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Sociedade

Arte e

nº 7 | 21 de junho 2020

Editor Temático: Moacir dos Anjos

UM PAÍS ESGOTADO

Moacir dos Anjos 
 

1. Em um de seus últimos textos, Gilles Deleuze produziu uma breve e densa análise das peças teatrais que, na década de 1960, Samuel Beckett escreveu para serem filmadas e exibidas na televisão. Para compreendê-las – e delas extrair novos conceitos –, o filósofo francês propunha, em seu ensaio, a distinção entre o cansado e o esgotado, entre o cansaço e o esgotamento. Desde logo haveria, entre os dois estados, uma diferença de intensidade: “O esgotado é muito mais que o cansado”. Mas o esgotado não seria, contudo, apenas o extremamente cansado, havendo entre as duas condições uma diferença outra, irredutível a quantificações. O cansado seria aquele que, ancorado em suas preferências e objetivos, exerce, até o limite de suas possibilidades (subjetivas), o poder de fazer escolhas para realizar algo. Escolhas – banais ou complexas, de efeito passageiro ou duradouro – feitas dentro do que, a cada tempo e lugar, é considerado como o âmbito do possível. O cansado seria aquele, portanto, que estanca quando não mais consegue realizar algo que existe como parte daquele campo de possibilidades (objetivas), adiando suas realizações para quando sentir-se de novo capaz. O esgotado, por sua vez, seria aquele que, renunciando a preferências e objetivos precisos, experimenta e combina todas as possibilidades de escolhas e de suas consequências, ao ponto de exauri-las. O esgotado seria, nesse sentido, aquele que esgota o possível, embora nem por isso se torne inerte. 

 

2. No exame próximo que faz de cada uma das peças televisivas de Beckett, Deleuze aponta quatro modos – não mutuamente excludentes – de promover o esgotamento do possível: Exaurir as coisas que podem ser nomeadas, estancar o fluxo de vozes que as falam, extenuar as potencialidades do espaço onde elas existem e dissipar a potência contida em suas imagens. Extrapolando o objeto original de seu texto e fazendo uso abertamente arbitrário dos conceitos nele tratados, essas condições de esgotamento parecem ser apropriadas para capturar, mesmo que de maneira imprecisa (e talvez por isso adequada), a situação vivida no Brasil de agora. Lugar e momento em que se entrelaçam uma crise sanitária, uma crise política e uma crise econômica com consequências ainda não de todo conhecidas em sua extensão, embora já sabidamente muito graves. Situação em que as palavras já não bastam para descrever os fatos e evocar os afetos que eles geram, em que o silenciamento de quem diverge do poder já é abertamente demandado, em que se desregulam e enfraquecem os territórios institucionais consagrados ao desentendimento e à disputa e, por fim, em que se contestam as equivalências sensíveis que descrevem o que acontece nas ruas. Para aqueles que reconhecem e sentem em seus corpos a gravidade da crise vivida no país (em suas várias dimensões), é cada vez mais frequente sentir-se esgotado. Ou sentir que o Brasil está esgotado. Que as possibilidades de realização de uma outra vida comum se gastaram antes de serem exploradas, bloqueando um projeto de sociedade minimamente mais inclusiva e justa gestado, com lentidão e dificuldades, a partir do fim da ditadura militar no país. Que a morte (de cada vítima da pandemia e também do espaço público de embates) encolheu o que era ainda tido como possível, apressando um processo de esgotamento que, embora há muito já em curso, parecia ainda poder demorar mais a se manifestar no Brasil. Em particular, com a fúria regressiva com que se apresenta agora. 

