ISSN 2179-1287
Número 18 | jan/fev/mar/abr 2016

Gênero e Escola

A organização do número temático sobre Gênero e Escola constituiu-se num desafio e numa oportunidade de atender à demanda de socialização do conhecimento por meio da abordagem da diferença no campo educacional. O propósito foi contribuir para ampliar, refinar e complexificar o debate. Questões e temáticas diversas, sob distintas perspectivas teóricas e enfoques metodológicos, vêm sendo priorizadas e assumidas por estudiosas/os, educadoras/es, trabalhadores/as culturais e intelectuais espalhados em diversos centros de pesquisa, universidades, escolas, núcleos e grupos de estudos de várias regiões do país. Procurou-se estabelecer um diálogo com a teorização e a produção da área, a partir de diferentes posições disciplinares e teóricas relevantes.

Este dossiê privilegiou artigos com recortes multidisciplinares na tentativa de contribuir para a problematização e desconstrução de práticas educativas marcadas pelo princípio da regulação normativa de gênero, entendendo-se que a educação também pode ser um campo de desaprendizagens. Nesse sentido, os textos apresentados aqui buscam demonstrar a importância de pesquisarmos mais acerca da temática e a necessidade de transcender (ou superar) as abordagens de gênero pautadas nos papéis, comportamentos, atividades e funções de homens e mulheres, para focar em uma abordagem relacional e performática dos corpos. Também pretendem refletir sobre a necessidade do desenvolvimento de uma formação inicial e continuada em gênero e diversidade sexual para gestores/as, docentes e demais profissionais das escolas.

Onze artigos compõem esta edição. O primeiro, de autoria de Rogério Diniz Junqueira, pesquisador do Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep), trata da escola como espaço historicamente constituído de homofobia e heteronormatividade, este último termo significando um conjunto de valores, discursos e práticas no qual a heterossexualidade se institui e é vivenciada como possibilidade primeira de expressão, desconsiderando as demais. É uma abordagem que complementa a ideia apresentada por Regina Facchini e Camilo Braz no texto Gênero e educação: diferenças, desigualdades e ideologia. O artigo toma como ponto de partida a polêmica recente em torno da retirada do termo gênero nos planos nacional, estaduais e municipais para situar a perspectiva antropológica de gênero e discutir o impacto disso no ensino.

A abordagem trazida pela Regina e o Camilo, ambos membros da Associação Brasileira de Antropologia (ABA),  dialoga diretamente com o texto Gênero, Diversidade e Direitos no Contexto Escolar, da professora da Universidade Federal de Sergipe (UFS), Maria Helena Santana Cruz. Nele, a pesquisadora se propõe a problematizar como os estudos de gênero podem ampliar a cidadania e a equidade no contexto escolar. Para ela, a abordagem sobre gênero na escola favorece a promoção de uma postura crítica em relação aos processos de naturalização da diferença, embora reconheça que “desigualdades sociais e políticas acabam sendo inscritas nos corpos”.

Marcos Lopes de Souza, da Universidade Estadual do Sudoeste da Bahia (UESB), questiona no seu texto se “é possível subverter as normas de gênero e de sexualidade na formação docente”. Trabalhando com a temática formação docente em gênero e diversidade sexual, ele resgata experiências vivenciadas em sala de aula para defender esses espaços formativos, segundo ele, “como locais de escapes, fugas e de novas construções subjetivas”.

Da perspectiva docente para a discente, Marcos Ribeiro de Melo e Patrícia Rosalba Salvador Moura Costa, professores da UFS e do Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia de Sergipe, respectivamente, falam de experiências de crianças na Educação Infantil para enfatizar a necessidade de desaprender os gêneros para reinventar o cotidiano da escola. Reconhecendo o interesse recente das Ciências Sociais pelo universo infantil no âmbito acadêmico, eles abordam situações de pesquisa constatadas numa creche e numa escola públicas no agreste sergipano para exemplificar como o chamado sistema binário de gênero (masculinidades e feminilidades) vai sendo enraizado no ambiente escolar, a começar pela conduta adotada pelos profissionais de ensino.

O texto das professoras Sandra Unbehaum e Thais Gava, participantes do Grupo de Pesquisa Gênero, Raça e Direitos Humanos da Fundação Carlos Chagas, discute sobre possíveis reflexos das desigualdades de gênero no acesso das jovens às áreas das ciências. Tomando a sub-representação de mulheres em carreiras nas áreas das ciências exatas como ponto de questionamento, Sandra e Thais estudam os processos que influenciam as escolhas das jovens mulheres em relação à formação e carreira profissional.

