensas relações entre biopolíticas do cansaço e manutenção de afetos capitalistas, sugere direcionar energia para o esgotamento. Enquanto avesso do cansaço, o esgotamento interrompe. Esgota determinado modo de fazer, agir. O esgotamento surge como possibilidade de quebrar um ciclo e construir algo em cima disso. Se o cansaço estabiliza, o esgotamento interrompe e abre espaço para desejos e afetos revolucionários.

Não se trata de um esgotamento ou recusa individual, simplesmente; mas de um processo coletivo, extenso, abrangente. Um afeto de revolta e transformação das condições que esgarçam o cuidado. Talvez estejamos passando por algo assim. As remediações do cotidiano por meio dos medicamentos são cada vez mais necessárias, ao passo que não dão conta de influenciar, de fato, nas dinâmicas que estressam o cuidado. Mais do que tecnologias para remediar, talvez esteja em falta uma intensa negação: dos dopamentos, dos sacrifícios ou heroísmos de cuidadoras, da estrutura racista que organiza o cuidado. Urge esgotar. 

Para saber mais

 

BATISTA, Jéssica Monique. O Cuidar em Periferias a experiências de mães desde os arrabaldes. Dissertação de mestrado. Brasília: Universidade de Brasília, 2018.

 

BIEHL, João. Vita: life in a zone of social abandonment. Berkeley: Los Angeles, London: University of California Press, 2005.

 

CAMARGO, Ana Cláudia; LUSTOSA, Raquel. “Eu tô pra tomar os remédios dela pra ficar mais calma”: interfaces acerca de maternidade, cansaço e medicamentos entre mães de crianças nascidas com SCZV em Recife/PE. Áltera, v. 3, n. 11, p. 79-97, 2020.

 

FLEISCHER, Soraya. Uso e circulação de medicamentos em um bairro popular Urbano na Ceilândia, DF. Saúde e Sociedade, v.21, n.2, p.410-423, 2012.

 

GONZALEZ, Lélia. Gênero e raça. Racismo e sexismo na cultura brasileira. Revista Ciências Sociais Hoje, Anpocs, p. 223-244, 1984.

 

HAN, Byung-Chul. Sociedade do cansaço. Petrópolis: Vozes, 2015.

 

LEIBING, Annette. “From the periphery to the Center: treating noncognitive, especially behavioral and psychological symptoms of dementia”. In. BALLENGER, Jesse et. al. Treating dementia: do we have a pill for it? Baltimore: The Johns Hopkins University Press, p. 74-97, 2009

 

MALUF, Sônia. “Gênero, saúde e aflição: políticas públicas, ativismo e experiências sociais”. In: MALUF, Sônia; TORNQUIST, Carmen Susana (org.) Gênero, saúde e aflição: abordagens antropológicas. Florianópolis: Letras Contemporâneas, p. 21-68, 2010. 

 

PELBART, Peter. O avesso do niilismo: cartografias do esgotamento = Cartography of exhaustion: niilismo inside out. São Paulo: N-1 Edições, 2013.

AUTORA

É antropóloga e socióloga. Fez doutorado, mestrado e graduação na Universidade de Brasília (UnB), pesquisando envelhecimento, biomedicina, cuidado e demências. É uma das editoras do livro “Antropologias, saúde e contextos de crise”, Editora Sobrescrita, 2018.