ISSN 2179-1287
Número 18 | jan/fev/mar/abr 2016

Gênero é foco de projetos em escolas públicas

Emannuel Nascimento

 

Na Escola de Referência Silva Jardim, situada no bairro do Monteiro, na zona norte do Recife, as professoras Cristina Cordeiro, da disciplina de História, e Karina Almeida, de Geografia, desenvolvem o projeto “Núcleo de Estudo Wilma Lessa”. A iniciativa, que surgiu em março de 2016, propõe uma discussão sobre questões de gênero e sexualidade para os estudantes. O nome do núcleo é uma homenagem à jornalista e poetisa Wilma Lessa, uma das maiores representantes de grupos feministas em Pernambuco e que foi assassinada em 2004.

“Iniciamos as atividades numa tentativa de frear ações de bullying constantes na escola. Com o tempo, passamos a abordar questões de gênero e racismo porque percebemos que o bullying é bastante focado nisso”, diz a professora Cristina. Desde então, o núcleo conta, por semana, com a presença de 40 estudantes, a maioria deles do 1º ano do Ensino Médio. Os encontros ocorrem nas segundas-feiras, das 16h10 às 17h. Durante os 50 minutos, as professoras levantam questionamentos como “Por que é tão difícil mudar?” e “Sentimos o que o outro sente?”, procurando sempre aguçar o senso crítico dos alunos em relação aos valores conservadores da sociedade e incitando o respeito mútuo.

Os alunos participam ativamente opinando, fazendo desabafos e relatando experiências de suas vidas, famílias e amigos. Os encontros também são marcados por algumas atividades práticas e exibição de audiovisuais e músicas que transparecem a importância da abordagem de gênero. Gustavo Henrique, estudante do 1º ano do Ensino Médio e um dos frequentadores do núcleo, reconhece a importância da discussão sobre gênero dentro da escola. “Fazemos parte de famílias que são formadas em cima de preconceitos. É muito bom ter na escola esse momento de desconstrução, o que nos ajuda a abrir a cabeça para novas correntes de pensamento, observar outras formas de realidade e mudar de opinião, quando é o caso, além de poder passar algumas informações depois para nossos familiares e amigos”, afirma.

Cristina Cordeiro considera o desenvolvimento dos alunos dentro do Núcleo de Estudo muito positivo. “Já há uma mudança no comportamento de todos os participantes, inclusive o grupo tornou-se uma referência. Quando eles percebem que há uma iniciativa de bullying, já avisam que a escola tem um núcleo que pode auxiliar nisso. Até agora, não tivemos nenhuma reação contrária, nem por parte dos pais, nem por parte dos alunos”, garante.

Debates na Educação Infantil

Exigindo um trabalho mais complexo, as questões de gênero e sexualidade também são abordadas aos alunos do Ensino Infantil. Essa é a realidade desafiadora de Mac Cleide, que trabalha como gestora nas escolas Maria Lúcia Jaqueira e Escola Gilmar Pinto, ambas de Educação Infantil e situadas no município de Jequié, no sudoeste da Bahia. “Na escola infantil, as questões de gênero são muito fortes porque, quando você entra nesses espaços educativos, você se depara com as salas de aula divididas, com o cantinho para menina e para menino, os brinquedos específicos para meninas e para meninos, o que gera um grupo normalmente fragmentado: meninas de um lado e meninos do outro”, exemplifica.

Como gestora, Mac Cleide tenta inserir as temáticas de gênero sempre que possível, alegando a necessidade do debate. “As desigualdades de gênero acabam perpetuando dicotomias e separações, produzindo uma rivalidade entre os gêneros. Então, vemos crianças se agredindo, sem dar oportunidade umas às outras”, explica. Diante de tal realidade, ela diz buscar fortalecer nas discussões a igualdade entre gêneros e pensar numa perspectiva mais igualitária e humana. “Isso pode começar na escola, especialmente na educação infantil, porque, quando eles estão pequenos, não possuem essa ideia de desigualdade formada. À medida que crescem, vão percebendo que nem tudo na sociedade são verdades absolutas”.

Sentindo a necessidade de uma formação permanente no âmbito escolar, Mac começou a trabalhar no que ela chama de “diário de itinerante” com as professoras do Ensino Infantil das escolas Maria Lúcia Jaqueira e Gilmar Pinto. Quinzenalmente, a gestora tira uma hora e meia para esse momento de estudo nos encontros com as docentes nos quais elas contam um pouco de suas vivências em sala de aula relacionando com o tema e buscando realizar isso com teorias.

Para estimular de forma lúdica a igualdade de gênero entre as crianças em ambas as escolas em que trabalha, Mac iniciou outro projeto intitulado “Era Uma Vez”, que realiza a leitura de contos de fadas tradicionais, como Branca de Neve, Chapeuzinho Vermelho e Cinderela, mas com versões que acabam “subvertendo” as obras infantis. “Essas histórias acabam se tornando uma norma. Nesse sentido, apresento textos como a princesa sabichona ou as princesas que soltam pum, que vão de encontro com esses que a gente conhece, favorecendo o debate a respeito”, diz.