 

3. É certo que esse esgotamento foi gradual, alcançando primeiro as vidas mais vulneráveis, aquelas mais suscetíveis a terem o poder de optar por uma decisão ou outra acerca de sua existência bloqueado. Os corpos viventes, afinal, se distribuem desigualmente não somente no espaço físico, mas também em termos do reconhecimento de seus direitos e de suas capacidades. Ocupam lugares de lazer, de moradia, de trabalho e de representação política que são também marcadores do quão diversas são as possibilidades a que cada um tem acesso. Se a alguns corpos é facultada uma existência com conforto material e segurança afetiva, a outros se destina uma vida atravessada pelo medo e pela falta. Se uns possuem poder de movimento e de mando, outros são submetidos a um regime de circulação regrada e de obediência – ainda que também de resistência – às ordens dadas. Para alguns, como os povos indígenas nativos das terras que viriam a ser o Brasil, o possível foi diminuído abruptamente – quase encerrado, de fato – na chegada do colonizador europeu. A violência colonial esgotou esse possível, esgotando aqueles povos, suprimindo-lhes a humanidade. Retirou-lhes a possibilidade do cansaço, condição somente alcançada pelo exercício de uma vida autônoma. E continua a querer negar-lhes um lugar, ainda que subalterno, na desigual distribuição de corpos que define o país. Violência colonial que, ao escravizar mulheres e homens negros vindos de cantos diversos da África, bem como seus descendentes, os cansou e os esgotou ao mesmo tempo. Que submeteu seus corpos ao limite de sua capacidade e, em simultâneo, cerceou o que guardavam como potência para um tempo futuro. Violência que, transformada e atualizada em formas diversas de racismo, continua a ser exercida no Brasil contemporâneo. Para esses corpos, o esgotamento do país também já era sentido há tempo. Assim como o sentiam os corpos dissidentes de uma norma social que é não somente branca, mas também heterossexual e cisgênera.  Bem como o sentiam os corpos pobres, que por vezes são também corpos indígenas. Que por vezes são também negros. Que por vezes são também gays, lésbicas, travestis. Vidas que vêm se sentindo gradualmente esgotadas, para quem o esgotamento do Brasil é fato previsível. Para quem o esgotamento chegou antes: há séculos, para alguns; há décadas, para outros tantos. Esgotamento que foi, aqui e ali, freado, à medida em que porvires distintos pareciam ter ampliado o possível como resultado de longas disputas. Mas que foi de novo acelerado nos últimos anos, com uma sequência de fatos – emergência do fascismo e, mais recentemente, da doença – que, pelo poder destrutivo que embutem, parece ter esgotado mesmo muitos daqueles corpos até aqui poupados. Corpos que tinham o privilégio de estar apenas cansados.

 

4. O cansaço exige descanso para que o cansado possa de novo escolher entre as alternativas que o possível acolhe, retomando projetos parados ou refazendo os desmanchados. Para que possa atuar como sujeito que afirma posições e disputa possibilidades. Possível que, no Brasil de 2020, parece ter se exaurido ou ter sido bloqueado. Ao esgotamento, por sua vez, o descanso não basta, pois o repouso não restaura o esgotado. O esgotamento exige imaginar outros possíveis para que o esgotado deixe de sê-lo. Para que aquilo que não era considerado uma possibilidade entre outras, passe a ser assim contado. Para que novos sujeitos políticos emerjam e criem aquilo que não podia ser antes pensado. O fim do esgotamento exige a subversão da distribuição hegemônica das probabilidades, forçando a inclusão, nelas, de hipóteses inéditas de futuro. Para Deleuze, afinal, o esgotado continua ativo, ainda que não tenha, em sua atividade, objetivo certo. Dar direção e significado a essa potência guardada é a tarefa política dos esgotados. 

* Texto originalmente publicado na série Pandemia Crítica, projeto da editora n-1. 

Moacir dos Anjos é pesquisador da Fundação Joaquim Nabuco (Fundaj). Foi curador da 29ª edição da Bienal de São Paulo (2010) e é autor dos livros local/global: Arte em trânsito (Zahar, 2005), Artebra crítica (Martins Fontes, 2010) e Contraditório: arte, globalização e pertencimento (Cobogó, 2017).

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