Modificações corporais

os ossos, o humano, o trans-espécie e a moda [1]

21  de dezembro de 2019 | Beatriz Ferreira Pires

Dispostas longitudinalmente em doze pares, as costelas, que possuem a forma de ossos chatos e curvados e que juntamente com o osso esterno e com as cartilagens costais formam a caixa torácica ou o gradil costal, têm com função estruturar a silhueta e proteger de possíveis traumatismos os órgãos internos situados, tanto no tórax - pulmões e coração -, como na região superior do abdômen - fígado, rins, pâncreas, estômago e baço.   

Os doze pares, enumerados de cima para baixo que se conectam à coluna vertebral por meio das vértebras torácicas, são divididos em três categorias: a das costelas verdadeiras, formadas pelos sete primeiros pares, que se ligam diretamente ao osso esterno através das cartilagens costais; as falsas, formadas pelos três pares subsequentes, que se ligam ao osso esterno através da cartilagem costal do sétimo par e as flutuantes, formadas pelos dois últimos pares que, por não se ligarem ao esterno parecem flutuar. 

São estas últimas, as flutuantes, que sofrem o risco de serem extraídas cirurgicamente por questões estéticas. A remoção destas, seja de um par ou dos dois pares, contribui para o afinamento da cintura.

 

Cirurgia altamente invasiva, a retirada das costelas flutuantes, independentemente dos problemas que possam causar, como dificuldades respiratórias, posturais e ferimentos resultantes da situação de desproteção dos órgãos vitais que originariamente envolviam, tem atraído a atenção de algumas pessoas, entre elas, as duas sobre as quais este artigo versará, Rodrigo Alves e Pedro Padron.

Simbolicamente, segundo o mito cristão da criação, Eva, a primeira mulher, é criada por Deus a partir de uma costela de Adão, o primeiro homem. 

Escolhida por Deus para ser o elemento que permite a criação do segundo ser humano, este capaz de reproduzir a vida em seu ventre, a costela retirada de Adão não afeta em nada sua saúde e longevidade. Provavelmente não afeta porque em seu lugar Deus fez crescer carne. Preenchido, o espaço anteriormente oco continua atuando como protetor dos órgãos internos e mantenedor da postura corporal e da silhueta.  

A mitologia de várias outras culturas, como as que seguem o xamanismo ou às nórdicas, aponta, não a costela em específico, mas o esqueleto completo como         matéria-prima utilizada para a perfeita renovação da vida. Nos relatos destas sociedades, caso o esqueleto esteja incompleto, o ser que dele resultará também estará. Algumas destas mitologias são descritas por Mircea Eliade no livro O Xamanismo e as Técnicas Arcaicas do Êxtase.

 

Rodrigo Alves - Ken Humano

 

Rodrigues Alves, conhecido como Ken humano, nasceu na cidade de São Paulo, no ano de 1984. Atualmente com 34 anos, ele já se submeteu a sessenta cirurgias plásticas e inúmeros procedimentos estéticos. A sua primeira cirurgia foi uma rinoplastia.

Em declarações recentes ele afirma que nunca quis se parecer com o boneco Ken - criado pela indústria Mattel de brinquedos, no ano de 1961, para ser o namorado da boneca Barbie - e que a alcunha Ken humano lhe foi dada pela mídia:

 

Eu só queria quebrar o tabu das cirurgias plásticas e alertar para os riscos e benefícios que podem ter. Agora acho que já não estou assim tão parecido com o Ken e já acho estranho quando me chamam esse nome. Concordo que o Ken e a Barbie representam ideais de corpos, mas essa alcunha faz-me parecer estúpido e não me representa na totalidade. Este ano vou ter a oportunidade de mostrar ao Mundo quem sou, e sei que não sou uma cópia do Ken. 

 

Se em determinado período, a aparência física do humano Alves se aproximava da aparência física do boneco Ken, isso não ocorre mais. Tal dessemelhança não acontece por ele ter se afastado da pretensão de atingir o ideal de beleza inumano, mas sim, por ter ultrapassado o suposto objetivo sem ter satisfeito o anseio de atingir a perfeição corporal desejada.

Em sua mais recente cirurgia, Alves removeu seus dois pares de costelas flutuantes. Questionado, no programa da Televisão inglesa This Morning, conduzido por Holly Willoughby e Philip Schofield, sobre o motivo que o levou fazer tal procedimento, Rodrigo respondeu: 

 

Todos os meus blazers precisam ser alterados, porque meu tamanho é na verdade 36 de ombros, mas minha cintura era um pouco maior e eu tinha que escolher um blazer maior e ajustá-lo. 

 

E em seguida completou: “Graças à cirurgia plástica, eu posso me expressar por meio da moda.”

Alves, que guardou as costelas que lhe foram retiradas as levou ao programa e foi fotografado com elas.

Exemplo contundente do que, em menor escala, é cotidianamente feito por diversos indivíduos, o corpo de Alves está a serviço da moda e, como tal, se molda e se adequa às indumentárias que lhe são vendidas.