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Pesquisa aponta barreiras nos debates escolares sobre gênero

 

Emannuel Nascimento

 

A motivação da professora Mac Cleide com a temática de gênero se estendeu para o seu mestrado na área de educação. Na pesquisa, realizada na Universidade Estadual do Sudoeste da Bahia (UESB), ela buscou problematizar o caráter natural atribuído ao corpo, à sexualidade e ao gênero, posicionando-se de forma crítica aos discursos biológicos naturalizantes e tentando contribuir com o funcionamento da escola do Ensino Infantil, principalmente na prática com professores.

O estudo, de caráter qualitativo, caracterizou-se como uma pesquisa colaborativa, com a participação da pesquisadora juntamente com outra professora e 28 alunos, desenvolvida em uma turma do 5º ano de uma escola pública no município de Jequié, a 365 quilômetros de Salvador, na Bahia. Durante o trabalho, ocorreram 24 encontros que variavam de uma a quatro horas. Os encontros foram destinados ao planejamento das ações, ao desenvolvimento das atividades em aulas de Ciências, aos momentos de estudos e avaliação após as atividades em sala de aula e à entrevista final com a professora participante.

Os resultados, segundo Mac Cleide, indicaram, de modo geral, que “as visões normativas sobre os corpos, gêneros e sexualidades, a ausência dessas discussões na formação docente e os silenciamentos diante de algumas situações foram elementos limitativos no processo colaborativo”. Ela questiona o domínio que a disciplina de Ciências Naturais tem sobre os corpos, os gêneros e as sexualidades. “É um domínio que geralmente entende os corpos em uma perspectiva fixa, dicotômica e essencialista, desconsiderando a construção social, cultural, histórica e política sobre esses corpos, gêneros e sexualidades”, argumenta.

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Resistências às discussões

Na rede municipal de Jequié, a professora de História, Idália Lino dos Santos, do Colégio Estadual Maria José de Lima Silveira, também busca levar a discussão sobre gênero para as suas aulas como forma de fazer o jovem refletir sobre a sua identidade, fortalecendo-o e ajudando-o a se identificar e assumir sua identidade. Sua jornada nos estudos de gênero começou em 2010, quando participou de um curso sobre sexualidade no Instituto Anísio Teixeira (IAT). Durante o curso, Idália precisou fazer uma intervenção em seu local de trabalho, o que culminou em um projeto elaborado para ser executado em etapas em uma turma do segundo ano do Ensino Médio.

Na primeira etapa, os alunos tiveram uma discussão sobre a temática de gênero e sexualidade em sala de aula. Na segunda, eles realizaram uma pesquisa em campo, entrevistando amigos e familiares sobre diversidade sexual. Na terceira fase, houve uma apresentação da pesquisa, expondo as dificuldades expostas nas entrevistas. A quarta e última foi uma conclusão com a fala do professor Marcos Lopes de Souza, especialista na área e orientador de Idália no projeto. Os alunos tiveram de entregar relatórios e, a partir disso, ela percebeu como foi importante a proposta em sala de aula. “Apesar da dificuldade de eles entenderem inicialmente, o trabalho me mostrou como foi importante continuar propondo a discussão em outros momentos. Muitos se colocaram contra por causa da religião, mas, a partir das etapas, eles começaram a perceber a importância da discussão e a responsabilidade da escola nisso”, diz.

Para ela, a religião é um ponto de resistência muito forte contra a discussão de gênero e sexualidade nas suas aulas. A resistência aumentou após a atenção que a sociedade tem dado ao tema, desde a tentativa de incluí-lo no Plano Municipal de Educação, com intuito de difundir o respeito à diversidade sexual e de gênero nas escolas. “O Plano não foi aprovado em muitas câmaras municipais porque os vereadores entenderam, junto com os religiosos fundamentalistas e a igreja católica, que, ao discutirem gênero na escola, os professores estariam ensinando as crianças a serem homossexuais. Eles entenderam errado por falta conhecimento.”, opina Idália.

No ano passado, a professora ampliou seu projeto de discussão de gênero e sexualidade em sala para o “Pacto Nacional pelo Fortalecimento do Ensino Médio”, um programa do governo federal de formulação e implantação de políticas para elevar o padrão de qualidade do Ensino Médio brasileiro. O projeto foi dividido em oito etapas/módulos, sendo o último uma intervenção das pessoas que estivessem participando e direcionado para professores, funcionários, colegiado e direção. A proposta foi apresentada na semana pedagógica de fevereiro do ano passado na escola em que Idália trabalha, mas acabou sendo mal recebida por alguns docentes, especialmente aqueles ligados à religião, que não concordavam com a discussão e diziam que a iniciativa era uma afronta, o que gerou um tumulto muito grande.