No aspecto das avaliações, os professores Lívia de Rezende Cardoso e Fábio Hoffmann tratam de questões distintas, mas igualmente importantes para se pensar na importância da diversidade de gênero. Lívia aponta as falhas nos itens avaliativos sobre as questões de gênero do Programa Nacional do Livro Didático (PNLD), enquanto Fábio discute sobre as diferenças de desempenho escolar entre os sexos. Na visão dele, é fundamental “promover um ambiente educativo livre de diferenciações que levem a discriminações de meninas e de meninos e a histórias de fracasso escolar”.

O professor da Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF), Anderson Ferrari, por sua vez, avalia a questão da homossexualidade no seu artigo, considerando-a fato ou assunto, seja pela presença de alunos classificados como tal, seja pelas abordagens do tema em sala de aula sob a forma geralmente de desqualificação e agressões. A intenção dessa abordagem, focada na identificação do homossexual e o lugar que ele/ela ocupa hoje na escola, é ressaltar a importância e atualidade da questão para o campo da Educação.

Já Alfrancio Ferreira Dias discute o processo formativo de uma transexual e o enfrentamento da transfobia. A partir da narrativa da personagem Lohanna, o autor busca debater como uma transexual é vista e encarada no espaço escolar, além de verificar como são construídas as imagens a respeito dela. A proposta é entender os corpos trans para além da ideia de  “estranho” e “desviante”, tendo como desafios ainda a “desconstrução das abordagens de gênero pautadas nos papéis, comportamentos, atividades e funções de homens e mulheres” e no “desenvolvimento de uma formação inicial e continuada em gênero e diversidade sexual para gestores, docentes e demais profissionais das escolas”.

Encerrando a seção de artigos, o texto da professora Jeane Félix, da Universidade Federal da Paraíba (UFPB), aborda a questão da saúde no seu artigo trata dos desafios da abordagem das temáticas gênero, sexualidades e educação em saúde nas escolas. Na seção Memória, a professora Maria Eulina Pessoa de Carvalho, também da UFPB, resgata um pouco da história em torno dos estudos de gênero, com enfoque na questão do feminino e na criação e importância da Rede Feminista Norte e Nordeste de Estudos e Pesquisa sobre a Mulher e Relações de Gênero, a Redor.

Neste número, nossa entrevistada é a pesquisadora Berenice Bento, professora da Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN). Referência nacional para os estudos recentes de gênero no campo das Ciências Sociais, Berenice conversa com Alfrancio Dias sobre a escola como um lugar de disputas e desafios. Na Reportagem, Marcelo Robalinho relata a importância das relações de gênero nas políticas educacionais, com a inclusão do olhar das comunidades docente e discente. A seção Vídeo destaca um dos programas Nós da educação, da TV Paulo Freire, uma emissora educativa do Estado do Paraná. A convidada é a professora Guacira Lopes Louro. Doutora em Educação pela Unicamp, ela propõe uma discussão crítica e histórica das questões de gênero e sexualidade na escola.

Agradecemos aos/às autores/as pela colaboração neste número, bem como convidamos os/as leitores/as da Revista Coletiva para uma leitura multidisciplinar sobre os estudos de gênero na escola.

 

Editor temático: Alfrancio Dias Ferreira | Editores: Pedro Silveira, Marcelo Robalinho, Alexandre Zarias e Allan Monteiro | Apoio editorial: Emannuel Nascimento, Lucio Souza, Maria Luiza Alves e Paloma de Castro | Capa: Ícaro Soriano e Paloma de Castro | Revisão: Hugo Gonçalves | Entrevista: Berenice Bento | Reportagem: Marcelo Robalinho e Emannuel Nascimento | Artigos: Rogério Diniz Junqueira, Regina Facchini e Camilo Braz, Maria Helena Santana Cruz, Marcos Lopes de Souza, Marcos Ribeiro de Melo e Patrícia Rosalba Salvador Moura Costa, Sandra Unbehaum e Thais Gava, Lívia de Rezende Cardoso, Fábio Hoffmann, Anderson Ferrari e Alfrancio Dias Ferreira | Memória: Maria Eulina Pessoa de Carvalho

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