 

Luis Padron - Trans-Specie Elfo 

O argentino Luis Padron nasceu em Buenos Aires no ano de 1991. Também disposto a se distanciar da aparência humana, a expectativa de Padron de alcançar o corpo que julga perfeito se difere do desejo de Alves apenas no que se refere ao quesito do modelo eleito. 

Enquanto Alves balizou suas modificações corporais com o intuito de se assemelhar a um boneco, ou seja, a uma representação tridimensional do corpo humano feita de diversos materiais inorgânicos, que tanto pode ser produzida de forma artesanal, como industrial e que é utilizada geralmente como brinquedo ou elemento decorativo, Padron as realiza com o intento de aproximar sua aparência a de um elfo: “Eu quero ser um elfo, um anjo e um ser de fantasia, meu objetivo é parecer desumano, etéreo, gracioso e delicado.”

Simbolicamente, podemos dizer que diferentemente da figura mitológica, que aponta para um movimento de expansão, a figura do boneco aponta para a falta de mobilidade.

Criaturas da mitologia nórdica, os elfos, conforme Chevalier e Gheerbrant, autores do Dicionário de Símbolos, embora saídos da terra e das águas, são “deslumbrantes, caprichosos, pequeninos, flutuantes, vaporosos, temíveis”, espíritos do ar que trazem a morte aos humanos. 

 

Eles agem sobre a imaginação, exaltando-a através de sonhos e aparições, e arrastam em sua dança o ser seduzido por sua beleza. Simbolizam as forças inconscientes do desejo, metamorfoseadas em cativantes imagens, cuja poderosa atração tende a inibir o autocontrole e a capacidade de discernimento. 

 

O discurso de Padron demonstra que ele não apenas desconhece os significados simbólicos atribuídos aos elfos pelos dois autores mencionados, como também, ignora duas das características, a eles atribuídas, que estão listadas no Dicionário de Símbolos: serem seres pequenos e temíveis. Quanto à altura, uma das modificações pretendida por Padron é se tornar mais alto. Quanto a se tornar uma criatura temível, claramente não é esse tipo de sentimento que ele almeja despertar no observador. 

Para obter sua nova configuração física e se definir como pertencente à          trans-espécie elfo, Padron, assim como Alves, passou por várias intervenções estéticas e por várias cirurgias. Entre elas, a realizada na Coreia do Sul, no ID Hospital, com a finalidade de afinar seu maxilar inferior. 

Editado como espetáculo e divulgado em duas versões, uma em inglês outra em espanhol, o pré e o pós-operatório desta cirurgia foi filmado e postado na internet. Na edição não há sangue, dor, desconforto. Tudo é simples, rápido, suave, divertido, eficiente.      

  

“Eu comecei com o cosplay, mas não foi suficiente. Eu queria mudar para me transformar na minha própria percepção da beleza”. 

Padron que também foi entrevistado pela dupla de apresentadores do programa This Morning declarou que, para que possa modelar sua cintura e torná-la mais fina, se submeterá à cirurgia de remoção dos dois pares de costelas flutuantes.

Quando se trata de chegar o mais próximo possível do padrão de beleza desejado, tanto Alves como Padron não fazem distinção entre vestes, pele, carne e ossos.  

Amalgamadas as áreas que compreendem estes elementos, moda e medicina estética, moldam corpos com configurações que outrora eram impensáveis e permitem o surgimento, não apenas de novos e inesperados perfis humanos, como também de imprevisíveis silhuetas que formam as chamadas trans-espécies.    

Notas


[1] Este texto não é inédito. Argumento original retirado do artigo: “Os ossos, o humano, o trans-espécie e a moda” apresentado no 14º Colóquio de Moda - 11ª Edição Internacional, realizado na PUC de Curitiba em 2018.

Para saber mais      

 

CHEVALIER, J. GHEERBRANT, A. Dicionário de Símbolos. Rio de Janeiro: José Olympio, 2002. 17ª edição. 

 

ELIADE, Mircea. O Xamanismo e as Técnicas Arcaicas do Êxtase. São Paulo: Martins Fontes, 1988.

 

PIRES, Beatriz Ferreira. Dos Ossos - De suas Representações e Aproveitamentos/Utilizações in Anais 8º Colóquio de Moda - 5ª Edição Internacional. Rio de Janeiro, 2012.

 

PIRES, Beatriz Ferreira. O Corpo como Suporte da Arte - Piercing, Implante, Escarificação, Tatuagem. São Paulo: SENAC, 2005.

A autora

Beatriz Ferreira Pires é arquiteta, artista visual,  professora da Graduação e Pós-Graduação do Curso de Têxtil e Moda EACH/USP. Pós-Doutorado (FAPESP/2009): SENAC/SP. Doutorado (FAPESP/2006): FE/UNICAMP. Mestrado (CNPq/2001): IA/UNICAMP. Livros: “O Corpo como Suporte da Arte”. SENAC, 2005; “Corpo Inciso, Vazado, Transmudado - Inscrições e Temporalidades”. Annablume/FAPESP, 2009.

APOIO
LABJOR/UNICAMP
REALIZAÇÃO
FUNDAÇÃO JOAQUIM NABUCO