Após o evento, Idália tentou várias vezes retomar as reuniões, até mesmo com a presença do especialista Marcos Lopes de Souza, mas poucos professores compareceram. Essa realidade é apenas um exemplo da resistência de muitos docentes e da sociedade como um todo em debater o tema. Na opinião de Idália, a maior dificuldade nas discussões de gênero não é dos alunos, pois estes compreendem a partir do momento em que o tema é proposto, mesmo que discordem. O grande “nó” está nos próprios professores, a partir das falas e dos olhares discriminatórios em relação a alguns alunos que se identificavam como gays, por exemplo.

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Normas de gênero estão associadas a violências

 

Marcelo Robalinho

 

Para a antropóloga Beatriz Accioly Lins, a questão de gênero é controversa atualmente, sobretudo no Brasil, onde se criou a categoria “ideologia de gênero” para atacar projetos educacionais que visem a incluir tais debates na escola. “Temos de deixar bem claro o que entendemos como gênero. Trabalhamos com gênero como os significados sociais e hierarquizações que damos ao que é entendido como feminino e masculino e como os hierarquizamos. A partir dessas normas e hierarquias, criamos expectativas sobre os comportamentos ideais de homens e mulheres, meninos e meninas. Meninos não choram, meninas são ruins em matemática”, explica Beatriz.

Ela é pesquisadora de estudos de gênero, violência, acesso a direitos e suas interseções com outros marcadores da diferença e integra o Núcleo de Estudos sobre Marcadores Sociais da Diferença (Numas), ligado ao Departamento de Antropologia da Universidade de São Paulo (USP). Formado em 2007, o Numas tem o objetivo de partilhar ideias e trocar experiências de pesquisa que tratam da produção social da diferença por meio da articulação de categorias de raça, gênero, sexo, idade e classe, tanto do ponto de vista da configuração de sistemas de classificação social, como da constituição de corpos e identidades coletivas.

Segundo Beatriz, a escola está impregnada de gênero, uma vez que reproduz diversos valores associados a comportamentos de homens e mulheres. Desde pequenas, as crianças são separadas em filas de meninas e meninos, aprendem que meninas usam biquínis e maiôs, sentam de pernas fechadas e devem ser comportadas, ao passo que os meninos usam sunga, gostam mais de esportes e seriam mais inquietos. “Incluir discussões reflexivas sobre a questão de gênero na escola é refletir sobre como certos sensos comuns, preconceitos e pressuposições geram, além de diferenças, desigualdades no acesso aos direitos e ao bem-estar. São normas de gênero que estão associadas a diversas violências contra mulheres, como a violência doméstica e sexual”, defende.

Com frequência, diz a pesquisadora, são reproduzidas ideias de que mulheres devem se precaver contra violências e serem recatadas, além de muitas serem culpadas pelas violências sofridas. “Culpar a vítima é uma forma de violência de gênero. Ao trazer o debate crítico e não apenas reprodutor de preconceitos sobre gênero, a educação estaria buscando um pensamento mais plural, tendo em vista que é função do espaço escolar trazer debates democráticos e que dizem respeito à cidadania”, aponta.

De acordo com Beatriz Accioly, a falta de discussões críticas sobre gênero, e também sexualidade, dos planos de educação representa uma perda de possibilidade de o ensino brasileiro trazer conteúdos e reflexões que possam contribuir para a formação de cidadãos. “Lembremos que gênero já está na escola, como normas e padrões que hierarquizam e, por vezes, excluem jovens e crianças do sistema escolar. Sem dúvida, houve uma mobilização forte de grupos religiosos conservadores contra a inclusão do debate na educação. O entendimento desses grupos é de que gênero atentaria contra formas tradicionais de pensar comportamentos. Esse é um entendimento que não só reduz como desvirtua os debates, que não visam a definir formas corretas de existir em sociedade, mas justamente a apresentar a diversidade presente na vida social, que deve ser, de acordo com a Constituição Federal, respeitada em seu acesso aos direitos e à cidadania”, enfatiza.

Atualmente, o Núcleo de Estudos sobre Marcadores Sociais da Diferença organiza reuniões e conferências acadêmicas, além de atividades de extensão com a sociedade civil. Uma dessas iniciativas é o “Numas vai à escola”, que leva debates para escolas e cursos de especialização oferecidos pela USP e conta com a parceria da Defensoria Pública de São Paulo. “As reflexões nos espaços escolares tendem a ser muito proveitosas tanto para estudantes quanto para os pesquisadores do núcleo, uma vez que trazem questões empíricas enfrentadas por escolas, como utilização de short por meninas e situações de homofobia e assédio a meninas, para serem trabalhadas de forma reflexiva”, conta Beatriz.

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